Reparação
3 O Falcão
Arthur piscou algumas vezes seguidas, tentando dissolver as últimas teias do sono.
Ao seu redor, a fraca luz do nascer do dia não era suficiente para afastar as sombras que ainda se esgueiravam pelos cantos mais escuros do pátio central. O mundo parecia acinzentado aos seus olhos cansados e, com o silêncio desértico do lugar, ganhava uma tonalidade levemente ameaçadora.
Ou talvez fosse apenas a impressão deixada pelos estranhos sonhos que haviam conturbado suas curtas horas de descanso.
Ergueu os olhos para um céu que ainda parecia agarrar-se à noite, enxergando apenas imagens turvas, irreais. Não conseguia lembrar em detalhes o que perturbara o seu sono.
Um lago negro. Rostos sob a água. Uma espada resplandecente rompendo a escuridão.
Uma ave compondo um sinete tão familiar.
Duas coroas entrelaçadas.
Pele pálida e fria sob os seus dedos.
Durante toda a noite, vozes indistintas embalaram aquelas paisagens oníricas, sussurrando em uma língua que ele desconhecia, mas cujas palavras soavam como presságios.
‘Só você pode ajudá-lo agora, Arthur Pendragon.’
Quando todo o castelo ainda parecia dormir profundamente, uma batida na porta o despertara com um sobressalto, mas Arthur não lamentara a interrupção. Mesmo indefinidas, aquelas imagens continham algo de perturbador que deixara um vestígio quase urticante sob a sua pele.
Fora surpreendido pela expressão cansada de Gaius à sua espera – acompanhado de um Lancelot sonolento – e pela notícia de que Mordred planejava deixar Camelot na próxima hora.
E agora ali estavam, um pequeno cortejo de três nos degraus da escadaria principal. Observando enquanto os dois irmãos, mais pálidos sob aquela aurora mortiça, despediam-se com um abraço silencioso.
O Rei não conseguira divisar bem as feições de Merlin sob as tochas bruxuleantes dos corredores enquanto se dirigiam aos portões, mas desconfiava – pelo caminhar quase cambaleante e movimentos letárgicos – de que o emissário estava ainda mais exausto do que quando o vira no Salão do Trono.
Suas suspeitas se confirmaram com o relato murmurado por Gaius ao alcançarem as escadas. Depois de examinar o emissário ao anoitecer do dia anterior, o médico deixara os irmãos conversando em murmúrios, Mordred sentado ao lado da cama enquanto Merlin repousava. Quando voltara nas primeiras horas do amanhecer com uma nova dose de poção revigorante para o mais velho, encontrara-os na mesma posição, ainda acordados.
De onde estava, alguns degraus acima para conferir alguma privacidade aos dois forasteiros, Arthur não era capaz de ver o rosto de Merlin, apenas sua silhueta contra o horizonte que começava a ganhar tonalidades mais claras. Porém, podia enxergar Mordred com clareza, e seu semblante era de preocupação ao afastar-se do abraço para sussurrar algumas palavras que fizeram estremecer os ombros do irmão.
Mais uma vez, Arthur sentiu um gosto amargo descer-lhe pela garganta.
“Por que ele está sendo abandonado pelo próprio povo?” murmurou distraído, sem tirar os olhos da cena, e apenas se deu conta do quanto o silêncio havia se estendido quando suas palavras fizeram Lancelot se remexer às suas costas, surpreso.
“Não me parece que Mordred queira deixá-lo,” foi o cavaleiro quem respondeu, também em baixo tom. “Eu não pude ouvir muito das interações entre eles, mas… ele age como alguém que não tem escolha.”
“De fato,” Gaius concordou, observando os irmãos com um ar contemplativo.
“Gaius?” Arthur se voltou para o médico, que suspirou.
“Os druidas acreditam que uma das razões para os Sídhe não serem encontrados com tanta facilidade entre os mortais seria o fato de eles não poderem permanecer longe de Avalon por muito tempo.”
Ele hesitou antes de continuar, baixando ainda mais a voz.
“Vossa Majestade deve entender que a relação entre uma criatura e os seus poderes difere bastante de acordo com o povo ao qual ela pertence. A magia dos Sídhe é intrínseca à sua constituição… faz parte da sua essência, por assim dizer. Ao mesmo tempo, ela é inseparável de Avalon, porque as ilhas são a fonte dos poderes dos Aos Sí. Talvez permanecer longe seja simplesmente… doloroso.”
“Então como—?” Lancelot hesitou, mas os três sabiam aonde pretendia chegar.
Era impossível não recordar a beleza minaz da joia que ainda adornava o pescoço do mensageiro de Avalon.
“Mordred mal conseguiu aguentar um dia, Gaius,” Arthur irrompeu bruscamente, lutando para não erguer a voz. “Quantos dias eles levaram para chegar até aqui? E eu permiti que Merlin permanecesse em Camelot por outros nove. Isso só pode significar… Qual é o sentido dessa visita se eu serei responsável por—”
“Arthur,” Gaius interveio antes que ele pudesse se exaltar, seu tom de voz apaziguador, “a vida dele não está nas suas mãos.”
“Gaius, Arthur tem razão. Como o emissário pode sobreviver a esse… ritual? E como os povos mágicos vão reagir ao saber que Camelot deixou o representante deles morrer?”
Arthur sentiu algum consolo ao notar que até mesmo Lancelot, sempre tão impassível diante das adversidades, parecia consternado com as perspectivas desanimadoras que pareciam se desdobrar à frente deles.
Gaius voltou a suspirar e, sob aquela embaciada luz matinal, seu rosto pareceu mais envelhecido do que realmente era.
“É verdade que pouco se sabe sobre os rituais dos Sídhe, mas o Preceito da Reparação é um dos cânones de Avalon. Eu posso garantir que são raros os registros de que ele tenha sido invocado perante um mortal.” O médico encarou Rei e cavaleiro com um olhar firme. “Majestade, esse jovem aceitou uma tarefa delicada. Eu não posso acreditar que Avalon enviaria um mensageiro até aqui apenas para fazer pouco caso da vida dele. Ou que os Sídhe ignoram todas as consequências possíveis dessa decisão.”
O silêncio voltou a recair sobre os três homens, que observavam enquanto Merlin tomava o rosto de Mordred entre as mãos em um gesto familiar e terno.
“Independente do que aconteça… você fez a coisa certa, Arthur.”
Foi a vez de o Grande Rei suspirar, tomado de resignação.
“Eu vou ter que acreditar em você, Gaius, porque acho que está claro que eu não sei o que estou fazendo nessa situação.”
“O melhor conselho que eu posso lhe oferecer é que continue seguindo os seus instintos, Majestade. Porque mesmo sem saber o que estava fazendo, você completou o primeiro ciclo do ritual de forma honrosa.”
“Como assim?” O Rei se voltou para o médico mais uma vez, surpreso com uma declaração tão veemente.
“Você retribuiu o favor, Arthur.” Diante dos olhares confusos de Arthur e Lancelot, Gaius ofereceu um sorriso cansado, porém sincero. “Proporcionar abrigo ao emissário de Avalon seria mais do que suficiente para confirmar o ritual, mas você foi mais além, Majestade. Você retribuiu a oferenda com um favor seu – a capa. A sua proteção. Você tornou o compromisso pessoal e vinculante. Para os povos mágicos, isso tem muito mais poder do que um simples tratado político.”
