República de Tigres
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Charles abriu a porta do seu quarto as pressas. Não teria condição alguma de permanecer na universidade após aquele beijo. Beijo este que o deixou tão extasiado que ele saiu atordoado pelas lembranças do momento.
Imediatamente correu para o banheiro do seu quarto, posicionou-se em frente à pia, olhou-se no espelho e estapeou o próprio rosto. Em seguida o tigre ligou a torneira e começou a molhar seu rosto sem parar, especialmente a boca, despreocupado com o lamaceiro que formava-se a seus pés.
Ele não poderia esquecer as promessas feitas a si. E era isso que o atormentava.
Charles olhou-se no espelho novamente e seu rosto, já úmido, agora era molhado pelas próprias lágrimas. Inclusive, parecia estar sem ar de tão agonizante que era o que estava sentido. Medo. Repulsa. Ódio de si.
— Se acalme, se acalme. — dizia para si mesmo, tremendo.
Desligando a torneira, Charles saiu do banheiro e buscou por uma toalha. Estava ainda em passos acelerados, nervoso.
Enxugando o rosto, Charles sentou-se na cama e pôs na própria cabeça que não deveria chorar e que não perderia o controle. Sua autoconfiança era tanta, que ele ficou de pé, arrumou o colarinho da camisa, mas, percebendo que ela estava molhada, a retirou.
Charles largou a camisa na cama, fechou os olhos e respirou fundo. Ergueu a cabeça, daquele jeito pomposo que ele sabia fazer.
— Isso não aconteceu. — falou confiante.
Por alguns minutos ele continuou parado, pensativo. Forçava-se a mandar os pensamentos para longe e, por mais que insistisse, eles permaneciam voltando. Para isso, precisou ter força de vontade, acreditando ocupar a mente com outra coisa.
O tigre saiu do quarto e desceu as escadas rumando direto para a cozinha.
Encontrou seu primo sentado com uma xícara na mão e com os cotovelos encostado ao balcão, encarando o vazio a sua frente.
Brandon assistiu o primo passar por ele e ir direto à geladeira.
— Eu vi...
Charles virou de supetão, interrompendo a fala do primo. Brandon, temeroso e curioso, franziu a sobrancelha e ficou encarando-o.
— Eu vi que você chegou apressado, aconteceu alguma coisa? — Concluiu o loiro.
— Nada. — Respondeu rapidamente.
Lerdo, Brandon acreditou no primo. Abaixou sua cabeça e ficou girando a xícara, observando o chocolate quente ondular no recipiente. Desanimado, ele não conseguia falar muito.
— E com você? — preferiu falar o moreno como forma de sair do foco.
— Kai foi embora. — falou tristinho, ainda sem conseguir levantar a cabeça.
— Finalmente. Não aguentava mais. — insensível, respondeu ao fechar a geladeira.
Charles segurava em sua mão uma garrafa de leite.
— Se você não quer problemas, é melhor deixar esse garoto pra lá.
— Às vezes me pergunto como você consegue ser assim. — levantou-se finalmente, e despejou todo o chocolate quente na pia. — Kai nunca te fez mal algum.
— E a você? Porque só o vejo desanimado ultimamente.
— O problema não é ele. Sou eu. Mas deixa quieto, algo que você nunca vai entender.
Brandon largou a xícara no momento em que Sean entrou no ambiente. Charles, como era de se esperar, logo fingiu não vê-lo, simplesmente agiu em silêncio pondo leite num copo.
— Parece que finalmente aconteceu o que eu disse. — relatou o líder dos tigres, também indo até a geladeira.
Obviamente, ele estava se dirigindo ao loiro.
Kai havia levado suas coisas pela manhã enquanto Brandon tinha ido levar Melissa à rodoviária.
— Dar pra calar a boca e deixá-lo em paz? — disse o menor dos três.
Charles era o típico garoto que somente ele poderia dizer verdades ao Brandon enquanto outros não, nem mesmo quando esse outro era seu primo.
Sean o olhou de relance.
— Não comecem. — Pediu o loiro. — Hoje eu não tô com cabeça pra isso.
Três Ferazzas, especialmente esses três, não podiam dividir o mesmo espaço por muito tempo, caso contrário, verdades seriam ditas sem remorsos, principalmente pela parte do líder dos tigres que não tinha piedade alguma. Charles era outro que poderia falar o que quisesse sem se preocupar. Brandon, por mais que parecesse o mais gentil deles, aquele não era o seu dia e, por isso, seria capaz de proferir rajadas de sinceridade que magoariam os primos.
