Notas iniciais
As estrelas escrevem. [especial Joshua e Edgar] Indicação de música para ouvirem enquanto leem o capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=GZrddJPGp1I

Não era um barulho ensurdecedor, mas tratando-se de alguém que dormia, o som despertava e chegava a incomodar: uma faixa aleatória sugerida pela própria marca do aparelho celular com sons agudos a cada um segundo.

Edgar abriu os olhos com dificuldade em escuridão, observando apenas a luz vibrante do seu aparelho celular sobre a mesa de cabeceira. Logo se deu conta de que seu corpo estava preso ao braço forte do ruivo.

Aquela noite ele resolveu dormir no Ninho, obviamente para saciar sua vontade sugerida horas antes dentro do carro após realizar o teste, mas não chegaram a transar. Edgar não se sentiu confortável ao descobrir que tinham alguns moradores do bloco com colegas na sala. Estar em quatro paredes garantia a segurança e privacidade deles, mas Edgar conseguia-os ouvir conversando e rindo de algum filme que passava na TV.

Joshua até pensou em ir lá e expulsar todos eles, mas Edgar considerou a ação injusta, tendo em vista que eles apenas se divertiam. O ruivo também sugeriu um hotel, mas Edgar sorriu e sugeriu que esperassem o bloco esvaziar ou que todos, pelo menos, fossem dormir. Mas aconteceu que o próprio loiro pegou no sono.

O celular, na mesa de cabeceira, ainda tocava. Mas Edgar admitia estar com bastante preguiça de alcançá-lo. O corpo do seu namorado abraçado ao seu também estava o deixando confortável demais.

A curiosidade foi mais forte.

Desfazendo-se do abraço do namorado, Edgar arrastou-se na cama e esticou o braço para alcançar o seu celular que parou de tocar assim que ele o pegou. A chamada não atendida era de Carter, seu primo.

Edgar imediatamente tratou de retornar a ligação, não demorou mais que cinco segundos e ele foi atendido.

— Ed? Ed, sou eu o Carter. Tá me ouvindo? — avisou do outro lado. — Égua! Nunca sei quando essa coisa funciona de verdade.

O sotaque de Carter era diferente, aliás, Edgar tinha aquele sotaque, porém bastante influenciado pelo sotaque do atual lugar que morava.

— Oi, Carter, tenho seu contato salvo. Aconteceu alguma coisa? — perguntou, bocejando.

— A vovó. Ela adoeceu novamente. Estou preocupado, Ed. — ele disse.

— Onde você está?

— Estou em casa. ‘Té agora com ela no quarto, dando os remédios, eles estão acabando. Precisamos de mais. Temos apenas mais uma caixa. Não sei se vamos ter dinheiro pra comprar mais na outra semana.

— Estou indo aí. Hoje.

— Quê?! — questionou seu primo, assustado. — Mas e sua faculdade, uai?

— Não se preocupa, Carter. Minha avó é prioridade e preciso vê-la. Já faz alguns meses que não vejo vocês.

— Mas Ed, você tem certeza? Não vai mesmo se prejudicar? Eu não devia ter ligado, mas estava tão... tão... Tão preocupado que precisei ligar desse troço aqui.

— Tenho saudades. Que horas que são?

— Duas, e eu ainda tenho que acordar cedo... Você sabe.

— Pegarei o primeiro ônibus que sair daqui. Te vejo mais tarde, Carter. Mantenha-me informado.

— Certo, primo. — e desligou.

Edgar coçou seus olhos e ao mesmo tempo voltou a colocar seu celular na mesa de cabeceira. Ele bocejou novamente e se sentou na cama, pondo os dois cotovelos em ambas as coxas. As mãos sobre a cabeça entre os fios loiros.

— Loirinho? Aconteceu alguma coisa? — a voz pesada de Joshua tomou os seus ouvidos.

— Eu te acordei? — Edgar virou-se para olhar, mesmo sem iluminação no quarto. Conseguia apenas ver vultos. — Desculpe.

— Algum problema? Um pesadelo?

— Minha avó adoeceu novamente. — revelou. — Preciso ir vê-la.

— Agora? — questionou bocejando.

— Seria melhor que fosse, aliás, são quase dez horas de viagem. Mas não tem ônibus nesse horário, preciso esperar o sol aparecer. Quem sabe as cinco eu vá encontrar ônibus na rodoviária.

— Dez horas? — Joshua fez questão de arrastar-se na cama para ficar próximo dele. Também esticou a mão para a mesa de cabeceira, mas apenas ligou o abajur.

— Sim. É uma viagem longa, acho que nunca te contei. De carro deve ser uma ou duas horas a menos.

— Você tem aula?

— Tenho, mas isso não importa agora. Não conseguiria prestar atenção na aula depois de saber que minha avó adoeceu. Eu realmente preciso vê-la. Sinto falta, muita falta.

— Arrume suas coisas. — Joshua pediu, levantando-se. — Vamos viajar.

— Mas... mas... — o olhou incrédulo.

— A viagem demora menos se formos de carro. Eu tenho um carro. E se sairmos agora chegaremos muito antes do horário previsto se você fosse esperar pra pegar um ônibus.

— Mas e você? Joshua, você vai se formar em poucos meses e tem seus projetos pra concluir. Eu irei sozinho, não precisa se preocupar. Literalmente você iria perder dois dias de aula.

— Isso fica pra depois. — Joshua acendeu a luz do quarto, os olhos dos dois arderam de imediato. — Estamos na segunda semana de aula. Posso recuperar depois. Já perdi um semestre antes, não me abalaria se perdesse novamente.

— Josh... — não conseguiu obter argumentos.

— Eu posso viajar com você, loirinho? — perguntou, oferecendo-se.

Edgar somente agradecia em seu interior. A oferta incluía apenas coisas positivas, inclusive a presença do seu namorado. Mesmo que estivesse achando que iria prejudicá-lo na faculdade, embora realmente estivessem na segunda semana de aula e pudessem recuperar, rejeitar era quase impossível.

O loirinho chegou até a se emocionar, mesmo que não quisesse derramar as lágrimas. Ele ficou de pé, sorriu e abraço a cintura do seu namorado, agradecendo-o pela gentileza.

Joshua recebeu o abraço.

Após desfeito o gesto, Edgar o olhou novamente e disse:

— Minhas coisas estão na república, preciso passar lá e buscá-las.

— Então me espere tomar banho.

— Está bem. — Edgar sentou-se na cama com as pernas juntas. — Ficarei esperando.

O ruivo o olhou por mais alguns segundos, puxou uma toalha já próxima da porta e saiu. Não demorou muito e retornou com ela enrolada na cintura. Foi até seu armário e ficou de costas para o loiro. A toalha caiu em suas pernas, mas ele não se preocupou e vestiu a cueca que tinha acabado de encontrar.

Em silêncio, Edgar se levantou e se aproximou do ruivo. Ele escolhia a roupa e entregava ao loiro que a levava pra cama e em seguida a dobrava. Depois de ter feito isso, eles guardaram tudo na mochila do ruivo, incluindo objetos de uso pessoal.

Depois de tudo arrumado, eles saíram do Ninho.

— Espere aqui. Prometo não demorar. — disse o loirinho ao chegarem na Quadra. O carro estava parado em frente a república dos águias.

Edgar desceu esfregando as mãos, já que sentia frio. Durou pouco mais de dez minutos e ele voltou com uma mochila nas costas, da mesma forma que o ruivo saiu do Ninho. Ao entrar no carro, ele pôs o que trouxe no banco traseiro, junto as coisas do namorado.

— Avisei ao Luke que viajaria.

— Luke ainda está acordado?

— Não. Mas tive que acordá-lo. Estou dividindo o quarto com ele agora, esqueci de avisar.

O ruivo logicamente não gostou de saber disso. Afinal, era Luke. E todos sabem que Luke não resiste aos seus desejos carnais e qualquer pessoa do seu interesse se torna nome em sua lista de vontades.

— Aconteceu alguma coisa entre o Samuel e ele. — continuou o loiro. — Samuel conversou comigo, ele pareceu até que estava implorando por aquilo. Eu não vi problema, aceitei.

— Ok. — disse, soou um pouco seco, mas Edgar não viu diferença, tendo em vista que ele era daquela forma.

— Olha, eu acabei baixando um mapa pra facilitar. Não sei se de todo o caso vai ser útil, eu pelo menos conheço a estrada se reconhecer o lugar que estou. Já são duas e quarenta da manhã, pelos meus cálculos, chegaremos lá pouco antes do meio dia.

Joshua ligou o automóvel, em seguida acendeu os faróis e saiu dali.

