República de Tigres
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Calvin, a princípio, não deu bola para o que Charles tinha revelado, ou melhor, relembrado. De fato ele esteve como garçom numa festa há três anos, contudo não conseguia se lembrar do garoto.
— Não me recordo de você. — disse o leonino.
— É realmente bom que não se recorde. Agora saia do meu gramado. — Charles ficou de pé e cruzou os braços.
Imediatamente a lembrança veio à tona. Calvin finalmente obteve as recordações daquele dia.
— O aniversariante que acabou com a própria festa de aniversário.
— Saia! — exaltou-se o tigre.
— Escuta aqui, garoto...
E de repente duas mãos tocaram o peito nu de Calvin, empurrando.
Charles, com o pouco tamanho que tinha se comparado ao leonino, simplesmente mostrou que não se intimidava. Era, de fato, um Ferazza bem ousado. Carregando o sangue daquela família que não baixa a cabeça para ninguém.
Calvin não acreditou naquilo. Ficou segundos observando o chão, calculando o passo pra trás que havia dado após o empurrão. Como aquele pequeno pôde ter feito isso?
— Eu mandei você sair do meu gramado. — Charles falou, olhando-o.
— Quer que eu pegue leve ou pesado? — largou a bola de basquete e fechou uma mão e a esfregou na outra.
— Iria se arrepender se por ventura resolvesse levantar uma mão pra mim. — sorriu de lado.
— Uma ameaça?
— Várias. — disse objetivo, ainda esperando o ataque. — Agora saia do meu gramado antes que achem que estou me misturando com você.
Quando Charles pensou em empurrá-lo mais uma vez, Calvin dessa vez conseguiu segurá-lo em suas duas mãos, e depositou força nos pulsos do garoto, deixando-o com uma cara de dor imediatamente.
Mas Charles simplesmente usou os dois pés, saltando e chutando o estômago de Calvin, que consequentemente o largou, mas assistiu o tigre cair de costas no chão.
Calvin deu alguns passos a frente, mas imediatamente parou quando viu a porta a sua frente ser aberta e de lá Sean surgiu.
— Não ouse continuar. — disse o líder da república para Calvin.
Charles ficou de pé, limpando-se. Ele estava louco pra avançar em Calvin, mas o fato de seu primo ter surgido, acabou fazendo-o pensar um pouco sobre a ação.
— É melhor amordaçá-lo. — Calvin falou.
— Saia daqui. — Sean pediu com seu jeito grosseiro de ser, embora não soasse agressivo.
Calvin por segundos ficou encarando Sean, mas em respeito ao Colin, optou por não criar uma confusão. Com isso, ele recolheu a bola de basquete e deu as costas, deixando-os para trás. Mas isso não o fez com que entrasse na república, Calvin simplesmente voltou a praticar seus arremessos.
Charles olhou para Sean e passou por ele.
— Você não vai conseguir me parar. — falou o mais novo morador da república.
— Pelo contrário, vou amar vê-lo tomando uma surra. — falou para si, fechando a porta.
[...]
Tudo voltou a ser como era antes; a universidade tomada por universitários pelo retorno das aulas. Por onde quer que andem, seja no prédio que for, há jovens por todos os lados. Alguns dentro da sala de aula, outros fora. Tinha pessoas dormindo pelos cantos, tendo em vista que perderam o controle do sono no período das férias.
— Odeio o mês de agosto. — Colin falava enquanto andava com Caine.
— Eu gosto, significa que o outono está logo aí. — contrariou o amigo. — Não seria melhor você dizer que odeia o retorno às aulas?
— Talvez seja isso.
— Não deveria ficar feliz, já que está mais próximo do seu aniversário?
— Meu aniversário é só em outubro, Caine. — olhou para o celular, tinha recebido uma mensagem.
— Isso significa que temos dois meses para planejar seu aniversário. — sorriu. — Nas últimas vezes não fizemos festa, dessa vez acho que seria uma boa ideia.
— Não quero festa grande como fizeram pro William. — falou e guardou o celular no bolso novamente.
— Podemos sair pra comemorar, como fizemos nas últimas vezes. Enfim, você tem razão, ainda é cedo demais pra pensar nisso.
— Sean está no restaurante próximo ao prédio de odonto. Você quer ir? — questionou ao amigo.
— Não vejo problema. Mandarei uma mensagem pro Dan dizendo que estou indo pra lá.
Caine no mesmo momento buscou por seu celular na mochila e fez o que havia dito.
— Como pode o Danion trancar administração pra fazer odontologia? — Colin mantinha no rosto um olhar de quem considerava a ideia estúpida.
— Ah, Colin, deixa ele. Vai que ele se encontra?
— Espero que realmente se encontre. O problema vai ser o Danion se segurar caso encontre o Sean por lá... — revirou os olhos.
E os dois seguiram caminhando até o bloco de odontologia. Era um prédio enorme e branco, atrás dele tinha um belo campo com árvores que abria caminho para o prédio de medicina, tão grande quanto.
O moreno e líder dos Tigres esperava o namorado na entrada do prédio. Sean não vestia roupas brancas naquele primeiro dia de retorno às aulas, mas nos próximos dias que seguiriam, ele deveria está vestindo-as.
— Espero que a comida seja realmente boa. Você me fez andar muito até aqui. — Colin aproximou-se falando.
— Não seria você se aparecesse aqui sem resmungar. — Sean falou. Depois olhou para o Caine, cumprimentando-o apenas com o olhar.
— Caine pensa igual a mim. — Colin obviamente mentiu.
— O quê? Eu não disse nada. — se defendeu.
— Disse sim! — reforçou a mentira.
— Colin, cala a boca. — Sean falou imediatamente. — Vamos?
— Espera! — exclamou. — O Dan.
— O Danion vai? — Sean olhou para o namorado, não acreditando naquilo.
— Não é uma boa ideia, não é? — Caine perguntou, observando a expressão do Sean. — Podem deixar então, eu irei pra outro lugar com ele.
— Não! Vocês vão conosco. — Colin logo segurou no ombro do amigo.
O leonino jamais abriria mão da presença do Caine. Eram amigos e nada interferia nessa amizade.
— Ter três pessoas me esperando, isso não é lindo? — Danion apareceu bem atrás deles, do lado de fora do prédio.
— Invocamos o diabo. — Colin revirou os olhos.
Danion aproximou-se, tomou Caine pelo ombro e beijou a testa do namorado. Bem diferente de Sean e Colin, que começaram brigando e até agora nem uma ação de carinho fizeram. Mesmo com todo preconceito existente dentro da universidade, Danion não conseguia ser tão discreto.
— Acho que já podemos ir. — Caine estava com um sorriso de ponta a ponta.
O fato de Caine estar feliz se relacionava a presença do namorado e do melhor amigo com seu companheiro. Ou seja, uma espécie de encontro de casais que aconteceu involuntariamente.
— Não acho que seja uma boa ideia irmos pra o restaurante aqui de perto. — Danion logo disse.
Sean simplesmente resolveu ignorar o branquelo e saiu andando, Colin certamente o seguiria. Danion não iria estragar os planos dele.
— Está lotado. — o branquelo elevou a voz. — Vamos ter que esperar filas só pra conseguir nos servir.
— Fila é o menor dos problemas. — Colin disse. — É o que faz um restaurante universitário.
— Ah, Colin, sério mesmo que você prefere ter que enfrentar uma fila e buscar sua comida? Porra, hein. Eu, sinceramente, prefiro aguardar sentado numa mesa enquanto a comida vem até nós.
— Eu tô com fome, desgraçado. Enquanto perco tempo aqui, já estaria na metade da fila se estivesse lá. — falou o leonino.
— Conheço um bom restaurante que fica atrás da universidade. — disse o branquelo.
— Não tenho grana pra comer num restaurante fora daqui. Acha mesmo que eu vou abrir mão de valores baratos aqui dentro pra comer lá fora?
— Porra, teu namorado tem carro e dinheiro. Aproveita, veado burro. — insultou na intimidade.