Vendo o Grande Rei ficar sem palavras, Gaius pousou uma mão envelhecida sobre o seu antebraço.
“Tenha fé, Majestade. Talvez as profecias estejam certas. Talvez Emrys seja muito mais do que um Sídhe. E talvez ele tenha sido escolhido justamente por ser o único capaz de cumprir essa tarefa.”
Antes que Arthur pudesse conceber qualquer resposta, o som de passos rápidos subindo em direção a eles atraiu sua atenção, e voltou-se para encontrar Mordred já parando à sua frente. A breve mesura do emissário o surpreendeu, assim como sua postura e fisionomia serenas. Tão diferente da figura circunspecta e, em certos momentos, zombeteira do dia anterior.
“Chegou a hora de me despedir de Vossa Majestade,” o homem meneou a cabeça, “mas antes eu gostaria de estender um último… agradecimento.”
“Não é necessário, Mordred. Eu ainda não fiz nada digno de agradecimentos,” Arthur replicou com algum desconforto. Preferiu ignorar o muxoxo de discordância vindo de Gaius.
Os lábios estreitos do jovem se curvaram em um sorriso fugaz. Para a surpresa do Rei, em vez de argumentar, o emissário apenas ergueu um braço no ar e, olhando para o céu obscurecido por nuvens, emitiu um único assovio breve e agudo.
Alguns instantes de silêncio se seguiram, preenchidos apenas pelas expressões confusas de Arthur, Gaius e Lancelot, até que um distante farfalhar de asas rompeu a calma do amanhecer e atraiu seus olhares para cima. De imediato, o Rei reconheceu a figura que se aproximava com sua plumagem tão distintiva – o corpo alvo contrastando com as grandiosas asas negras, que poderiam confundir-se com um céu noturno com facilidade.
Depois de obedientemente pousar no braço estendido, a coruja logo em seguida se empoleirou no ombro de Mordred com uma rapidez que denotava familiaridade. Pela segunda vez Arthur se viu sob o julgamento daqueles grandes olhos amarelos, mas não se incomodou. A ave era ainda mais majestosa de perto e parecia maior do que o habitual para uma coruja, assomando sobre todos eles. Teve de conter o ímpeto infantil de estender os dedos para tocar as penas lustrosas.
“Esse é Arquimedes.” Arthur voltou sua atenção para Mordred, mas o homem também observava a ave com um sorriso brando.
“É um belo animal”, foi Lancelot quem comentou, com sinceridade.
O emissário se voltou para eles e assentiu.
“Também é uma criatura bastante inteligente e ágil. Eu mesmo o treinei.” Os lábios de Mordred se curvaram ainda mais, e Arthur não pôde deixar de notar o orgulho subjacente às palavras. “Tenho certeza de que será bastante útil para Camelot. Especialmente se Vossa Majestade precisar de Avalon.”
Arthur piscou, duvidando se entendia bem o que estava a ser-lhe oferecido. A resposta veio de trás do emissário, na forma de passos. Todos eles se viraram para Merlin, subindo devagar os degraus que o separavam do grupo. Suas mãos pálidas seguravam junto ao corpo o manto que o cobria, como se daquela forma o tecido puído pudesse protegê-lo melhor do frio matinal.
“O que Mordred quer dizer é que, mesmo quando nós não estivermos mais aqui, Vossa Majestade não terá dificuldades para pedir a ajuda de Avalon, caso venha a precisar dela.” Merlin parou ao lado de irmão, erguendo um olhar afetuoso para a coruja, que retribuiu bicando com delicadeza os cabelos negros do recém-chegado. “Não há reino que Arquimedes não possa alcançar. Tenho certeza de que ele não o decepcionará.”
Arthur pigarreou, lutando contra o nó que se formava em sua garganta. Reconhecia a proporção da oferta oculta naquelas palavras. Saber que teria um dos povos mágicos mais poderosos dentre todos os reinos como seu aliado era uma bênção inesperada após tanto sofrimento e destruição.
“Eu… obrigado, Mordred. Digo com toda a franqueza que isso significa muito para Camelot. Mas eu não sei se quero ser responsável por tirar a liberdade de um animal tão imponente.”
Para sua completa surpresa, Mordred riu. Ao seu lado, Merlin revirou os olhos e ergueu uma mão para puxar um dos cachos de cabelo do irmão, mas o gesto era carinhoso. Familiar.
“Não se preocupe, Majestade. Assim como esse aqui,” Merlin pousou os dedos sobre o antebraço do irmão, “Arquimedes faz o que quer e vai aonde deseja quando bem entende. Se ele não quisesse permanecer em Camelot, simplesmente não se permitiria ser visto.”
Arthur lançou um olhar duvidoso para a ave, que voltara a encará-lo com a cabeça inclinada para o lado. Ótimo. Ao que parecia, havia ganhado um inquilino temperamental.
“Pois bem. Eu agradeço a boa vontade de Avalon e recebo sua oferenda como símbolo do novo elo entre os nossos reinos.” Hesitou antes de oferecer um pequeno sorriso. “Espero que Camelot se mostre à altura das necessidades de Arquimedes.”
“Tenho certeza que sim”, Mordred retribuiu, com humor.
Como se ciente de que a conversa chegava ao fim – e Arthur não duvidava de que ela fosse capaz disso –, a coruja emitiu um piado baixo e abriu suas amplas asas, alçando voo e desaparecendo com agilidade em meio às sombras do pátio central. Quando o farfalhar das suas asas já soava distante, o clima solene voltou a instalar-se entre os cinco homens.
Os olhares de Mordred e Arthur se cruzaram mais uma vez, e o homem ofereceu outra breve mesura de despedida.
“Espero que você tenha uma jornada segura, Mordred.”
“Obrigado, Majestade.” Ele meneou a cabeça na direção de Gaius e Lancelot antes de voltar a atenção ao Rei, o canto dos lábios levemente curvado. “Cuidem bem do meu irmão.”
Arthur ouviu Merlin arquejar de surpresa, mas não rompeu o contato visual com o emissário mais jovem.
“Nós daremos o nosso melhor”, retribuiu, oferecendo toda a sinceridade que lhe era possível.
Com uma leve inclinação da cabeça, Mordred por fim se virou para o irmão. Este o observava com um sorriso frágil, como se pudesse oscilar ao menor vento. Merlin ergueu as mãos para emoldurar o rosto do mais novo e então se aproximou, pousando um beijo de despedida em sua testa. O Rei notou pela primeira vez que um delicado anel adornava o dedo médio direito de Merlin.
“Mimus.” O nome foi apenas um sussurro, mas o tom de reverência fez Mordred e todos os presentes estremecerem. “Que Avalon guie os seus passos.”
“Smyrill.” Mordred cobriu as mãos dele com as suas. “Que a Deusa Tríplice guarde os seus dias.”
Os irmãos trocaram um último sorriso, e Arthur desejou estar afastado para não invadir um momento tão íntimo. Porém, o instante de cumplicidade logo se esvaneceu e, num aparente piscar de olhos, o emissário já descia as escadas. Quando chegou ao último degrau, lançou um último olhar por sobre o ombro, e Arthur se surpreendeu quando os olhos azuis recaíram sobre ele e não Merlin.
“Só você pode ajudá-lo agora, Arthur Pendragon.”