Não era uma viagem fácil para o ruivo. Ele realmente não conhecia o trajeto e por muito tempo ficou sem automóvel, o que acabou prejudicando-o ainda mais sobre o conhecimento das estradas que seguiria. Por sorte, ia guiando-se pelas sinalizações e com a ajuda de Edgar, que mencionava as entradas mesmo quando não tinha placa.

Ele conseguiu reconhecer uma cidade, lembrando-se de uma viagem até ali. Mas depois dela, voltou a precisar da ajuda do namorado e das sinalizações.

O sol tinha mostrado o esplendor de sua beleza, mas ainda assim tinha longas horas na estrada.

— Você pode dormir um pouco enquanto dirijo.

— E quem garante cuidar de você? Está tão cansado quanto eu. Tenho medo de que pregue o olho e provoque um acidente.

Edgar era realmente o garoto preocupado com tudo. Para muitos, isso chegava a ser irritante, tendo em vista que Edgar buscava evitar todo e qualquer problema em qualquer área de sua vida. Na escola, por exemplo, ele era o típico aluno que sempre criava possibilidades e mais possibilidades pra caso algo desse errado e na universidade não é tão diferente.

Joshua não esboçou reação. Seguiu com seus olhos na estrada, mas acabou se rendendo a fome uma hora depois.

Eles pararam assim que encontraram uma nova cidade com restaurantes logo na entrada.

Ao estacionar, Joshua verificou se as portas estavam realmente trancadas e, ao lado do namorado, entraram no restaurante.

O filho mais velho dos McGraien chamou a atenção de imediato. Não foram suas roupas que atraíram olhares, até porque ele estava vestindo uma calça jeans azul, sapatos a camiseta cinza, que exibia todo o braço e parte da costela.

As várias tatuagens desperta a curiosidade de muita gente somando isso a cara de garoto malvado e os cabelos vermelhos, Joshua realmente era um garoto chamativo longe de Seattle.

Joshua já estava acostumado com esse tipo de olhar curioso, mas se perguntou como reagiria a família de Edgar.

— Eu não estou com tanta fome. — Edgar falou e o despertou das duvidas.

— Estou faminto. — admitiu.

— Eu posso comer o que sobrar da sua comida. — disse sem olhá-lo, as orelhas ficaram vermelhas. Estava um pouco constrangido.

Edgar, na verdade, não queria admitir que estava sem dinheiro. Pra ser mais exato, o que ele tinha iria servir pra ajudar na compra dos remédios da sua avó e ainda assim era necessário pedir a ajuda dos primos para completar no valor.

— Pode comer, eu vou ficar aqui só olhando. — e juntou as mãos sobre a mesa.

A mão de Joshua deslizou sobre a mesa e pousou sobre as mãos juntas do loiro.

— Nunca minta pra mim. — falou olhando-o nos olhos.

O ruivo reconheceu a mentira quando percebeu que ele se tornou muito retraído desde que sentou.

Edgar abaixou a cabeça, incapaz de olhar em seus olhos.

— Eu não quero parecer que abuso da grana que você tem. — confessou ainda de cabeça baixa. — Você sempre paga as coisas pra mim. Eu queria poder inverter esse papel um dia.

— Pareço te cobrar algo? — perguntou.

— Você já disponibilizou do seu tempo pra me levar até a minha cidade. Sacrificou dias de aula por isso. Comprou meus remédios e cuidou de mim quando adoeci. Se ofereceu a pagar pela consulta do meu teste. O que eu tenho aqui vai servir pra cuidar da saúde da minha avó, e... E n-não é muito. Eu sinto que...

— Eu daria a minha vida se necessário for. — e saiu de sua boca algo que nem mesmo ele esperava.

Edgar, surpreso, o olhou, finalmente.

— Cardápio, senhor? — ofereceu o garçom.

Joshua afastou sua mão das mãos de Edgar e olhou para o garçom. Com o pedido feito, para os dois. Eles aguardaram e depois se saciaram. Saíram do restaurante quarenta minutos depois desde que entraram.

Eles voltaram ao carro e seguiram viagem.

Edgar encostou-se ao banco com a parte esquerda do seu corpo, de modo com que pudesse seguir a viagem observando o ruivo que estava mantendo os olhos na estrada, mas alternava em retribuir o olhar.

Aos poucos a cidade ia se tornando vasto tapete verde, seja pra onde for que olhassem. As poucas casas que eles encontravam em intervalos de cinco minutos ficavam distante da estrada. Em determinada área várias casas próximos, mais adiante isso ia mudando. Eles já estavam na zona rural.

No céu quase não havia nuvens, o sol brilhava exibindo toda a sua beleza na ausência delas. Edgar sentiu um pouco de nervosismo quando passou a reconhecer o lugar que estava. A predominância da cor verde fazia falta no cinza de Seattle.

— Sol da manhã. — Edgar falou ao observar uma placa distante.

— Chegamos? — perguntou.

— Pode entrar a direita após a placa, na estrada de barro. Vamos levar cerca de meia hora.

Joshua o obedeceu e assim que passou da placa, obedeceu ao comando do loiro. Ali encontraram mais do verde oferecido pela natureza. Muito distante da estrada de barro, eles viram algumas fazendas, umas belas e outras nem tanto.

Mais adiante, passado meia hora como tinha dito o loiro, Edgar pôde avistar o lugar onde cresceu. Eles chegaram uma hora antes do previsto.

Era uma pequena fazenda, mas muito pequena se comparada a todas as outras deixadas pra trás.

O verde não era do mais belo naquela área. A área era determinada por uma cerca de madeira branca desgastada. Uma casa de madeira velha, pequena, ficava no centro. Um pouco distante da casa, ficava o pequeno celeiro, também de madeira, pintado de vermelho e branco, bem desgastados.

Dois cavalos se alimentavam juntos logo na entrada. Duas cabras devoravam a grama verde depois da cerca. Numa outra extremidade, ao lado direito, algumas galinhas e pintinhos eram alimentadas por uma garotinha com os cabelos presos. Três crianças corriam sobre uma poça d’água próximo à casa. Um homem, perto do celeiro, cortava lenha. Outra mulher, segurando uma mangueira, molhava a horta que ficava atrás da casa.

— Não é muita coisa. — admitiu o loiro, constrangido.

Edgar cresceu numa cidade sem muita tecnologia. Ele viveu naquele lugar e foi onde obteve os melhores momentos da sua vida. O patrimônio era do seu avô. Antigamente o lugar era belo, ainda que pequeno. Tinha o dobro de cavalos e galinhas, até mesmo chegaram a criar porcos. Eles produziam tomates e vendiam a uma empresa, mas após o falecimento do dono daquela fazenda, o avô do Edgar, as coisas foram mudando drasticamente. Isso significa dizer que o lucro que tinham com a produção dos tomates influenciou nas mudanças daquele lugar.

Olivia Turner, avó de Edgar, naquela época, tentou contrato com outras empresas, mas não obteve êxito. Chegou a ouvir coisas como “Você não vai conseguir produzir a quantidade suficiente” e outras como “Uma mulher? Fazendeira?”, vítima do machismo, mas que não tinha desistido do patrimônio do marido. Ela até poderia vender o terreno e seguir sua vida com seus filhos longe dali, até poderia ser mais fácil. Mas não o fez, porque abrir mão do lugar que lhe proporcionou momentos incríveis e educou seus filhos não era uma boa opção. Ela amava o céu límpido daquele lugar, as aves que por ali passavam e a sensação de viver na natureza.

Olivia precisou vender alguns animais, vender partes da fazenda e até mesmo parte do terreno para um proprietário vizinho. Tornou-se avó anos depois, perdeu uma de suas filhas, mãe do Edgar, que morreu em um trágico acidente de carro com o marido.

Atualmente, vive com sua filha mais velha, o filho do meio com a mulher e seis netos, sendo Edgar o mais velho.

Olivia provou o que era amor pela família. Edgar tinha um respeito enorme por ela, sequer se lembra de ter a desrespeitado alguma vez. O mesmo vale pra os outros netos e filhos, que sempre a viram como uma mulher guerreira.

O carro, devagar, foi entrando na pequena fazenda, os dois cavalos afastaram-se assim que o automóvel foi estacionado.

Todos pararam o que estavam fazendo naquele momento. Edgar demorou dez segundos dentro do carro e, um pouco nervoso pelo tempo que não os via, desceu do carro.

A mulher largou a mangueira, a garota deixou de alimentar as galinhas, o homem largou as lenhas e as crianças pararam de brincar.

Ouviu-se um latido. Edgar olhou para a casa e observou o cachorro vira-lata, preto com manchas brancas, correndo em sua direção. Logo depois surgiu outro garoto, apenas usando uma calça jeans esmurrada.

Era Carter, primo de Edgar. Carter era o segundo neto mais velho em ordem de idade. Assim como Edgar, ele também era loiro, não tanto quanto, e tinha os mesmos olhos azuis. Em altura, ele era mais alto que seu primo, chegando a ter 1,83m, além de ser forte pelos trabalhos braçais diários. Aparentava ser mais velho que Edgar, mas os registros provam que ele era mais novo por quase dois anos.

