Notas iniciais
Azuis e verdes. (Capítulo betado pelo Gim e dedicado a Isa, pelo aniversário de dezoito aninhos dela. Danion te parabeniza com uma foto bem sensual: http://i.imgbox.com/PoXF7K15.jpg) PÁGINA NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/republicadeleoes/ GRUPO NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/groups/1162058693824219/ TUMBLR DE MÚSICA DE RDT: http://rdtmusicas.tumblr.com/

Kai, após discutir com Brandon naquela tarde, resolveu espairecer. Enquanto andava de skate, acabou encontrando alguns colegas que o convidaram para uma festa, mas por escolha preferiu não beber. O que de fato deveria ter acontecido, já que o motivo da sua chateação foi o loiro, e quando o coração grita de raiva, o álcool costuma ser um velho amigo que ajuda a esquecer de problemas.

Sobre seu skate ele andava pelas ruas da Quadra naquela noite, ou melhor, madrugada. Quase duas da manhã, despreocupado com assaltos e sem mais alguém o acompanhando. Contudo, chegou tranquilamente em sua república.

Chutou a ponta do skate com o pé e o segurou na mão. Enquanto caminhava sobre o gramado ia retirando a chave do bolso para abrir a porta da sua república. Ao entrar, apagou as luzes da sala que haviam esquecido acesas e depois trancou a porta. Foi até a cozinha e se alimentou, visto que na festa apenas tinha bebida. Feito isso, ainda com seu skate na mão, ele subiu as escadas e foi até seu quarto.

Estranhou ao notar a porta entreaberta e a luz acesa, acreditando que Brandon estava acordado e, provavelmente, estudando. Sim, o loiro gostava de pegar um tempo pra estudar, ainda que estivesse em seus últimos dias de férias.

Ao entrar no quarto, encontrou Brandon, mas ele não estava estudando. Pelo contrário, estava sentado em sua cama com outro garoto deitado nela. Duas malas abertas estavam no chão com algumas peças de roupa. Aquilo era estranho, muito estranho. Por ter brigado com Brandon algumas horas antes, suspeitou que o garoto iria substituí-lo, com isso, foi definitivamente expulso da república. Pelo menos ele pensava dessa forma e seu coração apertou.

— Quem é esse? — Charles perguntou para Brandon, observando Kai dos pés a cabeça.

— Kai. — ele próprio respondeu, colocando o skate encostado à parede.

— Kai Castillo. — Brandon agora havia tomado a voz, ficando de pé.

— E você, quem é? — Kai questionou, curioso.

— Castillo, é? — Charles ignorou a pergunta. —Isso me faz lembrar seriados que contém algum personagem mexicano.

— Kai é mexicano. — o loiro disse.

Kai era realmente mexicano, incluindo seus pais que vieram para Seattle logo após o seu nascimento.

— A mãe dele é mexicana, mas seu pai é da Índia. Dois extremos, não é? Sempre achei isso uma loucura. — Brandon completou, sorrindo, tentando amenizar o que em breve viria. — Isso me faz lembrar da minha mãe italiana e meu pai alemão.

— Não vamos perder tempo, Brandon, tire-o daqui. — Charles nem deu importância para Kai.

— Como? — Kai finalmente falou, confuso. Deu um passo a frente, franziu a sobrancelha e olhou para o loiro. — Me tirar daqui?

— Precisamos conversar. — Brandon disse temeroso.

— Já sabia que ia ser expulso. — falou, sua voz soou firme, embora estivesse com bastante medo da verdade.

— Não, não! — Brandon tentou acompanhá-lo. — Você não vai ser expulso. — falou em tom carinhoso, como se realmente estivesse sentindo a preocupação do amigo.

Charles observou aquilo curioso, porém em silêncio.

— Podemos conversar lá embaixo? — pediu e torceu por uma boa resposta.

Kai se virou, olhou para Charles e depois para Brandon.

— Quem é esse garoto? — Kai perguntou, insistindo em saber quem realmente era aquele que estava deitado sobre a cama do Brandon.

— Charles Ferazza, futuro líder deste lugar. Então é melhor que respeitar desde já. — parou pra pensar no que havia dito. — Rimou. — sorriu.

— Ferazza? — Kai mostrou os dentes em uma expressão divertida, duvidando que aquilo fosse verdade. Mas Brandon, em sua frente, não negou a afirmação de Charles.

Naquele instante Kai passou a observar Charles e sua semelhança com Sean. Os cabelos pretos, olhos profundos, embora verdes e dono de uma personalidade autoritária.

Kai não era alguém idiota demais pra saber que realmente não tinha o que contestar. Ainda que esperneasse, gritasse e xingasse, estava diante de dois Ferazzas, membros que tinham prioridades dentro daquele lugar. E, conhecendo Sean, que por sinal já queria expulsá-lo há tempos, só sairia dali prejudicado. Mesmo sendo rebelde, nunca se viu em outro lugar, nem mesmo nos leões onde tinha amigos, já estava tão habituado com o lugar, que se ver longe dali era estranho... Se não fosse o Brandon, onde ele estaria? Por isso só agora sentiu o peso da provável expulsão.

— Então seja bem vindo. — disse, com raiva, mas ainda assim falou.

O skatista foi até sua cama, pegou um cobertor e um travesseiro e depois olhou para Brandon.

— Amanhã eu pego minhas coisas e vou embora, não quero me submeter ao ritual de expulsão. Aliás, acho que vou dormir na república do Hugh, pra quê perder tempo?

— Kai, calma, será que podemos conversar lá embaixo? — suplicou o loiro.

— Brandon...

— Ele te falou as regras? Se não, é melhor que saiba que você me deve respeito, certo? — Charles interrompeu, insistindo no respeito que deveriam ter com ele.

— Se mal costumo respeitar o próprio Sean, que é líder disso aqui, por que o respeitaria se você só me parece ser uma cópia mal feita dele? — Kai obteve a resposta da língua.

Brandon deixou escapar um sorriso enquanto estava de frente para Kai e de costas para Charles, por sorte o primo não viu, mas o coração saltou em alegria com a resposta que seu amigo havia dado. O Kai atrevido fazia falta e, por um momento, pôde matar a saudade.

— Se eu fosse você teria mais cuidado com as palavras. — Charles disse.

— Se eu fosse você eu abaixava essa cabeça e tentava ser mais educado, aliás, você é um Ferazza, certo? Honre o sobrenome em educação.

— Kai, vamos lá embaixo. — Brandon interrompeu, percebendo que a discussão não poderia prosseguir, temendo o que Charles fosse capaz de fazer. Com isso tocou no ombro do amigo.

— Não precisa me tocar. — Kai disse, afastando-se dele. — Não precisa ir atrás de mim, eu vou saber me virar.

— Só me espere lá embaixo antes de tomar qualquer decisão. Já disse: você não vai ser expulso. — disse o loiro.

Kai simplesmente não deu mais ouvidos, encarou Charles por um curto momento e, com travesseiro e cobertor na mão, pegou seu skate e saiu do quarto, tendo que tomar cuidado para não cair da escada.

Brandon ficou parado observando o vazio à sua frente, mas logo despertou quando Charles levantou-se da cama e ficou ao seu lado.

— Você sabe o que o vovô falaria se o encontrasse nessa república, não sabe? Ainda mais dividindo quarto com você. — Charles o olhou.

— Não enche, Charles. — Brandon agora estava irritado.

O loiro foi até sua cama, fez o mesmo que Kai ao dobrar seu cobertor e por sobre o travesseiro, em seguida carregando-os no braço.

— Não me diga que você vai...

— Vou. — interrompeu. — Ele é meu amigo. — disse, olhando para o primo.

— Minutos antes você conversava comigo normalmente e... E agora não estou te reconhecendo.

Brandon caminhou até a porta.

— Nem mesmo você se reconhecerá depois de passar a viver nesse lugar. — disse sem olhar pra trás.

Charles ia falar algo, mas a porta foi fechada.

Brandon parou próximo da escada e respirou. O dia realmente foi agitado. Brigas, brigas e brigas. Voltou a pensar em como iria lidar com Charles, pois se já é complicado viver com Sean, imagina com dois Ferazzas? Sentia saudades da infância onde tudo parecia mais fácil, ainda que Sean tenha sido o único primo a viver afastado dos demais, raramente entrando nas brincadeiras, nos jantares e almoço de família.

O loiro finalmente desceu as escadas segurando o travesseiro e o cobertor em suas duas mãos, e encontrou Kai sentado em um sofá. O amigo estava de cabeça baixa e sequer o havia notado ali.

— Está chorando? — Brandon perguntou.

Kai demorou a responder, mas no passar de quinze segundos ele levantou a cabeça, expondo os belos orbes verdes, fuzilando o loiro que até temeu o olhar raivoso, seco, sem algum resquício de lágrima.

— Ok, não está chorando. — o futuro médico falou colocando as coisas no outro sofá. — Vim te fazer companhia. Isso se você não se incomodar.

— Não deveria abrir mão da sua cama. Aliás, não deveria abrir mão do seu quarto.

— Isso se aquele quarto ainda for meu. — Brandon arrumou o travesseiro na extremidade do sofá e depois deitou.