A voz de Mordred invadiu seus pensamentos e o atingiu como um golpe, e Arthur lutou para conter qualquer reação física, evitando assustar os companheiros. Mesmo assim, sua respiração falhou quando aquelas palavras ecoaram os murmúrios confusos que haviam conturbado o seu sono.
O emissário claramente não esperava resposta, pois, quando o Rei conseguiu voltar a si – ainda com o coração acelerado –, ele já começava a sumir em meio à neblina. Depois de tornar-se impossível divisar a silhueta de Mordred, Arthur ainda se deu alguns instantes para inspirar fundo e reaver o equilíbrio interno antes de aproximar-se de Merlin.
Os olhos de safira – que, sob aquele alvorecer de um dia enevoado, pareciam tão negros quanto os seus cabelos – ainda estavam presos ao ponto onde vira o irmão pela última vez, como se pudesse trazê-lo de volta. As linhas marcadas sob os olhos e em torno da boca expressavam pesar e exaustão, e Arthur cerrou os punhos para não estender os braços e tentar oferecer algum conforto físico inapropriado.
“Eu sinto muito.”
Seu murmúrio foi uma surpresa tanto para si quanto para Merlin, que se virou na sua direção como se despertasse de um transe.
“Pelo que, Majestade?” perguntou no mesmo tom baixo, a voz rouca.
“Que ele não tenha podido ficar.”
Os lábios do emissário se curvaram em um sorriso que não alcançou os olhos.
“Todos nós temos nossos papéis a cumprir.”
Antes que Arthur pudesse interpretar aquelas palavras ou encontrar uma resposta adequada, ouviu Gaius e Lancelot se remexerem às suas costas.
“Arthur?”
Com um suspiro, o Rei se virou onde estava e assentiu para os dois, que imediatamente começaram a subir os degraus em direção aos portões. Arthur então olhou para o emissário, que continuava imóvel em uma postura frouxa, como se pudesse despencar escada abaixo com a próxima brisa.
“Bem, sua única tarefa agora é descansar.” Estendeu seu braço dobrado para ele. “Permite-me acompanhá-lo até o seu quarto?”
Merlin piscou algumas vezes, talvez despreparado para ser tratado com cortesia por um rei, mas então ofereceu outro pequeno sorriso – desta vez mais sincero, Arthur ficou feliz em notar – e também se virou na direção dos portões. Com alguma hesitação, apoiou sua mão na curva do braço estendido, aceitando o apoio.
“Como quiser, Majestade.”
***
Os portões se fecharam atrás de Agravaine com um estrondo que fez sacudir os vitrais. As têmporas do Rei de Camelot latejaram em resposta, mas ele não se permitiu qualquer sinal de fraqueza até ter certeza de que estava sozinho.
Quando o último indivíduo enfim abandonou o salão sob o olhar amuado do regente – só então Arthur se deixou relaxar, sua coluna encurvando-se até que pudesse apoiar os cotovelos sobre a mesa. Dedos calejados começaram a massagear as têmporas numa tentativa fútil de afastar uma persistente dor de cabeça, que progredia a galope desde que deixara seus aposentos antes do raiar do dia.
Depois de despedir-se de Merlin à porta do quarto vizinho ao seu, não dormira mais. Sabia que o dia seria longo e preferira dar início aos trabalhos o quanto antes.
Ele não estivera errado em suas previsões, e mesmo assim havia chegado ao limite da sua paciência e disposição duas ou três horas antes do habitual. Desde então, lidar com os temperamentos sensíveis e as discussões circulares dos demais regentes de Albion se tornara uma tarefa hercúlea.
Contemplara a possibilidade de se levantar e deixá-los falando sozinhos, mas sabia que aquilo seria cruel com Leon. Nobre Sir Leon, que havia oferecido o seu apoio silencioso – e inúmeros olhares de comiseração – ao longo de todo aquele interminável martírio.
Os Cavaleiros de Camelot certamente não mereciam ser recompensados com crises nervosas de reis e rainhas obstinados.
Arthur suspirou, esfregando as mãos sobre o rosto.
Já suspeitava que a ausência de Merlin naquela primeira reunião não seria bem recebida, ainda que fosse óbvio para todos que o visitante tivera uma jornada exaustiva até Camelot e necessitava de descanso. E, no entanto, ele subestimara o quanto a chegada do emissário havia atiçado a curiosidade de todos. As reações haviam oscilado entre a aceitação relutante de Annis, Rodor e Bayard, a já esperada indignação irritadiça de Agravaine e Sarrum e um surpreendente silêncio taciturno por parte de Odin.
Porém, fora o esgar presumido e calculista de Cenred que despertara a desconfiança do Grande Rei. Uma breve troca de olhares com Leon confirmara que ele não fora o único a notar, e sabia que seus cavaleiros ficariam atentos aos próximos passos do regente de Essetir.
O dia já avançava – assim como a luz que invadia o salão pelas janelas, fazendo as sombras mudarem de posição – quando enfim conseguira apelar ao bom senso dos regentes para pôr fim àquela reunião infrutífera. Porém, com uma concessão: que um pequeno banquete seria oferecido naquela noite para celebrar a chegada do emissário de Avalon. Desde que o homenageado pudesse comparecer, é claro.
E, quando os demais reis e rainha enfim deixaram a mesa, Arthur se vira submetido a mais uma longa sessão, desta vez para escutar uma infindável lista de acusações vazias e sem propósito por parte de Agravaine. Por alguma razão, seu tio insistia em tratá-lo como se ainda fosse um despreparado Príncipe Herdeiro, e não o homem de 36 anos que vestia a coroa de Grande Rei de Albion há dois invernos, ou mesmo o jovem que, anos antes daquele evento, já reinava informalmente sobre Camelot devido à progressiva deterioração na saúde de seu pai.
Era óbvio que Agravaine não estava satisfeito com a permanência de Merlin em Camelot, mas ele não conseguia oferecer argumentos sólidos contra a decisão de Arthur sem enveredar por discursos de cunho preconceituoso que o sobrinho abominava. E assim a discussão se estendia em círculos, sem que Agravaine chegasse a qualquer conclusão ou desse motivos fortes o suficiente para Arthur encerrar a conversa de forma taxativa.
Talvez a situação tivesse se estendido por mais algumas horas – se Agravaine não tivesse levantado a questão sobre a segurança das tropas ao Norte. Um tema estranhamente recorrente nas últimas conversas com o tio e que até ali Arthur havia decidido ignorar.
“Aonde você quer chegar?” Arthur enfim o interrompeu, seu tom beirando a impaciência.
“Quantas vezes eu preciso explicar? As fronteiras do Norte estão abandonadas ao acaso, Arthur. Não estamos falando só de Morgana, mas de mercenários e saxões. Enquanto as patrulhas continuarem a se concentrar próximo aos muros de Camelot, o restante do reino está fragilizado.”
“Se Camelot cair, não há mais reino para proteger, Agravaine. Todos os Conselheiros estão de acordo nesse ponto. A ideia de outro ataque como o que levou à morte do meu pai é simplesmente inaceitável.”
“E enquanto isso os homens posicionados nas fronteiras são condenados à morte?”
O tom insolente da acusação fez o Rei trincar os dentes.