Joshua ainda estava dentro do automóvel, observando toda aquela gente se aproximando. Edgar pediu para que ele abaixasse o vidro e assim o fez.

— Ficaria feliz se você saísse do carro. — disse o loiro.

Joshua se desfez do cinto e abriu a porta do carro, saindo dele devagar. Novamente, assim como foi no restaurante horas mais cedo, o mesmo aconteceu: ele chamou a atenção, mas isso foi passageiro.

— Edgar! — Lilian, sua tia, o abraçou. — Que falta você faz.

Lilian era a mulher quem estava cuidando da horta. Ela era uma mulher de pele bronzeada, cabelos longos e loiros presos e um chapéu. Lembrava muito Olivia quando era mais nova.

— Quanto tempo, garoto. — Toby, seu tio, também se juntou a irmã para abraçá-lo. Era ele quem estava cuidando da lenha.

Toby bagunçou os cabelos do loiro, desfazendo todo o penteado feito antes de chegar ali. Mas Edgar somente sorria e amava todo aquele carinho. Era tão acolhido naquele lugar.

O cachorro, ainda latindo, saltou em sua perna. Edgar abaixou um pouco para tocá-lo, mas seus olhos pararam em Carter, a sua frente, que sorria.

— Como diabos chegou tão rápido? — Carter abriu os braços a sua frente, o sotaque característico da região chamou a atenção de Joshua.

Edgar olhou para o lado, mostrando-lhe o carro. E, afastando-se dos seus tios, abraçou ao primo.

— Isso não corre mais que um cavalo! — brincou enquanto o abraçava.

— Sentimos sua falta, primo. — Georgia, irmã de Carter e filha de Lilian, juntou-se aos dois.

Georgia não era loira como eles, seus cabelos eram castanhos e volumosos, tão longos quanto os de sua mãe. Ela quem alimentava os animais daquele lugar.

Georgia depois empurrou Carter e abraçou ainda mais o seu primo.

— Égua, não precisa me empurrar! — Carter falou, meio resmungão, mas nada chateado.

As três crianças que antes brincavam na poça d’água, estavam sujas de lama e gargalharam quando ouviram Carter falar aquilo.

O menor dos três se chamava Elis, um garotinho. Os cabelos caiam sobre sua testa, úmidos, e loiros. Faltavam-lhe dois dentes no sorriso que esboçava. A garotinha se chamava Zoe, e assim como Elis, ela era loira. Eles eram irmãos gêmeos e filhos de Toby. O terceiro garoto, filho de Lilian, irmão caçula de Carter e Georgia, se chamava Louis e recebeu os mesmos cabelos castanhos da mãe. Também lhe faltava um dente no sorriso meigo.

— Já pra mangueira, os três! — Lilian bateu as mãos, expulsando-os dali. — Não vão tocar o primo de vocês assim.

Georgia também bateu as mãos, como se estivesse tangendo-os dali. As crianças correram aos gritos, sorridentes. Georgia foi com eles para ajudá-los no banho.

— Gente como tu só vejo na TV. — finalmente deram atenção a Joshua, que observava em silêncio toda aquela agitação. — Égua de cabelo bonito, hein! — disse o Carter.

— Meu Deus, como sou uma jumenta mesmo. Nem falei com o amigo do Ed! — Lilian, limpando as mãos, foi até o ruivo, ela sorriu e estendeu a mão.

— Esse tem cara de que consegue cortar muita lenha! Tu aguenta carregar uns trocos comigo? — Toby brincou, colocando a mão sobre os olhos para proteger do sol.

Joshua, calado do jeito que era, cumprimentou Lilian e, surpreendentemente, esboçou um sorriso para Toby. Edgar, vendo aquilo, ficou satisfeito com a viagem. Ela valeu a pena, pois vê-lo sorrir era uma raridade.

— Nora, minha mulher, tá cuidando da comida. Preciso voltar a cortar lenha, senão ela surge gritando feito um galo de manhã, dizendo que o fogo precisa de lenha. — Toby, enxugando a testa, se despediu, mas antes tocou no ombro do Joshua.

— Eu preciso tirar alguns legumes da horta pra comida. Vamos, entrem, eu quero muito conhecer o menino de cabelo vermelho. E ah, não precisa se assustar com esse lugar não, é assim, humilde, mas somos todos felizes! — falou Lilian para o ruivo e logo saiu.

Então restou apenas Joshua, Edgar, Carter e o vira-lata, que estava sentadinho balançando o rabo.

— Tão com fome? A viagem foi demorada, eu sei. Tem bolo de milho que a Nora fez.

— Eu preciso vê-la. — Edgar o interrompeu.

— Então é melhor entrarmos. — falou, mexeu no vira-lata e deu as costas. — Eu disse a ela que ‘cês viriam. Vovó tá ansiosa pra te ver.

Edgar o deixou ir e ficou parado, seus olhos foram aos olhos de Joshua, que também o olhava. Edgar queria poder admitir que estava um pouco constrangido por levá-lo ali, mas não sentia vergonha de quem era e de onde estava, só era muito apreensivo em relação a julgamentos.

— Como eu disse... Não é muita coisa, mas...

— Mas... — o interrompeu. — Shhh! — levou o dedo a própria boca. — Estou ansioso pra conhecer mais da sua família.

— Eles vão te perguntar tanta coisa sobre a cidade. Você se importa... — não soube como continuar, mas acabou tomando coragem e prosseguiu — de falar pra ele o que nós somos?

— Isso não vai te prejudicar?

— Eles sabem de mim. — revelou. — Ainda que sejamos de uma área rural, o amor aqui prevalece.

Joshua se assustou quando atrás dele um cavalo passou correndo. Toby fez uma piada do lugar que estava enquanto ainda cortava lenha. Ele acenou logo em seguida e Edgar sorriu para o seu tio.

Joshua e Edgar aproximaram-se da casa e viram as crianças sendo banhadas por Geogia, que também sorria e acenava. Lá da horta, Lilian gritou e sorriu enquanto recolhia legumes. Sorrisos por todos os lados, bem diferente do que Joshua estava acostumado a ver no Ninho ou na universidade enquanto passava pelos corredores. Lá as pessoas o temiam, e ele gostava disso; aqui as pessoas não o temiam, mas estranhamente ele também gostou disso.

Edgar subiu os dois degraus da escada na entrada, passou pela varanda que tinha apenas dois bancos de madeira e uma rede e entrou na casa. Saudades daquele cheiro, ainda que de madeira velha.

Na sala apenas tinha um sofá, mais alguns bancos e uma TV. Carter apareceu por lá com o bolo no próprio recipiente. Sorridente, ele entregou para o seu primo, que acabou distribuindo com o ruivo, que aceitou sem muitas delongas.

Nora, a mulher de Toby, apareceu na sala enxugando as mãos em um pano. Ela sorriu quando viu o loiro. Foi ela quem incentivou Edgar, desde pequeno, a prosseguir com os estudos. Era Nora quem dava livros para Edgar estudar, todos de segunda mão quando ela conseguia encontrá-los, alguns também conseguiu em casas que chegou a trabalhar como cozinheira.

Nora via Edgar como um filho, pois antes não conseguia engravidar, e na morte dos pais de Edgar, Nora lhe deu o amparo ao lado de Olivia e Lilian. Era ela quem o levava pra escola distante dali, sempre a cavalo, gastando uma hora do seu dia. Lilian também o ensinou a ler as primeiras palavras, mas foi na escola que ele reforçou sua leitura.

Felizmente, anos mais tarde, ainda tentando engravidar, Nora recebeu dois filhos de uma vez, os gêmeos Elis e Zoe. Quando Edgar foi aceito na universidade, que segundo ele foi o melhor lugar para estudar, mesmo que bem distante do lugar que morava, Nora sentiu a mesma emoção que uma mãe sentiria. Ela ficou feliz e satisfeita pelos anos de incentivo.

Nora conversou com Olivia sobre a ideia de Edgar viver longe da fazendinha, e a avó, reconhecendo o sonho do neto, ofereceu ajuda para ele morar lá. Com a pouca grana que tinha, ela mensalmente ia ajudando-o a sobreviver naquele lugar até receber a notícia de que ele foi eleito um dos melhores alunos de seu curso e ganhou a oportunidade de estudar alguns anos fora — ao lado de Colton.

Edgar conseguiu morar numa república, o que reduziu os gastos em sua nova vida em Seattle, sobrevivendo, atualmente, de bolsas de pesquisa oferecidas pela universidade. Logicamente, não era muita coisa, mas era do seu agrado retribuir o que tanto recebeu e parte da sua grana, era dada para ajudar na compra dos remédios da sua avó.

