República de Tigres
9 Capítulo 9
Notas iniciais
— Você gostou? — Calvin perguntou.
Kai não soube responder.
— Foi só um beijo, Kai. — Hugh falou.
Os três estavam reunidos na sala. Como era de costume, Calvin estava deitado sobre as pernas do mexicano recebendo carinho na testa enquanto Hugh estava de pé com os braços cruzados. Eles conversavam sobre o dia em que Kai beijou Franklin.
— Não achei o beijo ruim, foi muito bom, aliás...
— Ele beija muito bem né? Você tá começando a ficar constrangido! — Hugh provocou ao interrompê-lo. Kai deixou escapar um sorriso e lhe lançou uma almofada na cara.
— Cala a boca! — exclamou. — Calvin, manda ele parar! — pediu.
Mas Calvin, deitado sobre suas pernas, estava também rindo daquilo.
— Odeio vocês. — continuou o mexicano, retirando Calvin de sua perna e se afastando, ainda permanecendo sentado no sofá.
— Ok, ok! — Hugh tentou manter a calma, ainda que escapasse um leve sorriso por seus lábios. — O que te aflige?
Esquecendo-se das provocações dos colegas, ele respondeu:
— Franklin é um cara legal, eu gosto dos momentos que passo com ele. É divertido, brincalhão, um bom ouvinte... Não quero dar a impressão de que estou abrindo espaço para relacionamento.
— E o que te prende? — Calvin perguntou, mas a resposta veio segundos depois do olhar que Kai demonstrou.
— Você disse que conversou com o Sean, certo? — Hugh resolveu se sentar na poltrona.
— Conversei, mas o Sean nunca é muito direto no que fala. Ele deixa muita coisa subtendida, o que me deixa com muita raiva. Ele só mandou eu viver e aceitar a realidade.
— Ele tem razão. — Calvin falou.
— Claro que ele tem. Eu nunca deixei de viver. Aliás, levo minha vida numa boa. — concordou com o amigo, olhando diretamente para a TV sua frente.
— Você tem medo de tentar algo com novas pessoas por considerar que nunca vai esquecer o Brandon? — Hugh foi extremamente sincero em sua indagação.
Kai, ainda que não gostasse de ouvir uma frase tão direta, o olhou em silêncio, compreendendo as palavras do amigo.
— Olha, Kai, eu vou ser bem sincero com você: Não use o Franklin se você não quer nada com ele. — continuou Hugh. — Eu sei que brinco muito em relação a vocês dois, mas é apenas uma brincadeira boba, porém, se você ainda tem suas dúvidas, se dê um tempo.
— Mas Hugh, dessa maneira ele nunca vai se relacionar com alguém. Se o Kai se sente bem com o tal garoto, ele pode arriscar. Minha mãe, por exemplo, namorou meu padrasto sem gostar dele, apenas por necessidade. Com o passar dos anos, ela se viu perdidamente apaixonada por ele.
— Sim, isso pode realmente acontecer. Talvez eu esteja enganado.
— Eu gosto do Franklin, não minto quando digo que ele me faz bem. Mas não estou apaixonado, vocês sabem muito bem disso. É como se fosse você — olhou para Hugh — e o Calvin, só que há uma coisa chamada de amizade colorida, talvez eu possa querer um relacionamento a medida que essa amizade prossegue. — explicou.
— Certo. Então você pode conversar diretamente com ele. Calvin tem razão quando diz que isso pode dar certo ou não. — se rendeu ao argumento do amigo. — Só não quero que ninguém saia machucado.
— Amo sua bondade, Hugh. — Kai admitiu.
Hugh somente sorriu.
— Você ama o Brandon, Kai. — Calvin precisou falar. — Mas nunca, jamais, se limite a um amor que te corrói.
— Sean sugeriu que eu desmascarasse o Brandon, mas me advertiu: que destruí-lo iria me autodestruir.
— Por isso ele disse pra você viver. — Hugh terminou a frase com os lábios contraídos.
Com alguns segundos de silêncio, apenas refletindo sobre toda a conversa, Calvin, que já estava sentado, fez uma expressão de surpresa ao observar através da janela.
— Briga. — disse.
Os três se levantaram ao mesmo. Kai foi quem mais se assustou com tudo aquilo. Ele imediatamente abriu a porta da república e correu, acompanhado dos seus colegas.
Sobre o gramado dos tigres, Brandon estava sobre o corpo de Franklin, socando-o. Franklin investiu a tempo, rolando com ele para o lado e invertendo as posições. O loiro dos Tigres recebeu um soco, mas conseguiu empurrar o outro de cima dele.
Kai conseguiu chegar a tempo antes que os dois voltassem a se agarrar em socos. Calvin, mais alto e mais forte, conseguiu levantar Franklin, segurando-o pelo braço. Brandon se levantou sozinho, passando os dedos no lábio ferido.
Seus olhos, furiosos, encaravam Franklin, querendo ir pra cima dele, mas só não o fez porque o mexicano estava a sua frente, segurando-o pelos ombros.
— Que merda você está fazendo? — perguntou olhando para o loiro.
— Esse garoto atrevido me irritou. — falou.
A grande ironia em tudo isso era lembrar que Brandon quem vivia separando Kai das confusões e, nesse momento, o contrário acontecia.
Kai olhou para Franklin, que tinha o nariz sangrando.
— Esse maluco aí me agrediu do nada. Eu vim procurar por você, disse que te conhecia e tinha certeza que te deixei nessa república naquele dia. Ele disse que você não estava e eu falei que iria esperar, mas ele me mandou sair.
Kai voltou a olhar para o Brandon, que respirava com dificuldade.
— Você me provocou. Se eu mandei sair, era melhor obedecer. — explicou o loiro.
— Deixe de ser otário, garoto. Eu não te fiz nada. Só disse que ia esperar o Kai.