— Mas você esteve nele antes do seu primo chegar.

— Não tem problema se ele quiser aquele quarto. São todos iguais, exceto o do Sean. Eu me viro dormindo em outro. — puxou o cobertor até suas pernas. — Prefiro me ver longe de encrencas, por enquanto.

— Vamos direto ao assunto, Brandon. — Kai, ainda sentado, não retirou os olhos dele. Brandon, deitado, acomodou-se no sofá. — Eu vou ser expulso?

— Não vai. — respondeu.

— Como não?

— Por que quer tanto ser expulso? — Brandon o pegou de surpresa. Kai, que até então tinha algo pra falar seguindo o andamento da conversa, mordeu a língua. — Eu disse que já resolvi esse problema, não disse? Então pare de fazer perguntas e apenas aceite que você vai permanecer sendo um tigre.

Kai ainda assim não soube o que responder. Retirou seus olhos de Brandon e olhou para o chão. O loiro deu continuidade, dessa vez em um assunto diferente:

— Pode me dizer onde estava pra chegar essa hora?

— Por aí... — Falou e arrumou o travesseiro, também se deitando no sofá encostado à parede, perpendicular à parede do sofá em que Brandon estava.

— Por aí...? — fez sinal com a cabeça, esperando ele completar a resposta.

— Por que se preocupa tanto?

— Acabei de dizer que você não vai ser expulso e é essa a resposta que recebo? Baita ingratidão, hein! Já está na hora de você parar de agir assim...

— Sua sorte é que ainda troco palavras com você.

— Puta que pariu... — esbravejou.

Kai cobriu o corpo, deixando exposta a cabeça. Brandon o olhava por alguns segundos até depois fechar seus olhos. Deveria dormir e não perder mais tempo discutindo. O sofá até que era aconchegante.

— Eu estive numa festa. — Kai falou ao notar que ele havia fechado os olhos. Brandon imediatamente despertou.

— Você não me parece alcoolizado.

— Porque não bebi.

— Mas vem cá... Você ficou com alguém?

— Por que quer saber?

— Só pra saber mesmo... É bom descobrir as coisas que os amigos fazem, sabe? Tá que você nunca mais me contou nada da sua vida e eu sou obrigado a ficar descobrindo sozinho, então... Devo saber se meu amigo anda se relacionando com alguém, não é mesmo? — sorriu. Um sorriso artificial.

— Amigo... — Kai murmurou, mas Brandon o ouviu, contudo não questionou o murmúrio.

Kai em seguida revirou os olhos.

— Você tá chato, hein...

— Não beijei ninguém. — respondeu. — E você... O que faz até esse horário acordado?

— Hm, não beijou... — parou pra pensar por cinco segundos, depois prosseguiu — Fiquei enrolando com o Charles no quarto. Eu não podia dormir até que você chegasse, imagina só a confusão?

— Eu sei cuidar de mim, Brandon.

— Pensamento egoísta, visto que você tem amigos e deveria aceitar a ajuda deles.

— Meus únicos amigos são Hugh e Calvin. — fez questão de lembrá-lo.

Brandon sentiu o peso das palavras. O silêncio se instalou no cômodo, logo Kai percebeu que o silêncio do loiro o machucava.

— Entendo... — Brandon disse, baixinho.

— Não posso agir como se nada tivesse acontecido, me desculpe.

— Eu quem peço desculpas. — virou-se, chateado e entristecido.

— Brandon, você sabe o que fez comigo.

— Kai, corta essa, tá bom? Um dia eu vou cansar de insistir em nossa amizade novamente.

Amizade. Kai novamente foi machucado. Era duro ter que amá-lo.

— Por que fez aquilo? — Kai questionou, observando-o de costas. — Seu problema é achar que eu não estou machucado com tudo isso. Eu consigo falar com você, mas não consigo te perdoar, Brandon.

— Um dia você irá. Eu sei. Só espero que não seja tarde demais. Todos nós erramos.

— Mas eu sei que você cometerá o mesmo erro. Seu sobrenome é sua maior culpa.

— Tem razão.

“É por isso que você ainda está aqui. Por eu ser um Ferazza...”. Pensou no que aconteceria no dia seguinte. O loiro havia feito uma escolha e, por conhecer Sean, ele não teria piedade alguma. Kai ficaria na república, mas... Brandon era um Ferazza. Ferazzas não costumam ser bons sem que haja um preço a se pagar.

— Você contou pra alguém? — Brandon perguntou, voltando a se virar pra poder olhar para o Kai.

— Essa pergunta se tornou tão comum sempre que paramos pra conversar sobre isso.

— Não é legal que as pessoas saibam...

— Eles só sabem de uma parte, até porque eles viram. Inclusive, seu primo Sean. Mas a outra parte, não, ninguém sabe. Eu não vou te prejudicar, ainda que eu pudesse fazer isso.

— Kai, eu não te contei algo...

— Isso não é novidade... Não quero mais falar sobre isso, Brandon. Esse assunto não é legal e sempre me deixa com mais rancor. É melhor pararmos.

Kai então deu as costas para Brandon, acomodando-se melhor no sofá que estava. O coração apertava em dor ao se recordar daquele dia. O mais engraçado era conseguir dialogar com Brandon, pois no fundo, no fundo, de maneira doentia, compreendia, mas era por compreender que ele se machucava cada vez mais.

Brandon quis aceitar o que o amigo dizia, mas ao mesmo tempo sentia a necessidade de revelar. Nunca sentiu tanta segurança em conversar com alguém sobre qualquer coisa, mesmo este alguém não mais o considere amigo. Pelo menos, diante o que aconteceu, Kai ainda mostrava que, no fundo, uma pequena chama de perdão permanecia acesa, mas presa numa redoma de rancor.

Se não fosse isso, por que Kai ainda falaria com ele?

— Naquela festa em que aconteceu toda aquela loucura... — iniciou, sabendo que Kai ainda o escutava. — Quando nos beijamos, q-quando nós transamos... eu, você... — gaguejou. — Eu, bem, eu era...

— Você era virgem. — completou.

O silêncio. O breve silêncio de que é bombardeado com uma simples frase. Brandon ficou embasbacado, querendo proferir palavras, mas nada saia por seus lábios. Todos os seus pensamentos giraram em torno de como Kai sabia daquilo.

Kai, ainda de costas para Brandon, fechou seus olhos e encerrou dizendo:

— Eu senti sua insegurança.

Brandon, por sua vez, não disse mais nada. Bastava apenas aceitar que Kai não queria conversar sobre aquilo e, com toda razão, respeitou o momento dele.

Kai, em seu lugar, fechou os olhos e sorriu ao lembrar-se daquele dia, de como foi prazeroso ter seu corpo tomado por Brandon. À medida em que o sorriso se desfez, a lágrima tomou espaço em sua face. Era doloroso lembrar-se disso e do que ocorreu logo depois. Por que não conseguia odiar o Brandon? Ele merecia todo o seu ódio após o que fez.

[...]

Primeiro vestiu a camisa e olhou as horas em seu celular: seis da manhã. Apertou o cinto ao redor da calça e bebeu o resto do vinho na taça que estava em cima da mesinha de centro. Em passos delicados caminhou até o balcão que dividia a sala da cozinha, e viu que debaixo do faqueiro havia determinada quantia de dinheiro, imediatamente o recolheu e guardou no bolso, depois calçou seus sapatos que estavam espalhados pelo cômodo e lavou seu rosto na torneira da cozinha.

Reece — não era seu nome verdadeiro, mas era assim que eles o chamavam—, olhou uma última vez para o sofá onde o homem dormia profundamente, totalmente pelado. A “brincadeira” que começou na cozinha, foi parar no quarto, mas acabou terminando na sala.

Procurou por um bloco de notas e deixou um pequeno recado: “Obrigado”. O colocou onde antes o dinheiro estava e, de mansinho, caminhou até a porta, abrindo-a devagar para não acordar o seu cliente.

Reece levava uma vida dupla. Para seus clientes, seja homem ou mulher, esse foi o nome escolhido para não ser identificado, mas seu nome verdadeiro era conhecido entre moradores da tão conhecida Quadra Nove, membro da república mais barulhenta daquele lugar, ou seja, um leonino chamado Calvin Nelson.

Mentir para sobreviver seria essa alternativa? Absolutamente ninguém sabia dessa sua vida dupla. Ainda que todo o dia pensasse nisso, já estava de braços abertos nesse meio. Por isso, caminhou até o fim do corredor, pronto para voltar pra sua república.

Calvin demorou cerca de trinta minutos para chegar à quadra. O táxi o deixou na porta de sua república. Após pagar ao taxista, ele desceu do automóvel e ainda parou um tempo pra respirar. Tinha dormido tão pouco e precisava da sua cama.

Entrou em sua república e imediatamente retirou os sapatos, carregando-os na mão. Adorava andar descalço. Ao se aproximar da cozinha ouviu um barulho e estranhou, já que se tratando do horário, quem acordaria tão cedo nas férias? Tramando causar susto em quer que estivesse acordado, Calvin desacelerou seus passos. Contudo, ao notar que não era nenhum dos moradores da república, devido a altura, silhueta e penteado, ele logo suspeitou, pela quantidade de tatuagens nos braços, que aquele era Pietro.