— Danion! — Caine o repreendeu.
Sean de repente passou a caminhar em sentido oposto ao do restaurante. Colin, que antes ia insultar o Danion, observou o namorado se afastar.
— Sean, aonde está indo? — perguntou o pequeno.
— Buscar meu carro pra ir à porra desse restaurante. — Sean falou no momento em que parou.
— Você sabe onde fica? Foi lá que esteve com o Colton na época em que vocês namoravam? — Danion cutucava o tigre com vara curta. Sean o fuzilou. — Brincadeirinha... — o branquelo sorriu, embora no fundo estivesse adorando a expressão de Sean. — Eu levo o Caine na minha moto. Encontro vocês dois lá.
Danion logo deu as costas. Caine, por alguns segundos, ficou parado e disse:
— Ele nunca muda... — falou para Colin, constrangido com a atitude do namorado.
— Meu sonho é que o Sean quebre a cara dele. — Colin disse e logo se afastou, indo de encontro ao namorado.
Caine correu para tentar acompanhar Danion, certamente eles iriam conversar sobre a atitude do branquelo.
Colin conseguiu sentir a indiferença do namorado, parecia transpirar ódio. Que Danion era um babaca, todos eles sabiam. Às vezes parecia que o branquelo estava tomando juízo, mas em outros momentos ele detonava essa imagem.
— Para de andar tão rápido. — Colin falou para Sean, ambos já próximos do carro.
— Estamos com pressa, não estamos? — respondeu grosseiro.
— Me engula.
Sean destravou seu carro antes mesmo de encostar nele. Ao entrar, foi logo o ligando. Colin entrou segundos depois e, sem que percebesse, não calculou a força ao fechar a porta.
— Porra! Tá batendo a porta como quando transa comigo? — o moreno desligou o automóvel.
— Eu não posso fazer nada nesse carro que você reclama. Se eu como aqui, reclama, se eu encosto nele, reclama, se eu deitar o banco, manda tomar cuidado. Que saco, hein. — disse o pequeno.
— O carro é novo.
— O carro é do Joe.
— E ele me presenteou, então é meu.
O automóvel era realmente elegante e chamativo dentro os outros carros naquele estacionamento. Sean literalmente tinha ciúmes do seu carro, talvez no mesmo nível em que tinha ciúmes do Colin.
Um Tesla P85D preto era o carro que Sean estava possuindo.
— Prefiro o outro carro.
— Você tem péssimo gosto. — resmungou o moreno, colocando o cinto de segurança.
— Realmente. É só olhar pra você que tenho a certeza disso. — provocou o pequeno, também colocando o cinto.
— Vai mesmo pra esse restaurante que aquele babaca sugeriu? — Sean mudou de assunto.
— Estou sem dinheiro, Sean. Eu preferia comer por aqui mesmo.
— Você me paga com sexo depois. Não tem problema.
— Sente-se feliz em me chamar de prostituto? Eu? Seu namorado? — Colin se desfez do cinto. Quando ia abrir a porta do carro, Sean conseguiu ser mais rápido e a travou. — Abre essa porta! — Colin ainda tentava de maneira agressiva abri-la. — Abre essa porta, seu desgraçado!
Sean fechou seus olhos, desligou o carro e encostou-se no banco. Já estava tão adaptado aos showzinhos de Colin, que nem insistia numa discussão.
Colin, furioso, virou-se para o namorado e presenciando a expressão mansa do moreno, buscou uma maneira de se vingar.
Colin primeiro tocou o ombro do namorado com a mão esquerda. Sua mão direita se moveu muito rápido, semelhante a um soco, porém ela estava aberta, pressionando de forma nada carinhosa o membro do namorado entre as pernas dele.
Sean não se moveu, mas deixou escapar um “ai” referente a dor sentida pelo aperto da mão de Colin.
— Dói né? E se eu apertar mais? — murmurou no ouvido dele, apertando o que tinha na mão.
Sean se contorceu e engoliu em seco. Não podia se mexer, caso contrário Colin, que não era nada piedoso tratando-se do namorado, faria coisa pior com seu membro.
— Eu vou te matar. — disse o Sean.
— Isso se antes eu não te matar primeiro. — o soltou. — E não me irrite mais.
— Qual o seu problema em sempre me atingir nesse lugar? — Sean acariciou o próprio pênis. — Anão filho da puta.
— Se não assim, de que outra forma eu controlaria você? — despreocupado, Colin olhou as mãos e em seguida colocou o cinto.
— Talvez você tenha gostado bastante dele. Isso soa como inveja pelo meu tamanho? — Sean amava provocar seu namorado.
— Cala a boca, demônio. — revirou os olhos. — Vamos logo.
Colin, de relance, observou Sean sorrindo. Bem diferente de muito tempo atrás, quando sozinho com o pequeno, o moreno deixava escapar alguns sorrisos. Sinal de que realmente estava feliz em tê-lo, mesmo com todas as discussões diárias. E mal sabia ele que seu sorriso era, incontestavelmente, um dos maiores pontos fracos do Colin.
Era um conjunto completo de dentes brancos, arcada dentária perfeita, uma pinta na bochecha e as covinhas. Quebrando toda aquela seriedade em seu olhar frio.
— Vai dormir comigo hoje? — Sean perguntou ligando o carro.
— Talvez. — respondeu o namorado. Ele estava apenas provocando-o.
— Nunca vi uma porra de relacionamento onde os namorados dormem e não dormem juntos.
— Ué, é só você ir pra minha república e dormir comigo. Mas seu orgulho tigre o proíbe de fazer isso. — o encarou.
Colin e suas respostas que deixavam o moreno sem palavras. Algo que nunca mudou desde que se conheceram.
— Abrir mão da minha cama e meu conforto?
Colin, mais provocador, tocou-lhe a coxa.
— Mas abrir mão disso você abre? — fez citação ao sexo.
— Não me provoca que eu te como aqui mesmo.
— Outro fetiche seu? — perguntou ao retirar a mão da coxa.
— Os hábitos que tínhamos de nos encontrar no banheiro da universidade acabaram por criar um fetiche. — admitiu. — Se consegui te pegar debaixo do teto dos leões, certamente irei fazer isso aqui.
— Vai se foder. — disse o pequeno, aproximando seu rosto dele.
— O passivo aqui é você. — ressaltou e em seguida aceitou o beijo do namorado.
Beijo rápido, porém ardente, como a maioria de todos os outros beijos.
[...]
Danion e Caine já estavam sentados aguardando os colegas chegarem. O branquelo já tinha resmungando, considerando o trajeto curto o suficiente para Sean e Colin já terem chegado.
— Quer ir comendo alguma coisa? — Danion perguntou enquanto olhava no cardápio.
— Não seria melhor esperar os dois chegarem?
— E quem garante que eles vêm? — dobrou o cardápio e olhou para o namorado.
— Vou ligar pro Colin. — disse já puxando o celular do bolso.
— Caine! — Danion exclamou, tocando a mão do namorado. — Eu estou aqui, não estou?
— Mas o Colin...
— Manda o Colin tomar no cu. Se ele quisesse comer ele já estava aqui. — relaxou suas costas na cadeira. — De qualquer modo, é bom estar somente com você.
Caine, não resistindo, sorriu. Era estranhamente engraçado ver Danion soando um pouco romântico, mesmo do seu jeito desengonçado.
— Como foi hoje? — perguntou o pequeno.
— Uma baboseira, como todo o início de semestre pra calouro. Saco. Dei umas cochiladas nas apresentações que rolou lá. Quem porra quer saber de apresentação no primeiro dia de aula? Qual é seu nome? Por que escolheu o curso? Aquelas putarias toda.
— Ah, isso é legal. Pelo menos conheceu um pouco da turma com quem irá seguir nos próximos anos.
— Eu não me importo com nenhum. Teve uma garota que estava narrando a vida dela desde o nascimento pra contar porque escolheu odontologia. Dei um bocejo dos altos pra ela perceber que ninguém aguentava mais ouvir que ela tinha quebrado três dentes num acidente.