O mexicano já o tinha soltado, desacreditado no que tinha acontecido.
— Seria melhor ter saído a ter que contestar minha ordem. Eu sou um tigre, você jamais vai me fazer acatar provocações. Agora saia do meu gramado. — pediu.
Brandon agia como seus dois primos. Agia com uma autoridade que chegava a surpreender Kai e os leoninos. Seu sobrenome aflorando.
— Ele é meu amigo, Brandon. Você não pode tratá-lo dessa maneira. — Kai disse, aborrecido.
— Eu o trato da maneira que eu quero, Kai. Esse garoto atrevido resolveu me provocar, e se você acha que é melhor defendê-lo, saia daqui também.
— Mas que merda aconteceu com você? — questionou o mexicano. Seu semblante de duvida deixou Brandon com mais raiva.
O loiro, não querendo perder mais tempo, saiu pisando fortemente no gramado até entrar em sua república, rumando diretamente até a cozinha para pegar uma bolsa de gelo.
Kai ainda ficou parado alguns segundos. Ele não conseguia acreditar no que tinha acontecido.
— Kai, vamos sair daqui. — Hugh falou puxando seu amigo, que por alguns segundos ainda permaneceu parado, até despertar e caminhar pensativo.
Os garotos voltaram para a sala dos leões. Hugh foi diretamente ao banheiro buscar por papel e voltou a sala.
— Tome, é melhor você limpar isso aí. — entregou os papeis enrolados em sua mão para Franklin.
— Obrigado. — Franklin agradeceu ao receber, imediatamente voltou a enxugar seu nariz. — Aquele garoto é maluco.
— Você está bem? — Kai perguntou, sentando-se ao lado dele.
— Claro que estou. Bem que seu amigo Roy me disse que o pessoal daquela república era absurdamente chato.
— Os Tigres têm essa fama. — Hugh falou.
— Me dê isso aqui. — Kai tomou o papel da mão de Franklin, tomando ele mesmo a ação de enxugar o nariz do garoto, olhando em seus olhos enquanto o tratava. — Brandon devia estar estressado. Ele passou a madrugada estudando.
Kai fielmente acreditou nessa hipótese. Para ele era ilógico o loiro agir daquela maneira.
— Será? — Calvin questionou, duvidoso, erguendo uma sobrancelha.
— Por que me pergunta isso? — Kai o olhou.
— Esse garoto por acaso é seu ex-namorado? — Franklin, ingenuamente, questionou.
Kai quase engasgou.
— Não. — Hugh respondeu por ele. — Acho que ele realmente está estressado com os estudos. As aulas retomaram recentemente... E ele é estudante de medicina, deve ser uma loucura, não?
— Os Tigres não são muito receptivos. — Calvin falou. — Odeio todos eles.
— Cara, vou passar a odiar todos também. Nem conheço as repúblicas, mas depois de hoje e do que me falaram, tenho que concordar com você.
— Eu sou um Tigre. — Kai o olhou.
— Mas você, você... Ah, você é diferente. — respondeu constrangido.
— Só segura aqui e não solta até que pare de sangrar. — Falou o mexicano. Os dedos de Franklin encostaram em sua mão antes que ele pudesse retirá-la dali.
— Obrigado. — agradeceu.
Kai, antes de fiar de pé, observou sua república através da janela, mas logo voltou sua atenção aos colegas na sala.
— Me desculpe pelo que aconteceu. — falou o mexicano.
— Se desculpar pelo quê? — Franklin segurou em sua mão e o olhou. — Você não tem culpa de nada.
Apertando a mão de Franklin de maneira carinhosa, Kai não respondeu.
A porta foi novamente aberta e Pietro surgiu. Sua expressão semelhante a de alguém que sente nojo foi notável para todos eles.
— Reunião de babacas? — questionou ao passar por eles.
Ninguém se atreveu a responder. Depois que Pietro desapareceu, Franklin questionou:
— Outro maluco? Como vocês aguentam morar aqui?
— Um inferno chamado Quadra Nove. — Kai respondeu.
Hugh demorou alguns segundos olhando para o corredor vazio em que Pietro havia passado. Seus pés formigaram para sair dali e ir atrás dele, mas não se permitiu a fazer isso. Seria melhor permanecer na sala e evitar novas confusões, já que Kai certamente detestaria que ele se afastasse por conta do Pietro.
Seus olhos meigos voltaram aos colegas sorrindo, amenizando toda a tensão existente no lugar.
— Querem falar de filmes? — sugeriu, soou um tanto idiota.
[...]
Sean preferiu deixar seu carro na universidade. Às vezes considerava lá um lugar mais seguro do que onde morava, pois estava ciente das confusões na Quadra que poderiam acabar arranhando ou amassando seu carro que ganhou do pai. Por isso Colin costumava se irritar com o moreno em relação ao automóvel, era quase um concorrente amoroso.
Trajando roupas brancas, inclusive os sapatos, ele caminhava com uma bolsa carteiro preta masculina, adornada em detalhes prateados. Qualquer um poderia dizer com facilidade que ele era um estudante da área da saúde, mas por ser tão popular, já sabiam que ele era estudante de odontologia.
Escolher odontologia não foi uma tarefa fácil pra Sean. A família formada por médicos — em sua maioria cirurgiões — queria que todos seguissem no mesmo caminho, mas o moreno descobriu seu amor por sorrisos ainda no colegial, decidindo seguir carreira com aquilo. Ele só não conseguia compreender toda a revolta da sua família, já que as áreas são semelhantes e o seu foco era apenas a saúde bucal.
Não era à toa que ele tinha um sorriso perfeito, dentes brancos e uma arcada dentária de dar inveja.
Mas, tratando-se dos Ferazzas, que eram rigorosos, Sean não atuar na área da medicina foi um erro. Contudo, sendo o primeiro Ferazza a se rebelar contra os parentes, ele suportou o ódio.