Pietro estava de pé bebendo água em frente a geladeira que estava de porta aberta. Trajando apenas a camisa e cueca, seus pés descalços pisavam o chão gélido daquela manhã de céu nublado.

Calvin acabou chutando uma lata de alumínio largada no chão e assim assustou o garoto que imediatamente se virou. O leonino correu para alcançá-lo, mas Pietro foi rápido o suficiente para ir até a mesa e dar a volta nela, distanciando-se de quem queria caçá-lo.

Pietro se sentiu em desvantagem por ter acabado de acordar e sua cabeça está prestes a explodir por tamanha dor. Reconhecia ter tido sorte ao desviar daquele primeiro ataque.

Calvin não era muito fã de enrolação, por isso logo afastou duas cadeiras e correu atrás de Pietro, puxando-o pela camisa, que por consequência rasgou parte dela, o derrubou no chão. Pietro caiu de costas e a dor foi instantânea, entrando em conjunto com a dor de cabeça, deixando-o tonto. Seus gemidos dolorosos foram e não duraram por muito tempo.

Pietro precisou chutar a mesa e com isso derrubar o que estava em cima dela, deixado naquela madrugada em que comeu ali. Isso serviu de distração. Com o tempo ganho, ele rapidamente se levantou, puxou a cadeira ao lado e arrastou contra Calvin. Novamente correu, dessa vez para ficar atrás do balcão. Abriu gavetas para procurar por facas, mas por não conhecer nada dali, acabou perdendo tempo. Ao perceber que Calvin avançava, acabou jogando um copo de vidro contra o outro. Calvin precisou se abaixar para desviar, logo ouviu o copo se quebrar atrás dele.

Pietro saltou o balcão e correu para a sala, puxando uma poltrona para interromper a passagem do corredor, mas teve azar ao perceber que Calvin empurrou o objeto com facilidade. Sem qualquer rancor, Pietro lançou uma peça de vidro que tinha em cima da mesa de centro na sala, novamente errando.

Calvin conseguiu alcançá-lo próximo da porta da sala, puxando-o pelo braço. Quando Pietro se virou para socá-lo, o leonino segurou em sua mão, a levou até as costas e com o outro braço livre acabou prendendo-o pelo pescoço, sufocando-o.

Pietro estava imóvel. Usando a mão para desfazer o braço que o sufocava. Pietro naquele momento reconhecia que precisava de ajuda contra Calvin. Ele era realmente forte.

Colin surgiu abrindo a porta do seu quarto. Estava vestindo apenas uma bermuda de tecido liso.

— Que barulheira é essa? — perguntou o líder da república.

Sean surgiu depois, ao lado dele, também sem camisa, mas vestindo a mesma calça do dia anterior. Nesse mesmo momento os outros membros acordaram, reunindo-se na sala um por um para também saberem o motivo de tanto barulho.

— O peguei mexendo em nossas coisas. — Calvin respondeu, ainda sufocando-o.

— Tarado ou ladrão? — Julius, ainda coçando os olhos, perguntou quando viu Pietro de cueca.

Hugh foi o último a surgir, tão assustado quanto os demais.

— Calvin, largue, ele está ficando vermelho! — Hugh pediu, passando por Patrick e Julius para se colocar em frente ao amigo de república, tocando a sua mão e retirando o seu braço que prendia o pescoço do Pietro.

Calvin também soltou a mão do garoto, deixando-o livre. Pietro pôde finalmente respirar, mas não perdendo a oportunidade, se virou e inseriu um soco no estômago do Calvin.

Nesse mesmo momento Marcus correu, segurou os braços de Pietro e os levou para as costas.

Calvin, com seus belos olhos azuis — e vale ressaltar que seus olhos eram considerados os mais belos olhos de sua república, visto que era numa tonalidade azul acinzentado. Às vezes, quando em fila de banco ou de supermercado, as pessoas paravam para ficar encarando-o, gerando momentos de desconforto para ele, outros perguntavam se eram lentes de contato. Os olhos eram considerados pequenos, mas tão chamativos que quando Colin o conheceu, disse que se ele morresse, queria seus olhos de presente. Os olhos de Calvin chamavam mais atenção ao entrar em contraste com a cor de sua pele levemente escurecida e, vale acrescentar a barba e a sobrancelha grossa, que deixavam suas feições raivosas e destacavam seu olhar —, encarou Pietro.

— Não bata nele! — Hugh fez um novo pedido, colocando-se a frente do amigo ao perceber que Calvin logicamente ia descontar o soco recebido.

Pietro e sua ousadia. Era como um rato cercado por vários gatos, que de alguma forma mostrava sua rebeldia ao não temer ninguém ali dentro, mesmo sendo o alimento ou objeto de diversão de todos eles.

— Eu só estava bebendo água, seu desgraçado! — Pietro falou, tentando se soltar das mãos de Marcus, este recebendo ajuda do Julius. Pietro tinha força suficiente para se livrar de um só deles.

— Invadindo a nossa república? — Colin perguntou descendo os degraus.

Pietro olhou para Hugh. Contar ou não contar? Por que teve essa dúvida?

Hugh abaixou sua cabeça, depois voltou a olhar para seu líder. Odiava mentiras, por isso imediatamente contou:

— Eu o deixei dormir aqui. — Hugh uniu suas duas mãos, temeroso. Seus olhos agora iam de encontro aos olhos de Calvin.

Calvin não acreditou a princípio, achava que Hugh queria proteger Pietro, e até esse pensamento era estranho. Por que Hugh protegeria Pietro?

Hugh continuou:

— Primeiro, eu preciso explicar tudo, eu sei, mas não precisam bater nele. A-alguém — gaguejou — pode ir lá no meu quarto pegar uma calça ou bermuda pra ele?

Patrick atendeu ao pedido.

— E uma camisa. — audacioso, Pietro pediu. — O bonitinho aí rasgou a minha — olhou para Calvin.

Calvin, por sua vez, fechou seus olhos e contou até três. A paciência estava chegando ao limite. Pietro era realmente alguém que, mesmo encrencado, infernizava a vida de qualquer um.

— Vocês poderiam largá-lo? Assim vão machucá-lo. — Hugh pediu.

Marcus e Julius não obedeceram, apenas olhavam para Colin.

— Você permitiu que esse garoto dormisse aqui? — Colin sentiu o corpo formigar. Em breve explodiria em raiva por ter seu sono interrompido.

Sean assistia tudo em silêncio.

— Qual o seu problema, Hugh? — Billy perguntou. — Esse garoto vive se metendo em problemas. Inclusive, com o seu amigo Kai.

— Eu sei, eu sei... — tentava falar.

— Primo, você fumou uma daquelas? — Julius questionou.

— É claro que não! — respondeu de imediato. — Eu não gosto dessas coisas, você sabe. É só que...

— Aposto que você foi ameaçado. — Calvin falou.

Todos estavam interrompendo Hugh.

— Não, isso não! Ele só... — novamente tentou explicar.

— O que diabos tá acontecendo aqui? — Danion, que recém tinha acordado, questionou ao abrir a porta de entrada. — Não são nem sete horas e o Caine me acordou dizendo que ouviu barulho vindo daqui.

— Levando em consideração que a Quadra está silenciosa e a república do Caine é vizinha à nossa, isso significa que ele realmente ouviu. — Patrick falou, jogando uma camisa e calça para Pietro. — Somos a república mais barulhenta desse lugar. — completou.

Danion fechou a porta e, com os cabelos desarrumados, roupas amarrotadas e cara de sono, ele encarou Pietro.

— Olha só, acho que já sei o motivo. — disse o branquelo ainda olhando para Pietro.

— Ele invadiu nossa república. — Marcus falou.

— Não invadiu! — Hugh tomou a voz. — Eu já disse pra vocês que ele não invadiu, custa acreditarem em mim? Não! Eu não fumei, não bebi e nem estou sendo ameaçado. Eu realmente o deixei dormir aqui.

Danion agora olhou para Hugh. Algo lhe chamava atenção naquela defesa.

— Por qual motivo? — Billy perguntou. — Aliás, não tem motivos. Pietro sempre foi encrenca.

— Vocês viram o quanto choveu essa madrugada? — Hugh perguntou a todos.

— Ele tem a república dele. — Marcus falou.

— Ele foi expulso. — Hugh continuou. — E eu, vendo a oportunidade, não neguei ajuda. O que tem de errado nisso? Não ia deixá-lo na chuva.

— Hugh, esse garoto ontem estava tentando te bater. — Calvin, observando o amigo, explanou. Deixando claro todo o problema.

— Eu sei que vocês têm toda razão pra acharem isso estranho e errado. Eu não me importo. Realmente não me importo. Eu só acho que vocês deveriam considerar o que eu fiz.

— Isso é caso de expulsão. — Billy falou.

— Não me expulsem! — pediu, olhando para Colin. — Eu não fiz nada de errado.

— Você deveria ter conversado comigo, Hugh. — Colin pediu.

— Bem... — Hugh olhou para Sean. — Eu achei que... eu achei que... — não quis entrar em detalhes.