— Toby bagunçou o seu cabelo, mas que diabos! — ela falou aproximando-se e o enchendo de beijos. — Como você tá lindo. Meu Deus! Tem tomado muito cuidado naquele lugar? Cidade grande tem seus perigos, não é mesmo? Às vezes vejo umas notícias na TV e fico tão preocupada com você.

— Edgar é cavalo velho, tia. — Carter disse, ele a chamava de tia por respeito e também porque ela era casada com Toby tempos antes dele nascer.

— Cavalo velho é você! Já deu banho nos cavalos? — ela perguntou.

— Já. Tá tudo comendo lá fora. — falou jogando-se no sofá.

— Mas hein, me conta, como você tá? — Nora perguntou, sentando-se em um banco. — E quem é esse seu amigo? Oi! — ela sorriu para Joshua. — Quanta pintura no seu corpo, isso não doeu?

— Um pouco. — disse o ruivo.

— Eu mesmo não teria coragem de fazer. O Edgar fez uma e isso me deixou tão aflita.

— Era necessário pra poder ingressar na república. — Edgar explicou.

— Essa gente de cidade grande... Tão estranhos. — ela falou um pouco decepcionada.

— Se um dia eu chegar a ir na cidade grande, vou voltar com várias dessas, tia. Tem que tá na moda, uai. — Carter a provocou.

— Moda, moda! — ela falava revirando os olhos. — E os estudos? Estou tão ansiosa pra sua formatura. Eu juro que vendo tudo só pra poder presenciar esse momento lá na cidade que você tá morando.

— Vai a família toda! — Carter reforçou.

— Joshua vai se formar daqui a alguns meses. — Edgar olhou para ele.

— Vamos, querido, sente-se, não precisa se constranger. — Nora olhou. — É pequeno, mas cabe todo mundo.

Carter acabou por se levantar e entregar um banco ao ruivo. O vira-lata surgiu e começou a cheirar Joshua, curioso, aliás era um estranho dentro de casa.

— Vem cá, Duke. Deixa a visita em paz! — Carter o pegou e o colocou sobre as pernas.

— Vocês estudam juntos? — Nora perguntou.

— Não. Joshua é meu veterano, quer dizer, não tanto.

— Veterano? — Carter perguntou o interrompeu. — Isso é usado pra não chamar de namorado?

A pergunta pegou a todos de surpresa, Carter até sentiu que sua pergunta não cabia ao momento, mas o fato da palavra não ser conhecida por ele, acabou fazendo-o soltar tal indagação.

— Quis dizer que o Joshua entrou na universidade primeiro que eu. Entendeu? Os novos alunos são chamados de calouros, Carter.

— Essa gente da cidade grande tem sempre umas palavras estranhas. — Carter, mexendo em Duke, falou.

Logicamente, veterano pra ele era uma palavra estranha, enquanto para Edgar e Joshua ela era tão normal que estranho seria considerá-la estranha.

— Viu o que da largar os estudos? — Nora o olhou, repreendendo-o. Carter deu de ombros e continuou a brincar com seu cachorro.

— Joshua é meu namorado. — Edgar acabou soltando assim que Nora voltou a olhar para ele.

A mulher, por três segundos, congelou no tempo. Para Carter, aquilo não era surpresa, Edgar o contava da sua vida em Seattle. Ele somente riu da reação de Nora.

— Como nunca me falou que estava namorando?

— É ele? Ele?! Meu Deus, como eu sou boba, como não pensei nisso? — Nora até arrumou os fios soltos que desciam pela testa. — Me desculpe querido, eu não deveria ser apresentada ao namorado do meu sobrinho dessa forma.

— Tia, você tá linda. Quer dizer, você sempre foi linda. — Edgar fez questão de ressaltar.

— Me pergunto como você casou o tio Toby. — Carter completou.

— Parem com isso. — falou sem graça. — Eu tô aqui toda despenteada. Se eu soubesse que você traria o namorado, teria até matado uma das galinhas.

Edgar olhou para Joshua no mesmo instante.

— Aqui só tem guisado e carne. Preciso ir à feira, logo! — ela falou, se levantando. — Vamos, Carter, me leva a cavalo.

— Tia Nora, por favor, não é necessário tanto. — Edgar disse. — A feira é muito longe.

— Mas como posso dar de comer apenas guisado de carne pra o namorado do meu sobrinho? Acho que ainda tem abóbora, senão tiver eu vou na horta, posso fazer alguma receita com ela. — em seguida ela olhou para Joshua. — Você bebe suco? Suco de quê? Acho que a gente da sua cidade bebe muito refrigerante não é? Viram? — ela olhou para Carter e Edgar. — Precisamos ir na feira comprar refrigerante.

— Tia... — Edgar tentou falar.

— Tem leite de cabra? Posso fazer mais bolo de milho. Você gosta de bolo de cenoura? E a noite? Acho que posso fazer mais comidas com milho. O que eu vou fazer? É, vou ter que sacrificar uma galinha. Você gosta de galinha guisada? Frita? Aqui só não tem forno. Amanhã podemos fazer um baita de um churrasco!

Nora pensou em tantas possibilidades, que Edgar desistiu de interrompê-la. Carter apenas ria enquanto ouvia tudo aquilo. Nunca tinha visto Nora tão preocupada daquela forma.

— Eu como qualquer coisa, não se preocupe com isso. — foi a segunda vez que Joshua abriu a boca pra falar desde que entrou na casa.

— Uai, mas claro que não!

— Nós estamos acostumados a comer alimentos prontos, ou seja, pratos congelados, enlatados ou então ir numa lanchonete e pedir hambúrguer, tudo muito prático. — Edgar tentou acalmá-la.

— Universitário não tem tempo pra cozinhar. — Joshua completou.

— Na verdade, na refeição de meio dia, o que mais se consome é algo prático. — Edgar insistiu em dizer.

— Eu já comi hambúrguer! — disse Carter um tanto vitorioso. — É bom, mas aquilo é pequeno demais.

Edgar sorriu, Carter era engraçado. Edgar uma vez resolveu trazer o hambúrguer por vontade do primo, mesmo que frio, ele amou o sabor.

— Preciso de uma ducha. — Toby apareceu na sala, pôs a cabeça na janela e ficou com o corpo na varanda.

— Ainda tem muita lenha pra cortar? — Carter perguntou.

— Toby, esse é o namorado do Edgar. — feliz, Nora falou sorridente e até apontou para o ruivo.

— Égua! É não! — ele falou, desacreditado.

Toby entrou na casa, enxugou a mão na calça e mais uma vez tocou no ombro do Joshua.

— Então é tu que tá cuidando do meu sobrinho? Ou ele que tá cuidando de tu? Esse negócio de homem com homem é novo pra mim, mas se meu sobrinho tá feliz, tô feliz.

Joshua não soube o que falar.

— Esses dias eu vi o Carter olhando pro filho do fazendeiro lá dos fundos, tô achando que ele também tá querendo homem. — Toby, com seu jeito bruto e ironicamente engraçado de ser, começou a mexer no bigode enquanto ria ao relembrar da cena.

— É mentira! — Carter deu um salto. Duke latiu.

— Égua, tu tá dizendo que eu minto? Tu gosta de um corpo suado de homem — começou a passar a mão no próprio corpo —, de uns músculos — mostrou os do braço — e da voz grossa.

Carter correu até seu tio, Toby saiu da casa e fechou a porta, pondo a cabeça na janela logo em seguida e gargalhando da reação de Carter. Vermelho, Carter voltou a se sentar no sofá. Edgar e Nora começaram a rir e Joshua, não resistindo, sorriu.

Toby era o engraçado da família, mesmo com seu jeito bruto e caipira, sempre saia provocando todo mundo, inclusive a própria mulher.

— Você se importa de ficar aqui com eles enquanto eu entro pra vê-la? — Edgar sussurrou para o namorado.

Joshua balançou a cabeça negativamente. Seria um desafio ficar na sala, afinal, olha o choque de realidade e personalidade que o ruivo estava vivendo, mas pelo bem do namorado, assim faria.

Edgar ficou de pé e, sem falar nada, foi adentrando a casa.

— Olivia vai ficar muito feliz em vê-lo. — Nora o deixou ir, extremamente feliz em tê-lo naquele lugar mais uma vez.

Carter ainda estava vermelho e encarando seu tio. Toby não parava de rir, querendo provocar o sobrinho mais uma vez e quando iria fazer isso, Nora pediu para deixá-lo quieto.

— Vem, vamos até a cozinha. — ela falou se levantando. — Gosto de conversar com as visitas.

Joshua assim fez.

[...]

Olivia ficava no primeiro quarto da casa. Que, aliás, não era uma casa grande, como já mencionado. Além da sala e cozinha, tinha dois quartos e o banheiro.