Os três estavam em silêncio e, por isso, ouviram a porta da sala ser aberta. Sean voltou-se em direção à entrada da cozinha, assustou-se. Charles, sentado, fez o mesmo, inclusive o copo quase escorregou em sua mão. Brandon ficou estático do lugar que estava ao ver aquele homem se aproximando.
Usando roupas leves e pretas, segurando uma bengala em que na ponta havia uma cabeça de cavalo bem esculpida, ele ia aproximando-se cada vez mais do cômodo.
Não havia vestígio de um fio preto em sua cabeça, todos brancos e brilhantes — por mais que, quando mais jovem, seus fios fossem tão pretos quanto os de Sean e Charles. Os olhos verdes, escondidos atrás dos óculos, eram tão sérios quanto o do líder dos tigres. O cabelo penteado e dividido o deixou elegante, no mesmo rosto havia uma pinta em sua bochecha... Sean também tinha uma pinta do mesmo tamanho e no mesmo lugar.
Aquele era Enrico Ferazza. Dono do hospital da família, fundador da Quadra Nove, fundador dos Tigres e, nada mais, nada menos, que o avô de Sean, Charles e Brandon. Homem poderoso.
Posicionados em lugares estavam os três garotos: Sean abalado pelo que ocorreu ao namorado. Brandon abalado por ter perdido o amigo. Charles abalado por ter beijado o inimigo. Tão perdidos em seus pecados.
— In piedi muoio, in piedi io resto... — a voz fria, tenebrosa do velho, começou.
Quem seria o primeiro a dar continuidade ao lema da família?
Por alguns segundos os olhares assustados dos primos causaram em Enrico certa curiosidade. Tinha a sensação de que tinha acabado de os flagrar fazendo algo errado, apesar de que nada demais os primos faziam. Por sorte, ele não sabia dos segredos que escondiam, em especial, Brandon e Charles.
Como Enrico já imaginava, aconteceu:
— In onore del sangue della mia famiglia, non voglio cadere. — disse Charles e Brandon ao mesmo tempo.
A voz de Sean, sendo a mais aveludada, não acrescentou em nada no lema da família. Ele simplesmente permaneceu encarando o seu avô. Era pura provocação, puro desafio.
Enrico permaneceu olhando para o neto mais velho naquele cômodo. Charles e Brandon fizeram o mesmo, o loiro com uma expressão nada satisfatória, desejando sair do seu lugar e implorar para que o primo falasse.
— Olá, vovô. — disse o líder dos tigres.
Mais alguns segundos de silêncio e Enrico permaneceu encarando seu neto até finalmente voltar a se movimentar.
Brandon saiu do seu lugar rapidamente e puxou uma cadeira até o seu avô.
— Obrigado, querido. — disse ele ao se sentar.
— O que faz aqui? — perguntou Charles, aproximando-se do avô. — Meu pai está com você?
— Não. Estou aqui sozinho. Pedi para o motorista me trazer.
— Vovô, mas a viagem é longa. Você não pode sair sozinho. — disse o dono dos olhos azuis.
— Estava em uma conferência. Vi a oportunidade de passar aqui. — respondeu ao loiro. — Precisava vê-los, há bastante tempo vocês não me visitam.
— Eu tinha planos de ir nesse final de semana. — Charles mentiu.
— Eu iria com ele. — Brandon o ajudou na mentira.
Sean não disfarçando sorriu de lado e deu as costas indo até sua geladeira.
— Não vai falar comigo, Sean? — questionou Enrico.
— Olá, vovô. — repetiu sua saudação anterior. — Bom vê-lo aqui. — mas sua voz era contrária ao que estava dizendo.
— Vim especialmente por sua causa.
Charles logo sentiu o ódio queimar o seu interior. Nunca conseguiria entender como Sean, mesmo depois de ter virado as costas pras tradições da família, conseguia ainda ser o neto favorito — motivo pelo qual Steve também o odiava.
— Desse modo, meus primos ficarão com raiva. — provocou. O moreno ficou olhando para dentro da geladeira em busca de alguma bebida agradável ao paladar do avô.
— Como estão na faculdade? — falava devagar.
— Cheio de coisas pra estudar. — confessou o loiro.
— Meus professores o conhecem. — Charles disse. — Questionaram sobre meu sobrenome.
Satisfeito, sorriu o homem.
—E você? — Enrico perguntou sem precisar chamar pelo nome de Sean.
O moreno, silencioso, virou-se e o olhou.
— Não vai me responder?
— Minha resposta o satisfaria?