Logo Sean e Colin trocaram olhares e Danion deixou escapar uma bela gargalhada.

— Sim, eles estavam transando. — falou o branquelo.

A sorte é que Colin não segurava nada em sua mão, caso contrário ele faria do objeto uma arma para arremessar em Danion.

— Ainda que eu falasse com você, o que você me diria? — Hugh deu continuidade, não querendo tornar o momento indelicado. — Aposto que todos vocês deixariam ele dormir na rua e na chuva.

— Pietro tem os amigos dele, Hugh. Inclusive, péssimos amigos por sinal. Andrew, principalmente.

Hugh se lembrou do que Pietro havia contado sobre namorar Andrew.

— Eu sei que vocês podem achar que tô dando motivos demais para tê-lo deixado dormir aqui. Mas eu poderia detalhar tudo o que aconteceu pra que isso tenha acontecido. Contudo, não vai servir de nada, visto que nenhum de vocês estão de acordo com minha atitude. — Hugh estava cansado de tentar explicar. Por isso, acabou ficando a frente de Pietro.

Ninguém falou nada depois do que Hugh tinha dito. Apenas ficaram encarando Pietro.

— Vão ficar me encarando? — Pietro esbravejou. — Me solta, porra! — tentou se desfazer das mãos de Julius e Marcus.

— Parece que eu me vejo no passado. — Danion disse, relembrando-se de como era, associando-se ao Pietro.

Pietro encontrou os olhos de Sean sobre ele e, não perdendo a oportunidade, esbravejou:

— Tá me olhando por que, porra? — Sean não esboçou reação ao questionamento, apenas permaneceu encarando-o. — Sempre quis quebrar essa sua cara e acabar com essa fama de líder mais bruto da Quadra. Quero ver se você é tão bom de briga assim!

— Tá pedindo pra morrer. — Billy falou.

Sean ia descer a escada, mas o líder dos leões o segurou pelo braço. Bastou um olhar de Colin para que Sean compreendesse o que ele queria. Por isso permaneceu em seu lugar, quieto, mas não ficou calado:

— Venha você e seus amigos, vai precisar de ajuda.

— Você se acha demais, só porque lidera os tigres. Acha que todo mundo tem medo de você. Ouvi os boatos do antigo líder dessa república que quebrou a sua cara.

— Soltem-no. — Danion pediu para os Julius e Marcus. — É castigo que vocês querem dar a ele? — olhou para todos. — Então vamos logo resolver isso.

O branquelo trancou a porta.

Nos primeiros dez segundos todo mundo ficou confuso, inclusive o próprio Colin.

— O que vai fazer, Danion? — Colin perguntou.

— Garoto, você tem algum lugar pra ficar? — Danion ignorou Colin e perguntou para Pietro.

— Posso me virar sozinho. — não admitiu.

— Certo, então sabemos que você não tem. Segundo o Hugh, você foi expulso da sua república. Uma das repúblicas menores. Devo te fazer uma proposta.

— E qual proposta seria? — Pietro perguntou.

— Você odeia todo mundo aqui dentro, não é? Por incrível que pareça, eu também. — logicamente, uma mentira, mas era esse o jeito Danion de ser. — Por mim eu quero que todos vão pro inferno enquanto eu fumo meu velho e magnífico cigarro.

— Anda logo... — Pietro estava perdendo a paciência.

— Quer tanto bater em Sean? Vença-o e te deixo ocupar um quarto da nossa república. Mas se perder vai sair daqui surrado.

— Danion! — Colin tomou a voz agora.

O branquelo continuou ignorando Colin.

— Imagina como seria todos tendo que suportá-lo aqui dentro? Pra você, certamente, seria a melhor coisa.

— Está falando sério? — Pietro perguntou, duvidando.

Sean olhou para Colin, considerando aceitar a ideia de Danion. Porque era lógico que eles sabiam que Pietro não teria chances contra o Sean, ou teria, mas tendo em vista a diferença física, idade e tempo de Sean na Quadra, logicamente obtendo experiência nas brigas em que se meteu, Pietro tomaria uma bela surra.

— Não posso concordar com isso. — Hugh falou.

— Você não pode concordar com nada, tendo em vista que essa confusão só está acontecendo por sua causa. — o branquelo não queria parecer grosseiro, mas tinha todo um plano por trás de tudo o que estava fazendo.

— Eu aceito. — Pietro disse.

— Soltem-no. — pediu mais uma vez, e dessa vez Julius e Marcus obedeceram.

Patrick foi para o canto da sala, Billy sentou-se no sofá. Danion encostou-se a porta. Marcus ficou próximo ao corredor enquanto Julius segurou Hugh pelo ombro, afastando-o até a janela. Hugh olhou para Danion e, no fundo, acreditou que o branquelo estava planejando algo.

Pietro vestiu a calça caída.

— Se é isso que ele quer. — Colin revirou os e se sentou no degrau. — Vamos logo acabar com isso.

Sean, sem camisa e apenas com calça e pés descalços, desceu os degraus da escada devagar. Quando ia se aproximando, Pietro tratou em não perder tempo e tentou socar Sean, o moreno segurou em sua mão e o empurrou.

Pietro deu dois passos para trás, mas imediatamente voltou para atacar Sean. Quase que conseguiu socar o rosto do moreno, contudo Sean com uma mão, com toda a força que tinha, o segurou pelo pescoço e o derrubou no chão, o impacto foi tão forte que os demais sentiram a dor de Pietro.

Caído no chão, Pietro sentindo as dores, se esforçou pra levantar. Tendo em vista as más condições após o confronto com Calvin, agora estava ainda pior brigando com Sean.

Pietro conseguiu acertar um chute na perna de Sean, mas não o suficiente para fazê-lo desistir. Quando Pietro tentou novamente socar o moreno, o líder dos Tigres teve espaço para depositar um soco no estômago dele, em seguida um soco com a mão esquerda em sua face e finalizou com um soco de mão direta no nariz.

Pietro caiu no chão desacordado, o nariz sangrava.

Quem se atreveu a se aproximar?

Todos ficaram em seu lugar, com exceção de Hugh que correu e se abaixou e pôs a cabeça de Pietro sobre suas coxas.

Sean ficou em seu lugar, olhando para Pietro caído. A vitória era tão certa.

O líder dos Tigres não era o cara mais forte da Quadra, aliás, não existia exatamente um, com exceção de William... Aquele sim quando tomado pelo ódio era difícil de ser derrubado, até mesmo Joshua reconhecia isso, mas isso não fazia de William um deus.

Mas Sean tem um histórico de brigas na Quadra, inclusive uma das brigas mais marcantes da Quadra o inclui, que foi contra William. Naquele dia ele não teria se rendido, porém Colin acabou interferido ao reconhecer que Sean perderia. E realmente perderia.

Pietro precisa ter cuidado ao subestimar os veteranos daquele lugar. Portanto, é melhor que fique apenas infernizando a vida dos outros calouros.

— E agora? — Hugh perguntou preocupado.

— Consegue levá-lo para seu quarto? — Danion pediu, com um sorriso divertido no rosto.

— Danion, eu não estou gostando desse sorriso. — Colin falou, olhando para o amigo.

— Acho que o que aconteceu aqui paga toda a raiva que vocês sentem por esse garoto. — o branquelo falou.

Sean voltou para a escada, encostando-se no corrimão.

— Vocês ainda vão cuidar desse garoto? — Billy questionou, notando que Hugh tentava levantar Pietro.

— Vai ter que aceitar ele como um membro de nossa república. — Danion olhou para Billy.

— Eu não concordo com isso. — Colin se levantou. — Esse garoto não é bem vindo aqui. Eu sou o líder, Danion.

— Qual o problema em tê-lo? — Danion perguntou.

— Ele já foi expulso da antiga república dele, pelo que Hugh falou. Já é um motivo para não querê-lo aqui. Fora isso ele vive se metendo em brigas a todo instante com o seu grupo. Ainda tem mais: a república está cheia.

— Ele invadiu nossa república. — Marcus precisou lembrar.

Hugh o olhou, querendo novamente explicar todo o ocorrido, mas acabou optando por levar Pietro para o quarto e deixou os demais discutindo.

— Invadiu? Hugh acabou de nos dizer que permitiu que ele dormisse aqui. Hugh por acaso costuma mentir? — Danion defendeu. — Todos nós sabemos que não. De qualquer forma, se vocês soubessem de toda a história entre leões e tigres, vão acabar descobrindo que invasões são uma coisa comum nesse lugar. Sean invadiu nossa república. Nós invadimos a república dos Tigres, ou você não se lembra de quando foi espancado, Colin?

— Por que o Danion tem que decidir algo? — Billy afrontou o Colin. — O líder aqui é você, então é você quem manda.

Sean olhou para o Colin, e o namorado sentiu aquele olhar sobre ele. Colin sabia que o moreno estava dando razão ao que Billy tinha dito.

Danion olhou para Billy e precisou respirar fundo. O que antes se tornou um momento de diversão, agora estava rumando ao desconforto. Colin contra Danion.

— Voltem para seus quartos. — Colin ordenou. — Me deixem conversar com o Danion. Isso não significa que Pietro é um dos nossos.

