Notas iniciais
Um passo para a queda.

— Vai dormir hoje comigo? — Joshua questionou ao namorado.

Joshua e Edgar tinham ido tomar café da manhã junto à mãe do ruivo, já que ela alegava estar sozinha e com saudades do filho. Não foi uma tarefa fácil, especialmente para o loiro que dormiu tarde, e, se não fosse por insistência do namorado, permaneceria dormindo.

— Eu necessito de uma cama. É capaz de eu hibernar e acordar só amanhã. — Edgar falou, bocejando.

— Vai mesmo faltar a aula?

— Tenho condições de assistir? Você tem sorte de que só vai pagar à tarde.

— Não está doente, não é? — Edgar tocou a testa do loiro.

— É lógico que não. Estou com sono, apenas.

— Deveria ter voltado cedo da festa.

— Um dos meus grandes amigos estava completando ano, não iria apenas aparecer lá, cumprimentar o pessoal e ir embora. Confessa que foi divertido, vai. Colin até te agradeceu.

Joshua não respondeu.

— Acho que agora você deveria ir pedir perdão ao Danion.

O ruivo o olhou sem reconhecê-lo.

— Ninguém vai esquecer aquele dia.

— Você nunca ligou pra isso.

— Talvez não fosse tempo, mas já passou alguns anos desde aquilo. Ter salvado o Caine e o Colin de um espancamento não tira todo o peso do que você foi capaz de fazer.

— Por que você está começando a falar sobre isso só hoje? Aliás, por que você está falando sobre isso?

— Às vezes eu acho que é de um pedido de desculpas que o Danion precisa. Você não sabe como é difícil pra ele aceitar que foi você quem salvou o Caine.

— Edgar, chega. — pediu o ruivo começando a não gostar da conversa.

Obediente, Edgar se calou ao perceber que seu namorado não estava contente com aquilo.

Em silêncio, eles seguiram pelas estradas até que chegassem ao Ninho, mas algo estranho despertou a atenção do ruivo, que começou a diminuir a velocidade do carro ao se aproximar de dois garotos que pareciam ter acabado de pichar os fundos do Ninho com a seguinte frase: “Joshua tem AIDS”. Mais adiante, outra pichação: “Foda-se Joshua”.

— Deixa isso pra lá, Josh. — falou o loirinho. — Vamos seguir e falar pra coordenação quem são os responsáveis.

Mas Joshua não deu ouvido. Ele desligou o automóvel e desceu do carro. Edgar, sem alternativa, desceu e, ainda insistente, tentou convencer o namorado de que eles deveriam se afastar dali:

— Por favor, não vamos brigar a essa hora da manhã.

Joshua não dava a mínima.

Foi então que o grupo notou o ruivo se aproximando, mas parece que eles se divertiram ainda mais com a chegada do considerado líder do Ninho — apesar de que esse título não tinha mais tanto valor, tendo em vista que na época esse título era dado mais por causa de Noah que fazia questão de relembrar a todos do que seu irmão era capaz. Desde que o grupo foi desfeito, Joshua isolou-se na presença de Edgar.

— Preciso pedir para que apaguem ou devo manchar as paredes com seu sangue? — questionou o ruivo ao se aproximar deles que recém terminavam de guardar os sprays utilizados.

Assustados, os garotos se entreolharam. Eram moradores do Ninho, calouros.

— Quem são vocês e quem mandou fazer isso? — questionou o ruivo.

— Não importa. Nós já vamos embora, não devemos nada a você.

— É meu nome que está ali. — grosso e firme, falou. — Não me faça apagar aquilo com o sangue de vocês.

— Iremos falar de sangue? O seu sangue sujo? —sorriu um deles, provocando. Obviamente não conheciam, de fato, com quem estavam mexendo.

— Por favor, vamos resolver isso na paz. Apaga isso e não contaremos pra coordenação. — o loiro novamente tentou amenizar.

Os garotos sorriram para Edgar.

— Se não calar a boca, podemos levantar os boatos de que vocês transam. — falou o outro.

— Quê?! — Edgar sentiu seu queixo ir ao chão.

— Acha que essa aproximação de vocês não gera dúvidas?

— É melhor vocês apagarem. — pediu o ruivo, uma última vez.

— E o que você vai fazer? Vai me contaminar?

Joshua estava começando a perder a paciência. Os punhos se fecharam, o desejo incontrolável de quebrar osso por osso de Andrew estava tomando-lhe conta, essa vontade vinha sendo acumulada a cada provocação que o moreno costumava fazer.

— Vamos embora, Joshua. Esse garoto é um babaca, não vale a pena perder tempo.

Percebe-se que até Edgar começou a se irritar, o que para Joshua estava sendo gratificante.

Edgar tocou o braço do ruivo e tentou puxá-lo. Joshua demorou a ceder, sabia que se desse um passo pra frente seria pra agredi-los, mas preferiu aceitar a proposta do namorado, seu equilíbrio, sua âncora e resolver as coisas na coordenação, sabendo que seria capaz de conseguir a expulsão dos pichadores.

O ruivo virou-se para partir ao som de piadas, no entanto, alguém chamou a atenção dizendo:

— Cuidado com quem você mexe Joshua. Ouvi boatos de que estão espancando os gays da Quadra. Quem sabe esse garotinho aí pode ser o próximo.

Risadas foram ouvidas.

O limite.

O mais alto, com um sorriso estampado no rosto, arregalou os olhos no instante em que viu o ruivo se aproximar.

Tentando defender, o mais baixo colocou-se a frente, mas no momento em que ia abrir a boca, Joshua o silenciou com um soco certeiro, que fez o dono dos cabelos longos dar alguns passos pra trás, tonto.

Eles realmente não tinham noção de com quem estavam mexendo, se nos anos anteriores morassem no Ninho, talvez tomassem mais cuidado com o que falavam e com quem falavam. Ele, nesse momento, conseguiu liberar o monstro que habitava dentro do ruivo. Esse monstro que havia perdido o ritmo de confusões, que fazia tempo que não era alimentado por ódio, que sentia falta do sadismo do seu dono.

Sem tempo pra respostas, os dedos fortes do ruivo cravaram nos longos fios negros do maior e seu rosto conheceu o firme joelho do ruivo. O sangue desceu imediatamente. Mas esse não era o alvo.

Joshua mirou perfeitamente no que havia pronunciado a frase em que Edgar pareceu ser ameaçado. Pobre garoto.

A voz de Edgar não era ouvida.

Tomado pela raiva, Joshua conseguiu segurá-lo pelo pescoço, sufocando-o.

Outra joelhada no rosto do garoto que, sem saber como reagir, não conseguia sequer se defender. Tudo o que o ruivo fazia era fazê-lo se aproximar mais e mais da parede.

Joshua fechou os olhos, pareceu estar inalando o cheiro do sangue, como se uma entidade estivesse tomando conta do seu corpo. Ao abrir os olhos, ele viu o maior atacando-o, mas conseguiu se defender a tempo, e, com o pé, o chutou, lançando-o no chão e depositando mais chutes no corpo dele.

Voltando ao menor, o ruivo o chutou no estômago, uma, duas, três vezes. Ele rolou no chão. Joshua o segurou pelo cabelo mais uma vez e o lançou contra a parede. Joshua sem piedade alguma esfregou o rosto ensanguentado do garoto na parede, de modo com que causasse mais feridas à face dele. Em seguida, segurou a mão também suja com o próprio sangue e começou a escrever: “Joshua é um monstro”. O título mais popular que ele havia recebido pelos estudantes da sua geração, que esses calouros, obviamente, não tinham conhecimento.

Joshua cumpriu o que prometeu: iria pichar a parede com o sangue daqueles que fizeram isso.

O ruivo pegou o garoto pelo braço e, quando ia voltar a batê-lo, uma voz, que não era a de Edgar, conseguiu pará-lo.

— Foi o Andrew! Andrew nos pagou, ele nos pediu para fazer isso. N-nós precisávamos de grana.

Parado por alguns segundos, Joshua olhou para o garoto que gemia e ainda tentava se soltar, sua vontade de permanecer maltratando-o estava dominando-o, porém, o largou.

— Nós iremos apagar. — falou ao ver o ruivo se aproximar.

Joshua o socou e permaneceu andando.

Passando por seu namorado, o ruivo caminhou furioso até o seu automóvel.

— Joshua, você viu o que você fez?

Joshua somente entrou no carro. Edgar, sem voz por tanto gritar, correu para conseguir entrar no carro. O ruivo deu partida rapidamente e com velocidade jamais conhecida pelo loiro. Edgar dava-lhe sermões e mais sermões, mas nenhuma palavra era correspondida. Joshua estava furioso, estava no seu momento de prazer.

Ao passar pela entrada do Ninho, Edgar permaneceu insistindo:

— O que você vai fazer? Joshua, por favor... Nós já conversamos sobre isso.

Ele estacionou o carro e desceu ainda deixando o namorado falar. Edgar, sem fôlego, correu ao seu alcance.

— Você poderia me ouvir? Chega, Joshua! Eu juro que...

— Volte pra Quadra. — pediu. — É melhor você ficar lá.

Edgar continuou insistindo, puxava o braço do namorado, mas não tinha forças para isso. O ruivo permaneceu ignorando-o. Com passos firmes ele foi exatamente ao lugar desejado.

Bruto, bateu a porta daquele lugar. Ela imediatamente foi aberta por Ewan, um dos colegas de Andrew.

— Quem é o filho da puta que não sabe bater? — Andrew, atrás de Ewan, falou ao se aproximar.

Não deu dois segundos.

Ewan foi derrubado. Edgar gritou. Isis se afastou. Andrew tentou correr.