— Ele é seu avô! Respeite-o. — Charles repreendeu ao primo.
— Sean! — Brandon fez o mesmo.
Sean deu de ombros.
Há muito tempo tinha perdido o medo de enfrentar o seu avô. Homem que supriu a ausência do pai quando menor, com quem conviveu alguns anos, sendo, de fato, o neto preferido de Enrico.
— Sean, eu...
Sean não estava preparado pra aquele momento. Ainda que desafiasse seu avô, a presença de Colin o pegou de supetão. O moreno congelou a ponto de fazer Colin silenciar-se quando percebeu que o momento era inconveniente para sua presença.
Quem adorou a presença do Colin foi Charles que esboçou um sorrisinho de satisfação. Brandon engoliu em seco e olhou para o avô que olhava com curiosidade para o pequeno leonino.
Enrico acomodou-se na cadeira de modo com que o braço ainda ficasse segurando a bengala.
— Esse é o namorado dele. — Charles não perdeu a oportunidade. — É isso que temos que suportar enquanto estamos aqui na república.
Colin então percebeu o que do que se tratava o momento. Primeiro porque não bastou muito para olhar Enrico e perceber a semelhança genética que ele tinha com os três garotos ali presentes, segundo porque a provocação do Charles foi o suficiente para ele descobrir que o homem de cabelos brancos e brilhantes era o avô do namorado.
Sentindo-se péssimo, ainda que fosse alguém extremamente corajoso e debochado, Colin engoliu em seco. Mas Colin também não conseguia forçar simpatia, por isso não sorriu ou cumprimentou o homem.
Sean saiu do seu lugar, finalmente e foi ao encontro do namorado e tocou-lhe o ombro, preferindo tê-lo longe da cozinha, ia arrastá-lo para a sala, mas sentiu a mão do seu avô cravar em seu punho.
Sean olhou para o lado e sentiu os olhos do seu avô chamuscar em seriedade. Voltando os olhos para o namorado, Sean disse:
— Conversamos depois, Colin. — e olhou para a porta, desejando, do fundo do seu coração, que o namorado compreendesse.
Colin, felizmente, entendeu. O pequeno, mesmo que preocupado com o namorado, preferiu obedecer. O olhou por alguns segundos e tentou decifrar o olhar do namorado, queria descobrir como ele estava se sentindo ali. No menor sinal de que Sean estava sendo maltratado por palavras, o pequeno reviraria aquela cozinha, ainda que estivesse machucado.
O leonino se virou e se afastou.
— Charles. — Enrico olhou para o neto. — Brandon. — também o olhou em seguida. — Deixe-nos sozinhos.
Sem nem pensar em contestar, Charles e Brandon saíram da cozinha. Enrico soltou o punho do neto para que os outros pudessem passar. Sean afastou-se do avô e foi até o balcão, sentando-se e estando com os pensamentos em Colin.
Enrico levantou-se, a bengala bateu no chão e, em passos lentos, começou a movimentar-se pelo cômodo.
— Te dei alguns anos para repensar suas atitudes. — Sean não falou nada ao perceber que seu avô ainda não tinha terminado. — Eu vim de longe somente para ver se tudo o que me falavam era realmente verdade. Como posso não me decepcionar com isso? Sua mãe tanto tentou me convencer que era apenas uma fase de rebeldia sua. E aqui, dentro dessa república, eu vejo quem tanto anda desviando-o para caminhos errados.
— Meu namorado. — disse firme.
— Meu neto favorito, minha maior decepção. Sean, eu não vou mais tolerar. Te darei mais algum tempo para pensar sobre essas atitudes. Eu até aceito a ideia de você não ser médico e desmanchar toda uma linhagem da família, mas quanto a ser o que acha que é, isso eu não vou aceitar.
— Sério uma coisa tem mais peso sobre a outra?
— É melhor você me respeitar ou você perderá muita coisa.
Sean temeu aquele tom de voz e as palavras, mas jamais mostraria isso ao seu avô. Em questão de comparação, o moreno reconhecia que era muito pequeno se comparado a grandeza de seu avô quanto a status.
— Steven, o primo que tanto o odiou pela preferência que eu te dava, vai casar, e você... Ah, você... Você não se lembra do tempo em que passamos juntos? Das nossas conversas e dos ensinamentos que eu te dei? Das vezes em que te vi dormir em meu escritório e o levei pra cama? Dos presentes de natal? Como pode fazer isso comigo?
— Eu não fiz nada. Eu continuo sendo o mesmo, apenas cresci.
— Crescer enquanto estiver aqui é uma coisa... Mas e quando sair daqui? Será que vai conseguir crescer?