Quando Edgar abriu a porta do quarto logo se deparou com a sua avó deitada na cama. Olivia, atualmente, se encontrava debilitada. Não andava mais e precisava de ajuda pra suas locomoções. Lílian ficava responsável por seu banho. Toby era quem a levava para os outros cômodos da casa. Nora, como era de se esperar, cuidava de suas refeições e Carter era quem costumava dar os remédios a ela, e, na falta de responsabilidades, ele costumava ficar conversando com ela.

Os poucos cabelos brancos, divididos ao meio em um penteado. Um cobertor cobria seu corpo até o pescoço, deixando a mostra seu rosto enrugado pela idade. Os belos olhos azuis estavam abertos, fixados ao teto.

— Vovó? — Ed murmurou ao se aproximar. A emoção tomou-lhe conta e ele logo chorou.

— Edgar? Meu neto, Edgar? — ela perguntou olhando-o.

A voz de Olivia era fraca, quase como um sussurro.

Edgar sentou-se na beirada da cama, beijou a testa da sua vó e segurou em sua mão, sorridente, sentindo o gosto das poucas lágrimas que molhou seu rosto.

— Fique de pé, deixe eu te ver mais uma vez.

Edgar largou a sua mão e a obedeceu. Olivia, com um sorriso muito fraco, ficou olhando-o.

— Você agora tem cara de gente da cidade grande. — mencionou.

Edgar se sentou, voltou a segurar em sua mão.

— Alguns anos naquele lugar me trouxeram mudanças, mas nada se compara aos anos que passei aqui.

— Você se parece muito com sua mãe. — relembrou. — O mesmo olhar gentil. Do seu pai você herdou o sorriso. Se eles ainda estivessem vivos, certamente estariam com tanto orgulhosos.

Edgar sorriu.

— Vim passar alguns dias com você. Sinto saudades das suas histórias.

— Veio? Carter vai te jogar nas galinhas. — tossiu ao final.

— A gente aprende a dividir. — brincou.

— Como tá a vida com esse povo novo? Novas histórias? C-conte-me. — tossiu novamente.

— Tantas coisas me aconteceram. Algumas boas, algumas tristes, o natural da vida. Fiz novos amigos, desfiz amizades. — falou enquanto a olhava nos olhos. — Usei muito dos seus ensinamentos em relação à humanidade. Chorei, sorri, beijei... — ele falou sorridente.

— Eu sei que você está namorando. Eles ainda me contam algumas coisas...

— Conheci alguém. Talvez o vovô o odiasse se ainda estivesse vivo. — refletiu alguns segundos e continuou. — Ele tem o cabelo vermelho.

— Cabelo vermelho? Égua! D-durante toda minha vida, só vi uma pessoa de cabelo vermelho.

— Pois, vovó, ele tem cabelo vermelho. Tem muitas tatuagens e algumas cicatrizes. — Edgar não escondia nada de sua avó. — Quem o vê até tem medo de se aproximar.

— Seu avô o expulsaria daqui de espingarda.

— Certamente. Mas eu me colocaria na frente da espingarda, vovó. Eu descobri que ele não é um vilão. Eu adoeci e ele ficou a madrugada inteira comigo. Ele me leva pra sair e me ajuda nos estudos. Ele é muito inteligente, mesmo que não pareça. Às vezes acho que ele me esconde alguma coisa, mas não tenho coragem de perguntar. Prefiro deixar com que o tempo faça isso.

— Nunca é bom forçar.

— Por isso mesmo. Não brigamos muito, pra ser bem sincero, não consigo me lembrar de alguma discussão. Talvez por algumas vezes em que eu desliguei o telefone e esqueci de ligar. Ele tem medo de me deixar sozinho, diz que o mundo é perigoso.

— Ciúmes, uai.

— Não. Ele não é ciumento, vovó. Sempre respeitou minhas amizades, mesmo que meus amigos não gostem muito dele... Eu entendo. Mas ainda não o vi com ciúmes. Ele tem um extinto de proteção como o seu. Está sempre preocupado e cuidando de mim.

— Q-queria ver esse menino do cabelo vermelho. — Olivia tossia.

— Eu o trouxe. Quer vê-lo? — perguntou com um sorriso de ponta a ponta.

— Mas é claro, uai.

— Espere um momento.

Edgar voltou a sair do quarto e buscou seu namorado na cozinha, pediu licença a sua tia Nora e segurou na mão do ruivo — gesto involuntário. Joshua o acompanhou até o quarto pequeno, tendo que abaixar um pouco para passar pela porta.

Ao bater os olhos em Olivia, Joshua descobriu o porquê de ela ser tão bem cuidada pelos filhos e netos. Ela aparentava ser muito frágil pela sua idade.

Edgar fechou a porta e o ruivo ficou do seu lado. À medida que o loiro se aproximava, o namorado o seguiu. Ele olhou todos os detalhes da avó de Edgar, inclusive constatou os mesmos olhos azuis que seu namorado herdou.

— Se aproxime mais. — ela pediu. — N-não vejo bem de longe.

Edgar, parado o olhou e franziu os lábios, para que ele realmente se aproximasse dela.

Em passos lentos, o ruivo foi andando até parar ao lado da cama.

— Quase toca o céu...

E algo dentro do ruivo aqueceu.

— Só mais uns centímetros.

— Sente-se aqui, d-deixe tocar o seu cabelo. — pediu, fraca.

Joshua sentou-se na beirada da cama, percebendo que Oliva tentava retirar sua mão debaixo do cobertor, ele a ajudou. Segurou em sua mão, abaixou sua cabeça e a deixou tocar em seus fios.

Olivia mexia seus dedos e disse:

— É de verdade. — ela disse.

Olivia foi retirando as mãos aos poucos, mas seus olhos que desciam pelo corpo de Joshua, passou a observar as tatuagens do ruivo. Ela tocou em seus braços, devagar, como se se estivesse tocando-o com uma pena.

— Isso é estranhamente bonito.

— Você achou bonito? — Joshua perguntou.

— Sim. É como se fosse um quadro pintado, mas... mas em um corpo. E-eu sempre gostei da arte. Meus pais n-nunca apoiaram essa ideia. — falava enquanto tossia.

— Meus pais nunca aprovaram a ideia, mas depois acostumaram.

— Meu pai teria arrancado meu couro.

Joshua olhou para trás e viu Edgar sorridente, observando-os.

— Ainda não sei o seu nome.

— Joshua. — respondeu. — Joshua McGraien.

— Oh, égua!

— Vovó? — preocupado, Edgar perguntou.

— A única pessoa de cabelos vermelhos que eu vi, tinha esse mesmo sobrenome.

Ela tentava olhar para seu neto. Olivia mencionou a ele que só viu uma única pessoa ruiva.

— Gavetas. Fotos. Procure. — ela disse palavras soltas, mas que gerou compreensão.

Edgar a obedeceu e buscou por fotos nas gavetas. Ele sentou ajoelhou ao lado do ruivo e próximo da sua avó. Juntos, passou foto por foto para que sua avó identificasse, mas Joshua que bateu os olhos primeiro na fotografia.

— Essa. — Olivia falou.

Edgar então olhou a fotografia.

Olivia estava sentada numa cadeira, ao lado dela estava Bento, seu marido, e Toby. Lilian, grávida, estava ao lado do irmão. Nora estava sentada no chão. Em frente aos irmãos estava Lia, a mãe do Edgar, segurando um bebezinho. Outra pessoa estava na foto, ao lado esquerdo de Olivia: a mãe do Joshua.

A foto não era tão colorida e estava desgastada.

Naomi, naquela época fazia uma reportagem naquelas fazendas. Foi quando conheceu a família Turner, e que acabou lhe concedendo uma entrevista. A foto foi a pedido de Olivia, que queria registrar um momento como aquele.

— Ela é minha mãe. — disse o ruivo, observando as feições joviais de sua mãe naquela foto.

Joshua pegou a fotografia e passou a observar a mulher segurando o bebezinho. Tão parecida com Edgar que o fez olhar para o namorado e comparar com a foto. Algo nele aqueceu mais uma vez. Era realmente satisfatório saber que sua mãe chegou a conhecer aquela família.

Edgar também estava surpreso, mas seus olhos estavam presos na fotografia na mão do ruivo, observando sua mãe sorridente. Ele tinha fotos dela, mas aquela era nova, ele nunca a tinha visto.

— As estrelas escrevem momentos como esse. — Olivia comentou. — Eu sempre acreditei em coisas do destino.

— Ela vai ficar muito feliz em saber que eu os conheci. — comentou o ruivo, entregando a fotografia ao loiro, que permaneceu olhando-a.

Carter ainda na barriga de Lilian. Seus tios mais novos, sua mãe, seu avô e Naomi, segurando um microfone e sorridente.