“Meus cavaleiros fizeram um juramento para proteger esse reino, Agravaine, e eles confiam em mim. Ao contrário do que você parece implicar, eu não tomo decisões de maneira leviana ou sem o apoio do Conselho.”
Arthur ergueu uma mão para interromper o tio, que se preparava para retrucar.
“Meus homens não foram abandonados— nem por mim, nem por Annis, que continua a oferecer apoio na fronteira norte, assim como foi previamente acordado com Caerleon. E agora que Morgana está morta, os ataques tendem a regredir.” Arthur cerrou os olhos. “Por que você está tocando nesse assunto agora?”
“Enquanto você brinca de anfitrião aqui e acredita que Morgana foi eliminada, quem garante que outros não pretendem se aproveitar da sua ingenuidade e atacar com esforço renovado? E mesmo,” Agravaine ergueu a voz, cortando o sobrinho, “e mesmo que seja verdade – se a Sacerdotisa realmente estiver morta –, então por que continuar a manter seus homens tão próximos de Camelot? Não seria essa a hora de enviar ajuda aos que mais precisam?”
O Rei torceu os lábios, tentando disfarçar sua fúria diante da ousadia daquelas palavras. Não era a hora para perder a compostura.
“O que você espera de mim, tio? Seja direto”, instou-lhe por fim, cansado de subterfúgios.
“Envie uma parte das tropas ao Norte, Arthur, e permita que eu as lidere. Eu posso ser mais útil para você fora desses muros.”
E ali estava. Depois de semanas de rodeios, sendo objeto de olhares calculistas e de críticas mal disfarçadas, Arthur enfim começava a vislumbrar algumas das cartas que o tio vinha escondendo junto ao peito.
O Rei observou o homem à sua frente, mal o reconhecendo. Manteve o silêncio por longos instantes, como se ponderasse sua decisão, e obteve o resultado desejado quando Agravaine começou a revelar sua impaciência. Pela segunda vez naquele dia, Arthur aceitou fazer uma concessão calculada a fim de encerrar um assunto desagradável.
“Está bem. Nós vamos enviar mais patrulhas ao Norte. Mas,” o Rei ergueu o tom com autoridade, antecipando-se a qualquer interrupção, “você fica, Agravaine. Você é parte da corte e meu único parente. Sua saída durante um momento como esse provavelmente não seria bem vista pelos outros regentes.”
E assim se sucedera uma série de queixas que enfim terminara com uma anuência relutante, quase entre dentes, por parte de Agravaine. O homem havia deixado o salão sob o estrondo passivo-agressivo dos portões, e por isso jamais se deu conta da figura sorrateira que logo em seguida se desprendeu das sombras entre os pilares.
Piscando um olho para Arthur, Gwaine também se retirou, sem perder Agravaine de vista.
Arthur não saberia dizer há quanto tempo estava ali sozinho, encurvado sobre a mesa enquanto esperava o latejar das suas têmporas diminuir, quando escutou os portões novamente. Dessa vez, alguém entrava devagar, quase como se não quisesse ser notado, e o Rei teve de conter um suspiro cansado.
Manteve-se imóvel, esperando que sua postura talvez fosse suficiente para desencorajar os menos determinados.
“Tão ruim assim?”
O tom de voz gentil o fez erguer a cabeça de imediato. Ao deparar-se com o sorriso pequeno e quase travesso de Mithian, Arthur sentiu os ombros relaxarem pela primeira vez em horas.
“Pior”, enfim respondeu, sorrindo.
A Princesa de Nemeth riu e, quando o Rei gesticulou em direção a uma das cadeiras ao seu lado, ela se aproximou, mas para a surpresa dele continuou de pé.
“Eu sinto muito por não estar aqui para oferecer o meu apoio, Majestade.”
“Não sinta. Parece que você encontrou alternativas mais interessantes para ocupar o seu tempo, e não posso culpá-la. Se eu pudesse, faria o mesmo”, Arthur brincou, sem qualquer repreensão.
Mithian olhou para as próprias roupas por um instante, como se tivesse esquecido que não usava um dos seus habituais vestidos ornamentados. Ela trajava as mesmas vestes com as quais costumava sair para cavalgar a convite do Rei, inclusive as botas de cano alto. Sobre um dos seus antebraços estava dobrado um longo tecido vermelho, talvez uma capa para protegê-la do frio matinal.
“Eu adoraria poder tê-la acompanhado”, completou, com um tom desejoso. Daria tudo pela liberdade da Floresta Negra naquele momento.
Para sua surpresa, ela pareceu constrangida.
“De fato, eu despertei um pouco mais cedo pensando em cavalgar antes de encontrar meu pai para a reunião, mas… algo me distraiu e eu perdi a noção do tempo.”
O Rei ergueu uma sobrancelha, divertido.
“Deve ter sido algo realmente interessante, se a manteve distraída até agora.”
A risada límpida de Mithian ressoou pelo salão, fazendo-o relaxar ainda mais. Foi surpreendido outra vez quando ela estendeu uma mão na sua direção.
“Acho que Vossa Majestade deveria me acompanhar.”
“Eu deveria?” perguntou, mesmo que já se levantasse para acompanhá-la.
Mais uma vez, o sorriso de Mithian ganhou um ar arteiro. Ela aceitou o braço que Arthur estendia na sua direção, virando-se sem hesitar para deixar o salão.
“Acho que Vossa Majestade também vai apreciar essa distração.”
***
Primeiro, Arthur notou as risadas.
Para sua surpresa, Mithian os havia direcionado para os portões principais, onde algumas horas antes estivera para despedir-se de Mordred. Logo haviam deixado o castelo, descido as escadarias e atravessado o pátio central rumo às vias do mercado público, seguidos a distância por dois sentinelas.
Já caminhavam há algum tempo por entre ruas que, poucas horas antes, deviam estar apinhadas de gente. Arthur observou distraidamente enquanto comerciantes e artesãos dos mais diferentes tipos aos poucos desmontavam barracas e tendas, guardando produtos diversos que seriam vendidos no dia seguinte.
O Grande Rei era visto pela cidadela com frequência suficiente para não causar sobressaltos ao transitar entre os homens e mulheres que encerravam seu dia de atividades naquele final de tarde. Mesmo assim, sua presença – ressaltada pela companhia de uma senhora da corte – atraiu alguns olhares interessados e cumprimentos cordiais enquanto passavam.
Ergueu uma sobrancelha para Mithian quando deixaram o mercado e rumaram em direção às casas da gente comum, às margens da cidadela. Contudo, ela apenas ofereceu o mesmo sorriso travesso e seguiu em frente, determinada.
Arthur estava prestes a interrogá-la verbalmente quando os gritos e gargalhadas infantis o interromperam.
Passavam por um beco estreito entre duas casas de madeira desgastadas pelo tempo, a terra enlameada pelas últimas chuvas agarrando-se às suas botas. Quando enfim chegaram à parte de trás, depararam-se com o que parecia ser um pequeno cercado para animais e uma quantidade surpreendente de pessoas – homens, mulheres, crianças, idosos – ao seu redor.
De início, o Rei enxergou apenas figuras indistintas, já que todos davam as costas a ele e Mithian. Porém não demorou a identificar uma das silhuetas mais próximas ao cercado, mesmo porque os cabelos intensamente ruivos estavam uma cabeça acima de todas as demais. Era raro que Sir Kay passasse despercebido em qualquer situação – uma das razões pelas quais os demais cavaleiros gostavam de provocá-lo. Não que aquilo abalasse o temperamento sempre tranquilo do homem, que recebia todas as brincadeiras com bom humor e as retrucava na mesma moeda.