Caine não conteve o riso.
— E você, o que falou?
— Que estava cansado de administração e queria me aventurar na área da saúde.
— E eles?
— Falaram que tinham vários cursos da área da saúde, e perguntou o porquê de eu escolher especificamente a odontologia. Porque parece fácil, oras.
— Ai, Dan... — Caine respirou fundo e levou sua mão à testa.
— Não é? O Sean faz o quê? Não vejo ele estudando.
— Se você acha isso.
— Foi o que o cara lá falou. Combinaram? — Danion o encarou. — Aliás, quer sair hoje à noite? — mudou o assunto.
— Pra onde iríamos?
— Pra qualquer lugar. Um jantar, um filme, um passeio... Sei lá. Qualquer coisa é melhor do que ficar na república ouvindo os gritos do Colin. — revirou os olhos só de lembrar.
Nesse instante, Caine se acomodou da cadeira, pôs as duas mãos na mesma, e olhou para o namorado.
— Precisamos falar sobre isso. — iniciou o pequeno.
— Sobre isso o quê? Sobre sair comigo?
— Não, Dan. Sobre sua relação com o Colin. Ele está bastante chateado, ainda que não demonstre ou admita. — ainda não tinha tanta certeza, por isso sua voz tremeu. — Você quer mesmo deixá-lo liderando?
— Claro. Liderar mais uma vez? Nunca. É a coisa mais chata que existe. — Danion, folgado do jeito que era, puxou uma cadeira próxima para por os pés.
— Sem contar que foi William que passou a liderança pra ele. Por isso estou achando meio injusto o que você fez. Dan, você nunca se importou com as decisões do Colin enquanto líder, porque agora resolveu fazer isso?
— Você provavelmente faria a mesma coisa que eu fiz.
Caine concordou, ao enxergar através dos olhos do namorado, ele realmente poderia ter feito o mesmo.
— De qualquer forma, eu sei que foi um ato bondoso da sua parte, mas o Colin sente que não tem mais autoridade. E o que você fez, vai gerar consequência, na verdade, já está gerando. Colin sente que os membros da república não o veem mais como líder, apenas uma autoridade, mas que ainda assim é desrespeitada.
— Que mentira! Ok... O Pietro é um dos que não respeita... Mas é só ele. Eu também estou lá pra ajeitar as coisas com esse garoto. Fora isso eu não vejo mais ninguém.
— Talvez não esteja tão explícito, mas ele sente isso, principalmente o Billy. Aquele loiro dos cabelos grandes.
— É mesmo? Não tinha percebido isso. Mas que é que tem? É só o Colin o expulsar, fim. O Colin faz um drama do caralho.
— Deixe o Colin liderar, Danion. É só isso que eu te peço, como amigo e como namorado.
— Mas eu deixo, sempre deixei. Só que bem... Aquele garoto precisa de ajuda. O Hugh me contou que o encontrou drogado. Isso não te faz lembrar o Santiago? — Danion, mesmo detestando ter que lembrar da relação que Santiago e Caine tiveram, considerou necessário fazer o namorado refletir.
Quando Caine ia responder, Colin e Sean apareceram, consequentemente interromperam a conversa.
O moreno e líder dos tigres puxou a cadeira em que Danion descasava as pernas, o branquelo obviamente não gostou. Sean simplesmente afastou-se o máximo que podia dele. Colin sentou entre eles, mais precisamente ao lado do seu namorado.
— Já pediram? — Colin perguntou.
— Estávamos esperando vocês.
— Que tal Ribs? — Danion sugeriu.
— Eu quero. — Colin respondeu.
— Eu também. — Caine concordou.
Sean, como era de se esperar, deu o seu silêncio a todos eles. Mas o olhar de Colin acabou roubando uma resposta positiva do namorado. No final, todos acabaram pedindo a mesma coisa.
Ribs eram deliciosas e suculentas costelas de porco cozidas e cobertas de molho barbecue.
O branquelo fez o pedido com facilidade e só restava aguardar.
O silêncio se instalou de imediato. Silêncio esse que incomodava. Aquela não era a primeira vez que se encontravam os quatro juntos, a primeira foi na viagem à Aroma, mas de qualquer maneira, manter um diálogo com Sean e Danion dividindo o mesmo espaço não era uma tarefa fácil.
Sean, pra ser mais sincero, não engolia nenhum leonino, ou seria mais fácil dizer que ele não suportava ninguém? E era também difícil manter diálogo até mesmo com William, graças a Colin e Octavio algo surgia e eles conversavam — ou quase isso — normalmente.
— Sean, por que você é caladão? — Danion questionou, conseguindo finalmente quebrar o silêncio.
O moreno o olhou de relance, depois voltou seus olhos para os do namorado. Em seguida puxou seu celular do bolso e buscou por algum aplicativo que pudesse utilizar pra passar o tempo.
— Quando vocês transam ele fala muito, né Colin? — realmente questionou pra tirar o moreno de seu sossego. Obviamente seu questionamento foi uma ironia.
Caine imediatamente levou sua mão esquerda aos olhos e abaixou a cabeça. Colin se estivesse com água na boca provavelmente a teria cuspido por tamanha cara de pau que Danion tinha.
Sean guardou seu celular e o olhou, mas a surpresa veio em sua resposta:
— Talvez. — respondeu tranquilamente.
— Danion, vamos ao banheiro. — Colin levantou-se.
— Não estou com vontade. — respondeu.
— Mas eu estou e preciso conversar com você. — colocou-se ao lado dele, segurando-o pelo braço.
— Estamos parecendo duas garotas que só vão ao banheiro na companhia da outra. — falou e se levantou.
— Ah, vai tomar no cu e vamos logo.
— Porra, eu realmente não quero ir, vai sozinho, eu não vou segurar o seu pau pra você mijar. — Danion não tinha percebido, aliás, ele nunca tinha noção de nada, mas todo o restaurante pareceu ouvir o que ele disse.
Colin quis enfiar sua cara em um buraco no chão. Caine, que já estava constrangido antes, agora ficou duas vezes mais. Sean somente mexia em seu celular mais uma vez.
— Desgraçado! — Colin o empurrou.
Danion teria caído sentado na cadeira, mas Sean não perdeu a oportunidade quando viu aquilo e afastou. Danion caiu de bunda no chão. O moreno fingiu não se importar, os seus olhos voltaram para o aparelho celular.
— Filho da puta! — Danion gritou olhando para Sean.
Colin não quis estar ali pra ver o que aconteceria. Mesmo que não estivesse com vontade de ir ao banheiro, decidiu sair caminhando até encontrá-lo. Era vergonha. Como não tinha pensado que os quatro reunidos dariam em confusão? Danion era aquilo e nunca mudaria.
E não demoraria muito pra que eles derrubassem aquele restaurante de cabeça pra baixo. Caine é o único ponto de equilíbrio entre os três... Coitado.
[...]
Hugh recém tinha saído do seu prédio. Ele limpava seus óculos enquanto caminhava ao lado de Kai, juntos iriam para refeitório da universidade. O leonino somente conseguia tentar adivinhar qual seria o cardápio do dia, tendo em vista que não tinha verificado isso no site da universidade.
Conversando, os colegas riam do primeiro dia e da situação constrangedora que Hugh se submeteu ao servir de exemplo pra uma piada do professor. Eles logo iriam pra casa após comerem. Não teriam aula depois do almoço.
Ao chegarem dentro do prédio onde o refeitório ficava, Kai imediatamente avistou Andrew, Pietro e os demais daquele grupo. Eles estavam na entrada, fazendo suas piadas desnecessárias sempre que encontravam um alvo fácil.
Hugh, como de costume, preferiu agir normalmente e ignorá-los. O leonino abaixou sua cabeça quando ia se aproximando deles, porém acabou tropeçando na perna de alguém. E esse alguém era Pietro. Nenhuma novidade.