Patrick foi o primeiro a obedecer, notando que Colin estava próximo da irritação. Ele segurou no braço de Julius — que estava louco pra ficar ali — e o puxou corredor adentro.

Logo um por um foi para o interior da casa, restando apenas Colin, na escada, Danion, próximo à porta, e Sean encostado à janela. Mas o moreno acabou voltando para a escada, subindo degrau por degrau até alcançar a porta e entrar no quarto.

— O que quer conversar comigo? — Danion perguntou, cínico.

— Por que acha que deve interferir em minhas ordens, Danion? — desceu a escada.

— Até quando vamos ter que falar sobre isso?

— William me deu a liderança, Danion. E se você tá achando as minhas decisões ruins, por que não contestou a escolha do Will?

— A república é minha.

— Quer a liderança? Eu te dou e fim de papo. — estava irritado.

— Vai tomar no cu. — insultou. — Custa perceber que eu estou apenas ajudando? Da mesma maneira que você ajudava o William.

— Pode até ser que você esteja me ajudando, mas eu não podia decidir pelo o Wiliam. Era ele quem tomava as decisões.

— Foda-se! Eu comprei a república, eu posso decidir quem entra e quem sai.

Eles estavam brigando sem que percebessem.

— Pietro tem os amigos dele, ele certamente vai ficar no Ninho.

— Se fosse tão fácil assim ficar lá, a Quadra certamente não existiria. Desse modo, por que Edgar ainda está aqui? No máximo ele conseguiria passar um ou dois dias lá, mas e depois? E depois, quando percebessem que ele não é morador de lá? Porra, Colin.

— Não consegue lembrar de como foi com Gaspar? Parece que você não quer enxergar isso. Acha mesmo que ele abriria mão daqueles amigos dele em busca de moradia?

— Eu estou sujeito a cometer esse risco.

— Por quê? Por que quer tanto aquele garoto aqui? Ele é nosso inimigo, Danion. Sempre que pode quer machucar um dos leoninos.

— E Sean? — A pergunta que quebrou Colin em duas partes. O pequeno apertou os punhos e encarou o branquelo. — Já parou pra pensar em toda a história de vocês e o quão filho da puta você foi ao se relacionar com ele e mentir pra o William? ― Danion nunca se limitou a palavras. Falava tudo o que vinham em sua mente, mesmo sem calcular o tamanho do estrago que poderia causar.

Colin o fuzilou, enfurecido. Segurando-se em seu lugar para não batê-lo.

— Se eu pegar seu histórico de como você fez o Caine sofrer, veremos que somos iguais nesse quesito.

— É sobre nós que iremos falar? Porra, hein. — Danion sentiu a indiferença no tom de voz do pequeno.

— É pra mostrar que você nunca foi exemplo a ser seguido.

— Exatamente por isso que eu quero que aquele garoto fique aqui.

— Pra quê? Pra todo dia ele brigar com um e com outro? Quer ver a república pegando fogo? Quer acordar todos os dias com gritos? Quer sair cuidando dos curativos dos que vão se machucar numa briga? Quer...

— William faria a mesma coisa! — Danion gritou, interrompendo Colin.

Todos dentro daquela república ouviram o grito do branquelo, ainda que estivessem em outros cômodos.

Colin, inclusive, tomou um susto quando Danion elevou o tom de voz. Acabou tendo que se calar diante o peso da frase proferida pelo branquelo.

— Já chega. Eu não vou perder meu tempo brigando com você. Não quer tanto sua liderança? Ótimo. Fique com ela. Decida tudo e faça tudo. A partir de hoje é só com você. — o pequeno falou, afastando-se.

— Por que você é sempre tão exagerado e dramático? Gosta de falar verdades, mas quando a verdade te atinge, prefere fugir.

Foi nesse momento que Colin se virou enfurecido.

— Fique. Com. A. Porra. Da. Sua. Liderança! — gritou pausadamente.

Colin deu as costas. Suas mãos tremiam. Danion nunca foi de conter muitos argumentos em uma discussão, mas nessa ele conseguiu deixar o pequeno Colin nervoso a ponto de fazê-lo desistir de permanecer debatendo a respeito de Pietro.

— Eu não vou ficar, na verdade eu já estou com a liderança. A diferença é que eu a divido com você e te deixo encarregado das maiores responsabilidades. — disse com ar de provocação.

Colin odiava o Danion e suas provocações. O branquelo tinha essa mania de irritar todo mundo, até mesmo numa discussão.

— Você por acaso perguntou pro William como foi que eu me tornei um leonino?

— Eu não quero saber. — disse sem olhar pra trás, subindo as escadas.

— Pergunte-o e depois venha falar comigo.

— Não quero mais falar com você. — o pequeno falou, abrindo a porta do quarto.

— Então vai tomar no cu. — finalmente ele proferiu aquilo que era de costume em seu dialeto.

Parece que alguém estava dando indícios de amadurecimento.

[...]

Os fios vermelhos eram iluminados pela luz do sol enquanto caminhava. Joshua McGraien caminhava de cabeça baixa, segurando uma pequena sacola em uma de suas mãos. Atravessou os portões do Ninho em silêncio, sem sequer dar bom dia a alguém; hábito comum.

O ruivo observava tudo a sua volta. O ninho ainda estava vazio devido às férias dos alunos que resolveram voltar para suas cidades, mas outros ainda permaneceram no lugar, o que foi seu caso.

Joshua passou a observar um grupo que vinha caminhando em direção contrária ao seu caminho. O ruivo resolveu encarar uma única pessoa naquele meio: Andrew Sparks.

Andrew, por sua vez, retribuiu aquele olhar ameaçador, foi quando o ruivo parou de supetão em frente ao grupo. Quem o conhecia, sabia que era melhor se afastar e foi exatamente isso que aconteceu, mas Andrew posicionou-se a sua frente.

— Algum problema? — Andrew perguntou, sem temê-lo.

— Você está no meu caminho. — as poucas palavras, como de costume. Joshua olhou sobre a cabeça do garoto o seu bloco logo atrás.

— Estou? — Andrew deu um passo para o lado, esboçou um sorriso provocador e olhou para o ruivo. — Pronto, agora pode passar, senhor rei do Ninho.

Joshua caminhou. Os punhos fecharam-se, mas Edgar não queria se envolver em confusão, visto que seu namorado não estava bem naquele momento.

— O reitor sabe que você vive trazendo um garotinho pra ocupar os aposentos do Ninho? — Andrew questionou assim que Joshua passou por ele.

O ruivo parou mais uma vez. Olhou para trás e respirou fundo.

— Toque nele.

— Tocar? — perguntou confuso e depois olhou para os colegas.

— E eu prometo quebrar seu braço em três partes. É melhor que fique ciente de quem eu sou antes de decidir me provocar, calouro.

— Joshua, o monstro! E ah, eu não sou mais calouro, o segundo período me aguarda...

A paciência foi no limite. Joshua se virou e deu um passo pra frente.

— Joshua! — Caleb o chamou em um grito. Ele estava na soleira da porta de seu bloco.

O ruivo parou, olhou para Caleb e em seguida para Andrew, depois deu as costas e seguiu caminhando para o seu bloco. Andrew deveria se considerar um garoto de sorte naquele momento, pois se Joshua não estivesse nos seus melhores dias, alguém seria morto naquele lugar.

Andrew voltou para o seu grupo sorrindo. Pobre coitado, não fazia ideia de com quem estava se metendo.

— Ainda é cedo para que ele receba as suas boas vindas nada carinhosas. — Caleb disse Andrew distante.

— Ele é só mais um daqueles novatos que tentam criar confusão para mostrar que deve ser respeitado. — o ruivo disse, também o olhando distante.

— Bem, ele já está aqui há seis meses. Se ele não entendeu como as coisas funcionam, acho que você já pode colocá-lo no lugar.

— Teria feito isso se você não me atrapalhasse. — o ruivo entrou em seu bloco.

Caleb fechou a porta do bloco. Joshua perguntou:

— Como ele está?

— Ainda dorme. — respondeu sentando-se no puff vermelho. — Comprou os remédios?

Joshua afirmou e sentou-se no sofá.

— Devo me preocupar? — questionou o ruivo.

— Deveria parar de ser tão paranoico, Josh. — Caleb o olhou. — Isso não tem nada a ver com o fato de você ser soro positivo se você tem tomado cuidado. Vem tomando os devidos cuidados, não vem?

— Sempre. — respondeu, relaxando seu corpo no sofá.

— Então fique tranquilo. Deve ser apenas uma febre passageira, algo que ele comeu e não fez bem, por isso o enjoo.

— Pensar que esses são os primeiros sintomas me deixa mais preocupado ainda.

— Ele não quer ir ao médico, diz que logo vai ficar melhor.

— Eu vou levá-lo ao médico assim que ele acordar. — o ruivo ficou de pé. — Irei vê-lo, talvez ele já tenha acordado.

— Deixa o garoto descansar, aliás, você passou a noite toda acordado cuidando dele, deveria deitar nesse sofá e descansar também. — disse ao retirar o celular do bolso.