A aparência quase juvenil e o gênio amigável de Kay escondiam uma mente aguçada e uma agilidade letal com a espada e outras lâminas, facilmente subestimadas graças ao seu ar ingênuo e dócil, o que fazia dele um dos elementos-chave na Guarda Real – e um dos homens de confiança de Arthur.
Sua presença ali colocou o Grande Rei em alerta de imediato. Contudo, antes que pudesse olhar ao redor à procura de ameaças potenciais, a mão de Mithian pousou sobre o seu antebraço.
“Está tudo bem. Venha, Majestade.”
E então ela continuou em frente, pedindo licença com delicadeza e rapidamente abrindo caminho em meio à pequena multidão, que cedia espaço para sua passagem com expressões de reconhecimento. Expressões estas que se transformaram em queixos caídos ao verem o Grande Rei segui-la. Sua presença ali, por outro lado, parecia surpreender os seus súditos.
Mithian chegou até Kay primeiro. O cavaleiro, ao vê-la, curvou-se em uma mesura breve porém respeitosa, trocando sorrisos com a Princesa de Nemeth. Ao erguer-se e perceber a presença de Arthur, contudo, seus olhos cor de mel se arregalaram e a pele pálida enrubesceu de forma discreta, destacando a coleção de sardas que cobria seu rosto arredondado. Ele fez uma reverência ainda mais profunda ao Grande Rei, que o observava com humor.
“Majestade! Me perdoe, eu não esperava vê-lo aqui.”
“Eu posso dizer o mesmo.” Vendo que o cavaleiro hesitava, Arthur riu. “Respire, Kay. Eu estou aqui a pedido de Lady Mithian. Apesar de ainda não saber muito bem por quê.”
“Eu acho que posso ajudá-lo com isso, Majestade.”
E então o cavaleiro apontou para além do cercado com um sorriso inseguro. Olhos azuis argutos acompanharam o movimento. E então suas sobrancelhas se ergueram.
Primeiro viu crianças enlameadas correndo no que pareciam ser movimentos aleatórios – até perceber que seguiam algumas galinhas aterrorizadas. O barulho dos pequenos pés afundando na lama encharcada, das risadas, dos cacarejos desesperados das aves – tudo aquilo por si só já criava uma algazarra ruidosa digna de atenção.
Porém os olhos do Grande Rei estavam presos às duas figuras ajoelhadas no centro daquela balbúrdia. Uma mais alta e esguia, de cabelos negros. Outra menor, de pele bronzeada e mechas castanho-avermelhadas revoltas que Arthur conseguiria reconhecer a qualquer distância. Ao que parecia, alimentavam um par de porcos selvagens com as mãos nuas como se fossem dois cães dóceis.
Arthur franziu o cenho, certo de que seus olhos o enganavam.
“O Emissário Merlin parece ter conquistado as crianças da região – e os animais também,” a voz bem-humorada de Kay o fez se voltar para o cavaleiro. Suas sobrancelhas continuavam erguidas em descrença. Podia sentir Mithian rindo ao seu lado.
“Se me permite, Majestade…” A nova voz fez os três nobres se voltarem para um homem idoso e encarquilhado parado ao lado deles. Ele observava a cena com um curioso misto de assombro e diversão, “… isso sim é magia. Masie e Matilda nunca se comportaram tão bem.”
Arthur demorou alguns instantes até se dar conta de que o velho se referia aos porcos. Ao seu lado, os ombros de Mithian estremeciam, claramente tentando conter gargalhadas.
Com um suspiro, o Rei se voltou para seu cavaleiro, decidindo lidar com os assuntos práticos primeiros.
“Suponho que Lancelot o deixou a cargo da situação?”
Kay assentiu com uma expressão indefinida, mas o resfolegar bem-humorado de Mithian às suas costas o fez se voltar para ela com um olhar inquiridor.
“O que ele não quer admitir é que Lancelot foi convencido— muito habilmente, eu diria – a deixar que Kay assumisse o seu posto por algumas horas.”
“Convencido por quem?” Arthur conhecia Lancelot. Já vira a homem passar três dias em claro para cumprir aquilo que ele considerava ser seu dever. A única pessoa com alguma habilidade para dissuadi-lo em momentos mais críticos era Guinevere.
O sorriso de Mithian se alargou. “Merlin.”
Arthur piscou algumas vezes, o que a fez rir abertamente.
“Quando deixei meu quarto hoje cedo, encontrei Merlin e Lancelot nos corredores. Merlin queria explorar a cidadela, mas parecia bastante determinado a fazer com que o seu cavaleiro dormisse por algumas horas. Lancelot, é claro, se recusou. Não me pergunte como, mas o seu emissário ganhou essa discussão de forma honrosa. E aqui estamos, com Sir Kay.” Um sorriso constrangido se formou em seu rosto. “Eu me ofereci para acompanhá-lo por algumas horas, mas, bem… como eu disse, eu perdi a noção do tempo.”
Arthur pousou uma mão sobre o ombro dela e direcionou um sorriso a ambos.
“Está tudo bem. Eu fico feliz que ele tenha tido a companhia de vocês dois. Lancelot é uma mula teimosa na melhor das circunstâncias, e ele esteve acordado a noite inteira.” Seus olhos azuis se voltaram para as duas figuras ainda entretidas com os porcos no centro do cercado. “Mas isso não explica a presença do pequeno demônio.”
Foi a vez de Kay rir.
“Merlin pediu para ver os estábulos. Ao que parece, ele se dá bem com animais – os cavalariços ficaram impressionados com a facilidade com que ele conseguiu se aproximar de Hengroen e alimentá-lo. Gally viu tudo. Desde então, ele colou no emissário como um carrapato. Acho que nós já cumprimentamos todos os animais que existem entre as muralhas da cidadela desde então. E no caminho Merlin atraiu alguns… curiosos.” Com um gesto discreto, ele indicou a quantidade de pessoas ao redor.
Arthur se voltou para o cercado com um ar contemplativo. Era impressionante, tinha de reconhecer. Seu cavalo era conhecido pelo temperamento difícil. Já ouvira muitas piadas sobre a semelhança entre dono e animal, inclusive. Era fato, porém, que apenas o Rei conseguia lidar com Hengroen sem sofrer algum tipo de lesão.
Nos últimos meses, Gally estivera determinado a conquistar o rubicão arisco, mas apenas recebera dentadas como recompensa. Era fácil imaginar a reação do menino ao ver Merlin ganhá-lo com tanta facilidade.
Suspirando, o Rei pousou as mãos sobre a madeira apodrecida do cercado.
“GALAHAD!”
Seu chamado assustou boa parte dos presentes, e viu a cabeça do menino erguer-se com um sobressalto que provavelmente fez o pescoço magro estalar. Olhos castanho-escuros familiares se arregalaram de forma quase cômica ao se dar conta de que o chamado viera do Rei de Camelot. Ao seu lado, Merlin esperou que o animal terminasse de comer os últimos grãos em sua mão antes de erguer o olhar com uma expressão de plácida curiosidade.