Hugh conseguiu recuperar o equilíbrio, não dando o prazer de cair de cara no chão para os garotos. Ele apenas se virou com o melhor sorriso no rosto e olhou para o Pietro, enquanto Andrew e os demais riam.
— Desculpe, eu não vi seu pé.
Hugh sabia que foi propositalmente que Pietro colocou o pé para ele cair, mas carregar a culpa para si era melhor do que insultá-lo ou criar confusão maior. Aliás, Hugh nem mesmo era esse tipo de garoto.
Pietro sentiu uma chama de fúria acender em seu interior. Como assim ele se desculpou? Pensou. Só não reconhecia o porquê de sentir raiva desse pedido de desculpas.
Kai, ao lado do amigo, encarava todos os outros.
Hugh acabou tomando o amigo pelo ombro, mansamente, e juntos foram até pegar bandejas e de lá iriam até as filas.
— Sabe, é bom que você esteja nos leões. — Andrew falou para ele.
— Bom? Eu odeio morar naquele lugar. Você deveria me oferecer amparo no Ninho. — resmungou, encarando-o. Ainda pensava em como Hugh agiu. Sentia mais raiva ainda.
— Já conversamos sobre isso... — cortou a discussão que iria iniciar. — De qualquer maneira, é melhor você lá com eles, assim qualquer informação relevante que você receber é necessária para nós.
Andrew sorriu. Pietro odiou aquele sorriso.
— Pode aparecer lá no Ninho hoje à noite. — Andrew murmurou em seu ouvido e depois se afastou.
Pietro cruzou seus braços, ainda com raiva, porém a proposta de Andrew era quase irrecusável. Tê-lo por debaixo de lençóis, depois de alguns dias, era tentador.
Andrew virou-se para os colegas, tentando disfarçar o que havia dito no ouvido de Pietro. Nenhum outro sabia sobre eles dois.
Distante deles, Hugh e Kai estavam na fila. Eles aguardaram até que finalmente foram atendidos. Certamente poderiam ir pra república e se alimentarem por lá, mas ao lembrar que não tinha comida pronta, exceto os enlatados, comer no refeitório da universidade era a opção mais viável.
Hugh foi primeiro buscar por uma mesa vaga. Ele acabou encontrando-a no centro do refeitório. Kai veio segundos depois e sentou-se.
— Tinha esquecido como era chato ter que enfrentar essa fila. — Kai falou já pondo um pouco do alimento na boca.
— Com a grana que nós temos, o melhor é comer aqui mesmo. — Hugh fez o mesmo.
— Como você consegue olhar pra cara daquele Pietro e não batê-la?
— Deixa ele... — falou de cabeça baixa.
— Ele colocou o pé pra você cair, Hugh. Eu só me contive por sua causa.
— Melhor atingi-lo com o bem do que alimentá-lo com a maldade. — uma frase que de certo modo causou impacto no Kai.
O morador dos tigres somente balançou a cabeça e voltou a comer.
— Calvin não vem? — Kai perguntou.
— Mandei mensagem. Acho que logo ele aparece.
Enquanto eles conversavam, alguém, educadamente, tocou o ombro de Kai. O mexicano virou-se para olhar quem era, mas não se recordava daquele rosto masculino, na verdade, tinha uma leve lembrança.
— Posso me juntar a vocês? — perguntou sorridente.
Hugh no mesmo instante respondeu:
— Sem o menor problema. — retribuiu o sorriso e puxou a cadeira.
— Obrigado. — agradeceu e imediatamente se sentou, pondo a bandeja com sua comida sobre a mesa.
Kai até tinha se esquecido de sua comida, ficou observando o garoto “novo” que tinha se juntado a eles. Tentava descobrir de onde o conhecia. De certa forma, havia chamado a sua atenção.
— É novo aqui? — Hugh tentou iniciar um diálogo.
— Sim. Eu vi vocês dois no prédio da engenharia da computação. Eu não conheço ninguém aqui, sem contar que não consegui encontrar uma mesa vazia. Vocês parecem legais, então pensei... Por que não tentar me aproximar?
Kai então lembrou. Realmente tinha o visto por lá, inclusive esse garoto tinha lhe dado bom dia.
— Então você é calouro? — Kai questionou.
— Na verdade sou aluno transferido. Eu estava no final da sala, a mesma em que vocês estavam, acho que não se lembram de mim.
— Realmente, não consigo me lembrar... — Hugh tocou a testa com dois dedos, tentando puxar da memória alguma lembrança.
— Sem problema. Franklin. Franklin Walters. — estendeu a mão para Hugh.
— Hugh Farley. — o cumprimentou.
Franklin então levou sua mão até Kai.
— Kai. Kai Castillo. — disse olhando em seus olhos.
Hugh ficou olhando para Kai, depois abaixou sua cabeça e sorriu.
Franklin Walters era um garoto de pele bronzeada e olhos castanhos esverdeados. Seus cabelos eram castanhos e claros, nariz pequeno e pontudo, e seus lábios medianos exibiam um belo sorriso. Era da mesma altura de Hugh, ou seja, tinha 1,76, um centímetro a menos que Hugh.
Franklin também era morador do Ninho, mas essa informação ainda não tinha dado aos garotos.
— Castillo não é um sobrenome tão comum. — disse o novo amigo.
— Kai é mexicano. Provavelmente você já deve ter ouvido esse sobrenome em seriados ou filmes onde a língua espanhola predomina. Sempre tem um Castillo. — Hugh brincou.
— E seu sobrenome indiano?
— Abhilasha. — Kai respondeu.
— Quê?! — Franklin realmente pareceu apavorado com a complexidade do nome.
Hugh soltou uma gargalhada.
— É, estou acostumado com essas reações. — respondeu comendo.
— Eu acho que me sentiria um máximo carregando esses sobrenomes. Pelo menos seria inconfundível.
— Já falei isso pra ele. — Hugh disse.
— Você fala a nossa língua muito bem pra um mexicano. Não estou te inferiorizando, apenas elogiando.
— Eu só nasci no México. Meu pai é imigrante e já morava aqui. Conheceu minha mãe numa viagem, mas a minha mãe morava no México. Quando eu tinha quatro anos, minha mãe finalmente conseguiu autorização pra morar aqui porque ela tinha o meu pai. Processo demorado, mas que finalmente conseguimos. Eu já conhecia um pouco da língua daqui por conta do meu pai, desde então falo mais essa língua do que o espanhol. — Kai explicou.
— Então vocês são todos imigrantes, digamos assim. — Franklin falou.
— Sim. Eu gosto daqui, acho que não conseguiria morar fora.
— Se por acaso eu criar um novo personagem em algum jogo online, Castillo vai ser seu sobrenome. Gostei. Ou... Abhil... Abhil... — não sabia prosseguir, por isso sorriu quase implorando pra que Kai completasse.
— Abhilasha. — Kai falou.
— Isso, Abhilasha! — Franklin disse.
— Gostei da ideia. — Hugh, de boca cheia, falou.
Franklin novamente sorriu, dessa vez olhando para Kai. Kai retribuiu o sorriso, fraco, mas ainda assim um sorriso, enquanto olhava para ele.
Hugh ficou observando aqueles olhares que os dois trocavam.
[...]
Charles Ferazza se surpreendeu. Ele conhecia a qualidade da universidade em que seu pai, irmão e demais familiares estudaram, mas ainda assim não tinha grandes expectativas. A estrutura do prédio de medicina era realmente bela e organizada.
O mais novo dos Ferazzas já tinha causado péssimos olhares em relação a sua personalidade fria. Em sua apresentação na classe, ele foi objetivo e enalteceu seu sobrenome, falando da sua família cheia de médicos, o que gerou murmúrios de alguns alunos. Charles já tinha estampado em sua testa que era um aluno exemplar.
Não tinha exatamente feito uma amizade, mas sentou-se próximo a uma garota com quem teve um curto diálogo. Ao final da primeira parte da aula, despediu-se sem muita formalidade e saiu da sala.
Sozinho buscou por informação de onde iria comer. Ao conseguir a informação, seguiu até o refeitório da universidade.