Não era fácil, ainda, lidar com esse ódio. Sua mãe, por exemplo, continuava agindo da mesma maneira. Mostrando que sempre que Sean virava assunto em jantares de família, ela sentia tamanha vergonha que costumava sair na metade da conversa. Ultimamente ela vinha avisando a Sean que seu avô estava começando a perder a paciência, pois antes ele achava que isso era apenas um ato de rebeldia que facilmente poderia ser consertado pela mãe.
Sean falava ao celular enquanto caminhava.
— Esse final de semana a gente pode sair? — perguntou Joe do outro lado da linha.
Joe era seu pai verdadeiro. Alguém que conseguiu domar a fera que era o Tigre, aos poucos, mostrando ser o único familiar a demonstrar amor após ele ir contra os preceitos da família. Joe ganhou espaço no coração do moreno, ainda que ele não o chamasse de pai.
Já com Nate, homem este que Sean acreditava ser seu pai e que na verdade era apenas pai de William — seu maior rival na Quadra Nove —, a relação se tornou pior do que antes. O contato era tão raro, isso porque Nate insistia em mandar algumas mensagens ou até visitá-lo. Mas Sean, frio, não cedia tão facilmente. Colin costumava conversar com ele sobre ter que, pelo menos, ser um pouco mais gentil com Nate, que, ainda que não fosse seu pai verdadeiro, passou anos acreditando ser, mesmo que não tenha sido tão presente.
— Naquele mesmo restaurante? — perguntou o moreno.
— O que você preferir. Só quero te apresentar uma namorada nova, ela está louca pra te conhecer.
— Ela vai me odiar. — disse com tranquilidade.
— Por quê?
— Sou a pessoa menos simpática que ela vai conhecer. — falou com a voz arrastada.
— Deixa dessas besteiras. Eu vivo falando de você pra ela. Inclusive, até falei a respeito do Colin.
— Você o quê? — a pergunta saiu de supetão, a entonação provocou medo em Joe.
— Foi errado falar isso?
Sean demorou a responder. Ficou pensativo.
— Não. Só que isso ainda é um pouco estranho pra mim.
— Não é de se esperar, você cresceu sendo obrigado a esconder tanta coisa. Mas então, podemos sair nesse final de semana?
— Sim.
— Leve o Colin. Gosto de conversar com ele. Diferente de você, ele costuma me falar coisas sobre o ‘chato’ do Sean. Eu tenho que ficar informado sobre o que acontece com o meu filho, não? Colin é a melhor pessoa pra isso. — e riu do outro lado. Sean revirou os olhos.
— Tudo bem. Acabei de chegar na república, vou desligar.
— Sem problemas. Te ligo amanhã pra combinarmos melhor. Beijos.
— Certo.
O moreno aguardou alguns segundos até que Joe desligasse. Depois disso, guardou o celular, abriu a porta da sua república e encontrou Brandon sentado no sofá, mexendo no celular.
— Eu bati em um garoto hoje. — disse o loiro.
Sean, fechando a porta, o observou com estranheza.
— Normal. — disse o moreno.
— Eu tô arrependido. Não deveria ter feito isso. Agora o Kai vai me odiar ainda mais.
— Ele tem todos os motivos pra isso. — Disse o moreno, parado em seu lugar. — Você realmente se preocupa com ele?
— É claro!
— O que você entende sobre o ódio do Kai?
O loiro ficou em silêncio. Sean se preparou pra subir a escada, mas parou no primeiro degrau e se virou dizendo:
— Acho que não preciso mais esconder isso: Eu sei que você transou com o Kai.
Saltando do sofá, Brandon ficou de pé e encarou o primo, tão assustado que parecia ter visto um fantasma.
— Eu fui te procurar pra avisar que seus pais te visitariam no dia seguinte, mas eu o vi arrastando o garoto pra um quarto. Não sou idiota pra interromper um momento assim, a vida é sua e você sabe muito bem como levar isso adiante.
— Não. Nós não estávamos transando...
— Brandon... — Sean semicerrou os olhos, em seguida contraiu os lábios. — Arrastar um garoto pro quarto de estranho enquanto segura a mão dele, sinceramente? O que você deduz quando resolvo dormir naquela droga da república dos leoninos?
— Eu fui mostrar algo a ele. — tentou se defender.
— Seu pau? Ou ver o dele. Tanto faz. — agiu promíscuo. — Brandon, você entrou de mãos dadas em um dos quartos dos águias e só saiu de lá na manhã seguinte.
Não deu outra, Brandon voltou a se sentar, admitindo o ocorrido apenas pelas expressões.
— Você vai contar aos meus pais?
— Teria contado antes, não acha? Você tem é sorte do Kai não ter feito nada a respeito aquele dia. Qualquer outro o teria desmascarado, Brandon. E se o Kai quiser, ele pode me usar pra isso.
— Você é meu primo, deveria estar do meu lado.
— Não tenho lados nisso. Por mim vocês dois estariam fora dessa república. Ele por ser um idiota e viver esperando e você por viver em cima do muro.
— O quê?!
— Isso mesmo que você ouviu. Você traiu a Melissa, sua namorada e melhor amiga. Acha que o que você está passando agora vai acabar por aqui? É disso a pior. Acha que o Kai também não sofreu ou sofre com tudo isso? Talvez até mais que você. O que você precisa fazer, Brandon, é se decidir e se preparar. Mentiras são reveladas com o tempo.
Lembrou-se novamente de sua mãe, Suzana, e as mentiras.
Deixando seu primo pra trás, Sean voltou a subir os degraus, entrando de imediato em seu quarto. Ao fechar a porta e se virar, teve uma grande surpresa: Colin estava sentado em sua cama, olhando-o.
— Que merda você faz aqui?
— Te esperando pra primeira aula. Esqueceu? — lembrou o leonino.