— Não vou conseguir. — respondeu olhando para o corredor atrás dele.

— Nunca o vi assim com ninguém, Josh. — retirou os olhos do celular e focou no ruivo. — Fico tão feliz em vê-lo assim, finalmente.

Joshua deu de ombros e não o respondeu. Foi até o seu quarto e abriu a porta devagar a ponto de por apenas a cabeça para dentro, verificando se o loiro ainda dormia, mas para sua surpresa o namorado estava de olhos abertos, olhando na direção da porta, consequentemente os olhares se encontraram.

O ruivo então entrou no quarto e fechou a porta também devagar. Edgar se remexeu na cama e se cobriu ainda mais, assistindo Joshua se aproximar.

— Trouxe alguns remédios para sua dor de cabeça. — iniciou o ruivo.

— Eu já estou melhorando.

— Estar melhorando não significa que melhorou, então deve se medicar. Ainda tem chá, quer tomar um pouco?

— Josh, acredite em mim, eu estou melhorando. — adorava a preocupação do ruivo, mas sentia que isso o deixava tenso. — Deite aqui, descanse. — pediu, tocando no espaço vazio ao seu lado.

O ruivo imediatamente obedeceu. Sentou-se na cama, retirou os sapatos e meias e deitou-se ao lado do namorado, que imediatamente uniu seu corpo ao dele.

— Me desculpe. — Edgar falou, olhando-o.

— Por que me pede desculpas? — retribuiu o olhar, deitando-se de lado, com o braço abaixo da cabeça.

— Não te deixei dormir direito. Devo imaginar o quão cansado você deve estar. — os dedos pequenos foram de encontro à bochecha do namorado, subindo até os fios vermelhos.

— Ninguém sabe quando vai adoecer. Não precisa se desculpar, loirinho.

— Estraguei nossos últimos dias de férias. Sei que você queria fazer alguma trilha, mas...

— Não significa que deixaremos de fazer, porém não acontecerá hoje. Existem muitos dias pela frente, loirinho.

Edgar desceu seus olhos, mas continuou com a mão nos fios vermelhos de Joshua, brincando com as pontas dos cabelos dele.

— Hoje mesmo ainda te levarei ao médico. — disse o ruivo.

— Não precisa, eu vou melhorar.

— Claro que precisa. Você adoeceu, passou a madrugada em claro, está com enjoo e febril. Sinto sua mão quente em minha testa.

— Eu sei o que está te preocupando. — voltou com a mão à bochecha dele.

“Vou me odiar pelo resto da vida se isso tiver acontecido.” — pensou o ruivo.

Joshua não falou nada para Edgar, seus olhos fitaram o teto enquanto sentia a mão do loiro acariciar sua bochecha. Era bom, era carinhoso, era um gesto de cumplicidade. Luz.

— Eu sempre fiz os testes, nada acusa, você precisa se lembrar disso. — confirmou o loirinho, passando tranquilidade a ele.

— E se o último teste tenha dado errado? — Joshua questionou.

— Logo você, tão entendedor do assunto, está duvidando disso? Para de ser tão paranoico, Josh.

Joshua, mas uma vez, não prosseguiu com o assunto. Edgar lembrou-se de que tinha algo para mostrar a ele.

— Consegue encontrar meu celular? — perguntou o loiro.

Joshua inclinou seu corpo para frente e encontrou o celular do Edgar na mesa afastada da cama. Levantando-se, ele pegou o aparelho e depois voltou para o mesmo lugar, dessa vez deitando-se com a cabeça no travesseiro.

Edgar recolheu seu celular e procurou por uma música, ao encontrá-la, ele antes pôs o celular sobre o tórax do namorado.

— Feche os olhos e apenas ouça. Nunca acharei música que vá me fazer se sentir tão bem ao ouvir como esta que encontrei. Sempre me fará lembrar de você.

O ruivo fechou seus olhos como o namorado pediu e foi nesse momento em que o loirinho deu início a música em seu celular. E ela de imediato começava com o refrão, que dizia assim:

I see your monsters

Eu vejo seus monstros

I see your pain

Eu vejo sua dor

Tell me your problems

Conte-me seus problemas

Vou afastá-los

I'll be your lighthouse

Eu serei o seu farol

I'll make it okay

Eu vou fazer tudo bem

When I see your monsters

Quando vejo os seus monstros

I'll stand there so brave

Eu vou permanecer valente

And chase them all away

E mandá-los embora

Enquanto a música prosseguia, Edgar fazia carinho no rosto do seu namorado, tocando-lhe os lábios com o polegar e levando seus dedos aos fios vermelhos, concluindo-se em cafuné. A música chegou ao seu fim e o loirinho não interrompeu o carinho. No silêncio do namorado, ele concluiu uma coisa: Joshua estava descansando.

Edgar fechou seus olhos e continuou com a mão nos cabelos do Joshua.

O ruivo, depois de horas acordado, tendo em vista que cuidou do loirinho durante a madrugada, finalmente adormeceu. A sua respiração pesada confirmava isso. A música que tinha por título Monsters, da Katie Sky, literalmente transformou-se em uma canção de ninar, pelo menos o refrão, a única coisa que Joshua tinha ouvido antes de adormecer.

— Vai ficar tudo bem... Eu sei que vai. — murmurou Edgar, pensativo e temeroso.

[...]

O céu nublado se desfez, o azul ganhou espaço e o sol mostrava todo o seu esplendor. Alguns tiraram um cochilo, incluindo Sean que após a confusão dos leoninos, voltou a dormir na cama de Colin no momento em que o deixou conversando com Danion, e ainda não tinha acordado, prova do seu cansaço. Calvin também dormia por conta da noite em seu “trabalho”. Em geral, as coisas fluíam tranquilamente.

Na república ao lado, nos águias, Danion descansava sobre as pernas do Caine enquanto o pequeno assistia na TV da sala. Clara estava cozinhando, fazendo bolinhos para os membros da república. Gale, seu irmão, estava dando conta das suas roupas na máquina de lavar. Roy, um dos novos moradores daquela república, estava varrendo o corredor e Samuel arrumava o seu quarto, mudando móveis de posição.

— Acho que você deveria conversar com o Colin, dessa vez sem briga e expor suas razões. — Caine falou para Danion, tocando-lhe a ponta do nariz.

— Conversar? Já disse que vai ser daquela forma e fim.

— Dan, o Colin merece a liderança, ela foi passada pra ele.

— Mas eu comprei a república, Caine. Isso quer dizer que tenho autoridade ali dentro. Porra, ele vive dando grito e impondo ordens, por que eu não posso fazer isso pelo menos uma vez?

— Você nunca se importou com as decisões dele até agora, ninguém te obedece ali dentro. Isso pode gerar conflitos, você sabe, não sabe? Pois se Colin é o líder, vão achar que você vai poder fazer o que quiser ao ir contra uma vontade dele e, pelo fato de ter comprado a república, não vão saber mais respeitar o Colin.

— A diferença é que eu comprei a república. Vou ter que repetir? Colin pode mandar em quem quiser ali, fazer o que ele quiser, a única coisa que eu quero é aquele garoto ali dentro. Só isso! — resmungou, segurando na mão do namorado.

— Eu compreendo seu pensamento. Só não queria que você e Colin acabassem brigando por liderança.

— Eu quero ficar longe da responsabilidade de líder, mas ao mesmo tempo quero ajudar aquele filho da puta de um metro e sessenta e cinco de altura. Se Colin quer tanto se espelhar no William, então deve começar a agir como ele.

— Acredita que Pietro precisa de amigos melhores, não é mesmo?

— Isso e muito mais... — falou pensativo. — Aquele garoto me faz lembrar do meu passado.

— Se você pensa assim, eu só tenho que concordar com você... Se não fosse o William, onde você estaria?

— Faça essa pergunta pra o seu melhor amigo. — soou infantil.

Caine desceu seu rosto para beijar a testa de Danion, sorridente pelo fato de ele estar irritadiço.

— Preciso relaxar, bem que poderíamos ir pro quarto transar. — o branquelo sentou-se.

Caine olhou para os lados, acreditando que alguém tinha ouvido aquilo. Acabou ficando constrangido quando notou Samuel no corredor, parado. O loiro tinha acabado de chegar quando ouviu aquela frase.

— Te disseram que é feio ficar escutando a conversa dos outros? — Danion perguntou.

— Eu não estava escutando a conversa de ninguém, só cheguei aqui e ouvi isso sem querer.

— Que mal tem? Todo mundo faz sexo. Acha que eu já não ouvi uns gemidos saindo do seu quarto? Quem fode quem? Você fode o Luke ou o Luke fode você? — Danion não parecia estar brincando na pergunta.

A cara de pau do branquelo era, sem sobra de duvidas, a maior da Quadra. Ele não tinha papas na língua.

Caine ficou ainda mais constrangido com a pergunta de Danion, por isso ficou de pé imediatamente e segurou na mão do branquelo, julgando ser necessário retirá-lo dali antes que Samuel começasse a ser grosseiro.

Samuel, por sua vez, internamente ficou extremamente constrangido no momento em que Danion falou que já ouviu seus gemidos. Apesar disso, seus olhar frio mostrou que tal indagação, externamente, foi idiota.