Com um salto, seu afilhado ficou de pé e deu um passo em sua direção, mas então hesitou e olhou para trás, como se de repente se lembrasse das boas maneiras. Ao ver que o emissário esfregava as mãos uma na outra para se livrar da poeira remanescente e se preparava para levantar também, Gally estendeu uma mão na sua direção, que ele aceitou com um pequeno sorriso.
E assim homem e criança se aproximaram, de mãos dadas. Merlin, Arthur notou, vestia outra túnica longa e rudimentar, suja de grama e terra da altura dos joelhos até os pés, que estavam descalços. Em silêncio, perguntou-se como ele conseguia suportar o frio com trajes tão modestos.
Ambos pararam à sua frente com um ar de leve constrangimento, o que o divertiu.
“Majestade,” Merlin o cumprimentou com um sorriso discreto, fingindo não perceber que Gally tentava discretamente se esconder por trás das suas pernas.
“Emissário Merlin,” Arthur assentiu com a cabeça e retribuiu o sorriso, “vejo que você não está tendo dificuldades para se acomodar em Camelot.”
“De fato. Seus cavaleiros e todos que encontrei até o momento foram muito gentis.” Olhou ao redor para as figuras silenciosas que o observavam e depois para o menino aos seus pés antes de voltar a encarar o Rei. “Eu… peço desculpas se causei algum tipo de transtorno. Não foi minha intenção. Talvez eu devesse ter falado com Vossa Majestade antes de deixar o caste—”
“De forma alguma,” Arthur o interrompeu, taxativo. “Você é meu convidado, não um prisioneiro. Fico feliz que tenha se sentido à vontade para conhecer um pouco de Camelot – e que tenha permitido que Kay o acompanhasse.”
O Rei apenas se deu conta da tensão que o emissário carregava quando seus ombros relaxaram, ainda que o movimento fosse quase imperceptível.
Após Merlin assentir com outro sorriso, Arthur baixou o olhar para o participante silencioso daquela conversa, erguendo uma sobrancelha quando a criança deu outro passo para trás do emissário.
“E você, jovenzinho? O que tem a dizer? Tenho certeza de que Guinevere está se perguntando por que você não está se dedicando aos seus estudos nesse exato momento. Esse foi o trato: sem estudos, sem treinamento.”
Os olhos amendoados de Gally se arregalaram em horror genuíno, e sua pele bronzeada enrubesceu quando algumas risadas baixinhas se propagaram entre os ouvintes mais próximos.
“Não! Tio— digo, Majestade, eu não estou fugindo! Eu— eu só— a mamãe não sabe— eu prometi que—"
Ver o garoto envergonhado se retorcendo sob o seu olhar recriminador era um dos esportes favoritos de Arthur, e era incrível que Galahad – mais perspicaz aos nove anos do que muitos dos guardas do palácio com o triplo da sua idade – ainda não o tivesse descoberto.
“Eu peço desculpas, Majestade. Acredito que a culpa seja minha.”
Padrinho e afilhado piscaram, surpresos, e de imediato se voltaram para o emissário, que observava o par com uma expressão solene. Contudo, Arthur conseguiu identificar com facilidade um brilho de travessura nos olhos de safira.
“É mesmo?” entrou na brincadeira, obrigando-se a conter o sorriso. O menino olhava para o seu salvador com assombro, a boca entreaberta.
“Eu precisava de alguém que me guiasse por Camelot e, como Sir Kay tinha uma função a cumprir e Lady Mithian pretendia retornar ao castelo, eu não quis incomodá-los. Então o gentil Galahad galantemente se ofereceu para me acompanhar e… bem, aqui estamos. Mas não ficamos atentos ao passar das horas.”
O menino parecia vibrar onde estava, sem saber como agir, mas claramente fascinado por aquele estranho homem disposto a mentir por ele e perante um rei. Arthur teve de se esforçar para não rir.
“Vejam só que honra, elogiado pelo emissário de Avalon. Muito bem, Gally! Acho que sua mãe não terá outra escolha senão perdoá-lo.” O comentário bem-humorado de Mithian fez todos eles rirem, e alguns homens jovens que estavam nas proximidades soltaram alguns assovios de congratulação.
O menino ficou vermelho como um tomate, apertando a mão de Merlin, que retribuiu o gesto para apaziguá-lo.
“Ora, ora, muito bem, Galahad. Parece que você deu orgulho a Camelot hoje.” Arthur voltou a erguer uma sobrancelha. “Mas mesmo os salvadores do dia têm de ajudar as mães com o jantar quando os pais precisam descansar. Eu diria que está na hora de ir para casa, ou nem Merlin vai conseguir salvá-lo da fúria de Guinevere.”
Com um sobressalto e um pequeno guincho de medo, a criança se soltou e deu dois passos em direção ao cercado, mas então voltou e com a mesma agilidade lançou os braços magros ao redor da cintura de Merlin, num agradecimento silencioso e desajeitado. O emissário tocou seus cabelos e ombro gentilmente, e então Galahad estava escalando a madeira apodrecida e desaparecendo em meio à pequena multidão. Alguns risos podiam ser ouvidos à medida que ele se afastava.
Quando o afilhado se retirou, Arthur por fim voltou sua atenção para o emissário. Ele havia cruzado as mãos à frente do corpo numa posição tranquila, e o espectro do dia anterior – a figura altiva e silenciosa ajoelhada aos seus pés, observando-o com uma calma dignidade – desconcertou-o por alguns instantes.
“Muito obrigado.” Quando suas palavras parecerem causar alguma confusão, o Rei se explicou: “Pela paciência com Galahad. Ele é um bom garoto, mas às vezes pode ser um pouco… excessivo.”
Um pequeno sorriso curvou os lábios de Merlin.
“Não precisa me agradecer, Majestade. Ele é um menino gentil e inteligente. Eu gosto da honestidade das crianças.” Ele deu de ombros, e o gesto casual pegou Arthur de surpresa. “Confesso que ele me lembra Mordred nessa idade.”
“Imagino que seu irmão era um pequeno terror para os seus pais, então.”
Merlin riu, mas havia algo de agridoce no sentimento por trás do gesto. “Pode-se dizer que sim.”
Então o silêncio se instalou, e subitamente Arthur se sentiu como um príncipe jovem e desajeitado, não um rei. Podia sentir os olhares sobre as suas costas, incitando-o a fazer algo. Ele não sabia bem o quê. Tinha a sensação de que, naquele cenário, ele era o elemento estranho.
“Bem, talvez eu deva retornar ao c—”
“Merlin mencionou a possibilidade de ir à floresta e ver o rio que cruza a cidade baixa. Você gostaria de nos acompanhar, Majestade?”
Arthur olhou para Mithian com o cenho franzido, e então para o céu, onde o sol já traçara seu arco quase completo e se aproximava do horizonte. Em pouco tempo, não haveria mais luz natural.
“Eu vim preparada”, foi a resposta dela à sua expressão inquisitiva, enquanto erguia o braço para indicar o tecido vermelho cuidadosamente dobrado que trouxera consigo. Apenas quando o emissário emitiu um breve murmúrio de surpresa às suas costas Arthur reconheceu sua própria capa, a mesma que havia cedido no dia anterior. “Espero que não se importe, Merlin. Pedi a George que fosse buscar algo em seu quarto para mantê-lo aquecido.”