Eram os punhos de Joshua que Andrew queria conhecer? Bem, seria melhor se não tentasse conhecê-los.

Segurando-o pelo pescoço, Joshua o sufocou com tanta força que Andrew sequer conseguiu gritar. Fechando os olhos e, novamente, parecendo ter alguma entidade invadindo o seu corpo, ele encarou Andrew com uma expressão nada agradável que pôs medo até mesmo em Edgar.

Um tapa foi dado na face do moreno e os cinco dedos ficaram marcados imediatamente. Em seguida Joshua o largou, mas não deu tempo para ele correr, o presenteou com um soco no nariz, outro no queixo e um tapa no ouvido.

Joshua cuspiu no garoto e o segurou pelo cabelo tão forte que alguns fios ficaram presos em sua mão, nesse mesmo instante, ele chutou por entre as pernas de Andrew que gritou de dor ao ter o membro atingido, ajoelhou-se e protegeu as pernas, assim deu espaço par receber uma joelhada e, em seguida, um chute que o fez ser lançado para cima de uma mesinha de vidro que se quebrou em suas costas.

Estralando os dedos, Joshua caminhou devagar se aproximando. Ele seria capaz de machucá-lo até vê-lo com os olhos fechados e ossos quebrados. Ele seria capaz de torturá-lo, ele seria capaz de matá-lo.

Mas ali, diante dele, colocou-se a única pessoa no mundo que ele seria incapaz de machucar.

— Vai ter que passar por cima de mim! — exclamou de braços abertos com a face tomada em desespero, pois ainda assim, temia seu namorado.

Andrew, levantando-se aos gemidos de dor, viu aquela cena.

— Me deixe continuar. — pediu o ruivo, estava ofegante.

Edgar somente negou com a cabeça, olhou pra trás e viu Andrew de pé, observando os ferimentos e enxugando o nariz que sangrava. Ele nem mesmo conseguia dizer nada. Andrew apanhou pouco se comparado às vítimas de Joshua.

Joshua esfregou a testa, balançou a cabeça e olhou as mãos ensanguentadas.

— Você se livrou. — disse ao moreno. — Mas não me peça pra fazer coisa pior com você.

Virando-se e afastando-se, Joshua saiu daquele lugar apressadamente.

Edgar finalmente pôde abaixar os braços, olhou a bagunça o redor e mirou em Andrew.

— Você merecia coisa pior. Brincar com o fato de ele ser soro positivo foi a coisa mais ridícula feita por você. Não faça a cabeça de outros na tentativa de provocar o Joshua, pois da próxima vez, se eu não estiver presente, ninguém vai pará-lo até ele te ver desacordado e com ossos quebrados.

Edgar então se afastou após o recado dado, Ewan, vendo caminho aberto na ausência de Joshua, tentou segurá-lo, mas o loirinho só fez encará-lo como nunca encarou alguém, afinal, a paciência tem um limite para todos. Com aquele simples olhar de quem não estava nada feliz, embora interiormente aterrorizado, Edgar passou por ele.

Ele seguiu ao seu bloco e, quando entrou, Joshua estava segurando uma garrafa de uísque, prestes a encher um copo.

— Você não vai poder andar sozinho. — iniciou o ruivo.

— Você não vai me proibir de fazer isso. — Edgar estava irritado. — Você tem ideia do que acabou de fazer?

— Eu não me importo. — ignorando o copo, Joshua bebeu o uísque diretamente da garrafa.

— Eu tô sem voz de tanto pedir pra você parar! Você sequer me deu ouvidos, você quase matou um garoto.

— E daí? — virou-se e encarou. — E daí, Edgar? Eu sempre fiz isso!

— Manchar suas mãos com sangue é correto?

— Você não entende.

— Não! Você quem não entende, esta caindo exatamente no jogo do Andrew, que é te ver perder a cabeça. Ele está usando outras pessoas pra isso.

— Não, Edgar, é você quem não está entendendo! — o ruivo lançou a garrafa contra o chão. Foi vidro pra tudo que é lado. — Você não ouviu quando eles disseram que você pode ser o próximo? Eu não vou aguentar, loirinho.

As mãos do Joshua tremiam.

— Eu achei que você tinha mudado.

— Eu cansei.

Edgar estava exaltado, mas o ruivo estava duas vezes mais. Dizem que discussões fortalecem relacionamentos.

— Você não deveria ter me impedido.

— Você iria matá-lo!

— Sim! É o que eu queria. — bradou. — Eu queria, Edgar! Faria isso se não você não se colocasse a frente dele. Não esqueça: eu sou o monstro.

— Como você pode me dizer isso depois de tudo o que aconteceu até agora?

— Por que eu sou assim! — exclamou.

— Não! Eu não estaria com você nesse caso. Joshua, eu te amo por que consigo enxergar em você mais do que os outros, eu sei que nem só de maldade você vive.

— Eu! Não! Posso! Deixar! Que! Te! Machuquem! — gritou pausadamente. — Eu não vou permitir. Se para isso eu precisar espancá-los, eu espancarei.

— Eles não tocaram em mim.

— Você não ouviu a ameaça? Eles vão te machucar.

— Isso é jogo do Andrew! — também gritou o loirinho. — Quantas vezes eu vou ter que repetir que é isso que ele quer?

— Chega, Edgar, chega! — o ruivo então saiu de perto do namorado. Estressado, ele foi até a cozinha, abriu a geladeira em busca de algo sem mesmo saber o que queria.

O ruivo somente ouviu quando a porta de entrada foi aberta. Suspeitando que o namorado estava saindo, Joshua largou a geladeira aberta e correu ao alcance do namorado.

— Pra onde você está indo?

— Ajudar o garoto que você quase matou.

— Edgar, você não precisa fazer isso.

— Ele só é uma cobaia do Andrew.

Joshua, hábil, pegou o namorado pela cintura e o puxou pra dentro da república.

— Me larga! — gritou. — Não me toque com essas mãos sujas de sangue.

— Custa você entender que eu quero te proteger? — perguntou o ruivo, largando-o no chão.

— Não, dessa forma você não está me protegendo.

— Porra! — voltou a elevar o tom de voz. — O que você quer que eu faça?

— O que tá acontecendo aqui? — Caleb, felizmente apareceu. Assustado com a discussão, o garoto fixou seus olhos nas vestes sujas do ruivo, mas logo ele olhou pra Edgar e desceu seus olhos aos pés do loiro que tinha alguns filetes de sangue.

Nem mesmo Edgar havia percebido aquilo, mas os vidros que se espalharam quando Joshua quebrou a garrafa no chão, acabou causando minúsculos cortes na perna do namorado. Joshua desequilibrou-se no momento que viu aquele sangue.

— Edgar, eu... — falou o namorado, com o tom de voz mais calmo.

— Me deixe. — falou e passou por ele indo diretamente para o banheiro. Edgar não o culpava pelo ferimento, obviamente, mas estava no seu direito de ficar chateado.

Furioso, Joshua deu as costas e foi pra seu quarto, o som alto do impacto da porta batendo chegou a assustar o menor.

Caleb, coitado, não soube o que fazer diante da discussão dos namorados.

[...]

Kai recém tinha acabado de acordar. Franklin estava esparramado na cama ao seu lado em um sono profundo, mas o mexicano preferiu não acordá-lo.

Cambaleando, o mexicano lavou seu rosto e fez sua higiene matinal, em seguida foi até a cozinha desejando muito comer algo já que estava faminto. Colocou os pães na torradeira e buscou por uma garrafa de suco. No sinal da torradeira, Kai recolheu as torradas e pôs num prato, rumando até a mesa e sentando-se.

Sozinho naquele café da manhã, enquanto colocava geleia de morango nas torradas, Kai começou a se lembrar da noite anterior com Franklin. Tudo foi tão intenso.

Kai teve seus pensamentos interrompidos ao ouvir alguém bater a porta. Imaginando ser Hugh e Calvin, levantou-se ainda segurando uma torrada em mãos e mastigando um pedaço dela, sem saber onde se encontrava a chave, o mexicano perdeu alguns minutos procurando-as, mas a encontrou mergulhada em almofadas no sofá.

Quando abriu a porta, Kai sentiu o coração rasgar seu peito, também sentiu como se tivesse tomado um banho de água fria, um sentimento que mesclava a saudade e insegurança por ver o loiro de olhos azuis. Brandon carregava o mesmo sentimento, tanto é que seus olhos deixavam explicito o seu constrangimento.

— Brandon?

— Oi. — disse o loiro ao por pra fora o ar que prendia. — Bom te ver, Kai.

Kai não soube o que falar.

— Eu precisava te ver. — continuou o loiro. — Você não me atende...

— Como descobriu onde eu moro?

Brandon coçou a cabeça e respondeu:

— Hugh me deu a informação. Ele não é muito bom em mentir...

Kai somente balançou a cabeça negativamente e revirou os olhos.

— Aconteceu alguma coisa?

— Queria conversar com você.

— Entre.

Kai deu passagem. Brandon, sem delongas, entrou.

— Está com fome? — questionou o mexicano ao fechar a porta. — Fiz torradas.

Brandon, observando roupas lançadas no chão, onde o seguiu até a mesa Kai comia e se sentou. Kai terminou de comer o pedaço de torrada que segurava enquanto o olhava, esperando que ele falasse algo.

— Eu sinto sua falta. — iniciou o loiro. — E você sabe disso, embora não adiante eu tentar me explicar, você tem suas razões para ter me abandonado.

— Abandonado? Está sendo egoísta ao pensar assim, pensar em como você se sente.