— Traga-a aqui mais uma vez. — pediu.

— Tentarei. — respondeu.

Alguém bateu a porta. Edgar e Joshua olharam para trás e viram a cabeça de Carter surgir.

— Vovó. Está na hora do remédio. — falou e entrou.

Joshua afastou-se da cama e Edgar fez a mesma ação. Carter aproximou-se da sua avó segurando uma xícara com água e um comprimido.

— Não vai esconder na língua, hein. — Carter advertiu, mas sorrindo. — Ed, me ajuda aqui.

Mas foi Joshua quem se prontificou de dar a volta na cama e tomar Olivia pelas costas, erguendo-a um pouco de maneira que ficasse confortável para beber a agua e ingerir o comprimido.

Depois de feito, Joshua repousou o corpo de Olivia sobre a cama e Carter arrumou o cobertor.

— ‘Cês não tão com fome não? — ele perguntou. — Nora terminou, já que ela volta pra chamar todo mundo.

Edgar olhou para Joshua. O conhecia e sabia que ele estava com fome. Principalmente pela viagem longa, onde pararam horas antes pra comer algo rápido antes de voltarem à estrada.

O loiro e futuro bioquímico voltou a se aproximar da cama, beijou a testa da sua vó e sussurrou:

— Eu volto pra conversarmos mais.

Olivia não disse nada, mas seus olhos bondosos demonstraram compreensão. Depois seus olhos seguiram até Joshua, que estava parado. Ela pôde constatar mais uma vez o quão alto ele era e perceber, assim como Joshua, uma aura de mistério que o cercava.

Edgar tocou o braço do namorado, mas o ruivo, num gesto quase involuntário, aproximou-se da cama, segurou na mão de Olivia e disse:

— Obrigado.

Carter e Edgar não compreenderam o motivo daquele agradecimento, mas Olivia esboçou seu sorriso fraco. Ela sabia do que se tratava.

— Daqui pra frente a tarefa é sua. — ela murmurou.

Joshua olhou para Edgar por alguns segundos, o loiro ainda sem conseguir compreender. O ruivo desceu seus lábios à testa de Olivia e depositou um beijo demorado naquela região.

O ruivo voltou a ficar de pé e caminhou até ficar ao lado do seu namorado. Edgar voltou a segurar em seu braço e juntos, acompanhado de Carter, saíram daquele cômodo.

Os três foram para a sala e encontraram todos os moradores daquele lugar reunidos ali.

— Olha a comida! — Nora gritou da cozinha.

E seguiram todos para a cozinha, juntando-se ao redor da mesa não muito grande, mas que conseguiu comportar todos eles, ainda que apertado fosse o espaço. Toby acabou cedendo espaço quando resolveu ficar de pé e comer na janela. Nora fez o mesmo e se juntou ao marido.

Lilian pôs a comida no prato das crianças enquanto os demais se serviram com milho cozido, guisado de carne e salada, sendo a terceira opção um hábito que não era tão comum para o ruivo, já que vivia de industrializados.

— Eu sou a Zoe! — a garotinha se manifestou, apresentando-se ao ruivo. Ela usava um vestido amarelo e seus cabelos estavam presos.

— E eu sou o Elis! — o garotinho, sem camisa e usando apenas uma bermuda e calçados, levantou a mão, queixo todo sujo de comida.

Joshua, comendo, ficou olhando-os enquanto todos ao redor da mesa riam.

— E aquele ali é o Louis. — Edgar apontou para o primo que não parava de comer.

— São os três pestinhas da casa. — Georgia falou. — Parecem anjos, mas viram isso aqui de cabeça pra baixo.

Zoe puxou a cabelo da prima.

— Égua, desgraça! — Georgia berrou. — Viu?

A gargalhada tomou conta do lugar.

— Já comeram? Então vamos, vamos saindo daqui! — disse Georgia recolhendo os pratos dos menores.

Ela realmente saiu expulsando-os do lugar, mandando-os brincar fora da casa. As crianças, como de costume, saíram gritando em um único coro.

Georgia voltou à cozinha e se sentou, podendo finalmente comer em paz.

— Logo mais tenho que dar banho na mãe. — Lilian comentou.

— A comida dela tá separada.

Carter ficou de pé.

— Deixa que eu faço isso. — Edgar também ficou de pé. — Eu aproveito pra ficar mais um tempo conversando com ela.

— O Carter aproveita pra tirar leite de cabra. — Toby lembrou.

— Se aquela cabra me atacar de novo? Égua!

— Larga de ser medroso e vai cuidar da Nina. — Toby novamente provocando-o.

Eles conversaram mais alguns segundos até que Carter voltou a falar da sua avó, relembrando dos remédios que estavam acabando.

— Eu trouxe isso aqui, acho que vai servir pra ajudar a comprar. — Edgar puxou do bolso a pouca grana que tinha e pôs sobre a mesa.

— Até semana que vem nós conseguimos juntar tudo. — Nora comentou.

— Se os tomates estiverem bons, amanhã eu volto na feira pra vendê-los. — comentou Lilian.

— Não sei não... — balançou a cabeça — a vovó aparenta está tão doente... — Carter, entristecido repentinamente, comentou, os braços sobre a mesa.

— Eu posso ajudar? — Joshua abriu a boca, finalmente.

Ele então puxou do seu bolso uma carteira, a abriu e tirou algumas notas, o suficiente para comprar algumas caixas de remédio que renderiam por um mês.

— Não, Joshua, n-não é preciso. — falou o loiro, devolvendo o dinheiro.

Toby ficou em silêncio. Nora, a mais sentimental, ficou emocionada de tal maneira que seus olhos brilharam pelas lágrimas que pairavam e Lilian, ao contrário de Edgar, reconheceu que era preciso.

— Isso não vai te fazer falta? — perguntou a filha mais velha de Olivia.

Joshua balançou a cabeça negativamente.

— Deus lhe pague. — Lilian recolheu o dinheiro, para a surpresa de Edgar.

Joshua não era religioso, mas aceitou a frase com respeito. Guardou sua carteira e ficou olhando para Edgar. O loirinho se levantou chorando, recolheu a comida da sua avó e saiu da cozinha sem falar nada.

— O que deu nele? — Carter perguntou.

Joshua ficou de pé, teria ido atrás do seu namorado se Nora não interferisse.

— Olivia vai cuidar disso. — disse ela.

— Eu não queria causar uma má impressão. — disse o ruivo.

— Edgar não está com raiva. — Nora tentou confortá-lo.

Joshua, ainda assim, queria segui-lo. Um sentimento de culpa tomou-lhe conta.

[...]

Joshua ajudou Toby a cortar lenha. Talvez passar o tempo ocupando a mente o deixaria menos preocupado, longe da loucura que lhe tomaria conta na ausência do seu namorado que saiu chorando sem dar explicações.

Ele conheceu mais do Toby e da sua família, que inclusive até lhe contou sobre o carinho que Nora tinha por Edgar. Toby contou que por muito tempo considerou o relacionamento de pessoas do mesmo sexo uma coisa estranha, nunca agrediu ninguém física e verbalmente, mas seus pensamentos eram de que isso não era correto, mas Nora aos poucos foi ajudando-o a se desfazer dessas ideias errôneas.

Depois de cortarem as lenhas, Joshua obviamente precisou de um banho. Toby indicou o banheiro da casa, mas Joshua optou pela mangueira no centro da fazenda, juntando-se as três crianças que pediram para se molhar.

Mangueira, água e criança tinha como resultado uma algazarra sem fim. Elas amavam isso.

Lilian assistia da varanda seu filho e sobrinhos se divertindo. Carter galopava em seu cavalo, em seguida alimentava-os. Joshua, depois do banho, se arriscou a tentar tirar leite da cabra, mas a tarefa não foi tão fácil como ele pensava. A cabra correu atrás de Carter, fazendo-o saltar a cerca.

O ruivo agora estava na varanda, sozinho. O dia em breve terminaria e Edgar ainda não saiu do quarto. Sem camisa, Joshua observou Carter se aproximando montado a um cavalo. O loiro tinha na cabeça um chapéu típico da região.

— Quer aprender a andar de cavalo? — perguntou.

— Hoje não. — respondeu.

Realmente não estava interessado. Queria mesmo que seu namorado aparecesse, conversasse com ele e explicasse o que aconteceu na cozinha.

— Tem cavalo no lugar onde ‘cês moram?

O ruivo balançou a cabeça negativamente.

— Nenhum animal?

— No máximo gato ou cachorro.

— Sempre tive vontade de conhecer a cidade grande. Eu nunca saí desse lugar. Parei de estudar porque era muito difícil dedicar tempo à fazenda e à escola. Vovó adoeceu e eu acabei preferindo ficar aqui.

— É estressante viver no lugar onde moramos.

— Uai? — soou como uma indagação.