— Caine, sabe se tem mais alguma vassoura sobrando? Estou limpando o quarto. — Samuel perguntou, passando a ignorar Danion.

— Acho que deve ter uma lá na lavanderia. — ainda constrangido, respondeu.

— Não vai me dizer quem fode quem? Então farei minhas apostas, eu acho que...

Nesse mesmo instante a sala foi tomada por um alto som, assustando e incomodando a todos daquela república. Foi tão alto que Caine sentiu o chão vibrar ao som da música. Música essa conhecida por toda a Quadra, tocada na maioria das festas, literalmente um hino que faz qualquer um do chão quando ela começa a tocar, mas naquele horário ela não foi tão bem aceita assim: Hey Mama, David Guetta.

— Que porra é essa?! — Danion gritou com as mãos no ouvido.

“Luke.” Samuel pensou.

Danion foi o primeiro a sair da sua república para saber o que acontecia, Caine o seguiu e logo em seguida Samuel.

Os três encontraram Luke ao lado de um Jeep Grand Cherokee. O automóvel estava com o porta malas aberto, de onde estava a caixa de som, alta o suficiente para acordar todo mundo. Luke estava sorridente, dançando sozinho ao som da música, completamente idiota.

Samuel levou sua mão à testa e notou todo mundo saindo de suas repúblicas, nada felizes com aquilo. Luke assinou sua sentença de morte.

Samuel foi correndo até ele.

— Desliga isso! — gritou.

— Quê?! — Luke segurou em seu braço, induzindo-o a dançar.

— Desliga isso, desgraçado!

— Porra, deixa eu abusar um pouquinho dessa belezura que eu acabei de ganhar!

Samuel, irritado, o empurrou para o lado e abriu a porta do carro. Não sabia onde exatamente mexer para desligar aquele maldito som, mas saiu apertando tudo que encontrava, até finalmente desligar.

Uma chuva de insultos ecoou pela Quadra. Luke nesse momento percebeu o quão inconveniente ele foi.

Sean estava na janela dos leões, se certamente tivesse com uma arma acertaria um tiro em cheio na cabeça do Luke. Colin acordou xingando quem quer que fosse e imediatamente desceu as escadas. Calvin acordou gritando e foi direto para a rua, saber o que acontecia. Hugh trancou Pietro no quarto e também foi descobrir do que se tratava.

Brandon havia acordado assustado e Kai, deitado no sofá ao seu lado, também acordou com os cabelos em pé. Charles desceu correndo as escadas, tão assustado quanto os demais. Os três saíram juntos da república.

— Você tá maluco? — Samuel gritou com Luke.

Luke não havia mudado fisicamente, apenas precisava fazer a barba. Seu topete bagunçado era marca registrada dele.

Já Samuel cortou os cabelos, deixando mais curtos nas laterais, mas ainda assim uma mão desaparecia em seus fios dourados. Seu topete era penteado, muito diferente do de Luke.

— Eu só queria mostrar o que eu ganhei. — respondeu, olhando ao redor.

Os moradores da quadra fora de sua república, todos com expressões nada agradáveis.

— Precisava ter que mostrar pra todo mundo? — Samuel ironizou.

— Seu filho da puta, tá querendo me deixar surdo? — Danion gritou, mexendo na orelha.

— Oi pra todo mundo! — Luke gritou e acenou, novamente olhando ao redor. — Eu voltei das férias e agora vocês vão ter que lidar com esse gostoso aqui! — apontou para o próprio corpo.

Não importava o que acontecesse, Luke era sempre Luke. Aquele que gostava de viver em sua loucura.

Samuel, coitado, preferiu abandonar o lugar e entrar em sua república. Vergonha alheia tomou conta daquele espaço.

[...]

Sean sempre teve certeza de que Luke era um completo babaca. Teve seu sono interrompido pelo som do carro dele. Se estivesse em seus piores dias, já teria decido e caído na porrada com o membro do águia, mas se conteve ao perceber que seu namorado, lá embaixo, insultava a ação dele.

O moreno se sentou e aguardou o namorado voltar. Quando viu que a porta do quarto foi aberta e dela Colin surgiu, ele novamente ficou de pé, buscou por sua camisa e olhou em seu relógio de pulso.

— Já vai?

— É obvio. — respondeu, seco como de costume.

— Por que você não fala nada a respeito do que viu? Ficou calado o tempo todo. — cutucou com palavras.

— Sobre Luke ou sobre Danion?

— Sobre o Danion, é óbvio.

— Por que isso não é problema meu.

— Vai se foder, Sean.

— Olha só quem foi fodido algumas horas atrás... — se espreguiçou.

— Porra, não percebe que eu preciso da sua ajuda?

— Colin, isso é um problema seu e da sua república. Sou um tigre, aliás, líder dos tigres. Sei lidar com os meus. Lembre-se que há problemas que só cabe a nós resolver.

Sean não estava dizendo tais palavras por maldade, mas dois eram os motivos para isso: Fazer Colin aprender a liderar sem que dependa dos outros, desenvolvendo autonomia em suas decisões, para que assim seus membros percebessem que ele era decidido. O outro motivo estava ligado ao fato de Colin enxergar que da mesma forma que o moreno não o queria se envolvendo sem seus problemas com a república, não iria se envolver em seus problemas também.

— Sempre me pergunto como posso namorar você. — deitou-se na cama.

— Sexo bom, pênis grande e beleza italiana. — respondeu imediatamente.

Colin o encarou. Sean sorriu por dentro, adorando deixar Colin sem respostas.

— Tudo aquilo que você gosta. — o olhou. — Preciso ir. Passe lá mais tarde. — disse o moreno.

— Não vou. Vou cuidar dos meus problemas. — fez referencia ao que foi dito pelo namorado, ironizando.

— Bem, é assim que se aprende.

— Danion é dono da república, ele pode mandar em mim se quiser. — não conseguiu fugir do assunto.

— Mandar em você? — Sean parou de falar por cinco segundos. — Nem mesmo eu consigo mandar em você, até mesmo sua mãe consegue... Imagina o Danion?

Colin riu internamente.

— Ele disse que William faria a mesma coisa. Como William faria a mesma coisa? — se perguntou em voz alta. — Não consigo imaginar o William fazendo isso. Se dependesse dele esse tal de Pietro já estava até fora da Quadra.

— Danion era protegido do William até você aparecer. — Sean disse sem olhá-lo.

— Como você sabe disso? — Colin perguntou.

— Porque eu sempre quis quebrar a cara do Danion, porém William nunca deixava isso acontecer.

O moreno caminhou até a porta.

— Eu não entendi porra nenhuma do que você disse.

— Se me pagar um boquete eu explico. — finalizou o moreno, saindo do quarto sem perder tempo algum discutindo com o namorado.

Sean ouviu algo sendo lançado contra porta, por sorte tinha a fechado.

Colin, na cama, ainda não conseguia compreender nada do que Danion e Sean falaram. O pequeno olhou para os lados e viu a fotografia de William no porta retratos, numa nova foto. Nesse dia, Colin e William iriam tirar a fotografia juntos, mas Danion, com seu jeito atrevido de ser, se colocou ao lado do loiro apenas para irritar Colin. William não se importou com aquilo e acabou levando sua mão ao ombro do branquelo, no momento exato em que a foto foi tirada: Colin olhando para Danion, Danion olhando para William e o loiro sorrindo para a câmera.

— William nunca entregou Danion... William sempre protegeu o Danion. — Colin murmurou e lembrou-se do dia do espancamento do branquelo.

[...]

Sean passou por Kai e Brandon, ordenando que eles entrassem. Logo em seguida subiu as escadas, com uma espécie de soco ele bateu na primeira porta, na segunda e na terceira, descendo ao final da ação.

Sua batida na porta era reconhecida pelos membros, era uma espécie de sinal. Quase sempre que Sean queria falar com alguém — sendo geralmente uma bronca — ele apenas batia uma vez na porta até que abrissem.

Kai foi o primeiro a sentar no sofá, estranhando a ação do seu líder. Brandon fechou a porta da sua república e também se sentou no outro sofá.

— O que aconteceu? — Kai perguntou, com os cabelos em pé, notando os membros da república descerem as escadas. — Aliás, que péssima maneira de acordar. Aquele Luke é louco.

Brandon coçava os olhos enquanto Charles, o único que parecia bem acordado e de rosto limpo e com fones de ouvidos preso ao seu pescoço, sentava-se ao seu lado.

— As coisas aqui agitam logo cedo. — Charles comentou. — Fiquei olhando da janela do corredor.

— Quem é esse? — perguntou um deles apontando para Charles. Seu nome era David, mas conhecido como Dave.

Charles não precisou dizer muito. Por estar usando uma bermuda curta, apenas levantou parte dela e expôs uma tatuagem em sua coxa esquerda: uma cabeça de tigre de bengala, detalhada em traços ricos e chamativa e seu fundo era nebuloso. Diferente da tatuagem de Sean, não era um tigre branco.

— Um de nós? —Edward, outro membro, perguntou.

— Ele é meu primo, Charles Ferazza. — Sean logo encerrou os questionamentos.