Brandon já estava esperando respostas diretas do mexicano, afinal, Kai estava com raiva dele, o loiro sequer tinha esperanças de conseguir entrar ali ao temer ter a porta fechada na sua cara assim que Kai o visse.

— Viu? — Brandon o levou seus dedos à sobrancelha e repousou o cotovelo na mesa. — É horrível tentar me explicar, tem sempre algo que você costuma rebater, algo que vá te machucar. Eu preciso calcular o que falar antes de pronunciar alguma coisa pra você, mas nunca da certo. Por favor, abaixa um pouco as defesas e me escuta sem interpretar minhas palavras da forma mais absurda.

Kai reconheceu isso. Talvez pelas palavras saírem quase como súplica. Qualquer um conseguiria ver a tristeza no olhar do loiro. Brandon sempre era tão pra cima, tão sorridente e, ultimamente, andava tão pra baixo, tão confuso, triste e na saudade do seu melhor amigo.

— Eu sou o culpado por todas as idiotices, eu sei disso. No entanto, eu quero consertar tudo. — continuou o loiro. — Não sei de que forma, realmente não sei...

— Por que ainda insiste?

Foi então que Brandon parou pra novamente refletir nesse questionamento que tanto o maltratava. Por que sempre insistia em tê-lo por perto? Sempre insistia por sua amizade, mesmo pisando na bola. O loiro teria continuado refletindo sobre isso, mas o coração parou no instante em que Franklin, de cueca, surgiu na cozinha e estava tão assustado quanto o loiro.

Assim, tudo passou a fazer sentido quando notou as roupas jogadas no chão. Franklin estava apenas de cueca e recém tinha saído do quarto.

O loiro o encarou, mas não estava com uma expressão raivosa, pelo contrário, sentiu tanta dor ao vê-lo ali que os lábios murcharam em tristeza.

— É melhor eu voltar outra hora. — falou levantando-se.

— Não. — Kai falou. — Você não quer conversar comigo? Então iremos.

Franklin olhou pra o Kai, porém, sua expressão foi de incredulidade. Impaciente, ele deu as costas e começou a caminhar pro quarto.

— Só um minuto. — falou e levantou-se as pressas, seguindo Franklin e entrando no quarto junto a ele.

Quando chegou ao quarto, encontrou Franklin apanhando uma bermuda e vestindo-a. Kai, relutante, sentou-se ao seu lado, considerando correto explicar o que estava acontecendo. Entendia as razões para Franklin estar com aquela expressão de pura chateação, mas por Brandon pra fora do apartamento ia contra toda sua índole, porque por mais que esteja nutrindo sentimentos ruins pelo loiro, reconhecia a coragem do loiro de estar ali, mesmo após tudo.

— Brandon só veio conversar.

— Esse garoto estúpido que sai socando as pessoas sem motivo algum? Me poupe, Kai.

— Nós éramos amigos, Franklin. Se ele quer conversar comigo, eu preciso ouvir, mesmo que...

— Amigos, Kai? — Franklin o olhou ao se levantar. — Mais que amigos.

— Do que você está falando? — o mexicano o olhou surpreso.

— Porra, Kai, eu gosto de você, mas acha mesmo que eu não percebo as coisas? Acha que eu não sei que esse garoto mexe contigo? Se não fosse por isso, por qual outro motivo você o deixaria entrar aqui? Você nunca me contou nada do que aconteceu entre vocês dois, apenas me diz que ele é um babaca e somente. É óbvio que tem algo não terminado entre vocês, mas eu sempre respeitei seu espaço e não te fiz perguntas que pudessem te deixar pra baixo.

Sem argumentos, Kai precisou respirar fundo, mas nada saia de sua boca.

— Você nem mesmo consegue me responder. É melhor eu ir embora e deixar vocês dois sozinhos.

— Franklin, não precisa ser assim...

— Você quer que eu fique dentro desse quarto ou que eu fique lá na cozinha com vocês dois? — ironizou.

— Não precisamos discutir...

— Mas não estamos discutindo, Kai. Não interprete dessa forma. Porém, como você queria que eu reagisse? Dar bom dia pra ele e me juntar a vocês? É lógico que não. Eu sei que não faz tanto tempo que estamos juntos, nem mesmo temos algo oficializado, mas isso não significa que eu vá ter que aceitar algo assim calado, como um trouxa, aliás, exatamente agora me sinto um trouxa.

— É lógico que não! — Kai se levantou.

— Eu vou sair, ok? Talvez mais tarde eu volte, não sei... Mas não vou conseguir ficar aqui enquanto esse garoto está no mesmo cômodo.

Kai nada disse, ficou parado encarando-o.

— Não se permita sofrer por quem não vale a pena. — falou e saiu do quarto.

Kai levou suas duas mãos ao rosto e respirou fundo, em seguida esfregou sua face e juntou as mãos encostando-as aos lábios. Pensativo, Kai sentiu-se estúpido pelo momento. Não conseguia tirar razões de Franklin, ele realmente tinha razão em tudo que dizia, assim pensou.

E então pensou novamente em Brandon. Precisava voltar pra cozinha.

Sem saber onde enfiar a cara, Kai não voltou pra mesa. Ele apareceu na porta do quarto, olhou para o loiro e encaminhou-se para o sofá, onde lá se sentou. Franklin já não estava mais no apartamento.

Brandon levantou-se da cadeira e, da mesma maneira que Kai, sem saber como agir após escutar parte da provável discussão, sentou-se ao lado dele. No entanto, mentiria se não dissesse que estava feliz com a saída de Franklin do apartamento, ainda mais da maneira como ele saiu. Eram ciúmes — de ambas as partes — e nada mais que isso.

— Não precisa ficar me encarando. Diga-me o que tem pra dizer.

Era esperança. Kai sentia a esperança de ouvir o que necessitava ao se tratar de um grande amor. É essa a fraqueza dos apaixonados.

— Eu não queria causar problemas.

— Não causou.

— Sempre na defensiva...

— Diga, Brandon, o que quer?

O loiro então preferiu acomodar-se no sofá, Kai novamente começou a agir friamente com ele.

— Eu o vi fantasiado, bem, pelo menos acho que vi. Tinha muita gente fantasiada de Batman.

— É sobre isso que quer conversar? Sobre o que eu estava fantasiado?

— Pra quê tanta grosseria?

— Ok, desculpe. — rendeu-se o mexicano.

— Tudo bem, eu entendo que esteja com raiva de mim.

Brandon e Kai ficaram em silêncio.

— Queria tanto você novamente na república.

Kai soltou ar fortemente pelo nariz.

— É ruim sem você. — prosseguiu o loiro. — É muito ruim sem você. Eu me pego falando sozinho achando que você está lá.

— Sem chances, Brandon.

— Eu deito na sua cama nas madrugadas achando que você vai estar lá. — falou ao descer seus olhos pro chão e amenizar seu tom de voz.

Kai desconcertou-se no que ouviu, tanto é que precisou descer seus olhos também ao chão. A frase martelou em sua mente.

— Eu juro que sinto a sua falta, Kai. — voltou a olhar pra o mexicano, encontrando-o pensativo. — Por favor, volta pra república.

— Está sendo melhor assim.

— Por quê?

— Porque se eu continuasse lá as coisas iriam piorar entre nós dois. Eu nunca vou conseguir esquecer tudo o que aconteceu. Da mentira e da vergonha que você sente quando estou perto dos seus familiares.

— Por que acha que eu tenho vergonha de você?

— Foi o que você disse.

— Eu nunca disse isso. Eu amo a sua cor, mas... — Brandon fez uma pausa e voltou a desviar o olhar. — minha família pensa diferente de mim.

— Sempre tem um “porém” para mascarar algum discurso racista.

— Olha pra mim, Kai, você me conhece mais do que qualquer pessoa, racista seria a última coisa do mundo que eu poderia ser.

Kai buscou motivos para ir contra a afirmação do loiro, mas não encontrou. Seu ódio por todo o acontecido o fez ignorar tantos detalhes.

Brandon sentia tanto medo de contar toda a verdade, de prosseguir com o assunto e temer mais uma vez o ódio do garoto. Explicar sobre seu avô, sobre seu pai, sobre como determinados assuntos eram tratados em família. Explicações essas que ele temia gerar momentos piores entre ele e o mexicano, afinal, como ele mesmo falou, qualquer frase sua era interpretada de outra forma pelo Kai. Naquele instante, dentro daquele apartamento, ele só queria paz, matar a saudade de ouvir a voz do seu amigo.

— Estou tão cansado. — falou o loiro, cabisbaixo.

Ouvir Brandon mudar o assunto tão aleatoriamente fez com que Kai entendesse, de fato, como ele estava se sentindo. O medo de, mais uma vez, entrar em discussão era perceptível. A atitude também o fez perceber Brandon tão desorientado, tão sem jeito, tão pra baixo. Kai poderia simplesmente prolongar o assunto, usar das boas palavras que sempre quisera dizer ao loiro, mas, na sua compaixão, achou tão injusto e errado fazer aquilo diante a situação que Brandon se encontrava. Os olhos marcados por olheiras, o azul intenso dos seus olhos apagando-se junto às expressões de tristeza.

— Também estou. — foi só o que conseguiu dizer o mexicano.

— Não dormiu? — Brandon o olhou.

Mas o cansaço que Kai se referia não era o físico, por isso o questionamento de Brandon o pegou de surpresa.

— Você não dormiu? — Kai rebateu o questionamento.

— Não.

O mexicano não perguntou mais nada.