Arthur se voltou para o mensageiro de Avalon e encontrou uma expressão receosa, mas que não escondia certa expectativa. Conteve um suspiro.
“Pois bem. Para a floresta, então.”
Enquanto Mithian sorria com aprovação, Merlin se aproximou e, num piscar de olhos, pulou o cercado e aterrissou ao seu lado. Então se abaixou para pegar algo, e Arthur viu sapatos de um couro tão surrado que o fez supor serem o único par de que o homem dispunha.
Com sua indicação para tomar a dianteira, Kay logo se adiantou e foi seguido de perto por Merlin, enquanto Mithian parava ao seu lado para acompanhá-lo.
Pela segunda vez, Arthur teve a oportunidade de ver o caminho se abrir para que o emissário de Avalon pudesse seguir adiante. Agora, contudo, era o povo de Camelot quem lhe cedia passagem – com expressões que variavam entre o assombro e o respeito, fazendo o Rei desconfiar de que os druidas já começavam a espalhar a notícia sobre a chegada do mítico Emrys ao coração de Albion.
Uma breve troca de olhares com Mithian confirmou suas suspeitas.
Enquanto seguia o grupo rumo à floresta, tentou identificar qualquer uma das desvantagens apontadas por seu tio naquela situação.
Não conseguiu encontrar nenhuma.
***
“Você parece preocupado, Majestade.”
As palavras gentis o tiraram de seus devaneios, e olhos azuis desfocados voltaram-se para encontrar o olhar perscrutador de Mithian.
Eles caminhavam há algum tempo, e àquela altura já haviam deixado o chão de pedra da cidadela para trás, galgando o caminho até o rio através da grama baixa e dos arbustos e raízes próximos às muralhas. Raios de luz fracos ainda os atingiam em meio aos galhos das árvores mais altas.
Arthur deixara a conversa silenciar sem perceber, distraído pela luz evanescente e pelo movimento das duas figuras na dianteira, que se deslocavam com relativa facilidade em meio à folhagem. Lentamente, ele e Mithian haviam ficado para trás.
“Acho que, nos últimos tempos, esse tem sido o meu estado de espírito constante, Milady”, o Rei por fim respondeu, com certo humor.
A Princesa de Nemeth precisou parar para se desviar de alguns galhos mais baixos, mas logo sua atenção estava sobre ele novamente.
“Eu espero que não seja inconveniente da minha parte mencionar, mas… você está com um olhar cansado.”
“De forma alguma,” Arthur apaziguou-a. “Acho que toda essa situação simplesmente está… começando a afetar o meu sono.”
O cenho pálido dela se franziu. Mais à frente, murmúrios da conversa entre Merlin e Kay os alcançavam, mas era difícil identificar o que eles diziam em meio aos sons do rio que estava cada vez mais próximo.
“Sonhos ruins?”
Arthur hesitou. Flashes familiares povoaram sua mente durante alguns instantes.
“Talvez. Ou talvez apenas… fora do comum”, acabou por concluir.
Mithian assentiu, como se também pudesse enxergar o que se passava pela cabeça do Rei e compartilhasse suas impressões. Aquele apoio tenaz e silencioso – mesmo diante do improvável – era uma das razões por que tanto apreciara a presença constante da Princesa ao seu lado nas últimas reuniões.
“Minha mãe acreditava que sonhos sempre têm algo a dizer.” A expressão de Mithian era de calma contemplação, mas ela logo se voltou para ele com um sorriso honesto, ainda que embargado. “Imagino que se estivesse aqui, ela lhe diria, Fique atento, mas não permita que eles o consumam, Majestade.”
“Palavras sábias”, Arthur respondeu com sinceridade.
Nunca conhecera a antiga rainha de Nemeth, mas as histórias proferidas por Uther e Gaius – assim como a inegável reverência com que Rodor, Mithian e seus súditos se referiam a ela – eram suficientes para que recebesse aquele conselho com a devida carga de respeito e gratidão.
Lembrou-se subitamente dos olhares indiscretos que vinha tolerando por parte de Agravaine e de toda a corte desde a chegada da delegação de Nemeth a Camelot. Lembrou-se de um quarto vazio e esquecido por anos, agora reaberto sem a sua autorização.
Um quarto que, por ordem de Arthur, naquele momento era ocupado pelo emissário de Avalon.
“Mithian,” Arthur começou, de repente se sentindo como um desajeitado cavaleiro noviço, “eu não sei como retribuir o que você tem feito por mim desde que chegou a Camelot, mas… eu espero que saiba o quanto eu sou grato pela sua amizade.”
A expressão da princesa se desanuviou por completo, e seus olhos logo ganharam o mesmo brilho arteiro de antes.
“Você é um homem sábio, Arthur Pendragon. Você não precisa de mim ao seu lado lhe dando conselhos, sua intuição é mais do que suficiente para guiá-lo. Contudo, eu fico feliz em poder oferecer qualquer apoio. E espero que você saiba que eu não espero nada em troca.”
Eles pararam de caminhar para se encarar por alguns segundos, permitindo que o silêncio falasse por si. Diante daquela figura serena e estoica à sua frente, contida em um corpo enganosamente frágil, Arthur de repente se sentiu tolo e pequeno. Ele vinha enfrentando as intrigas da corte há tanto tempo, mas esquecera que nunca estivera sozinho naquela posição.
“Ultimamente eu não tenho me sentido tão sábio, Milady”, Arthur acabou por sussurrar.
Mithian deu um passo em sua direção e – quebrando todos os protocolos sem se importar – tocou o rosto do Rei com dedos delicados.
“Sempre que precisar, você tem a mim, Majestade. E não esqueça que também tem todo um reino que o apoia. Mesmo que seu povo ainda duvidasse, suas ações ontem seriam suficientes para convencer os mais indecisos. Confie nos seus instintos.”
Com a garganta embargada, Arthur apenas conseguiu assentir e erguer uma mão para cobrir os dedos dela com os seus por um breve instante, em silenciosa gratidão. Ela voltou a sorrir antes de afastar-se novamente.
“Não se preocupe tanto com sonhos, Majestade. Eu acredito que você tem boas surpresas à sua espera.”
E, piscando um olho, ela lhe estendeu a capa vermelha que vinha carregando durante todo o percurso. Emudecido, o Rei aceitou o encargo.
***
“Sir Kay, será que eu poderia convocá-lo para a tarefa pouco nobre de ajudar uma dama a recolher algumas maçãs? Acho que meu pai apreciaria a surpresa, ainda que ele jamais admita que as maçãs de Camelot são melhores que as de Nemeth.”
Haviam chegado a uma clareira, onde o cavaleiro os aguardava com um sorriso plácido. Bastou um olhar do Rei para que Kay gesticulasse discretamente em direção às árvores à sua direita, tranquilizando-o sobre o paradeiro do emissário.
“Seria um prazer, Minha Senhora”, o cavaleiro respondeu com sinceridade.
Ambos se voltaram para Arthur, como se lhe pedissem permissão. O Rei revirou os olhos e deu as costas aos dois, começando a andar na direção indicada por Kay.
“Vão, vão. Tenho certeza de que a espada de Kay é suficiente para cortar algumas maçãs”, dispensou-os enquanto se afastava, uma mão balançando indolente sobre um dos ombros como se afastasse mosquitos inconvenientes. Fingiu não escutar as risadas de Mithian e Kay.