Sempre observando tudo ao seu redor; os vários prédios de diferentes cursos. Ao chegar ao lugar aonde iria se alimentar, também adorou a estrutura. Lugar espaçoso com várias janelas de vidro dando a bela paisagem do pátio e prédios da universidade.
Charles, enquanto caminhava, ouviu uma piada ridícula carregada em palavrões. Ao olhar pro lado, encontrou Andrew e seu grupo, desconhecidos para ele. O seu olhar frio foi mais do que o suficiente para mostrar que ele não tinha gostado daquilo, contudo permaneceu andando e não revidou. Sua vontade, de fato, era partir pra agressão.
— Charles. — Brandon, seu primo, o encontrou. O loiro também tinha acabado de chegar.
Charles virou-se.
— Vai comer?
— Se eu estou aqui, obviamente é pra isso. Não? — o olhou.
Mas Brandon não estava mais olhando para ele. O futuro médico levou seus olhos azuis até a mesa onde Kai estava. Vê-lo sorrindo e conversando bastante com outro garoto que nunca tinha visto, ainda que Hugh estivesse presente naquela mesa, não era algo legal de se ver.
— Brandon! — Charles elevou o tom de voz.
— O quê? — questionou o loiro.
— Vai à merda.
— Perdi a forme. — disse o loiro. — Vou procurar uma mesa, pode ir se servir.
O loiro logo deu as costas, desanimado e saiu buscando por um lugar para ficar. De fato, tinha realmente cansado de correr atrás do Kai, como tinha dito a ele em sua última conversa, mas doía tê-lo distante e, aparentemente, feliz. Não, não desejava a infelicidade do seu amigo — ainda que Kai não o considerasse mais um. A verdade era que queria está participando daquela conversa, rindo e conversando com ele, porém, não sabia mais como agir.
Charles não sabia exatamente o que tinha conseguido, mas olhou ao seu redor e percebeu do que se tratava. Revirou seus olhos e caminhou até a fila que, para ele, foi um absurdo. Como assim teria que esperar? Se fosse mais esperto, deveria ter buscado uma lanchonete qualquer ali dentro. Mas já estando ali, esperaria.
Depois de aguardar alguns minutos, Charles finalmente conseguiu pegar seu alimento. Rejeitou muita coisa do cardápio, não considerando a “cara” do alimento boa. Seus mimos do dia a dia. Se antes tinha elogiado a estrutura do seu prédio, agora estava menosprezando o cardápio do refeitório.
Ele, segurando a bandeja, parou no centro do refeitório para buscar por seu primo. O número de pessoas ali era grande, por isso a dificuldade. Ao encontrá-lo, bem lá no fundo, próximo as janelas, voltou a caminhar.
Charles estava distraído, por isso acabou esbarrando em alguém a sua frente, por pouco teria derrubado a bandeja no chão. Esse alguém nada mais, nada menos era do que o Calvin.
Calvin tinha acabado de chegar ali, ele também estava distraído procurando por seus colegas, por isso não viu Charles em sua frente, por isso se esbarraram.
— Estou achando que você me persegue. — Charles, encarando-o, disse.
Calvin somente fechou seus olhos e respirou fundo. Não ia discutir, talvez era isso que aquele garoto queria. O leonino então seguiu caminhando, ignorando-o por completo.
Charles pressionou a bandeja, pensando em arremessá-la contra ele, mas seria um desperdício e tanto. Ele também seguiu caminhando até encontrar seu primo sentado mexendo em seu celular.
— Aqui deveria ter uma refeição melhor.
— Está achando ruim? — Brandon falou.
— Olha pra mim, Brandon. Você me conhece.
— Sua refeição requintada terá que mudar. Você agora é universitário. Se quiser algo bom, sugiro pesquisar por restaurantes fora daqui.
— É bem provável que eu faça isso. Deixa-me situar primeiro.
— Vou ao banheiro. Estava só esperando você aparecer aqui.
Brandon guardou o celular no bolso e se levantou, afastando-se da mesa.
Charles ficou sozinho, nada que o incomodasse. Já estava adaptado a isso. Quando provou do alimento, não a considerou tão ruim, mas segundo seu paladar, já tinha comido coisa melhor.
O novo morador dos tigres estava comendo em paz quando os mesmos garotos que o provocaram ao chegar ali, se posicionaram ao redor da mesa, com Andrew a sua frente e Pietro ao seu lado.
— Podemos nos juntar a você? — Andrew perguntou, ele tinha um sorriso malvado em seu rosto.
— Não. — respondeu e depois voltou sua atenção a comida.
Andrew puxou uma cadeira e mesmo assim se sentou. Seus cotovelos encostaram à mesa e seu rosto, sério, demonstrava a insatisfação da resposta que recebeu.
— É um Ferazza, não é? — Andrew perguntou, mas logo olhou para Pietro de quem havia recebido a informação.
— Meu sobrenome na sua boca? — Charles pôs o garfo e a faca na bandeja, depois limpou sua boca com guardanapo e encarou Andrew.
— É melhor tomar cuidado, garoto. — Pietro falou, cruzando os braços.
— Vocês são tipo aquelas gangues de filmes americanos? Cadê as armas? As facas? Vão me ameaçar agora? Ou são aqueles grupos de delinquentes que zombam do nerd da escola? Vão me bater agora ou vão me mandar fazer um favor? — Charles olhou para todos.
— Atrevido, não é mesmo? — Andrew puxou a bandeja e se serviu do alimento pego por Charles.
— O que vocês querem? — Charles questionou.
— Você é bem diferente do Brandon. Mas como babacas, são iguais. Incluindo o líder dos tigres, Sean. Uma família que se sente superior por causa desse sobrenome de bosta.
— O que vocês querem? — repetiu a pergunta.
— Dar as boas vindas. — Pietro então tocou em seu ombro, pressionando para machucar.
Charles o olhou de relance.
— Então darei minhas boas vindas. — baixinho, mas audível o suficiente para todos eles, Charles disse.
Charles, ágil, segurou a mão de Pietro que estava em seu ombro e a girou, fazendo o novo leonino gritar de dor. Em seguida o chutou, mandando-o para longe. Andrew derrubou a mesa e avançou contra ele.
Charles abaixou-se rapidamente, desviando-se. Seu pé chutou as pernas de Andrew, derrubando-o no chão. Mas foi pego pelo garoto com piercings que pertencia ao grupo. O tigre recebeu um chute nas costas, sendo lançado para cima do garoto de cabeça raspada, recebendo, naquele instante, um soco no estômago.
No momento em que ia receber outro soco, Charles desviou, dando um passo para o lado.
Era uma covardia, quatro contra um. A garota não participava. Mas ainda assim, Charles mostrava que mesmo em desvantagem, não se intimidava. O Ferazza era baixo e ágil, recompensa das aulas de luta que teve.
Charles precisou pensar antes de agir. Por isso foi imediatamente no garoto de cabeça raspada. Em força, era inferior, mas em habilidade era muito superior. Por isso abusou da bandeja no chão e a usou para acerta, em cheio, as costas dele. Feito isso, depositou um chute em seu estômago.
Andrew, percebendo a vantagem que tinha, pegou Charles pelo pescoço, asfixiando-o. Tinha a vantagem por alguns segundos, mas tal maneira de luta era conhecia por Charles, que somente usou do cotovelo para atingir a costela dele, afastando-se.
O garoto dos piercings mais uma vez acertou as costas de Charles, que deu alguns passos à frente gemendo de dor. Mas quando ia ser novamente atingindo, desviou-se ao se abaixar, pegando o rival pela cintura e o empurrando com toda a força que tinha, de modo com que ele caísse na mesa próxima dali.
Charles já estava cansado, mas não podia baixar a guarda.
Pietro segurou em seu braço, dando-lhe um tapa nas costas, mas Charles conseguiu desfazer daquele aperto, dando um passo pra trás e olhando ao redor. Estava cercado.