— Não consegui dormir. Fiquei pensando em tantas coisas ao seu respeito. A madrugada inteira eu fiquei decidindo se iria ou não aparecer aqui. Pensei em formas de te abordar, formas de não ser expulso, aliás, me imaginei sendo expulso daqui, pensei em como poderia convencer Hugh de me falar onde você estava... Tantas coisas. Fiquei ansioso, nervoso, com medo.

— Entendo...

— Acho que eu só precisava te ver, de alguma forma isso me faz bem.

— Você precisa descansar.

— É bom saber que você ainda se preocupa comigo.

— E com qualquer pessoa. — acrescentou.

— É. — sem jeito, Brandon afirmou com a cabeça. — Com qualquer pessoa...

Silêncio. Brandon esfregou as mãos.

— Eu sinto a sua falta. — repetiu.

Talvez a frase mais pronunciada pelo loiro sempre que via o mexicano.

— Quer ouvir uma música comigo? — Kai não respondeu. — Ok, pela cara, não.

Silêncio. Brandon esfregou as mãos.

— Dormir sozinho é tão chato. Foram quase dois anos dormindo contigo.

Os lábios do loiro tremiam.

Silêncio. Brandon esfregou as mãos.

Kai não esperou por aquilo. Ele não reagiu, não virou o rosto, apenas recebeu os lábios do loiro sobre os seus que repousaram como uma pena sobre a pele, no entanto, Kai não moveu um músculo, sequer deu permissão para a língua do outro invadir sua boca.

Brandon estava com os olhos fechados, mas ao abri-los as lágrimas despencaram em sua face. Ele logo afastou seus lábios, desceu seu rosto e escondeu em suas mãos. Idiota, sentiu-se um completo idiota, confuso em relação a todos os seus sentimentos, as suas vontades.

Kai se levantou.

— Melissa merece isso? — perguntou.

Kai deu uma volta na sala, apanhou as chaves, vestiu uma camisa jogada no sofá e posicionou-se atrás do loiro.

— Deixe a chave embaixo do tapete quando for embora.

Kai saiu do seu próprio apartamento deixando-o sozinho.

[...]

Charles caminhava distraído.

Segurando alguns cadernos e com sua mochila nas costas, o tigre estava indo ao restaurante universitário, lugar este que ele detestava, mas não perdia a chance de aparecer por lá só pra ir em busca de mostrar sua autoridade, para nada mais, nada menos, que o leonino com quem havia trocado beijos no banheiro. Sumir? Ele não podia. Não queria fazer daquele beijo algo que afetasse em sua relação com o refeitório, como se estivesse fugindo.

Nesses pensamentos, ele acabou trombando em alguém.

— Porra! — bradou o tigre ao ter seus materiais derrubados.

Charles não tinha sido o único a derrubar seus materiais, ele descobriu isso quando ajoelhado, olhou para a pessoa que também estava ajoelhada apanhando as suas coisas e, para a sua surpresa, era Calvin. Destino.

— Olha por onde anda! — raivoso, disse entredentes ao recolher o que havia derrubado olhando fixamente para os olhos azuis do leonino.

— Por onde eu ando? Eu estava andando na mesma direção que você.

— Então anda mais rápido. — falou ao se levantar.

— A culpa é sua que não me viu. Se estava distraído, aí é problema seu. — falou também levantando-se.

— Você me persegue, não é?

— Te persigo? Garoto, estamos em um dos lugares mais cheios da universidade.

Charles somente revirou os olhos e seguiu caminhando. Sua vontade era meter a mão na cara de Calvin e, se permanecesse ali, provavelmente teria feito isso. Tudo o que fez foi escolher uma mesa próxima às imensas paredes de vidro, deixou seus materiais sobre ela e dirigiu-se para a fila. Pelo horário, deu sorte e não esperou muito, rapidamente foi atendido e servido, retornou para a mesa e, pomposo como sempre foi, começou a se alimentar.

Distante dele, mas ainda assim bem visível, estava Calvin, sozinho em uma mesa, diferente de como era acostumado a ser visto com Kai e Hugh, pois os colegas não tiveram aula. O leonino também conseguiu ver perfeitamente Charles no lugar que estava, já que o plano de visão estava livre de cabeças aleatórias entre eles.

Era impossível não se lembrarem do ocorrido no banheiro, afinal, aquele não tinha sido um beijo qualquer, mas um muito intenso a ponto de sentir a ereção um do outro.

Como nem tudo é paz, especialmente na vida do tigre, Dimitri sentou-se bem em frente ao moreno, perdendo Calvin do seu campo de visão.

Charles, obviamente, sentiu desgosto ao vê-lo ali. Rapidamente o moreno voltou a prestar atenção em seu prato e começou a comer em silêncio.

— Você provocou a pessoa errada. — Dimitri falou.

— Bom dia! — Charles pôs o garfo e faca sobre a bandeja. — Bem vindo ao atendimento Charles. — ele sorriu simpaticamente, mas atuava. — Se você deseja ser ignorado, tecle 1, se deseja ser humilhado, tecle 2, em caso de surra tecle 3. Para mais informações, levante-se e vá buscá-las na puta que o pariu.

— Engraçadinho...

Voltando a pegar os garfos e passou a cortar o pedaço de frango.

— Estou a um passo de desmascará-lo.

— Veio mesmo buscar confusão comigo? Você não cansa de sempre perder pra mim?

— Perder? Eu nunca perdi pra você. Estou com seu ex-namorado, servindo-me muito bem daquilo que você não soube usar.

— Que nojo. Espero que faça bom aproveito. Agora me diz, qual é a sensação de ficar sempre com o resto daquilo que deixo? Até um pouco da minha popularidade na escola você pegou, afinal, era por me desafiar que você acabava sendo visado.

Dimitri imediatamente o fuzilou. Os lábios contraíram-se em ódio.

— Se eu fosse você já teria desistido, Dimitri. Eu sempre vou ser melhor que você, seja em beleza, seja em poder.

— Você se acha demais, não é Charles?

— Você é diferente de mim?

— Sou melhor. Tão melhor que não me escondo da sociedade, diferente de você que agora finge ser hétero, bancando o garotinho valente.

Charles não deu a mínima. Seus olhos foram até Calvin que havia se levantado em busca de guardanapo, mas rapidamente voltou a sua mesa.

Dimitri observou aquela situação suspeita.

— Ainda está aqui? — Charles questionou.

— Vamos jogar pesado?

— É melhor ir embora antes que eu enfie esse garfo na sua garganta.

— Lembra-se bem do dia em que perdeu a virgindade pro Jamie? — sorriu.

A sensação nostálgica tomou-lhe conta, o coração apertou ao se lembrar daquele dia. Era doloroso pensar naquilo atualmente, quando na época tinha sido um momento tão mágico e agora só lhe trazia ódio.

— Ele é bom, não é Charles? Nos faz gemer e pedir por mais...

Charles começou a soltar o garfo e a faca, temendo o rumo que aquela conversa teria. Algo nela chamava-lhe a atenção, especialmente no que ele estava dizendo sobre gemidos.

Dimitri voltou a olhar pra trás e fixou seus olhos em Calvin, em seguida retirou o celular do bolso.

— Existem coisas que não podem ser esquecidas, jamais. E eu adoro eternizá-las em vídeos, até mesmo os mais íntimos.

— Dimitri... — como se estivesse desaprendendo a respirar, Charles murmurou o nome do garoto.

— Vamos começar devagar, com duas pessoas... — Dimitri mexeu em seu celular, em seguida olhou pra trás novamente. — Ops, quer dizer, três pessoas. Basta apenas eu apertar aqui...

Dimitri então mostrou o visor do seu celular para Charles, apenas uma imagem embaçada, proveniente do movimento que a câmera captou, com um triangulo escrito “play” no centro. Porém, o lugar que seu dedo estava apontando era no canto do visor, numa pequena aba que havia ali, com os seguintes nomes: Sean, Brandon, Calvin, enviar.

Charles sabia do que aquilo se tratava.

— E então? — Dimitri sorriu.

— Você não seria capaz... — ameaçou, temeroso.

Dimitri não temeu. Apertou em enviar e, em seguida, cobrindo todo o visor a seguinte mensagem apareceu: mensagem enviada.

Charles, como se estivesse com falta de ar, levou seus olhos rapidamente até Calvin que acabara de retirar o celular do bolso.

Calvin não sabia de quem era a mensagem, sabia que era um vídeo, mas não sabia do que se tratava. Esperou o arquivo ser totalmente baixado e, sem delongas, apertou o play. O que viu o deixou sem reação.

Era necessário ter que abaixar o áudio às pressas, pois o som que saia do seu celular era de gemidos misturados e uma voz inconfundível pedindo por mais. Lá estava Charles, deitado sobre uma cama, tendo o pescoço tomado enquanto era penetrado por Jamie. As expressões faciais de puro prazer em seu rosto eram bem visíveis nas imagens da câmera.

Brandon recebeu o vídeo enquanto chorava no sofá do apartamento do Kai. Sean recebeu o vídeo enquanto estava chegando em sua república. O loiro ficou sem reação, enxugando as lágrimas e não crendo no que estava vendo. O moreno não concluiu o vídeo, guardou o celular no bolso, parou de andar, pensativo e surpreso.

Ser exposto em um momento íntimo foi o tiro dado por Dimitri.

O vídeo tinha exatos trinta e sete segundos. Ao final do que viu, Calvin levou seus olhos à mesa que Charles estava, recebendo o olhar desesperador do garoto como recompensa.

— Isso é só uma parte. Eu o tenho completo. Eu juro, Charles, que se você tentar mais um vez ousar em provocar ou rebater minhas provocações, irei expor o vídeo a sua família, a todos os moradores da Quadra, a todo o bloco de medicina e, por que não, a toda a universidade? Todos irão saber como você geme e pede por mais em um momento como esse. Todos irão saber que por trás de toda essa marra, há alguém que adora receber por trás, alguém que ama dar a bunda.