Sean refletia enquanto encarava o seu avô.
— Pense em sua mãe.
— Sua filha.
— Bem, acho que já disse o que tinha pra falar. Espero que você me ligue e diga que ouviu minhas palavras. Quem sabe possa um dia tomar chá comigo.
Enrico começou a caminhar rumo à sala, batendo sua bengala a cada passo. Sean ficou em seu lugar, estático. Até que então seu avô voltou-se novamente para ele, o olhar frio o encarava.
— In piedi muoio, in piedi io resto... — ele pausou e esperou o neto continuar. Firme, Sean nada disse. — In onore del sangue della mia famiglia... — continuou Enrico. Sean balançou a cabeça negativamente. — Complete...
— Não adian...
— Diga! — interrompeu a frase do neto. Sean sentiu a pressão daquele olhar seguido da entonação. — Pelos seus, um Ferazza faz qualquer coisa.
— Você não ouse tocá-lo. — facilmente percebeu o que o avô queria dizer com aquilo.
Enrico e Sean se encaravam.
— Diga! — A mão do mais velho pressionava fortemente a bengala, até que ele a ergueu e bateu no chão.
— Non voglio cadere. — finalizou o líder dos tigres.
Enrico deixou escapar um sorriso, olhou o neto uma última vez e deu as costas.
Sean fechou os punhos e os olhos, em seguida ele bateu com as mãos no balcão.
Sua mãe, Suzana, tinha razão, assim como Charles: ter Enrico distante era mais fácil pra Sean agir como queria, mas no momento em que o patriarca movia os seus dedos e aparecia pra conversar, era melhor tomar todo o cuidado do mundo.
[...]
Luke estava aborrecido. Havia passado as últimas três horas dentro do seu quarto, tentando dormir ou fazer qualquer coisa que pudesse o livrar daquele sentimento ruim que vinha nutrido pelo chá de gelo que havia tomado do Samuel.
Como não se deixa levar pelos sentimentos, sendo ruins ou bons — exceto nos momentos em que perde a cabeça —, o moreno caçou uma camisa jogada em cima da cama e a vestiu. Saiu usando um short verde bem curtinho, que mostrava metade das suas coxas torneadas enquanto caminhava.
Ao passar pela sala, encontrou Samuel sentado com Carter no sofá, ambos sorridentes ao assistir um programa de humor.
Luke sentiu quando Samuel fez questão de repousar a cabeça ao ombro de Carter e segurar na mão dele para que trocassem carícias.
— Qual a necessidade? Se quiserem se pegar, vão pra o quarto ou pra um motel. — soltou o moreno, não perdendo a oportunidade.
— Coisa que você deveria ter aprendido. — retrucou o loiro.
— Ô da roça! Você não sabe nem mesmo pegar na cintura do seu namorado? Abraça ele, ô imbecil. — falou ao perceber que o garoto sequer se movia, apenas Samuel estava encostado a ele sem que sequer estivesse sendo abraçado.
— Luke! — defendeu o loiro. — É o meu relacionamento, o meu namorado. Cuide da sua vida.
— Ainda me pergunto como você consegue namorar isso aí. Corta essa, Samuel. Isso não é o que você curte.
— Desde quando você sabe o que eu curto?
— Pegada. Firme, forte, que te deixe com as pernas bambas. — soltou.
Desconcertado, Samuel olhou para Carter que quieto estava.
Mas como Carter por mais que parecesse bobo, não era — certo, talvez fosse... — de ficar pra trás. Consumido pela provocação de Luke, o novato fez o que tinha dito o moreno: Carter deslizou sua mão pelas costas de Samuel até cravar na cintura dele, em seguida o puxou para mais perto e, dessa vez, sua face aconchegou-se entre o pescoço e ombro do loiro.
— Assim? — Carter perguntou.
Samuel ruborizou. Luke arrependeu-se do que tinha dito.
— Ah, vai tomar no cu.
Falou e deu de ombros saindo duas vezes mais aborrecido do que já estava.
Luke parou em cima do gramado da sua república e observou o céu. Ainda não havia anoitecido, mas o alaranjado do céu era tão belo que aquilo, de certa forma, o acalmou.
Sem planejar aquilo, o moreno acabou indo para a república dos leoninos. Como nunca pedia permissão para entrar nos lugares, ele somente empurrou a porta e entrou.
Na sala estava Patrick, Julius e Marcus. Os três não esperaram aquilo e, como desconfiavam de qualquer pessoa desde o espancamento do seu líder, reprovaram a atitude do moreno.