Largando a bolsa no chão, Sean foi retirando a camisa. Colin quem ficou desconcertado com aquilo, afinal, Sean era quem despertava seus desejos mais íntimos.
— Deixa pra outro dia. — falou o moreno. — Tô cansado.
— Vai se foder! Nós combinamos isso. — Colin ficou de pé, caminhando em direção a ele.
— Eu sei, mas eu acabei de chegar da universidade. Preciso de um banho, comida, massagem e uma boa noite de sono. — passou pelo namorado e se sentou na cama.
— Tem certeza? — Colin se virou pra ele, cruzando os braços.
— Manda logo a bronca da vez. — mandou ao cair deitado na cama. Sabia que seu namorado ia começar com os insultos.
— Se não quer me ensinar a lutar, eu vou agora mesmo me matricular em qualquer escola que ofereça autodefesa. Tem uma depois da universidade, andei pesquisando. Até ouvi boatos de que o professor é gay. — mentiu a última frase.
Sean voltou a se sentar. Ele olhou para o namorado como se estivesse com raiva daquilo que ouviu.
— E na última vez que transamos eu só dei continuidade porque você disse que me ensinaria. Eu não terei o menor problema em te deixar em abstinência por sexo. — usou uma das suas melhores armas contra Sean.
— Por que você é tão filho da puta, anão desgraçado? — Sean ficou de pé, preguiçoso. — Ok, Colin, vem bater em mim.
— Por que?
— Você não quer aprender a brigar?
— Assim, tão fácil?
— Venha bater em mim. Até cruzo os braços pra você. — e assim fez.
— Depois não reclame da dor. — provocativo, Colin disse.
Colin começou dando alguns passos até correr, ergueu um braço e fechou a mão, desesperadamente avançou contra o moreno.
Sean chutou os pés do namorado, mas não permitiu que ele caísse no chão, segurando-o no ar pela cintura, como num passe de dança, em que o parceiro gira e se deita. Os lábios do moreno estavam próximos aos do namorado. Sem reação, Colin ficou encarando, mas depois foi largado, finalmente sentindo o impacto do seu corpo ao chão.
— Eu poderia te dar uma rasteira e te assistir cair e se machucar. Viu como eu sou bom? — provocou, voltando a se sentar na cama.
Caído no chão, Colin quase cuspiu nele.
— Mas você me deixou cair depois.
— Pra você aprender.
— Ok, vou tentar novamente. — Colin ficou de pé.
Sean forçou-se a ficar de pé, Colin se afastou mais uma vez.
— Tem algo na janela. — o pequeno a olhou.
Quando Colin o viu virar o rosto, avançou novamente. Mas Sean virou a tempo suficiente de dar um passo pro lado, levar sua mão ao estômago do namorado sem a intenção de machucá-lo, e o empurrou de volta pra o lugar que estava.
— Puta que pariu! — resmungou o pequeno.
— Seu desespero é um dos seus problemas. Você bate cegamente, dando aberturas pra que o outro te agrida com facilidade. Eu até entendo que na hora da raiva a gente não se importa com nada, só quer mesmo ir pra cima e meter a porrada.
— Claro. Eu sinto vontade de matar a pessoa.
— Eu tenho vantagem sobre você por dois motivos: você é fraco e baixinho.
— Vai tomar no cu. — mostrou-lhe o dedo do meio.
— Eu não sei se vou conseguir te ensinar a lutar. — revelou o moreno. — Eu não fiz escola de luta ou coisa do tipo, literalmente aprendi a brigar na rua, começando no colegial. E com o Octavio eu aprendi algumas coisas, ele fazia academia e boxe.
— Ele e o William. — completou o pequeno. — Por isso você tomou aquela surra do William. — conseguiu revidar a provocação anterior do namorado.
O moreno o fuzilou e se sentou na cama. Colin, frustrado, aproximou-se do namorado.
— Eu só quero ser mais forte, eu sempre apanho. — sua voz foi de cortar o coração.
— Por que você quer tanto isso? Acha que é divertido?
— Não. Mas...
— Todo mundo aqui age por impulso numa confusão, alguns certamente são mais experientes que outros. — disse ao interrompê-lo.
— Mas eles são fortes.
— É exatamente isso que anda te faltando. — disse de imediato. — Se deixar, uma ventania consegue te levar embora.
Colin bufou.
— Três vezes na semana você vai dedicar uma ou duas horas do seu dia praticando exercícios físicos. Eu vou te ensinar alguns. Se você quiser, o prédio de educação física tem uma academia, é oferecida aos estudantes.
— Seria melhor se você fosse lá comigo. — pareceu um pedido.
— Vai ter um dia na semana em que terei um horário livre, talvez eu possa ir com você. Estou precisando voltar a me exercitar. Quem sabe assim seus socos serão mais fortes.
— Você não vai mais me ensinar?
— Toda noite eu vou brigar com você. Se você conseguir socar meu rosto, já é um grande passo. Por enquanto, seus socos só me fazem cócegas.
— É mesmo?! E o que eu ganho se eu conseguir socar seu rosto?
— Podemos pensar nisso futuramente. Mas... — Sean parou de falar imediatamente.
Colin ergueu o braço e novamente avançou contra o namorado, Sean rolou para o lado e Colin caiu de bruços. O moreno tratou de montar sobre ele, prendendo os dois braços do menor enquanto seu pênis roçava por entre as nádegas dele.
— Vai ter que ser mais rápido. — falou baixinho ao levar seus lábios aos ouvidos do pequeno. Colin sentiu alguns arrepios. Estava numa posição de domínio proferido pelo moreno. Uma das posições que costumava acontecer quando eles rolavam pelados por entre os lençóis.
— Filho da puta.
— Que tal começar os exercícios agora? — Sean afrouxou os braços do namorado, deixando-os livres. Colin se virou de modo com que seu rosto ficasse colado ao do namorado. Já sentia a ereção dele se formando.
— Pode ser. — respondeu inocentemente.