— Você foi longe demais... — disse entredentes.

— E irei. A partir de hoje você se calará diante de mim. Já disse, Charles, eu sempre vou ser melhor que você. Sempre que achar que está vencendo, aparecerei com algo que possa derrubá-lo, afinal posso acabar com você socialmente apenas com esse vídeo. Qual seria a reação dos seus pais assistindo o filhinho querido transando com outro homem?

Charles fechou os olhos, uma lágrima desceu; toda sua muralha foi abaixo.

O tigre não conseguiu mais ficar ali. Ele ficou de pé, recolheu suas coisas e, constrangido, acelerou seus passos para a saída do refeitório. Calvin se levantou tão depressa, mas não conseguiu arrumar suas coisas a tempo para alcançá-lo, o perdeu de vista assim que ele dobrou a saída, no entanto, seguiu os caminhos do garoto, mas não o encontrou.

Dimitri, ainda sentado, tomou a bandeja de comida que Charles havia deixado e passou a se alimentar com um sorriso no rosto. Restos.

[...]

Colin tinha um pouco de noção sobre os horários no bloco de medicina. Pacientemente, o pequeno sentado em um banco abaixo de uma árvore em frente ao prédio. Aos poucos, naquele final de tarde, alguns alunos iam saindo e foi fácil de ver Samuel entre eles, embora mais afastado e acompanhado de uma garota falando enquanto ele parecia estar viajando em pensamentos, olhando para o chão apenas fingindo que a ouvia.

O leonino não precisou gritar pelo nome dele, pois Samuel o viu no momento em que passou em frente ao banco.

— Colin? — questionou. — O que faz aqui?

— Queria conversar com você.

Samuel, ainda confuso, olhou para o pequeno e em seguida para a sua colega.

— Eu posso pegar um táxi.

— Se quiser, eu posso esperar no carro. Aliás, estou precisando ir à biblioteca, você pode me ligar assim que terminar aqui.

— Tem certeza?

Sorridente, a garota tocou-lhe o ombro, piscou para o Colin e, em direção contrária a que estava indo, ela se dirigiu em direção à biblioteca.

Samuel ainda ficou alguns segundos observando sua amiga, mas logo voltou a olhar para Colin. Sentou-se ao lado do pequeno e esperou com que ele iniciasse a conversa.

— William costumava sair nesse horário, estava com medo de ficar esperando aqui e você não aparecer.

— Deveria tomar mais cuidado em ficar caminhando por aqui sozinho depois do que aconteceu com você e o Caine.

— Não vou deixar de viver por isso, mesmo reconhecendo o perigo. Logo mais vou à academia, Sean vem me buscar. O Caine desistiu da academia, infelizmente.

— Entendo... Mas sobre o que quer conversar?

— Conversei com o Luke. Quer dizer, fui conversar com ele sobre a confusão que deu com o Sean na festa e ele me contou sobre você.

Samuel engoliu em seco.

— Não se preocupe, não estou aqui te causar desconforto. Só queria saber como você estava.

— Soube de tudo o que aconteceu?

— Talvez ele tenha me contado tudo, mas como não o ouvi, prefiro dizer que ele me falou mais ou menos o que aconteceu entre vocês dois.

— Babaca. — Samuel encostou-se ao banco.

— De alguma forma eu me sinto culpado.

— Pelo quê?

— Você guardou isso tudo pra você e eu, bem... Era seu único amigo quando você chegou aqui, infelizmente nos afastamos.

— Não se preocupe com isso.

— Meus pais estiveram aqui, perguntaram por você. De alguma forma, considerei minha postura errada, mesmo com todo esse desencontro de tempos, eu deveria mostrar mais preocupação com você.

— Nós dois nos afastamos, você não foi o único.

— De qualquer modo, é um bom momento para resgatarmos a amizade. Você não me respondeu se estava bem.

— Ficarei. Uma hora eu supero. Superei você. — Colin ficou sem graça. — Por uma parte eu me arrependo de ter falado a verdade pra ele. Me sinto estúpido toda vez que lembro e como chorei feito um idiota durante uma noite inteira. Por sorte Natalie me deixou dormir na casa dela.

— É pra lá que estava indo?

— Sim, preciso de um tempo, mas logo estou voltando para república. Não é legal ficar na casa de alguém sem ajudar nas despesas... Mesmo ela parecendo não precisar tanto.

— Uma hora você vai perceber que foi melhor ter contado a verdade pro Luke. Você retirou um peso das costas, Samuel. Todos nós sabíamos disso, menos ele.

— Era tão visível assim?

— Era. — Samuel fechou os olhos em constrangimento.

— Ainda assim me sinto estúpido. Cheguei a fingir um relacionamento com o primo do Edgar.

— Ele me falou que você estava namorado, só não sabia que era um relacionamento falso.

Foi quando Samuel explicou toda a situação e o motivo pra fingir que Carter era seu namorado. Por um momento, Colin começou a rir de tudo, pensando em como Luke havia acreditado naquilo.

— E se eu te falar que o Patrick dormiu com o primo do Edgar?

— Sério?

— Patrick me contou, mas contou só pra mim quando estávamos lanchando juntos na cozinha. Mas não aconteceu nada entre eles. Pelo que ele me disse, apenas bebeu demais, passou mal e foi amparado pelo caipira... É assim que ele o chamou. Aliás, ele parece está puto com o que aconteceu.

— Carter baba no Patrick, era difícil mantê-lo firme para que o Luke não percebesse.

— O Luke não me falou nada sobre esse falso relacionamento. É capaz dele ainda está acreditando.

— Ele que se foda. Não quero mais saber dele, juro que vou conseguir esquecê-lo.

— Acho que o Luke gosta de você. — Colin foi direto ao ponto.

Assustado, Samuel o olhou com cara de quem acabara de ironizar a frase: “ah, acredito”. Depois suspirou em desgosto, acomodando-se mais uma vez no banco.

— Samuel, eu acompanho vocês desde quando disputavam por mim. Mas ok, talvez seja um erro eu estar falando isso e criando esperanças pra você.

— Não mesmo.

— O Luke foi me procurar pra falar de você, mesmo não admitindo e dizendo que estava com saudades minha. Ele estava chateado com o fato de você mudar com ele. Só sinto que tem algo que o prenda, que o faça não acreditar que namorar contigo possa dar certo.

— Eu já nem quero mais saber disso, Colin. Sinceramente? Eu quero que o Luke vá tomar no cu.

— Certo, você tem razão. — Colin calou-se, mas logo voltou ao diálogo. — Deixando o Luke um pouco de lado, mas agora focando em você. Tem certeza desse sentimento? — Colin depois parou pra pensar. — Credo, como eu sou terrível, eu não deveria perguntar isso.

— Relaxa Colin. Luke falou a mesma coisa.

— O que ele falou?

— Sobre eu não demonstrar, sobre eu esconder.

— Se eu não te conhecesse tão bem, diria que ele tem razão. Mas quanto ao Luke, todo mundo brincava que isso ia terminar em namoro. Luke que é idiota demais para não ter percebido. Você também é bem grosso com ele.

— Olha quem fala...

— Luke não se compara ao Sean em gentileza. Luke só é idiota.

— Luke já não existe mais pra mim.

— Tem certeza?

— Eu vou sofrer, Colin. Vou chorar ainda, vou odiar vê-lo com outra pessoa, mas motivação pra superar eu tenho de sobra. Eu não quero mais saber do Luke, nunca mais na minha vida. Vou apenas viver na república tornando-o invisível.

Colin sentiu a determinação do loiro. Ele falava com os olhos fixos no chão e seus punhos fechados e firmes.

— Eu não posso pedir para que nutra ódio por ele, afinal, a vida é sua. Eu no seu lugar talvez tivesse feito coisa pior, sei lá.

— No fundo, foi bom ele dizer a verdade pra mim. Nisso, não vou ser idiota e achar horrível, mesmo doendo, tenho que parabenizá-lo pela verdade dita, mas isso não significa que tudo entre nós está bem. Eu só quero esquecê-lo, fingir que ele não mais existe.

Colin abaixou a cabeça, sentia tanta pena do loiro. Ele parecia está tão triste e com tanta raiva ao mesmo tempo.

— Enfim, acho que já tomei seu tempo demais, não é…? Sua amiga deve está impaciente na biblioteca. Quer ir assistir um filme amanhã? Tá tendo uma programação legal no cinema.

— Pode ser.

— Te ligo mais tarde pra confirmar. — Colin se levantou.

— Tudo bem. Vou te acompanhar até a academia.

— Ótimo, podemos conversar um pouco mais.

Colin no caminho falou bastante, mudando o assunto em respeito ao amigo. Para ambos, foi um bom momento. Eles realmente estavam dispostos a resgatar a amizade.

[...]

Já era noite.

Ele dormia quando Hugh chegou ao quarto.

Pietro finalmente estava na república depois de dois dias distante daquele lugar. A maneira como ele dormia era de fazer qualquer um deixá-lo ali intacto; abraçado ao travesseiro, com o cobertor em sua cintura e o rosto próximo da parede. Ele necessitava daquele conforto e, especialmente, daquela cama, pois se esquecendo do seu colchão, ele dormiu na cama do Hugh.

Em silêncio, o garoto de cabelos encaracolados, caminhou até seu armário onde havia deixado seu caderno de anotações, mas no caminho viu o quão bagunçadas estavam as coisas de Pietro, pensou em arrumá-las, mas não sabia se era correto fazer isso. Relutou, mas não resistindo, ajoelhou-se.