— Aqui é tudo muito calmo. Em Seattle é tudo muito corrido.

— Eu queria morar lá, conhecer, qualquer coisa. Queria ser como meu primo Edgar. Voltar falando diferente, todo pomposo.

— Não gosta daqui?

— Gosto. Amo por demais! Mas ultimamente venho pensando em viver a vida na cidade grande, cheia daquela gente, estudando, comendo todas as aquelas coisas que vocês comem. Edgar me fala tanta coisa boa de lá.

— Não é tão belo quanto você imagina.

— Mas eu não conheço nada da cidade grande, todo mundo riria de mim. Sou caipira mesmo. Sei nem mexer direito nessa coisa que vocês usam pra ligar.

Mas a conversa foi interrompida quando Edgar apareceu na soleira da porta. O ruivo no mesmo instante o olhou, sem prosseguir com o diálogo. Carter, respeitando aquilo, deu meia volta com o cavalo e se afastou, gritando algo ao vento pra o animal ganhar velocidade.

— Ela dormiu. — disse o loiro aproximando-se e encostando os braços na mureta de madeira, observando seu primo distante.

O ruivo encostou a bunda na mureta, dando as costas para a paisagem. Ele ficou olhando seu namorado quieto, em silêncio.

— Desculpa por ter saído daquela forma.

— Eu queria entender o que aconteceu.

— Eu não gosto dessa sensação de que estou te usando para isso.

— Me usando?

— Sim, Joshua. Sempre sou eu a precisar das coisas. Eu não estou com raiva de você, mas estou triste por não termos o dinheiro.

— Eu só queria ajudar.

— Eu sei, eu reconheço sua intenção. Mas... Você não entende como me sinto. Vou te pagar tudo assim que conseguir.

— Por que esse orgulho, Edgar? Você não é assim...

— Foi um ato muito generoso, Josh. Eu serei eternamente grato a você. Talvez eu só não esteja sabendo lidar com tamanha bondade. Desculpe-me. — admitiu.

— Você acha que não me ajuda? Olha o que eu me tornei por causa de você.

— Desculpe, desculpe... — repetiu diversas vezes, fechando os olhos e balançando a cabeça negativamente.

O ruivo tocou-lhe o queixo, parando o movimento que ele fazia. Edgar abriu os olhos e se perdeu no olhar do namorado.

— Eu preciso mais de você do que você precisa de mim.

Edgar olhou a própria mão e viu o anel, recordando-se do dia em que recebeu o pedido de namoro. Num gesto meigo, o loiro depositou um beijo rápido nos lábios do ruivo.

— Quer dar uma volta? Aqui atrás passa um riacho. Aliás, eu acho melhor te ensinar a montar num cavalo e irmos junto com o Carter.

— Você sabe montar em um cavalo?

— Não sei dirigir um carro, mas de cavalo eu entendo. — sorriu e piscou.

— Isso não é perigoso pra você?

— Eu namoro a pessoa mais perigosa do Ninho. — falou ainda sorrindo.

Depois disso, Joshua não teve mais argumento. E foi arrastado pelo namorado que gritava por seu primo Carter.

[...]

O céu daquele lugar era muito estrelado. Ele tinha a sensação de que estava mergulhando naquele mar de estrelas. Joshua não parava de olhar pra cima enquanto voltava para casa após guardar algumas coisas no carro.

O ruivo acabou encontrando seu namorado na varanda, aguardando-o. Os dois recém tinha tomado banho após voltarem do passeio no riacho, que aliás, Joshua se identificou bastante ao se lembrar das trilhas que costumava fazer, inclusive do trágico dia em que Edgar se acidentou na atividade da universidade e eles saíram desesperados buscando uma abrigo da chuva.

O jantar foi tão divertido quanto o almoço: as crianças provocando Georgia, Toby implicando com Carter e Nora e Lilian conversando. Joshua, calado, ria e prestava atenção em todas as histórias que ouvia.

Depois do jantar, eles foram pra varanda. Conversaram mais e Carter se tornou o assunto por suas histórias engraçadas de quando era menor. O seu encontro com uma cobra, de quando as galinhas correram atrás dele e coisas do tipo. Edgar não perdeu a oportunidade de contar como foi sua primeira vez jantando na casa do ruivo e o quão engraçado foi a maneira que Joshua o tirou da mesa.

— Essa gente acha que somos bicho do mar. Um polvo. — Toby comentou.

— Como diabos a gente vai segurar tanta colher? — Carter ficou tão impressionado quanto Edgar no dia em que ficou cara a cara com todos aqueles talheres.

— Além de que esse povo come feito galinha, de pouquinho em pouquinho. Eu gosto de comer muito! — Toby continuou falando.

Rajadas de risadas tomava conta da fazenda.

Antes de dormir, Edgar foi novamente conversar um pouco com sua avó. Não demorou tanto, tendo em vista que era melhor deixa-la descansando. Carter deu-lhe novos remédios e Nora fez sopa para ela.

Joshua bocejou enquanto eles ainda conversavam.

Ele estava acabado fisicamente por ter dormido tão pouco e ser acordado na madrugada. Seu corpo implorava por descanso. Tanto ele quanto Edgar estavam realmente exaustos, mas o dia foi tão cheio de atividades que eles nem sequer se permitiram um descanso.

— Coitado do garoto, deve está tão cansado. — Lilian comentou, vendo-o bocejar.

— Nada não, podem continuar conversando. — disse o ruivo.

— Eu vou arrumar um espaço pra você dormir. — Nora se levantou.

— O celeiro. Eu posso dormir lá com ele. — Edgar interrompeu.

— Dormir no meio dos bichos? Nós daremos um jeito.

— Mas a casa mal tem espaço pra todo mundo. — ele ainda tentava explicar.

Carter dormia com sua avó, em um cobertor grosso que ficava no chão ao lado da cama. Nora e Toby dormiam com seus dois filhos no outro quarto da casa. Lilian dormia com Georgia na sala com Duke, o cão.

— Isso não é correto. — ela falava.

— Eu já dormir lá algumas vezes, não é tão ruim quanto parece.

— Toby, pega as crianças e vamos pro celeiro. — Toby a olhou assustado. — A cama é da visita.

— Égua, mulher. O Edgar tá dizendo que não tem problema. O menino de cabelo vermelho não está reclamando.

— Tia, é sério, não precisa se sacrificar tanto. Lá no celeiro é quentinho, o frio não vai nos castigar. — Edgar continuou.

— Vocês me deixam de cabelo branco! — resmungou. — Então eu vou pegar cobertor e travesseiro e arrumar lá.

— Nós vamos juntos. — o loirinho se levantou e, consequentemente, o ruivo.

— Posso estacionar o carro lá próximo?

— Tu sabe dirigir trator? — Toby perguntou.

Joshua negou.

— Então ainda é fraco. Um dia eu te ensino, só falta ter trator. — brincou.

Depois de se despedirem, Joshua foi até o seu carro e o estacionou próximo ao celeiro. Nora e Edgar já estavam caminhando pela fazenda com os travesseiros e cobertores.

Ela pôs dois cobertores grossos sobre a montanha de capim seco. Edgar separou os travesseiros e pôs lado a lado. O ruivo ficou observando o espaço pequeno que comportava os animais, tais como os cavalos e as cabras, presos em cabines separadas.

— Amanhã cedinho venho chamar vocês pro café da manhã. — Nora disse. — Qualquer coisa pode bater na porta de casa caso não se sintam confortáveis aqui. Boa noite.

— Boa noite, tia. — disse ao receber um beijo dela.

— Boa noite. — e Nora também beijou a bochecha de Joshua, para a surpresa dele.

— Até amanhã. — se despediu.

Edgar precisou de ajuda para fechar a porta do celeiro. Feito isso, restou apenas ele, o namorado e os animais, que quietos estava em seus lugares.

Edgar foi se aproximando do lugar que dormiria, tirou os sapatos e ficou com as meias. Deitou-se. Joshua repetiu a ação do namorado e, quando ia se deitar, o loiro olhou sobre os ombros dele.

Joshua olhou para trás e viu uma corda de metal. Entendendo o recado, a puxou e a luz foi apagada. Em seguida ele se deitou.

Não era tão desconfortável quanto ele pensava. Não era duro como o chão e nem tão macio quanto uma cama, mas não o incomodava. Exceto pelo barulho que fazia quando se mexia, mas nada estrondoso.

A pouca iluminação oferecida não os impedia de olhar nos olhos, deitados lado a lado, de frente para o outro.

— É tão diferente do seu mundo. — disse o loirinho, tocando a bochecha do namorado, acariciando-a com o dedo indicador.

— Chato seria se fosse igual.

— Queria poder te proporcionar situações melhores que essa. Quando eu me lembro da vez que dormir no quarto da sua casa e olho para o lugar que estamos agora... A diferença é muito grande.