— Você pode subir e descer em mim umas trinta vezes em intervalos curtos de cinco segundos. Malhar a mão ao me masturbar, acredite, vai melhorar os seus socos, é quase um levantamento de peso. Posso ajudar a malhar a sua bunda enquanto estou te penetrando.
— Vai tomar no cu! — Colin o empurrou para o lado. Sean caiu de braços abertos. — Babaca. — Resmungou, se levantando.
— Por hoje é só. Amanhã vamos juntos na academia, você precisa comprovar que estuda na universidade.
— Eu te odeio, desgraçado. — ainda enfurecido, continuou a insultá-lo. — Vou mandar o Luke me ensinar.
Colin bateu pé e saiu do quarto, deixando o namorado finalmente sozinho, podendo descansar. Que de tão cansado que estava, sequer deu bolas à provocação do seu namorado.
[...]
— Pode ir, Reece. — disse a mulher.
Reece, cujo nome verdadeiro era Calvin, recolheu o dinheiro ao sair do banheiro após um banho. Mais um dos seus programas, dessa vez não ocorreu durante a madrugada. Eram 21hrs quando ele saiu daquele apartamento.
Vestindo uma jaqueta de couro preta, Calvin caminhou pelo corredor que tinha um tapete vermelho extenso até a porta do elevador. Ele caminhou contando o dinheiro recebido e aguardou o elevador alcançar o andar em que ele estava.
Ao entrar, Calvin guardou o dinheiro e se olhou no espelho. O elevador parou um andar abaixo. O desagrado veio quando seus olhos bateram nos olhos verdes de Charles. Era uma peça pregada pelo destino, certamente. Ao seu lado, uma bela garota de fios castanhos sorria.
— Vou esperar o próximo. — Charles, sem entrar, falou.
— Deixa de ser idiota. — brincou a colega, empurrando-o para dentro do elevador. — Eu não vou esperar o elevador descer e depois subir.
— Mas que merda... — teria continuado a frase se a porta não se fechasse.
Charles, como estudante de medicina, já estava em seu primeiro trabalho. Resolveu se reunir na casa de uma colega no mesmo prédio em que Calvin tinha uma cliente.
Sem dizer nada, Calvin fingia não vê-lo. Charles fazia o mesmo, apenas pensando uma maneira de se vingar da colega que o empurrara ali dentro.
Contando os minutos para sair dali, Charles observava os números diminuindo acima da porta a medida que eles iam descendo.
— Você certamente anda me perseguindo. — disse o tigre.
— Tenho coisas melhores pra fazer. — rebateu o leonino.
— Se não anda me perseguindo, o que faz aqui? Esse apartamento nem mesmo é do seu nível.
Calvin, quando ia respondê-lo, lembrou-se do segredo. Ficou em silêncio, com a mesma expressão de desgosto que costumava demonstrar sempre que via o garoto.
— Como é que deixam alguém como você entrar aqui?
As mãos fortes de Calvin se fecharam, os nós dos dedos ficaram brancos por tamanha fúria que estava o consumindo. Mas no instante em que ia socá-lo, as luzes se apagaram e sons metálicos foram ouvidos, de repente o elevador parou.
— Ei! — Charles bateu na porta do elevador.
— Ele parou ou você é burro o suficiente pra não perceber isso?
— Cala a boca e não dirige a palavra a mim. — Falou ao permanecer tentando abrir a porta.
Charles puxou seu celular do bolso pra iluminar o ambiente. Tentou discar pra sua colega, mas notou que estava sem sinal ali dentro. Começou a ficar com bastante raiva por causa disso.
Dez minutos tinham se passado e ele ainda tentava abrir a porta do elevador, mesmo sabendo que era inútil, pois não havia brechas para seus dedos. Impaciente, ele começava conseguir sinal pra o seu celular. Apertou todos os botões e números do elevador e bravejava; palavrões eram ouvidos a todo o instante.
Calvin sentou-se no chão e encostou-se as paredes.
— Por que não fica quieto e espera? — Calvin, começando a se irritar com o garoto inquieto, elevou seu tom de voz.
— Cala a boca! — Charles falou mais alto.
Em seguida resolveu chutá-lo, o feixe de luz do eu celular conseguiu iluminar a ação a tempo e, para seu azar, Calvin segurou a sua perna e o derrubou no chão. Quando Charles ia usar das mãos, Calvin também a prendeu. Naquele espaço, Charles se encontrou em desvantagem.
— Desse modo, quem vai se prejudicar é você. — alertou o leonino.
Charles tentou se soltar, enfurecido. Mas Calvin então o soltou, para a surpresa dele, contudo não foi agredido ou coisa do tipo. Charles permaneceu caído no chão, sentado na parede paralela.
Quarenta minutos se passaram e nenhuma ajuda. O escuro, o silêncio. O calor já estava sendo incomodo para os dois, a pouca entrada de oxigênio também.
— Eu não posso morrer com você aqui. Isso é muito vergonhoso. — soltou o tigre.
Aos ouvidos de Calvin, aquilo soou engraçado.
— É uma pena que eu não tenha te deixado morrer na sua própria festa de aniversário. — deixou escapar um sorriso fraco ao considerar que Charles morreria ali.
— Você se acha o super-homem, não é?
No escuro, sem observar expressões ou conversar olhando nos olhos, eles dialogavam.
— Por que é tão ingrato?
— Por que eu não quero ser ajudado por alguém como você. Você é apenas um garçom.
— Um garçom que te viu acabar com a própria festa de aniversário.
— Cala a boca! — elevou o tom e voz, contudo dava pra perceber que soou fraco. — Você não tinha nada que ter me seguido.
— Eu salvei sua vida! — exclamou.
Mas Charles não respondeu.