Hugh apanhou algumas vestes ao redor da bolsa, mas um pedaço de papel duro chamou-lhe a atenção. Curioso, o leonino resolveu ver do que se tratava e puxou, o que viu o fez sorrir e olhar imediatamente para Pietro, mas rapidamente voltou seus olhos pra fotografia.

Naquela fotografia, Pietro deveria ter seus sete ou oito anos de idade e estava sorridente sentado de frente para um piano e, de pé, ao seu lado, uma mulher jovem de cabelos longos e castanhos. Foi então que Hugh recordou do dia em que o garoto o insultou pela afinação do seu violão, certamente Pietro tinha conhecimento sobre música.

— Por que está mexendo nas minhas coisas?

A voz de Pietro o assuntou. Hugh rapidamente inseriu a fotografia no lugar que estava e, em seguida, fez o mesmo com as roupas caídas.

— E-eu ia arrumar suas coisas.

— Não precisa. — falou, remexendo-se na cama e esfregando os olhos. Ele mal conseguiu manter os olhos abertos ao acordar, por isso não chegou a perceber que Hugh o viu na fotografia. — Deixe que eu arrumo depois. — falou fraco.

Obedecendo, Hugh fez isso e se levantou. Buscou por seu caderno no armário e se preparou pra sair do quarto, mas essas ações foram interrompidas por suas vontades; ele não iria conseguir sair dali em antes saber onde Pietro estava, mesmo esperando receber uma resposta grosseira ou sem a informação que precisava.

Assistindo Pietro esfregar os olhos, ele o viu fazer uma expressão de dor e em seguida resmungar algo baixinho.

— Algum problema? — Hugh perguntou.

— Nenhum. — respondeu quase que com um gemido.

— Pode dormir hoje na minha cama, eu coloco seu colchão na cama vazia do Calvin.

Pietro disse que não dormiria naquela cama, os motivos eram bem óbvios ao se tratar da sua relação com Calvin.

— Você tem remédio? — questionou ainda de olhos fechados.

Ouvir tal pergunta já deixou Hugh preocupado, principalmente porque era um pedido sem estar acompanhado de ofensa; uma pergunta sincera.

— Pietro, você realmente está bem? — largando o caderno no chão, Hugh aproximou-se da cama e sentou-se ao seu lado.

Foi quando ele notou o garoto completamente suado e, ao encostar sua mão na testa dele, sentiu a temperatura do seu corpo elevada.

— Você está com febre.

— Eu estou bem, só preciso de um remédio.

— Não. Eu vou pedir ajuda ao Calvin, já volto. — falou levantando-se.

— Não! — exclamou. — Eu já disse que não quero ajuda, ainda mais vindo daquele babaca.

— Mas você tá queimando de febre.

Pietro nada disse.

— Então eu vou cuidar de você. — disse sem mais delongas, voltando a se sentar.

— Eu só preciso de remédio.

— E de um banho. Você está todo suado, precisa abaixar a temperatura desse corpo. Só aceite que eu estou aqui pra ajudar, por favor.

Pietro o encarou.

— Tome um banho de água morna, eu vou trocar os lençóis e cobertores dessa cama. — pediu.

Ainda o encarando, Pietro sentou-se na cama. Fraco, cansado e enjoado, ele colocou-se de pé.

Pietro realmente foi tomar um banho ao considerar a necessidade que tinha. Hugh ficou no quarto e fez exatamente o que tinha dito. Retirou tudo o que estava sobre a cama, lançou sobre o chão e buscou por algo mais macio. Hugh, inclusive, foi buscar água e levou pra o quarto, desejando manter Pietro hidratado.

Pietro retornou ao quarto enrolado uma toalha, Pietro deu as costas enquanto ele se trocou e rapidamente lançou-se sobre a cama.

— Tome esse remédio e beba a água. — sugeriu ao entregar-lhe um copo cheio.

Pietro não recusou, bebeu e se acomodou na cama.

— Você vai ficar melhor em algumas horas.

Cansado, Pietro cobriu-se mais uma vez. Ele estava com calça moletom e casaco, mas ainda assim cobriu as pernas por sentir tanto frio.

Hugh não falou nada, ficou parado e preocupado.

[...]

Caine estava um pouco nervoso. Ele havia marcado reunião com os líderes de todas as repúblicas da Quadra, sejam elas as maiores ou menores. Sean estava de pé encostado à porta, Colin estava sentado no sofá ao lado de Danion, já que querendo ou não, ele poderia ser visto como líder dos leoninos também, fora que era namorado de Caine. Edgar também se fazia presente naquela reunião, mas ele deixou bem claro que não falaria nada, só não queria ficar preso no seu quarto já que estava brigado com o Joshua. Os demais líderes das repúblicas menores estavam todos espalhados pela sala.

— Bem, eu chamei vocês aqui por dois motivos. Um deles são os espancamentos que ocorreram recentemente.

— Isso não deveria ser problema do Sean? — retrucou um dos líderes. — O namorado dele foi espancado e ainda assim ele não descobriu quem está por trás disso.

A reunião sequer tinha dado início e as intrigas já se fizeram presentes.

— O acordo diz que ele é responsável pela Quadra agora. Se essa notícia de espancamento chegar aos nossos pais e à polícia, é provável que muitos de nós deixemos a Quadra. Minha mãe jamais vai me deixar viver em um lugar assim, ninguém aqui trabalha e todos nós dependemos de nossos pais. — falou outro.

Colin olhou para o namorado, a cara que ele fazia não era nada satisfatória.

— Quando o Sebastian era responsável pela Quadra, problemas sérios como esses eram resolvidos rapidamente. — o que iniciou a discussão voltou a falar. Ele se chamava Daniel, um veterano que breve se formaria.

— Em breve descobriremos quem está por trás disso. Culpar o Sean não vai resolver nada, coisas assim acontecem dentro e fora da Quadra e o problema parece ser mais sério do que venda de drogas, como foi o caso que o Sebastian resolveu. — Caine tentou apaziguar a situação.

Sean suspirou, lembrando-se de que tinha sido ele a resolver isso, mas o ruivo havia tomado todos os créditos pela fama que tinha.

— Todos nós sabemos que é realmente necessário alguém para ditar as ordens da Quadra, assim mantendo o equilíbrio do lugar. É ridículo pensar nisso quando cada um aqui paga seu aluguel. — Colin foi interrompido.

— Leões e Tigres são a exceção. — falou Daniel.

— Você tem razão. — querendo dar outra resposta, Colin se conteve. — Mas continuando... Como eu ia dizendo, eu sei que “alguns” de vocês pagam aluguel e devem odiar aceitar que há algumas regras na Quadra, no entanto, são graças a essas regras, sendo a primordial não trazer polícia pra cá, evitando assim que o local saia em jornais e noticiários na TV, prejudicando a imagem do lugar, que a Quadra existe. Caso contrário é provável que a maioria de nós sequer estaríamos aqui, minha mãe, por exemplo, seria a primeira a me mandar pra casa.

— Você está se esquecendo do dia em que apareceu em quase todos os noticiários, junto ao William, Sean e Colton. — Daniel ressaltou.

— E foi um caos. — Colin imediatamente falou. — Lembre-se de que algumas pessoas saíram daqui, poucas, mas que se notícias ruins reaparecerem obviamente boa parte vai ser obrigado a se retirar. Moradias em outras áreas são mais caras, a Quadra é um lugar exclusivo pra estudantes que não conseguiram vagas no Ninho.

— Mas o Sean não tem feito nada por nós. Desse modo, não há quem aguente ficar em silêncio, vai logo recorrer a polícia. — outro líder, que até então estava calado, falou. — O Sebastian pelo menos era simpático, ele organizava até festas. Não basta o fato de que quem organizou essa reunião foi o Caine, justamente para debater esse problema.

Colin olhou mais uma vez para o namorado. Em silêncio, Sean ficava apenas olhando para todos eles sem boas intenções.

— Nunca critiquei o Sebastian. — Danion falou cinicamente ao roer suas unhas e olhar pro chão.

Colin o fuzilou.

— Como eu falei: Culpar o Sean não vai adiantar de nada. Ele não tem muita informação de quem são os envolvidos nisso. — Caine tomou a voz mais uma vez. — Não esqueçam que Colin e eu fomos as vítimas, nós não conseguimos ver o rosto dos agressores, mas sabemos que são pessoas que nos conhecem, provavelmente estudantes da universidade.

— Vocês estão jogando toda a culpa nele, como se ele sozinho fosse segurança particular de vocês. — Colin, começando a se irritar, falou.

— Não estamos culpando-o. Até porque como falaram aqui, coisas como essas acontecem dentro e fora da Quadra, mas o Sean nem mesmo me procurou quando o da minha república foi espancado, apenas se importou com você, obviamente porque é namorado dele. É como se ele não desse a mínima para o que acontece com os outros. — Daniel disse.

Silêncio. Um silêncio que incomodava, deixando tensão no ar.

— Bem. — Caine tossiu. — O que está acontecendo agora nos remete ao passado. — Caine olhou pra Edgar, não querendo ir direto ao ponto ao falar que moradores da Quadra eram vítimas do Joshua quando ele queria descobrir quem havia causado o acidente do Noah. — Isso vai ser resolvido.

Caine queria que o momento não fosse daquela forma e se sentia horrível por achar ser responsável pela discussão. Ele até parecia mais nervoso do que o início, tinha todo um plano e discurso programado sobre os espancamentos, mas não conseguia impor a voz. Por isso, rapidamente, entrou em um novo assunto:

— Estive pensando em retomarmos com os jogos da Quadra.