Uma onda súbita de ódio tomou-lhe conta. Quando Andrew avançou, Charles olhou a faca no chão e, rápido como nunca, abaixou para apanhá-la. Ao se levantar, ele logo estendeu a faca e Andrew parou.
Respirando com dificuldade, Charles o olhava.
Pietro encontrou ali a oportunidade para atacar por trás. Quando pensou em fazer isso, Calvin interveio. Colocando-se em sua frente, mais uma vez.
Charles sentiu a sua presença e quando olhou para trás, o viu. Brandon também tinha chegado naquele momento, vendo o estrago de mesas caídas e seu primo machucado, porém, os outros também estavam machucados.
— Estava demorando pra você aparecer. — Pietro, exausto, falou para Calvin. — Por que sempre tenta bancar o herói?
— Eu não preciso de ajuda. — Charles falou para Calvin. — Saia daqui.
— Corajoso... — Andrew disse. — Quem você acha que é?
Hugh estava próximo da confusão. Kai estava ao seu lado, ele não sabia exatamente o que deveria fazer.
— O quão covardes vocês conseguem ser? — Calvin questionou a todos.
— Eu já disse que não preciso da sua ajuda! — Charles agora elevou o tom de voz.
Calvin o ignorou. Odiou ter que interferir naquela confusão, mas ao observar que ninguém fazia nada, sentiu-se na obrigação de fazer aquilo. Mesmo se surpreendendo com o fato de Charles ter conseguido lidar com os quatro, mesmo se machucando.
— Vai se foder! — Calvin retrucou.
Era estranho observar aquilo. Charles recém tinha brigado e já estava discutindo com outro. O Ferazza era realmente dono de uma personalidade forte e difícil.
Brandon ficou a frente de Andrew.
— E então, vai prosseguir? Eu estou louco pra brigar e dessa vez eu não vou parar. — o loiro estava com raiva.
— Agora vai bancar o valente? Onde está o Kai? Não é ele quem você sempre protege? — Andrew o encarou.
Kai, ouvindo aquilo, revirou os olhos, por isso preferiu dar as costas e sair andando. Já tinha visto o suficiente. E se por acaso fosse provocado mais uma vez, perderia a paciência e iria partir pra agressão.
— Vamos embora, isso não vai parar por aqui. — Andrew disse.
Antes de sair dali, ele acabou encarando Charles e Brandon, em seguida afastou-se, os demais o seguiram. Pietro encarou Calvin, logo depois passou por Hugh, que dessa vez, ficou observando-o sem abaixar a cabeça.
Charles, enfurecido, virou-se para Calvin e o empurrou. Tamanha audácia e ingratidão, mas um traço forte de sua personalidade.
— Qual o seu problema? — perguntou.
— Charles! — Brandon o puxou. Não queria vê-lo brigar.
— Vamos, Calvin. — Hugh tocou o braço do amigo.
Calvin não perdeu tempo e mais uma vez o ignorou.
Charles deu um passo a frente, iria certamente empurrar Calvin mais uma vez, mas seu primo o segurou com força o suficiente. Depois de alguns segundos, tentando escapar, ele desistiu.
Brandon o soltou quando percebeu que ele não ia fazer mais nada. Charles, ainda enfurecido, afastou-se do loiro, indo em direção contrária a todos os outros, buscando por outra alternativa de saída.
Pequeno, mas valente. Era realmente um Ferazza, sobrenome de poder.
[...]
O sol se despedia, dando final as aulas de alguns universitários.
Samuel estava na universidade desde a manhã e só agora, ao final da tarde, iria pra casa. O loiro não imaginava que as aulas seriam carregadas de conteúdo, por isso insultava mentalmente o professor que já indicou livros para procurarem na biblioteca e estudarem em casa durante a semana.
Após arrumar as suas coisas e se despedir de colegas, o loiro puxou seu celular do bolso e, num ato involuntário, discou o número de Luke. Só ao por o aparelho no ouvido, ele se deu conta do que estava fazendo. “Por que estou ligando pra ele? Pra contar sobre meu dia?” Pensou.
Samuel, ainda assim, não finalizou a chamada, contudo não foi atendido e não quis ligar uma outra vez.
O bloco de medicina veterinária ficava distante e mais isolado dos demais. Pelo que recordava do semestre passado, Luke costumava largar, também, nesse horário. Não sabia se era uma péssima ideia ir atrás dele. Queria ouvir as piadas infelizes do garoto, talvez isso alegrasse o seu péssimo dia. Até pediria para que ele fizesse massagem em suas costas e se a condição fosse sexo, Luke jamais rejeitaria.
O loiro então partiu em direção aos últimos blocos da universidade. Andou bastante, mesmo cansado. Ao chegar lá, encontrou colegas do Luke e imediatamente pediu informação.
— O Luke? Ele já foi. — respondeu uma garota.
— Já faz muito tempo? — perguntou Samuel.
— Têm uns dez minutos.
— Eu o vi conversando com um dos calouros que nós conhecemos hoje. — respondeu um garoto.
— Tudo bem, obrigado. Até mais! — se despediu.
O loiro já havia deduzido o que aconteceu.
Samuel fechou as duas mãos com força, mas seguiu caminhando. Sentia-se idiota demais por ter andado tudo aquilo em busca do colega e agora faria o mesmo, só que no caminho contrário.
Por sorte, acabou encontrando a Clara, que estava acabando de sair do bloco.
— Veio atrás do Luke? — ela foi certeira.
— O babaca já foi embora e não me atendeu o celular. — ele falou olhando pra frente enquanto caminhava.
— Um baita de um gostoso, isso sim. Aquele corpo, aquele sorriso safado. Meu bico do peito até fica duro. — ela tocou o próprio seio.
— Se controla, garota! — alertou, lembrando-a de que ainda estavam na universidade.
— É a verdade, oras! — resmungou. — Pena que ele é um cafajeste, toda hora tá com alguém diferente.
— Luke só vai sossegar quando pegar uma doença. — o broto do ciúme germinando.
— Lá da república ele só não ficou com o Caine, o resto... Porra, até o Gale ele comeu.
— Luke e o Gale transaram?! — Samuel perguntou, surpreso, algo dentro dele não estava feliz com aquela informação.
— Não conte nada pra o meu irmão, por favor! Ele não sabe que eu vi isso acontecer. — Clara não parecia preocupada, até sorria travesso.
— Pelo menos ele não transou comigo. Só foi uns beijos naquela festa e você viu. — Clara arrumou os cabelos.
— Poupe-me de detalhes... — revirou os olhos.
— Ah, vai, Samuel... Você é o que mais fica com o Luke. Vive insultando, mas não larga daquele corpo. Acha que eu já não ouvi uns gemidos do seu quarto? — a cara de pau em pessoa.
— Clara! — o loiro definitivamente ficou constrangido com o detalhe.
— O que? Não falei nada de errado. Meu quarto é ao lado do seu. Até o Gale já comentou sobre as batidas na parede que ouvimos. Ou você tá apanhando, ou tá tomando uma surra de pau do Luke... Ou dando uma surra de pau, sei lá... — ela parou pra pensar.
O loiro fechou seus olhos, impaciente. Mais um pouco e ele afastava-se de Clara, deixando-a para trás. Por sorte, a loira mudou o assunto, contando de sua aula até que eles finalmente já estivessem fora da universidade.
Samuel também acabou contando sobre o seu dia e o que já tinha pra estudar, inclusive mais uma vez insultou o professor, agora em voz alta. Acabou parando na lanchonete com a garota e fez um pedido. Enquanto aguardava, conversou mais com a garota.
Na lanchonete o loiro viu Julius e Marcus, porém não tinha intimidade com os garotos, por isso os tratou como dois desconhecidos, sem sequer cumprimentá-los. Clara fez um pedido bem quando o lanche do Samuel foi entregue e com isso ele foi obrigado a esperar mais um pouco, odiando, obviamente.
Com o lanche embalado, Samuel e Clara saíram da lanchonete e rumaram à república dos águias.