Charles não parava de olhar pra o seu celular e calcular o tempo que estava ali dentro. Estava voltando a ficar inquieto, sentindo-se sufocado. Até se perguntou se alguém tinha percebido que o elevador parou, mas pensar nisso só o deixava pior. Ele estava começando a sentir medo e cada vez mais dificuldade pra respirar.
Uma hora e vinte minutos e eles permaneciam presos naquele lugar. Preocupado com o silêncio do garoto, perguntou:
— Você tá bem?
Charles não respondeu. Não estava nada bem.
Em silêncio, Calvin acreditou que o garoto começou a ignorá-lo, como de costume.
Calvin retirou a camisa, suado e enxugou o próprio rosto.
Mais dez minutos se passaram e Calvin sentiu o peso da ausência do oxigênio, dificultando ainda mais a respiração dos dois. O leonino, preocupado com o silêncio do garoto, puxou seu próprio celular e o acendeu, iluminando o rosto de Charles.
Charles estava quase caindo no chão. Seu rosto molhado pelo suor, os olhos fechados, as mãos caídas.
— Garoto! — Calvin se aproximou imediatamente, tocou a face de Charles. O tigre até abriu os olhos, mas estava fraco, sem conseguir até mesmo insultá-lo.
Calvin retirou a camisa que Charles vestia, em seguida, sentou-se ao seu lado e o fez repousar a cabeça entre suas pernas, abanando-o. Começou a assoprar a testa do garoto, tentando amenizar a sensação de sufocamento.
O leonino, com seu celular, iluminou todo o elevador. Observando o teto, ele deitou Charles delicadamente no chão e se levantou. Apesar de alto, preciso ficar na ponta dos pés para forçar a aberturar do teto.
Com muito esforço, ele conseguiu afastá-la um pouco, sentindo a passagem de ar em sua face.
Voltando a se sentar no chão, ele continuou a abanar a face de Charles, era desesperador. Também estava sentido medo, a demora em receber a ajuda era angustiante.
Depois de quase duas horas em todo aquele sufoco, o resgate veio pelo próprio teto. O técnico conseguiu abrir mais espaço na passagem ali em cima.
— Garoto, garoto! — estapeava levemente o rosto dele. — A ajuda chegou.
Mas Charles permanecia fraco, com os olhos quase fechados.
Calvin o ajudou a ficar de pé. A sorte era que Charles era baixo o suficiente e Calvin forte para conseguir erguê-lo e entregar ao técnico que estendia as mãos no teto. Juntos, arrastaram o tigre para fora do espaço, onde a porta, aberta, encontrava-se acima elevador.
Calvin, que também estava fraco, mas não tanto quanto Charles, alcançou as arestas da passagem e se esforçou para subir, conseguindo sair do elevador parado, encontrando a porta aberta com mais algumas pessoas aguardando.
Charles já estava sobre cuidados de duas mulheres, inclusive a sua amiga, que ligavam pra emergência, constatando que a pressão dele havia caído por ficar tanto tempo com pouco oxigênio.
Calvin, sentado e afastado dele, também recebia os cuidados.
Calvin correu seus olhos azuis aos verdes de Charles.
Olhares.
Aguardando a emergência chegar, Charles começou a se recuperar aos poucos após a queda de pressão. Não queria ter que ir a um hospital, não queria que a notícia se espalhasse. Não quando estava preso num elevador somente com o leonino. Fora que a notícia de que ele foi parar no hospital poderia chegar aos seus pais que o encheria de perguntas.
— Eu vou embora. — disse ele levantando-se com dificuldade, ainda fraco, mas melhor que antes.
— A emergência está chegando, você precisa de cuidados. — falou a mulher.
— Eu sei me virar. — bradou.
Sua mão encostou a parede e ele saiu se arrastando, recuperando força aos poucos até descer as escadas e finalmente sair do prédio, gritando por um táxi na saída.
Calvin não contestou depois dali, ficou em seu lugar, pensativo: Por que se importava tanto com ele?
[...]
Kai entrou na república às 22hrs. Ele tinha passado todo o dia nos leões desde que chegou da universidade, Franklin acabou fazendo-lhe companhia desde a confusão horas antes. Por lá eles até comeram e interagiram com Julius, Marcus e Patrick.
Só queria dormir pra no dia seguinte ir à sua aula.
Precisava de um banho e foi exatamente isso que fez ao chegar no quarto. Depois do banho, ele saiu com uma bermuda de tecido fino e enxugando os cabelos.
Brandon apareceu no quarto minutos depois quando o mexicano se olhava no espelho.
— Kai, me desculpe pelo que aconteceu hoje mais cedo. — pediu o loiro.
Kai o olhou, apenas balançou a cabeça como se aquilo não importasse mais e largou a toalha na cadeira. Agora tocando os fios ainda úmidos.
Posicionando-se atrás dele, o loiro insistiu:
— Eu estava num péssimo momento.
— Tudo bem. — respondeu sem se virar. — Já passou. É estresse.
Brandon naquele instante sentiu algo o incomodar. Kai não estava agindo grosseiramente e, por um momento se questionou se era melhor quando Kai agia como antes, explosivo. Provavelmente o Kai estaria ignorando-o ou insultando pelo ocorrido horas antes.
— Boa noite.
Kai notava a sensibilidade na voz do loiro. Partia-lhe o coração vê-lo daquela maneira, mas ceder não era uma opção. Nas vezes em que isso aconteceu ele quebrava a cara horas depois.
— Você tá bem? — Kai virou-se, sua preocupação nunca tinha fim. Mesmo com todas as mágoas, seu coração aquecido pela paixão mostrava a sua sensibilidade diante a presença do outro.
— Ah, tô sim. — respondeu afastando-se indo para sua cama. — Melissa sabe que somos amigos. — falou. — Ou melhor, que éramos. A verei esse final de semana.
Kai não conseguiu reagir.
— Sean andou conversando com você, não foi?
— Sim. — Respondeu um pouco inseguro.
— Ele sabe a verdade. — Revelou.