A maioria olhou pra ele franzindo o cenho, alguns pareceram felizes com a notícia, que foi o caso do Danion, outros já não fizeram expressão alguma e somente o encararam.

— É uma boa ideia? — Daniel perguntou.

— Aquelas loucas daquele ano não estudam mais aqui. — Colin falou ao se relembrar do ocorrido.

— Eu pensei em como seria bom nos divertir. Sei que meu irmão parou com os jogos, mas acho que isso não vale mais.

— Não nego que seria bom. — Daniel sorriu. — Esses dias eu andei pensando nisso.

— Convenhamos, era um dos melhores eventos aqui. — disse outro líder. — Até aquelas garotas estragarem tudo.

— Quem ficaria por trás da organização?

— Teria que ser alguém que não fosse competir. — Danion falou. — E tenho quase certeza de que todos aqui iriam querer ter o privilégio de ter membros de alguma república como empregados.

— A minha república pode ficar responsável. — Daniel falou. — Só somos três. Fora que eu prefiro estar nos bastidores.

— Quem nos garante de que você não vai trapacear? Já deixou aqui explícito que me detesta. — Sean finalmente falou.

— Eu gosto dos jogos, gosto da competição que acontece entre as três maiores repúblicas em especial. Teria sim prazer em vê-lo perder, mas a única coisa que vou fazer é organizar o que já tem pronto. Alguma coisa vai mudar?

— Mudar como assim? — Caine questionou.

— Ok, nada vai mudar. Então só vou precisar organizar, ficar a frente. Todo mundo aqui sabe como os jogos funcionam. Ah, Caine, eu tenho ideia de uma competição, mas posso elaborar melhor enquanto organizo o quadro de jogos e os horários, assim passo pra todos vocês em uma nova reunião.

— Qual a possibilidade disso acontecer sem que algum problema aconteça? — Colin perguntou para todos.

— Estamos na Quadra... Isso aqui só tem problemas. — Danion relembrou.

— Não precisam ser pessimistas. É um momento de diversão nosso. — Caine falou.

— Sério mesmo que vai ser apenas diversão? É pura competição, eu não vou ficar nada satisfeito em perder pra vocês.

— E acha que os leoninos vão perder pra você? — Danion sorriu. Colin não perdeu a chance em sorrir também.

— Esse ano vai ser nosso como todos os outros. — Caine disse. — Mas precisamos antes ver a situação das repúblicas menores.

— Usa a mesma estratégia passada. Deixa que as repúblicas menores façam times entre eles.

— Mas e se eles vencerem e escolherem vocês tigres, você vai limpar e servi a mais de uma república? Eu não vou querer virar empregado pra duas repúblicas, já não basta perder pros águias nos jogos passados, agora vou ter que limpar duas repúblicas menores?

— Que outra forma você sugere, Dan? — Caine perguntou.

— De alguma forma eles também tem que participar, oras. — Colin falou.

— Enfim, eu não vou perder mesmo. — Danion deu de ombros.

— Os times têm que ter no máximo seis pessoas, pela quantidade de moradores das repúblicas menores. Há em média três a quatro moradores por repúblicas menores. — Daniel sugeriu.

— Não é uma má ideia, eu estou de acordo. — Colin falou.

Enquanto eles ainda discutiam sobre os jogos da Quadra, foi necessário interromper a conversa quando alguém bateu a porta. Sean por estar próximo dela, a abriu. Na sua frente estava Joshua, para a surpresa da maioria ali dentro, especialmente Caine, Edgar e Danion.

O silêncio foi imediato.

Joshua conseguiu enxergar seu namorado sentado e o encarando, sendo visível perceber em seu olhar a surpresa por vê-lo ali, talvez ainda mais por estar na presença de todos os outros líderes das repúblicas da Quadra.

— D-desculpem. — Edgar se levantou. — P-podem continuar a reunião.

Atravessando a sala e indo até a porta, Edgar pediu passagem ao moreno que deu sem pestanejar, em seguida, fechou a porta com pressa, assim, evitando constrangimento. O loirinho olhou para o seu namorado, mas depois levou seus olhos ao carro estacionado em frente à república.

— Eu precisava falar com você. — o ruivo disse.

— Outra hora, Joshua. Estou em reunião. — ainda chateado, falou, mas a insegurança foi perceptível e logo o ruivo deduziu que ele estava mentindo.

— Tem certeza?

Edgar, com um olhar triste, ficou observando-o, logo passou pelo namorado e se dirigiu ao carro, quando tentou abrir a porta a encontrou travada, sendo assim, o ruivo entendeu o recado e rapidamente destravou o carro, assistindo-o entrar no automóvel e aguardá-lo lá dentro.

Joshua não dava a mínima para as pessoas dentro daquela república, seu único motivo para estar ali era seu namorado e nada mais que isso. Por isso que ele caminhou sem nem mesmo olhar pra trás, entrou em seu automóvel e encontrou o namorado olhando pra frente.

— Eu estou bem chateado com você. — iniciou o loiro.

— Como está seu ferimento?

— É com isso que você está preocupado? — Edgar olhou pra ele.

— Eu te machuquei sem querer.

— Isso não é nada, Joshua. Não estou com raiva de você por isso, estou com raiva pelo simples fato de você explodir e sair batendo descontroladamente em dois garotos que são bobos. Era bem óbvio que eles não teriam chances contra você, mas mesmo assim você bater neles. Está caindo perfeitamente no jogo do Andrew. É seu último ano, não quero que você seja expulso.

— Posso ver sua perna?

— Joshua! — irritado, o loiro elevou o tom de voz.

— Loirinho, por que se preocupa tanto com essas pessoas que querem o meu mal?

— Porque eu te conheço. São sua fonte de desejo.

Joshua encostou-se ao banco e olhou pra frente.

— Tenho medo que te machuquem.

— Tenho medo de você voltar a ser como antes. Não quero que as pessoas olhem pra mim como antes, sempre me relacionando a você, como se eu fosse seu protegido, assim, temendo até conversar comigo. Não foi fácil limpar sua imagem, ainda que não totalmente, mas veja só, os únicos que sabem de você são os veteranos, os novos moradores da Quadra não me olham estranho e também não te olham assim. Joshua, o monstro, já não existe mais.

Era verdade isso que Edgar estava falando. Até foi surpresa pro Sean vê-lo quieto com esse novo grupo de delinquentes. Joshua tinha Edgar como âncora durante todo esse tempo, como meta para não sujar mais suas mãos com sangue. A última vez que havia brigado foi, ironicamente, a pedido do namorado para livrar a república dos tigres das mãos de vários encapuzados. Mas agora, desde que ele defendeu Colin e Caine, tendo a chance de causar dor, sentiu o prazer novamente. Era como uma droga. As vítimas seguintes serviam para saciar sua vontade.

— Me desculpe. — falou o ruivo pensativo. No fundo, não sabia mesmo como argumentar contra o loiro depois de tudo o que ele tinha dito.

Olhando-o com surpresa após ouvir aquilo, Edgar pareceu respirar em alívio. Aos poucos ele repousou sua cabeça no braço do namorado.

— Eu quero o seu bem. — Edgar falou.

— Você é o suficiente para me fazer bem.

Edgar sorriu. Facilmente deixou de ficar irritado.

— Olha pra mim. — Edgar pediu ainda encostado a ele.

Assim que Joshua olhou pra ele, o loiro tocou-lhe a orelha, assim aproximou seu rosto ao dele e selaram os lábios em um beijo leve. Edgar encolheu-se no corpo do namorado e, quietinho, ficaram naquela posição.

Sorte do ruivo o loiro não ser birrento, num situação como essa, o pedido de desculpas não seria suficiente, mas Edgar era tão tranquilo que isso bastou. O pequeno ficou realmente satisfeito com o que ouviu, talvez porque reconhecer que seu namorado não seria alguém a pedir desculpas a outras pessoas.

Com as luzes dentro do automóvel desligadas, ninguém conseguia vê-los abraçadinhos.

Eles precisavam paz. Depois de tantos gritos pela manhã, o silêncio daquele momento significava sossego.

[...]

Sean foi o primeiro a sair da reunião. Depois de levar tanto esculacho no início dela, seria melhor não manter contato com ninguém. Ele já não era alguém receptivo, depois daquilo qualquer que fosse aquele a cumprimenta-lo ou até mesmo se despedir, receberia grosserias em troca. O que, provavelmente, renderia em uma nova discussão sobre ele ser o novo responsável pela Quadra na saída do Sebastian.

Colin sabia que seu namorado estava extremamente furioso por dentro, mas não iria demonstrar. Preferia manter a imagem de garoto frio e que não se abala. O leonino precisou segui-lo, já que o moreno não havia o esperado.

Ao entrar nos tigres, Sean subiu diretamente para seu quarto. Colin fez o mesmo e parou exatamente em frente a porta antes dele fechar. Quando Sean viu seu namorado, largou a porta aberta, retirou a camisa, jogou ela sobre a cama, foi ao banheiro e lavou o rosto.

Sean voltou pra o quarto segundos depois enxugando o nariz, ele nada dizia.

— Senta aqui. — Colin pediu.

Sean o olhou desconfiado.

— Senta aqui, caralho! — Colin sendo Colin.

O moreno fez o que ele pediu e se sentou na beirada da cama. Colocando-se de joelhos atrás do namorado, o pequeno passou a massagear os ombros dele, tentando assim fazer com que ele relaxasse. Preferia não tocar no assunto comentado na reunião, assim evitando discussões que certamente aconteceriam.

Colin beijou-lhe o pescoço e desceu suas mãos pelo peito nu do namorado.