— Aquele lugar não me agrada. — falou e tocou os fios loiros na testa do namorado. — E aqui eu estou com você, isso é o mais importante.

— Minha família gostou de você, principalmente o Toby e Nora.

Joshua nada disse, mas ficou satisfeito em saber disso.

— Minha avó também gostou de você. Contei como nos conhecemos e do momento constrangedor que passei ao cair de cara no chão bem próximo aos seus pés. — e sorriu.

— As estrelas escrevem. — reforçou a frase que ouviu de Olivia, a avó de Edgar.

— Acha que estávamos predestinados?

— Não sei, mas essa frase me deixou pensativo. Talvez ela tenha razão, talvez não. Só sei que eu nunca vou esquecer do dia de hoje.

— Você realmente gostou?

— Edgar, não tem porque achar que eu não gostei. Eu conheci a sua família, vivi o que você viveu, descobri mais do seu mundo.

Joshua era péssimo em expor sentimentos, por isso suas frases eram tão curtas.

— Eu te amo, Josh. — falou o loiro, fechando os olhos. — Obrigado por me trazer aqui.

Joshua levou a mão da testa à nuca do namorado, aproximou seu rosto ao dele e o beijou. Um beijo duradouro, com tantos sentimentos e amor, que o celeiro poderia explodir por não suportar a carga sentimental.

Acomodando-se, Edgar repousou sua cabeça no peito do namorado e o abraço. Joshua se encarregou de cobri-los.

Eles dormiram.

O dia se encerrou.

Quando Joshua abriu os olhos ao som do galo, não encontrou seu namorado abraçado a ele. O sono pesado sequer o fez perceber isso. O ruivo olhou o seu relógio: eram cinco da manhã. Cedo demais para ele, mas algo não estava correto. Os animais não estavam mais presos. Onde estaria seu namorado?

Joshua, esfregando os olhos, calçou seus sapatos e saiu do celeiro. Distante viu os animais próximos a casa, notou Toby de cabeça baixa na varanda, Lilian sendo abraçada por Georgia e Nora. Ele não viu seu namorado ali, por isso acelerou seus passos.

Chegou a casa e descobriu que todos estavam chorando, todos, sem exceção.

Toby balançou a cabeça pra ele, dando sinal de que ele deveria entrar. O ruivo assim fez e entrou, encontrou Carter na porta do quarto de Olivia, enxugando os olhos enquanto chorava.

Desesperado, Joshua passou por ele e viu seu namorado sentado na beirada da cama, segurando a mão da sua avó, que repousava de olhos fechados. Aos pés da cama, estava Duke, deitado.

Olivia partiu desse mundo.

Edgar chorava quieto. Não gritou, não fez escândalo, mas as lágrimas desciam sem parar, sem interrupções, sem intervalos. Sua cabeça baixa, alguns soluços e pensamentos únicos; lembranças de sua avó quando viva.

Joshua não se moveu, respeitou o espaço do seu namorado naquele instante. Queria recolhê-lo daquele lugar e guardá-lo em um abraço seu. Não podia, infelizmente.

Era a lei da vida. Alguns, infelizmente, teriam que partir desse mundo. Essa era a maior certeza da vida.

Olivia deixou seis netos, dois filhos e uma nora. Mas os educou tão bem e deu o melhor de si durante todos os anos de sua vida. A recompensa estava exatamente ali, em tê-los sem que se perdessem nesse vasto mundo. Eles nunca a abandonaram. A maior herança deixada foi o amor.

Até mesmo o mais duro coração se compadeceu do momento. O ruivo não chorou, mas sentiu a dor daquela família que o acolheu.

Edgar soltou a mão da sua avó, se levantou e viu o seu namorado. Naquele instante ele não resistiu e correu ao seu abraço, molhando as vestes do ruivo com suas lágrimas e seus soluços abafados. A dor da perda.

Joshua beijou-lhe a cabeça tantas das vezes e o abraçou de modo como se estivesse protegendo de todo e qualquer perigo.

Quebrado. Joshua se sentiu quebrado, desmontado aos poucos só pela dor e choro do seu namorado. Também se sentiu vulnerável. Tais sentimentos eram semelhantes aos do dia em que Edgar foi pego por Noah. O coração estava metralhado, esmagado. A incapacidade de retirar a dor que ele sentia o deixava assim.

— Eu te amo, Ed. — disse, beijando a bochecha do namorado. — Eu te amo, loirinho. — e beijou a cabeça mais uma vez. — Eu te amo. — beijou-lhe o outro lado do rosto. — Eu te amo mais que a mim. — e beijou-lhe a testa.

Quem tanto poupou dizer essas palavras, soltou várias de uma só vez, na tentativa de amenizar a dor do seu namorado. O sentimento e extinto de proteção de um homem apaixonado. A primeira vez que de seus lábios saiu um eu te amo para o loirinho.

Edgar chorou pelos dois momentos. Apertou as vestes do seu namorado e fechou os olhos com tanta força enquanto chorava, a ponto de mais uma vez soluçar.

— Era como se ela estivesse apenas me esperando para se despedir. — falou o loirinho.

Olivia foi enterrada ao final da tarde, pelos próprios filhos, em um cemitério nos fundos de uma capela distante da fazenda.

“As estrelas escrevem...”

[...]

Dois dias após o falecimento de Olivia, eles sentiam a dor da perda, mas aceitaram. Sabiam que Olivia merecia seu descanso.

As coisas estavam arrumadas no carro. Edgar não falava muito, Joshua permaneceu respeitando o seu luto. Obviamente, não poderia fazer mais nada. Se antes já era atencioso, agora se tornou o dobro, cuidando dele a cada piscar de olhos.

Edgar voltou para a casa, onde todos estavam esperando-o na varanda para se despedir. Lilian foi a primeira a ser abraçada, em seguida veio Georgia. Edgar beijou a testa de todas as três crianças e apertou a mão de Toby, quando chegou a vez de Nora, a explosão de sentimentos mais uma vez aconteceu ali. Ela chorou e ele também. Um abraço demorado já sentindo a dor da saudade.

Nora, após palavras de conforto, beijou-lhe a bochecha novamente e, com os olhos úmidos, ficou olhando-o.

— Nunca esqueça que nós te amamos. Futuramente não nos encontraremos mais nesse lugar, mas minha casa sempre terá espaço para você e seu namorado.

A fazenda seria vendida. Não dava mais pra viver naquele lugar. Um acordo entre os dois irmãos acabou tendo essa decisão tomada. Eles ainda iriam morar juntos, jamais se viram separados. Com o dinheiro que conseguissem na venda, certamente teriam melhorias de vida numa casa da cidade vizinha. Apesar de a fazenda ser velha, o terreno era valioso e rendia espaço pra mais fazendeiros.

— Me mandem notícias de toda a mudança.

— Não esqueça de nos ligar assim que chegar. — Lilian pediu, chorosa.

Edgar se virou para a tia e confirmou com a cabeça, até que seus olhos bateram no olhar de seu primo.

Na porta estava Carter, segurando uma mala na sua mão. Ele decidiu ir com o primo, arriscar uma vida em Seattle. Era sua vontade. Sua avó tinha lhe dito para que buscasse aquilo que fosse melhor para ele. Como ele mesmo dizia “Meu lugar não é mais aqui.” Queria voltar a estudar, seguir seu sonho.

— Vamos? — Edgar perguntou.

— Vamos. — respondeu.

E a despedida, dessa vez, veio da parte de Carter. Que abraçou, também, seus tios e primos.

Edgar apostava todas as suas fichas em Joshua. Se ele falou que conseguiria resolver a situação dos estudos de Carter, deixaria na mão dele. Agora só conseguia pensar em como falar com Caine, mas tinha a certeza de que seu líder não o deixaria na mão.

Joshua foi o último a se despedir, mas assim fez educadamente.

O ruivo guardou as coisas de Carter no carro enquanto os dois já estavam dentro do automóvel. Ele acenou uma última vez pra família que estava na varanda e também entrou.

— Estou indo, cidade grande! — Carter exclamou.

Edgar tocou a mão de Joshua antes dele ligar o carro, observou-o por alguns segundos e, na frente de Carter o beijou, sussurrando:

— Eu te amo.

— Eu também te amo. — disse o ruivo, olhando em seus olhos.

E então partiram. A pequena fazenda foi ficando pra trás, Edgar e Carter ainda observaram seus parentes na varanda, tornando-se pequenos até que desaparecessem na primeira curva que fizeram.

Saudades.

Notas finais
Um capítulo especial de Josghar pra vocês. Em República de Tigres, esse é meu capítulo favorito até agora. Depois respondo os comentários. Beijos e até o próximo capítulo com as loucuras dos personagens da Quadra Nove e Ninho.