Kai congelou.
— Como assim?
— Ele tinha ido me avisar da chegada dos meus pais no dia seguinte... Ele nos viu entrando no quarto. Ele disse que está em suas mãos me desmascarar.
Kai deixou de ficar surpreso segundos depois. Lembrou-se que Sean agia como se soubesse de algo e agora obteve a certeza, mas isso não o assustava, estranhamente sentiu-se confortável com o fato do mais velho Ferazza na república descobrir o que aconteceu entre eles, pra assim calcular o tamanho do problema.
— Eu não vou fazer isso. — confessou, voltando a pegar a toalha para ir ao banheiro.
— Tem certeza? — questionou ao vê-lo voltar do banheiro e apagar as luzes do quarto.
— Eu não sou vingativo, Brandon. Eu não vou estragar o seu futuro, você tem uma família e uma namorada.
O loiro refletiu quieto por alguns segundos.
— Obrigado. Eu quero que você seja muito feliz.
Kai estranhou o que ele tinha dito.
— Nós seremos.
— É... — fez uma pausa curta. — Nós seremos. — puxou o cobertor.
— Boa noite, Brandon. — disse baixinho.
— Boa noite, Kai. — a voz falhou.
[...]
Três dias se passaram e finalmente chegou mais um final de semana. Brandon resolveu passar mais tempo na universidade, dedicando-se aos estudos e passando horas e horas na biblioteca, evitando mais contatos com o garoto que o deixava confuso em relação aos seus sentimentos. Charles também não apareceu muito na Quadra e, sempre que podia, acompanhava seu primo nos estudos. Calvin não contou sobre o que aconteceu no elevador, tendo medo que seus colegas fizessem perguntas sobre o que ele fazia no apartamento. Hugh continuou sendo alvo de piadas do grupo de Andrew e via Pietro rir de tudo. Kai tornou-se mais próximo de Franklin. Colin começou a fazer a academia, arrastando Caine com ele, o líder dos águias aceitou na intenção de convencê-lo a voltar a ser líder dos leões, mas o pequeno rejeitava todas as propostas. Danion não conseguia conversar com Colin, pois o garoto se recusava a olhar na cara dele. Sean virou algumas madrugadas estudando e discutindo com o namorado.
Em geral, nada fora do normal.
Naquela manhã de sábado, Carter estava ajoelhado no gramado dos águias segurando uma tesoura de jardinagem. Sozinho, ele se encarregou de fazer a ação.
— Trouxe o regador. — Samuel apareceu na porta, segurando o objeto verde de plástico.
— Deixa aí. — falou. — Égua, ‘cês dessa república não aparam essa grama não? — perguntou enxugando a testa.
— Não temos tempo pra isso. Agora vem cá, de onde você é mesmo?
— De um lugarzinho bem distante perdido no mapa.
— É verdade que você não é universitário?
— É. O namorado do meu primo me colocou numa escola aí, diz ele que mais pessoas se encontram na mesma situação que a minha. Sou um cavalo velho que não terminou o colegial. Mas eu só começo a estudar na segunda-feira.
— Como eu não soube da sua chegada?
— Eu quase não parei aqui. No primeiro dia eu fiquei num tal de... Num tal de, égua, como é o nome desse lugar que o namorado do meu primo mora?
— Ninho. — respondeu.
— Isso mesmo! Como chegamos de madrugada da viagem, eu pude dormir lá. Mas no dia seguinte fiquei enfurnado naquele lugar, sem poder sair do quarto ou por os pés pra fora porque eles disseram que era perigoso... Égua, foi chato demais. Quando o Edgar e o namorado dele chegaram, nós fomos resolver umas papeladas nessa escola que te falei. Daí depois eu cheguei aqui de noite, não tinha quase ninguém, quer dizer, parece que ‘cês estavam dormindo, só vi um cara bem branco feito leite e um menorzinho. No outro dia lá vai eu sair mais uma vez pra resolver papeis e mais papeis e conhecer um pouco da cidade. Só agora tô tendo tempo de ficar aqui.
Samuel ouviu tudo atentamente, prestando atenção e achando o sotaque dele divertido, apesar de meigo.
— Eu me chamo Samuel. — disse o loiro.
— Parece que eu vou dormir com tu. — respondeu.
— Quem disse isso?
— O garotinho menorzinho.
Carter desceu seus olhos para a grama mais uma vez e voltou a apará-la. Samuel, atrás dele, contava-lhe algumas coisas sobre a república. Os olhos azuis do mais novo morador da Quadra foram de encontro dois pés que pisavam forte no lugar que ele tinha acabado de aparar.
— Égua, diacho, eu acabei de tratar esse lugar, não pisa assim! — falou e ergueu a cabeça para saber quem tinha feito aquilo. — ‘Cê não tá vendo que...
Carter ficou paralisado.
Os fios castanhos e lisos balançavam em sua testa enquanto ele caminhava sem sequer se importar com a reclamação do garoto. Patrick bateu na porta dos águias. Era nítido que ele estava irritado com alguma coisa.
Carter, por outro lado, sentiu algo se remexer no seu baixo ventre. Carter admirava o olhar de orbes castanhas do garoto. Constatou que ele era baixo, mas seu corpo era detalhado em alguns músculos sem exageros.
— O que quer? — Samuel perguntou.
Patrick se virou.
— Danion mandou deixar um recado pro Caine.
— Caine foi no supermercado. Como o Danion não sabe disso se eles quase não desgrudam? — Samuel, com seu temperamento um pouco grosseiro, rebateu a irritação de Patrick.
Carter foi ficando de pé devagar. Ele não parava de olhar para Patrick, talvez pela semelhança com o filho do fazendeiro. Mas algo em Patrick chamava a atenção mais do que qualquer outra pessoa que Carter tenha visto.