— Colin. — disse o moreno.

— Só estou fazendo massagem. Não vamos transar. — logo o advertiu.

— Preciso conversar com você sobre algo que aconteceu na festa.

No mesmo instante o pequeno parou o que estava fazendo; retirou suas mãos do namorado e se sentou na cama. Sean apenas virou-se para olhá-lo.

Colin respirou fundo.

Sean engoliu em seco.

[...]

Hugh acordou ouvindo a voz de Pietro.

Assustado, ajoelhou-se no colchão que dormia ao lado da cama em que o garoto estava e ligou o abajur. Pietro remexia-se na cama, gemendo e pronunciando repetidas vezes a palavra mãe.

Tocando-lhe a testa, Hugh pôde constatar que a febre dele não havia baixado, os remédios não tiveram efeitos. Devagar, Pietro sentou-se ao seu lado e começou a falar baixinho:

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— Ei, ei...

Pietro abriu os olhos assustado. O suor molhava o seu rosto.

— Tá tudo bem, foi só um pesadelo. — falou. — Sua febre não abaixou, vou fazer algumas compressas de água fria e já volto.

Pietro, como se estivesse com falta de ar, passou a respirar fundo naquele instante. Quando Hugh saiu do quarto ele sentiu vontade de gritar pelo nome do leonino, pedindo para que ele ficasse ali, não o deixasse, mas foi tarde demais.

A razão pelos seus sumiços eras justamente aquela: a confusão de sentimentos em relação ao Hugh. Estava ficando impossibilitado de dividir o mesmo quarto com alguém que andava desejando tanto ultimamente, mas se negava a aceitar isso, tendo em vista que ainda nutria sentimentos por Andrew, garoto esse que vivia a maltratá-lo e rejeitá-lo, transando só em ocasiões possíveis e que convinham ao rival da quadra.

Era melhor vagar pelas ruas, pichando na madrugada e dormindo em pedaços de papelão, abrindo mão de todo o conforto em busca de se libertar desse sentimento.

Hugh voltou alguns minutos depois com algumas toalhas no ombro e uma bacia com águia fria nas mãos. Guiando-se apenas pela luz do abajur, o dono de cabelos encaracolados pôs a bacia sobre a mesa de cabeceira e voltou sua atenção ao garoto.

Sua mão foi até o zíper do casaco que o garoto vestia, abrindo-o no meio e ajudando-o a retirar a peça de roupa.

— É melhor levar você ao hospital.

— Não quero.

— E se piorar?

— Foda-se.

Hugh deu de ombros, mergulhou uma toalha na água fria e depois a espremeu, em seguida levou a toalha úmida à testa do garoto. O processo foi se repetindo com compressas colocadas em seu tronco e braços.

Verificando o relógio, constatou que já passava das três horas da madrugada.

— Espero que as compressas sirvam pra pelo menos abaixar sua febre. — falou.

Pietro ficou calado, imóvel, recebendo o cuidado do garoto sem reclamações. Era essa bondade que o irritava tanto. Preferia que Hugh o tratasse mal, assim seria mais fácil de nutrir sentimentos ruins pelo garoto, mas o que recebia era um tratamento oposto. Hugh, dentre todas as pessoas que conheceu, ou melhor, com exceção de uma, era o único a mostrar se preocupar com ele enquanto os demais só o tinham por dois motivos: para usá-lo ou tratá-lo mal.

Ainda sentado na cama, Hugh ficou olhando para o colchão no chão, embora seu pensamento estivesse muito distante dali.

— Onde esteve durante esses dois dias? — não resistindo, Hugh perguntou.

— Por aí. — respondeu.

— Seus sumiços me preocupam. A festa do Colin foi legal, todo mundo fantasiado, algumas fantasias engraçadas, por sinal.

Pietro resistia ao diálogo.

— Colin encheu a cara, nunca o tinha visto daquela forma. — continuou empolgado e sorridente. — A melhor fantasia foi a do Danion, ele contratou um maquiador profissional, cara, foi demais. Sabe o coringa? Ficou show! — Calado, Pietro apenas o observava. Hugh não estava olhando para ele enquanto falava, mas o brilho dos seus olhos era visto pela iluminação do abajur. — Do que você se fantasiaria se fosse?

Silêncio. Hugh olhou para Pietro e o viu encarando-o.

— Falo demais, não é? — sorriu.

— Sim. — respondeu.

— Desculpe, é melhor eu voltar a dormir. Vou apagar o abajur e ir pra sala. O sofá deve tá vazio há essa hora — brincou com o horário — e deixar você descansar.

Hugh se virou para fazer o que tinha dito, no entanto, a mão de Pietro encostou a sua.

— Não. — murmurou encarando-o. — Fique aqui.

Surpreso, Hugh demorou alguns segundos preso naquele olhar, até engolir em seco.

— Ok, ok. — falou. — Tem certeza?

Pietro só balançou a cabeça em confirmação. Estava com medo de ficar sozinho.

— Do que você se fantasiou? — questionou.

Se Pietro resistia à conversa, isso já não mais acontecia.

— De Link. — respondeu. — Não foi a melhor fantasia, especialmente pra por aquele chapéu pontudo na minha cabeça. Acho que devo cortar um pouco essa juba de leão.

— Link?

— Ok, se eu falar Zelda você provavelmente vai saber do que estou falando.

— Zelda? Aquele bonequinho de roupas verdes?

— Oh, céus... A festa passou, mas ainda assim preciso explicar sobre minha fantasia. Vamos lá: Zelda é o nome da princesa, mas todo mundo acha que Zelda é esse personagem que você acabou de falar, mas na verdade ele se chama Link.

— Fantasia idiota. Não tinha outra coisa melhor?

— Eu gostei, oras. Só foi chato mesmo por o chapéu pontudo. Vivia caindo, chegou num momento em que eu cansei dele. Mas e você, do que se fantasiaria se estivesse aqui?

— De nada, acho essas coisas bem idiotas.

— Mas é semana de halloween.

— E daí?

— Ah, todo mundo se fantasiou um dia.

— Eu não.

— Duvido!

— Vai ficar duvidando.

— Sério mesmo?

— Talvez.

— Eu sabia! — elevou o tom de voz.

— Me fantasiei de bruxo ainda na escola. Sonserina, a melhor casa.

— Você gosta de Harry Potter? — perguntou empolgado. — Eu sou da grifinória.

— Isso é bobagem.

— Talvez seja. — sorriu. — Mas é divertido imaginar essas coisas.

A conversa prolongou-se por quase uma hora, Pietro havia realmente cedido a conversa e, durante esse tempo, o garoto não soltou a mão de Hugh.

— Se sente melhor? — perguntou Hugh. — Acho que febre está baixando, não está?

Com a outra mão, Hugh tocou a testa dele e pôde sentir a temperatura menor do que a última vez que o havia tocado.

— Um pouco.

— Eu posso deitar aqui com você?

Mas Hugh perguntou já se deitando. Estava cansado, isso não podia negar.

O dono de cabelos encaracolados deitou-se na beirada da cama, por pouco sendo capaz de cair caso Pietro o empurre, no entanto, o garoto não fez isso, mas também não respondeu a pergunta dele.

— Você é bom, Pietro. Você não é como eles.

Para Pietro, foi fácil interpretar o que ele estava dizendo.

— Sou pior que todos eles.

Hugh sorriu, embora parecesse mais que ele havia se engasgado. Pietro não gostou daquilo e logo apertou a mão dele.

— Ok, ok, desculpe. — falou, embora ainda não conseguisse disfarçar que estava rindo, mesmo que moderadamente.

— Não foi o Andrew quem fez aquilo com o Colin.

Hugh imediatamente parou de sorrir, ele virou seu rosto para olhar Pietro, mas o garoto fixava o olhar no teto.

— Como sabe disso? — assustado e temendo ouvir o pior, perguntou.

— Ele me contou.

— E você acredita nele?

— Acredito. Não me pergunte o porquê, mas só saiba que eu acredito.

— Você tem relação com isso?

— Não.

— Por que está me dizendo isso?

Pietro não respondeu. Hugh então deixou de olhar para a face do garoto, fazendo o mesmo que ele ao olhar pro teto.

— Você quer protegê-lo. — Hugh disse e voltou a olhar pra ele, dessa vez, sendo retribuído. — Todo mundo suspeita que ele esteja por trás daquilo.

— Vão perder tempo se baterem no Andrew.

— Você não quer que ele seja machucado, afinal, Sean não seria o único a vingar o Colin e o Caine, tem todos os leoninos, tem os águias... Ainda tem outros moradores das repúblicas menores, já que um deles também foi espancado.

— Andrew pode ser ruim, mas ele não seria burro em fazer algo assim, sabendo que estaria entrando em guerra com a Quadra inteira. Isso seria estupidez.

— Você gosta mesmo dele, não é? — Pietro engoliu em seco. Hugh sentiu um leve aperto no coração. — Tudo bem, não é errado gostar de alguém. E, bem, você está certo em querer protegê-lo.

Hugh bocejou, ele largou a mão do garoto e se virou, ficando assim de costas pra ele. Pietro se sentiu péssimo, mas nunca ia admitir isso, jamais. Era horrível o que ele estava sentindo, a confusão de sentimento entre Hugh e Andrew o torturava. Se não estivesse doente, novamente iria sair da república e dormir nas ruas.

A surpresa veio quando Hugh sentiu-se abraçado. Os corpos não estavam bem encostados, mas o braço de Pietro veio sobre a cintura de Hugh, envolvendo-a. Hugh não se moveu, fechou seus olhos e entregou-se ao sono. Pietro não dormiu.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não deixem de comentar. ♥♥