O loiro, cansado pelo dia, foi direto para o seu quarto. Encontrou a porta trancada e achou aquilo estranho, aliás, Luke nunca trancava a porta do quarto. O loiro então precisou buscar por sua chave perdida em sua mochila, custando alguns segundos do seu dia para isso. Ao encontrá-la, Samuel finalmente abriu a porta, mas o que viu não foi do seu agrado.
Luke gemia e tomava o pescoço de um garoto na cama enquanto o penetrava. Ambos pelados. Transado.
Samuel imediatamente fechou a porta do quarto sem que percebessem que ele havia os flagrado. O loiro acelerou seus passos de volta à sala e sentou-se no sofá, olhando para a parede por vários e vários segundos.
Algo em seu interior doeu. Era raiva misturada a tristeza. Mas ele não conseguia descrever corretamente o que estava sentido.
— Algum problema, Samuel? — Caine perguntou quando o notou estranho.
— Nada, nenhum. — respondeu.
— Tem certeza? Você parece... Assustado?
— Não é nada.
— Tudo bem então. Estou na cozinha, qualquer coisa é só me procurar. — falou já saindo.
Samuel permaneceu no sofá. A estranha adrenalina de flagrar alguém transado não era prazerosa. Seu corpo tremia e suava. Ele estava nervoso. Nervoso?
Exatos dez minutos se passaram e o loiro ainda estava no sofá, sentado e com a mente à mil.
Depois disso, levantou-se e foi para a cozinha, pôs sua mochila numa cadeira e sentou-se em outra.
— Perdi a fome, comprei algo na lanchonete, você quer? — Samuel ofereceu para Caine, que naquele momento lavava a louça.
— Não estou com fome. Guarda pro Luke, ele provavelmente vai querer. — sugeriu.
Samuel fechou seus olhos e passou a mão nos fios loiros. Preferia esquecer do que tinha visto, mas Caine parecia fazer questão de lembrá-lo, mesmo que não estivesse ciente do que acontecia.
— Estou faminto! — Danion apareceu na cozinha dos águias.
O branquelo veio direto da universidade e nem passou em sua república, preferindo ver o namorado antes de tudo.
— Tem isso aqui. — Samuel lançou a embalagem com o lanche que comprou na lanchonete.
— Ótimo! — disse o leonino, sentando-se.
Danion, enquanto comia, contou sobre seu dia para os colegas. Samuel sequer conseguia dar atenção àquela conversa, mas sempre que podia, fingia ter entendido algo e sorria. Depois de mais dez minutos de conversa, o loiro falou:
— Eu não quero mais dividir o quarto com o Luke.
— Brigaram? — Danion imediatamente perguntou. — Problema no relacionamento? — ironizou.
— Vai se foder... — Samuel revirou os olhos.
— Você parece não estar nada contente hoje. Realmente não aconteceu nada? — Caine insistiu em perguntar.
— Luke gosta de bagunça. Eu não gosto disso. Vou acabar explodindo se permanecer dividindo o quarto com ele e adoraria se vocês aceitassem meu pedido pra trocar de quarto.
— E com quem você dividiria? Estão todos ocupados.
— E se eu trocar com o Edgar? — sugeriu o loiro.
Caine e Edgar não dividiam mais o quarto. O atual líder dos águias tomou o quarto para si, uma atitude egoísta, mas que não foi pensada por ele, mas sim por Danion. O loirinho então passou a ocupar o antigo quarto do Danion.
— Se ele aceitar... Eu realmente não vejo problema. — Caine disse.
— Edgar já chegou? — Samuel perguntou.
— Não. — respondeu o menor entre eles.
— Provavelmente dando a bunda pro Joshua. — de boca cheia, Danion falou. — Como pode um negócio desses acontecer?
— Deixa o Edgar ser feliz, Dan. — Caine ficou de pé. — Ele merece essa felicidade.
— Mi, mi, mi...— Danion usou uma mão pra imitar uma boca pronunciando as palavras.
— Irei pro quarto, terminei o que tinha pra fazer.
— Espera! — Danion, ainda comendo, ficou de pé. — Eu não vou ficar aqui com o chato do Samuel.
— Também te adoro, Danion. — Samuel mostrou-lhe o dedo do meio.
— Ignora, Sam. — Caine falou.
O pequeno saiu da cozinha e Danion foi atrás. Samuel ficou sozinho.
O loiro preferiu mexer em seu celular enquanto o tempo passava. Nada estava bem. Algo incomodava, doía, maltratava: a espera. Imaginar as coisas que aconteciam dentro do seu quarto não era agradável.
Vinte minutos se passaram e Samuel ouviu a voz de Luke na sala. O moreno estava se despedindo do garoto com que transou.
Samuel, entristecido, mas jamais querendo admitir isso, recolheu sua mochila e ficou de pé. Ao chegar à sala encontrou Luke sem camisa, prestes a se sentar no sofá. O loiro simplesmente passou por ele sem falar nada, ignorando até o “oi” que Luke soltou.
Ao chegar no quarto ele acendeu as luzes e jogou sua mochila.
— Você saiu tarde, hein. — Luke comentou, aparecendo no quarto.
— Saí. — respondeu, seco.
Samuel se sentou na cama e retirou seus sapatos seguidos das meias.
— Preciso de um banho. Espera aí que eu já volto.
Samuel não disse nada. Ele retirou sua mochila da cama e a guardou atrás da porta. Luke recolheu uma cueca no armário, pegou sua toalha e saiu do quarto. O loiro mais uma vez ficou sozinho.
Samuel retirou sua camisa e a pôs na cabeceira da cama, ainda de calça deitou-se. Olhou para o lado e viu o quão bagunçada a cama do moreno estava. Por alguns segundos apertou o próprio travesseiro, com raiva.
Luke era um encantador nato, muitos caiam em seus encantos com facilidade... Inclusive o próprio Samuel. Contudo, Luke era poço de infidelidade, poço de descompromisso. Não se prendia a ninguém no quesito relacionamento. Segundo ele, apenas namorou uma vez e não durou muito tempo.
Minutos depois, enrolado em uma toalha, o moreno apareceu.
— Eu peguei uma cueca sua. — falou o moreno sorridente. — Eu nunca que usaria essa cueca com desenhos animados.
Samuel no mesmo instante mexeu em seu celular, ignorando novamente o moreno.
Luke, despreocupado, lançou a toalha na cabeceira de sua cama e, ainda pelado, buscou por uma nova cueca, vestindo-a ali na frente do loiro. Depois ele fez umas poses engraçadas, exibindo seus músculos, mas em todas elas Samuel não esboçou reação alguma.
O moreno, após secar seus cabelos, caminhou em direção à cama de Samuel, sentando-se ao lado do garoto e logo em seguida, deitou-se.
Luke abraçou Samuel, mas o loiro, como defesa ao que sentia, afastou-se.
— O que é que tá pegando?
— Nada. Só não quero. — respondeu sem olhá-lo.
— Certo. Você está estranho. Qual a bronca dessa vez? Vai reclamar por qual motivo? Quarto bagunçado?
— Andei pensando, acho que é melhor pararmos com isso. — falou o loiro, forçando-se a ficar de pé e sair da cama. Ele guardou o celular no bolso.
— Pararmos com o quê? — perguntou, sentando-se na beirada da cama.
— Essa coisa entre nós dois.
— Que coisa? — questionou.
Mesmo que o questionamento de Luke tenha sido inocente, ele acabou doendo no loiro.
— Transar com você. Isso não vai mais acontecer. — falou o loiro.
— Você não vai resistir. — sorriu. A ficha de Luke ainda não havia caído. Ele não fazia ideia do que acontecia.
— Pareço estar brincando, Luke? Sinceramente? Não é o tipo de coisa que eu quero levar pra mim. Eu não quero me submeter a doenças sexualmente transmissíveis com alguém que transa com um desconhecido a cada cinco minutos.
— Foi isso que você aprendeu na aula de hoje?