Patrick, percebendo aquele olhar, encarou Carter, finalmente. Vê-lo de lábios entreabertos encarando-o chegava a deixá-lo sem graça, embora disfarçasse isso muito bem com sua irritação.
Enxugando as mãos nas calças, Carter se aproximou do leonino e estendeu a mão esquerda.
— Prazer, Carter! — falou sorridente.
Patrick o semicerrou os olhos e o observou de relance, afastando a cabeça e estufando o peito. Mas acabou aceitando o aperto de mão.
— Patrick. — respondeu e tentou soltar sua mão.
— Mas que cabrito bonito. — deixou escapar baixinho por seus lábios.
— Quê?!
— Nada, nada... — despertou-se.
— Tá garoto, agora pode me soltar. — falou e olhou pra sua mão sendo segurada pela do loiro.
Carter assim fez, imediatamente.
— Diz ao Caine que o Danion mandou ele passar lá. Eu não quero virar pombo correio de ninguém não. — falou, ignorando Carter e olhando pra Samuel.
Patrick voltou para sua república com os mesmos passos firmes sobre o gramado. Dessa vez Carter nem se importou, o seguiu com os olhos até que ele entrasse na república e murmurou:
— Eita que cabrita braba.
Samuel, em seu lugar, deixou escapar um sorriso com o brilho no olhar de Carter. Era engraçado a forma como ele se sentiu atraído por Patrick, deixando-o agir até por impulso diante a primeira vez que o viu.
Foi quando Samuel teve uma ideia.
— Eu posso te ajudar se você me ajudar. — falou olhando-o.
— Em quê? — Carter perguntou assustado.
— Com o Patrick.
— Do que está falando? — começou a se sentir constrangido.
— Você não me engana, Carter. — sorriu. — Você precisa ver como agiu na presença daquele garoto.
— Diacho... Eu só estava agindo como qualquer pessoa.
— Corta essa. Vamos fazer o seguinte: eu te ajudo com ele e você me ajuda com determinada pessoa da nossa república.
— Me ajudar com aquele garoto? Mas égua, eu não sou...
— Gay? Está escrito na sua testa. — revirou os olhos.
— Prove.
— Pa...! — ameaçou gritar o nome do leonino.
— Bem que me disseram que gente da cidade grande é traiçoeira. — o interrompeu.
Carter era tão inocente que nem mesmo conseguiu buscar argumentos para dizer que Samuel estava errado em dizer que ele era homossexual. Acabou admitindo com facilidade... Tão semelhante ao ex-leonino que deixou a Quadra, Connor.
— Certo, ignoremos o Patrick, e se eu te ajudar com a vida na Quadra? Te apresentar os moradores, repúblicas, contar histórias passadas e te levar pra conhecer alguns lugares?
— Mas isso meu primo pode fazer.
— E se eu te disser que seu primo quase não sai da república? E quando sai é pra ficar com o Joshua. Eu poderia ser mais útil, nessa ocasião, não acha? Posso te apresentar baladas, bares e te levar pras festas da minha turma na universidade.
Era tentador. Tudo o que imaginava numa cidade grande.
— O que eu vou precisar fazer? — se rendeu.
— Fingir ser meu namorado. — Samuel foi objetivo.
— Égua! — se assustou.
— Ninguém precisa ficar sabendo, é um segredo meu e seu. Você só vai fingir ser meu namorado na presença de um garoto.
— Que garoto?
— Luke McGraien, primo do namorado do seu primo. — temeu que a frase soasse confusa.
— Eu não sei. É estranho demais, uai. Acho melhor você arrumar outra pessoa.
Carter recolheu a tesoura no chão. Deixaria pra depois o que estava fazendo. Quando ele entrou na república, encontrou Edgar saindo do quarto. Samuel, segurando o regador, foi atrás dele ainda tentando convencê-lo da ideia de ajudá-lo.
Pra piorar toda a situação, a porta foi novamente aberta, dessa vez por nada mais, nada menos, que o próprio Luke.
Luke usava óculos de sol, regata vermelha e bermudas. Tinha um sorriso alegre no rosto e um ar de “eu cheguei, me venerem”.
— Sentiram minha falta? — perguntou ele.
— Onde você estava? — Edgar perguntou.
— Por aí... Quem é esse? — Luke questionou ao ver Carter.
— Saberia se não fosse farrear por aí. — Samuel, ríspido, respondeu.
— Eu só passei dois dias fora de casa e olha, não transei com ninguém... Quer dizer, transei? Não que eu lembre. — parou pra pensar.
— Eu sou o Carter. — respondeu simpático.
— Meu primo.
— Ah, eu já estava achando que era o misterioso namorado do Samuel... — brincou, rindo do que tinha dito. — Alguém que ninguém nunca viu. Isso é cu doce pra não transar comigo. O que você acha, Ed? — Luke atravessou a sala e retirou os óculos.
Samuel sentiu uma onda de fúria tomar conta de si. Luke era muito debochado e parecia estar duas vezes mais desde que o loiro mentiu sobre um suposto namoro.
— Ele é meu namorado! — as palavras saltaram de sua boca.
Edgar, assustado, quase quebrou o pescoço ao olhar para Samuel. Carter, sem acreditar, ficou estático. Luke, diferente de todos eles, continuava rindo.
— Corta essa, Samuel. Eu tô indo pro quarto agora, quem sabe...
— Respeita o meu namorado! — berrou o loiro.
Assustado, Edgar olhou para seu primo, que tinha um olhar tão confuso quanto.
— Tá achando que é mentira, Luke? — Samuel tocou a cintura de Carter e o puxou.
O que se viu foi a união dos lábios daqueles dois loiros. Samuel fechou os olhos, mas Carter ainda estava de olhos abertos, sem sequer conseguir reagir ao beijo. Não houve o encontro de línguas, apenas os lábios colados.
Para Luke, aquilo foi mais que o suficiente. Seu sorriso foi desfeito no mesmo instante.
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