Arthur não precisou andar muito para chegar às margens do rio – na verdade, um pequeno córrego que apenas desaguaria no verdadeiro rio alguns quilômetros mais à frente. Ainda assim, profundo o suficiente para que crianças e adultos mergulhassem e lavassem roupas nos dias mais quentes de verão.
Mesmo antes de romper a folhagem que encobria o caminho, já conseguia divisar o emissário, uma estátua branca e longilínea contra um cenário que começava a perder os contornos sob a luz mortiça do crepúsculo. Os sapatos estavam largados sobre a margem com algum desleixo, mas para sua surpresa Merlin estava de pé dentro do rio, a água chegando aos joelhos e enegrecendo a túnica desgastada.
Arthur observou-o por alguns instantes. Os ombros lassos, os braços quase frouxos ao lado do corpo, o movimento lânguido da cabeça ao erguê-la em direção ao céu. Podia ver o desenho das costas esguias mesmo sob o tecido branco da túnica, nenhum músculo retesado. Pela primeira vez, o Rei acreditava estar vendo aquele estranho visitante em um estado completamente relaxado.
Tomou o cuidado de fazer algum barulho ao aproximar-se da margem, evitando sobressaltá-lo. Ainda que desconfiasse que o Sídhe já estava ciente da sua presença.
“Eu espero que a minha companhia não tenha sido tão abismal a ponto de fazê-lo fugir”, disse por fim, com bom humor.
Ainda de costas para o Rei, Merlin virou o rosto na sua direção para oferecer-lhe um sorriso.
“De forma alguma, Majestade. Apenas não quis ser inconveniente. Você e Lady Mithian pareciam estar tendo uma conversa importante.”
Tendo sido criado em meio aos sussurros e intrigas da corte, seria natural que Arthur identificasse um tom sugestivo naquelas palavras e respondesse de acordo. E, no entanto, encontrou apenas sinceridade e modéstia nos olhos expressivos que o observavam. Sem perceber, seus ombros já haviam começado a relaxar à medida que se aproximava do rio. Naquele momento, permitiu que o restante da tensão do dia escapasse e ofereceu um breve sorriso em resposta.
“Mithian estava sendo gentil e colocando algum juízo na minha cabeça.”
“Lady Mithian sem dúvidas parece ser uma mulher inteligente, Majestade, mas desconfio que está sendo bastante modesto. Pelo que eu pude ver desde que cheguei a Camelot, a reputação do Grande Rei como um homem justo e sábio não é apenas mero boato. Seu povo certamente acredita em você.”
Pelos deuses, apenas um dia juntos e Mithian e Merlin aparentemente já haviam encontrado uma causa comum. Entreabriu os lábios, mas, percebendo que não sabia o que dizer, acabou por rir e dar de ombros, o que fez o sorriso do emissário se alargar.
“Bem, eu agradeço o voto de confiança.”
O homem apenas assentiu antes de voltar a encarar a outra margem, parecendo apreciar a paisagem que lentamente desaparecia. Arthur inspirou fundo até que o ar frio limpasse seus pulmões e, por alguns instantes, permitiu que o farfalhar das árvores ao vento preenchesse o silêncio tranquilo entre eles. Por fim, não resistiu à curiosidade.
“Eu peço desculpas se for uma pergunta inconveniente, mas… por que vir até aqui? Você não está com frio?”
Quando não houve reação imediata, temeu ter cometido alguma gafe e logo desejou que Mithian ainda estivesse ali para intermediar aquela conversa. Porém, se surpreendeu quando o emissário virou-se parcialmente onde estava, de modo que Arthur pudesse vê-lo de perfil. Os olhos permaneceram presos em algum ponto afastado e suas mãos estavam entrelaçadas à frente do corpo, em uma postura que o Rei já começava a reconhecer.
“Eu já sinto frio há tanto tempo… é quase como se eu não pudesse senti-lo mais.”
As palavras chegaram a Arthur como um murmúrio, confundindo-se com o farfalhar das árvores. Pareceram vir de um lugar distante, como se Merlin não estivesse mais ali diante dele, o olhar ainda perdido em algum horizonte indefinido. Quase como se não fossem uma resposta. Os olhos do Rei inevitavelmente recaíram sobre a pedra que pendia do pescoço do emissário. Naquela luz crepuscular, ela parecia negra. Ameaçadora.
Quando voltou a erguer o olhar, safiras penetrantes o encaravam. Os lábios cheios voltaram a curvar-se, mas não havia qualquer sentimento por trás do gesto além de exaustão.
“Eu sei que Vossa Majestade queria que eu descansasse. Bem… sendo honesto, eu não conheço maneira melhor. Há algo de revigorante na água, não há?”
Ainda que difícil de decifrar, a pergunta parecia sincera. Arthur contemplou aquela figura enigmática à sua frente durante alguns instantes, uma efígie flutuando sobre as águas calmas de Camelot. Por fim, baixou os olhos para os próprios pés e começou a retirar as botas.
Logo estava adentrando o córrego também, e ignorou o choque da água gélida contra a sua pele enquanto se aproximava rapidamente, até parar de frente para o emissário. Seus olhares se encontraram mais uma vez, e a expressão de Merlin era de confusão – que logo se transformou em surpresa quando, pela segunda vez, Arthur estendeu a capa vermelha com o dragão dourado e cobriu os ombros do forasteiro com o tecido quente.
“Mesmo que você não possa senti-lo, o frio ainda pode machucá-lo.”
Mãos pálidas surgiram através da abertura da capa para segurá-la com mais firmeza sobre os ombros, e por um breve instante seus dedos tocaram os de Arthur. A pele parecia tão gélida quanto o rio. Quando o emissário sorriu, o gesto foi de sincera gratidão.
“Obrigado, Majestade.”
“Arthur.”
Merlin hesitou, surpreso com a interrupção.
“Por favor, apenas Arthur é suficiente.”
O Rei inspirou fundo sob o olhar atento e inquisitivo do emissário.
“Você talvez tenha alguma ideia vaga do seu papel em Camelot, mas… Merlin, não creio que realmente saiba o quão importante é a sua presença aqui. Para o meu povo, para mim. E eu preciso que sejamos francos um com o outro. Eu não vou permitir que formalidades dificultem o nosso diálogo. Em momento algum. Mesmo longe das reuniões do conselho.”
Merlin piscou algumas vezes, aparentemente sem palavras.
“Eu preciso que sejamos sinceros. A essa altura, não posso me dar ao luxo de ter conversas que não sejam completamente transparentes.” Após uma breve pausa, ele arrematou com um breve sorriso e acrescentou: “E, se eu não estiver pedindo demais, também gostaria de convidá-lo para um banquete esta noite. Em prol da honestidade que eu acabei de propor, tenho que admitir que esta é uma cortesia por parte de reis e rainhas bastante curiosos e que mal podem esperar para soterrá-lo de perguntas.”
Num eco do dia anterior, o Rei estendeu sua mão direita para o emissário, que ainda o contemplava em silêncio.
Por fim, Merlin sorriu abertamente e estendeu a própria mão para segurar a de Arthur com firmeza.
“Será uma honra, Arthur.”
***
Here stands a man
With a bullet in his clenched right hand
But don't push him, son
For he's got the power to crush this land
Oh hear, hear him cry, boy.
(SYML)
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