Todos ficaram calados. Um outro Ferazza, uma autoridade abaixo do líder.

Sean e Brandon tentavam descobrir como Charles tinha feito aquela tatuagem.

— Qual o motivo dessa reunião tão cedo? — Kai perguntou, olhando para Brandon.

— Prefiro deixar que o Brandon fale. — Sean disse, cruzando os braços e se encostando à parede.

Brandon não esperava aquilo, Sean provou mais uma vez ser a pessoa mais fria do universo. O loiro pareceu ter engolido um pedaço de gelo que rasgava a sua garganta. Aliás, não precisou conversar com seu primo para saber o que teria que ser feito, era uma questão de lógica devido a sua escolha. Por Kai, ele teria que fazer isso, afinal, Charles estava ali e, pelas regras, um quarto era exclusivo dele.

— Vamos, Brandon, fala logo. — Charles disse.

Charles já sabia do que se tratava, não era preciso ter conversado com ninguém pra deduzir o que aconteceria, afinal era um tigre e conhecia as regras, e após ontem perceber que seu primo se importava com Kai, ele só piorou as coisas.

Brandon olhou para Sean, sentindo na pele a responsabilidade daquela situação. Lembrou-se do que Sean disse: “Se eu não posso expulsar o Kai, é capaz de você mesmo fazer isso.” .

— Edward, Dave... Vocês não podem ficar mais na república. — Brandon disse, finalmente, pondo pra fora as palavras presas em sua garganta. Ele não foi capaz de olhar nos olhos dos colegas.

— É o que? — Kai rapidamente ficou de pé. — Você está expulsando-os?

— Do que reclama? — Charles perguntou encarando o Kai. — Isso só está acontecendo por sua causa.

— Eu não sei pra onde ir... — Dave falou, ainda sem acreditar no que estava ouvindo.

— Teria sido mais fácil se só expulsasse esse garoto resmungão. — Charles continuou provocando.

Sean, em seu lugar, apenas observava.

—Por que você está fazendo isso? Pelas regras da república, Kai deveria ser expulso, ele foi o último a entrar. — Edward questionou.

— Porque eu sou um Ferazza e quero isso. — finalmente falou como um membro da família.

No fundo, Brandon apenas não queria explicar pra não deixar Kai mais irritado do que já estava. Tudo aquilo foi feito para tê-lo dentro da república, não querendo que ele fosse expulso.

— De acordo com as regras, eu tenho direito a um quarto, Charles e Brandon também. Cabe a nós escolher se queremos dividi-lo ou não. Se Charles quer um quarto só pra ele, significa que vocês dois não podem mais ficar aqui. — Sean, notando que Brandon estava começando a se sentir mal, tentou transferir a culpa para Charles.

— Eu poderia dividir o quarto com o Brandon, mas ele não quer, então não traga toda a responsabilidade pra mim, Sean. — Charles encarou o primo, esboçando um sorriso malicioso no rosto por destruir com a desculpa dada pelo moreno.

— Vocês não podem nos expulsar assim! — Edward falou. — Do nada, sem qualquer aviso prévio.

— Isso é um aviso prévio. Vocês têm até amanhã pra sair daqui. — Sean disse.

— Bem que me falaram que vocês Ferazzas não prestam. — Edward falou, furioso. Ele deu as costas e começou a subir a escada. — Eu não vou perder meu tempo aqui.

Já Karl, chorava, gostava tanto do lugar que estava que acabou se entristecendo. Porém, não podia mais contestar nada, já estava decretado. Essa foi a decisão das três maiores vozes ali dentro. Karl deu as costas e subiu as escadas.

Brandon olhou para Kai, que sem palavras não conseguia falar nada.

— Deixe-os em meu lugar. Se isso está acontecendo por minha causa, é melhor que eu saia dessa república.

— Ótimo, decisão sábia. — Charles disse.

— Já está decidido, Kai. — Brandon ficou de pé.

— Não está porra nenhuma decidida. — Kai gritou, encarando-o. — O que foi que eu te disse ontem? Seu sobrenome é sua maior culpa. — não se importou com os outros Ferazzas ali presente.

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— O que você queria que eu fizesse? Que te expulsasse? Pra onde você iria? Kai, aceite a porra da minha ajuda e pare de reclamar.

Sean permanecia assistindo aquilo em silêncio, já prevendo toda aquela cena. Ele simplesmente saiu do seu lugar e foi para a cozinha.

— Como pode fazer isso com dois colegas seus? —Kai o olhava.

— Sacrifícios. A vida é feita de escolhas. — frase clichê, mas cabível ao momento.

— Você é igual a todos eles: egoísta, sem coração. Tá pouco se fodendo pra tudo ao seu redor. “Por que eu sou Ferazza e quero isso.” — finalizou repetindo o que ele disse.

Brandon não obteve argumentos. Charles o olhou sem acreditar naquilo. Estava mordendo a língua para dizer algumas palavras para Kai, mas se contendo, preferiu apenas assistir.

— Você sabia que isso aconteceria. — Kai o olhou. — Mentiu pra mim ontem ao dizer que tudo ficaria bem.

Kai simplesmente saiu do seu lugar, mas Brandon tentou segurá-lo, com isso recebeu um empurrão, caindo no sofá.

Revoltado, Kai saiu da sua república, mas para a surpresa de Brandon, Charles o seguiu.

— Ei, garoto! — Charles gritou tentando alcançá-lo.

— Vai se ferrar! — Kai gritou.

— Quem você tá achando que é? Deveria agradecer por ainda pertencer a nossa república. Se dependesse de mim você estava longe daqui.

Brandon também saiu da república.

Do outro lado, Calvin ouviu os gritos do amigo, com isso saiu da sua república. Ele teria cochilado no sofá, devido ao sono que estava sentindo por conta da madrugada acordado.

— Ei, Kai, algum problema? — Calvin gritou ao abrir a porta de sua república.

Kai agradeceu por encontrar Calvin e, com isso, atravessou a rua e foi até o amigo.

— Por favor, me deixa entrar. — pediu, querendo fugir de Brandon e Charles.

— Ei, Kai, por favor, vamos conversar. — Brandon correu para alcança-lo.

— Não quero conversar com você. — Kai respondeu, virando-se e encontrando o loiro à sua frente.

— Que garoto chato. Faz drama por qualquer coisa. — Charles também atravessou a rua, ficando em frente à república dos leões com os demais.

— Saiam daqui, o deixem em paz. — Calvin pediu.

Um cara com 1,88m de altura não intimidou Brandon, muito menos o Charles.

— Você me decepcionou mais uma vez. — Kai olhou para Brandon. — Isso nunca vai deixar de acontecer.

— Não percebe que eu não tive escolha... O Sean... O Sean... Ele... — Brandon se atrapalhou todo tentando explicar.

— Ei, grandalhão, poderia sair daqui? — Charles cutucou seu tórax, provocando. — Está nos atrapalhando. Isso é problema dos tigres.

— Você está pisando no gramado dos leões. — Calvin o respondeu. — É melhor tomar cuidado.

— Se acha só por que tem todos esses músculos e essa altura, não é mesmo? Saiba que eu sou um Ferazza, então deveria tomar cuidado.

Calvin precisou sorrir com o que ouviu. Charles o fuzilou.

— Vem, Brandon, vamos embora. — Charles puxou o primo pelo braço.

— Me deixa, Charles. — Brandon disse, desfazendo-se do puxão e olhando para Kai.

Kai era chorão e as lágrimas brincavam em seus olhos.

— Certo. Não vou perder meu tempo nesse lugar, posso acabar ficando alérgico. — Charles colocou seus fones de ouvido e depois pôs as duas mãos no bolso.

Caminhando de costas, o tigre ficou encarando Calvin que retribuía o olhar enquanto os outros dois ainda tentavam conversar.

— Espero que fique ciente de uma coisa... — Charles, ainda caminhando de costas, falava, contudo, se assustou e parou no meio da rua quando viu Calvin correr em sua direção, considerando ser agredido.

Charles então olhou para o lado e viu um carro em sua direção.

Calvin correu rápido o suficiente, o agarrou pela cintura, erguendo-o do chão e caindo no gramado dos tigres logo em seguida.

A cabeça de Charles doeu, ele sentiu isso pela força do impacto e da pressão recebia pelo corpo do outro esmagando o seu no chão, mas ao abrir os olhos, viu o azul; Não o azul do céu, mas o azul daquele olhar. Enquanto Calvin mergulhou numa selva carregava de mistérios nos olhos verdes de Charles.

Charles foi vítima daqueles olhos que hipnotiza.

Ofegante, Calvin respirava fundo, despejando ar sobre a face do outro, enquanto seus lábios estavam tão próximos, mas tão próximos, que Charles desceu seus olhos aos lábios do outro para ter certeza de que não se beijavam.

Agradecer?

— Sai de cima de mim! — Charles gritou, tentando empurrá-lo.

Notas finais
Demorei, mas valeu a pena, não? 11k de palavras, UHASUHASUH. Então não precisam me bater. Espero que tenham se deliciado com tudo isso. Comentem e conversem comigo no ask: https://ask.fm/thomasnyah Beijos! Amo vocês!