— Não estou brincando, Luke. — Samuel no mesmo instante se aproximou de sua cama, abaixando-se ao lado dela e retirando de lá uma mala.
— O que está fazendo? — Luke o observou curioso, embora estivesse beirando a surpresa.
— Conversei com o Caine. Estou trocando de quarto.
Samuel arriscou. Não sabia se de fato iria trocar o quarto com Edgar, mas não querendo perder tempo, optou por logo falar.
— Sério mesmo que você vai trocar de quarto? Samuel, qual o motivo de tudo isso? — se levantou, agora estava começando a ficar assustado.
O loiro, carregando a mala, sentou-se em frente ao armário, depois abriu penúltima gaveta, retirando de lá suas roupas.
— Você.
— O que eu fiz?
— Eu vi o que aconteceu aqui, certo, Luke?
— O-o que você viu? — gaguejou. Então lembrou-se de quando notou que a porta do seu quarto não estava trancada. — Droga... — murmurou.
— Sinto como se estivesse em um quarto de motel. E se você agora passou a trazer pessoas pra cá para que possa transar, isso acontecerá novamente e repetidas vezes. — já estava esvaziando a gaveta.
— Eu tinha esquecido minha carteira, então resolvi buscar e o garoto me acompanhou, acabou que...
— Que você não resistiu aos desejos carnais e acabou transando aqui? — Samuel parou e o olhou. — Há quanto tempo você o conhece?
Luke foi martelado pela indagação.
— Samuel, eu não quero dividir o quarto com outra pessoa. É sério. — fechou a gaveta. — Você vai ficar aqui comigo.
— Continuaremos na mesma república. Só não irei dividir mais quarto contigo. Isso evita muitas coisas... — não precisou ser direto, mas Luke compreendeu a última parte. — Sem contar que você vive bagunçando tudo, isso me irrita profundamente.
— Você se irrita com qualquer coisa. — precisou desabafar.
Samuel voltou a abrir a gaveta.
— Talvez o Gale queira dividir o quarto com você. — não segurou por muito tempo e soltou.
Luke não entendeu a referência, por isso não deu bola ao que ouviu.
Samuel tinha terminado de esvaziar a primeira gaveta, em seguida abriu a última, onde mais das suas roupas ficavam.
— Cara, nós dormíamos abraçadinhos às vezes... Vai mesmo me abandonar? Você não vai conseguir... — o ego falando mais alto.
— Larga de ser babaca. — revirou os olhos.
— Samuel, porra, você vai me deixar, nós somos... Nós somos quase namorados, quer dizer, casados. Olha só, transamos e dormimos no mesmo quarto.
— Quase namorados. — falou sem perceber.
— O que?
Terminando de guardas as roupas, Samuel fechou sua mala e ficou de pé.
— Já acharam que éramos namorados e, por você ser assim, libertino, um ou outro me manda mensagem dizendo que você me trai. Alguns até me puxam no canto da parede pra falar sobre isso... Daí eu preciso ter que explicar toda a situação.
— Isso não é bom? Pelo menos eles sabem que nós nos pegamos, às vezes. — sorriu.
— Luke, você ainda não entendeu? — Samuel aproximou-se da porta.
— O que tenho que entender? Porra, você tá saindo do quarto. Eu vou pular da janela do primeiro andar, tá bom? Isso não se faz com um amigo como eu. — generalizou.
— Eu cansei de coisas casuais. Conheci alguém. — mentiu, sentindo ser aquela a única saída para se livrar de Luke.
— O quê?! — realmente se espantou.
— É isso que você ouviu. E eu não quero estragar as coisas entre eu e ele. — abriu a porta. —Por isso é melhor pararmos com nossos encontros e desencontros.
— Porra, hein. Como vou conseguir sobreviver sem essa sua bunda?
— Você consegue tantas outras em um só dia... Você é da vida Luke, das noites e das baladas. Eu percebi que sou o oposto disso. — saiu do quarto.
Luke respirou fundo e jogou-se em sua cama. Estava chateado. Samuel, fora dali, saiu carregando o peso da mentira.
[...]
A noite chegou e todos os universitários já estavam em seus aposentos. Brandon, por exemplo, estava deitado no sofá da sala. Charles, que horas antes tinha se metido numa confusão, estava em seu quarto. Vale ressaltar que após a confusão, Charles voltou pra república, tomou um banho, vestiu uma nova roupa, alimentou-se e, sem preocupações, voltou para sua aula.
O loiro estava chateado. Desanimado, pra ser mais exato. Há alguns dias não tinha tanto contato com Kai, mesmo dormindo no mesmo quarto que ele, seus diálogos eram resumidos.
Mas era necessário manter seu orgulho firme. Era chato demais viver sendo machucado com a rejeição do amigo, que realmente não estava disposto a perdoá-lo.
O loiro ligou a TV e saiu navegando entre canais, mas nada conseguia prender a sua atenção.
Sean apareceu descendo as escadas, mas foi diretamente para a cozinha, nem mesmo falou com seu primo.
Brandon, entediado, puxou seu celular e também tentou se distrair nele. Nada. Absolutamente nada o prendia. Seus pensamentos eram distribuídos na confusão em sua mente em relação ao mexicano.
De tanto pensar, acabou não percebendo que alguém batia a porta.
— Brandon, a porta! — Sean gritou da cozinha. Nada gentil, como de costume.
O loiro, que tinha tomado um susto, levantou-se com preguiça, mas foi até a porta. Quando a abriu, deparou-se com sua namorada, Melissa. Uma surpresa e tanto.
Melissa saltou abraçando-o e quase derrubando-o no chão. Ela o encheu de beijos no rosto e Brandon ainda assim não entendia nada do que estava acontecendo.
— Que saudades! — ela disse.
— E-eu também, mas... Como assim você está aqui? — ele perguntou, ainda recebendo beijos no rosto.
— Não gostou? — ela perguntou sorrindo, dessa vez parou de beijá-lo.
— Eu amei, é lógico. Não esperava por isso.
— Estava morrendo de saudades de te ver. Então pensei... Por que não fazer uma surpresa? — Melissa tinha os olhos brilhando.
— Eu estava pensando em te visitar esse final de semana.
— Ia mesmo? — ela mantinha um olhar brincalhão no rosto.
— Eu sei que já faz um mês que não te visito. É verdade... Mas você estava de viagem com seus pais, não estava?
— Estava. Mas eu peguei um voo que descesse aqui. Minhas aulas vão começar daqui a três dias. Então estou num apartamento próximo daqui e resolvi fazer essa surpresa. Já jantou?
— Não. Podemos sair. Só vai ter que me esperar tomar um banho e por outra roupa.
— Ótimo, eu espero. Onde está todo mundo daqui? — ela falou, sentando-se.
— Estão espalhados pelos quartos, alguns estão fora da república. Enfim, quer subir comigo e me esperar lá em cima ou vai ficar aqui?
Melissa deu um salto do sofá. Sorrindo, ela aproximou-se do namorado, sendo pega pela cintura e tendo os lábios tomados pelo namorado. Um beijo curto, acompanhado de um sorriso que a garota deixou escapar.
Kai chegou no exato momento em que o beijo acontecia. Um tiro certeiro em seu peito que, infelizmente, teve que suportar a dor calado enquanto a balava queimava em seu coração.
A porta estava aberta, mas Kai, optando por não ver aquilo, a fechou, o que acabou despertando a atenção do casal.
Kai não disse nada, mas foi recebido com um sorriso de Melissa. Brandon, completamente desnorteado com a presença de Kai, não soube como agir, seus olhos desceram ao chão, constrangido e temeroso.
Kai finalmente deu alguns passos até se aproximar da escada, ia subindo-o quando ouviu:
— Amor, por que você finge que não o conhece? — Melissa perguntou. — Ele é seu amigo, não é?
Brandon congelou. Kai, em seu lugar, parou.
A loira não era uma garota má, pelo contrário, era realmente bondosa.
Melissa ora olhava para o Brandon, ora olhava para Kai. Ela aguardava a resposta de um dos dois.
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