— Quem te deu permissão pra entrar assim?
— Meu quase namoro com o seu líder é a minha permissão. Onde ele está?
— Luke. — Colin apareceu no corredor de sua república. — Aconteceu alguma coisa?
— Você tá melhor? Tá podendo sair?
— Bem, não acho uma boa ideia sair por aí. Ainda estou mancando e como dá pra ver, essa mancha do meu rosto vai demorar pra sair. Quer conversar? — Colin conhecia-o.
— É uma boa ideia. Se for no seu quarto, qual a possibilidade do Sean aparecer e considerar que estávamos fazendo algo errado? Se a possibilidade for cem por cento, estou aceitando.
Colin revirou os olhos e respirou fundo.
— Vem, vamos lá fora. — falou o pequeno ao passar por ele mancando e abrir a porta.
Luke o acompanhou. A porta fechou-se gentilmente atrás deles.
Colin sentou-se no degrau em frente a sua porta, olhou para a república do seu namorado, respirou fundo e mandou para longe os pensamentos, apesar de preocupado.
— Que tarde bonita, não? — perguntou o moreno sentando-se ao seu lado.
— Desde quando você se preocupa se o dia tá bonito ou não? — Colin virou o pescoço de supetão com surpresa.
— É um ótimo dia pra transar.
— Me diz logo o que aconteceu antes que eu mude de ideia e volte pra dentro da república. Você tá bem?
— Nada importante. Só senti saudades de você. Faz um tempo em que você não mais me procura, não é mesmo? Só me procurou quando tomou um pé na bunda do Sean.
Colin admitiu que Luke tinha razão no que estava dizendo. O mesmo havia acontecido com o Samuel. Circunstâncias da vida fizeram com que se afastassem, não estavam brigados, com remorsos ou algo do tipo, apenas o tempo passou e eles foram afastando-se aos poucos.
— Eu não sou um péssimo amigo, me desculpe. É só que...
— Ah, eu entendo. Nem mesmo eu tenho percebido isso. Faz um tempo que não vejo o Sean irritado por me ver perto de você.
— Ele morre de ciúmes de você.
— Sério?! Bem, eu já imaginava... — sorriu.
— Por favor, prometa nunca contar isso a ele.
Luke prometer alguma coisa? É bem difícil... Principalmente quando se trata do Sean.
— E se ele tiver nos observando pela janela? Aqui, juntinhos, feito um casal de apaixonados. — Luke abraçou o pequeno e fixou o olhar na janela do quarto de Sean.
— Para, Luke! — falou tentando se desvencilhar do abraço do amigo. — Vai abraçar o Samuel.
Luke, que já estava esquecendo o momento na sala, voltou a sentir o aborrecimento todo novamente. Isso o fez largar o pequeno e, rapidamente, mudar o semblante.
— Manda ele ir tomar no cu.
— Quê?! O Samuel?
— Depois que começou a namorar ficou um pé no saco. Mimimi, meu namorado. — disse acompanhando de uma expressão engraçada. — Mimimi, ele é melhor. Mimimi, o pau dele... Ah, vai se foder.
— Você está com ciúmes. — sempre sendo sincero, falou interrompendo-o.
— Lógico que não! — falou na defensiva. — Ah, Colin, me poupe. Não nasci pra me apegar a alguém. Não de novo. Olha só minha cara de quem está pouco se fodendo pra isso. Só acho que não...
— Só acho... Todo aquele que sente ciúmes, inicia alguma frase com “Só acho...”. — disse, mas em sua mente algo na fala de Luke o incomodou, entretanto não sabia se deveria falar a respeito.
— Isso não é verdade.
— E o que seria verdade então?
— Qualquer coisa, menos ciúmes.
— Ok, ok. — disse ao perceber que pioraria as coisas caso prosseguisse. — Com quem ele está namorando?
— Um tal de Carter. O garoto mal apareceu e já come aquela bunda branca. Sério, o Samuel não é assim.
— O primo do Edgar? Ainda não o vi... Ou pelo menos acho que não o vi, apenas ouvi falar sobre ele.
— Esse mesmo. Garoto mal sabe falar.
— Luke! — o repreendeu.
— Espera só até o ouvir falando. “Égua, diacho, uai”... — o imitou quase que perfeitamente.
Colin não resistiu e começou a rir das caras e bocas que Luke fazia.
— Sinto falta dele, mas... É estupidez minha falar assim, já que também não o procuro mais. — disse referindo-se ao Samuel.
— Melhor nem ir procurá-lo. Passa todas as horas do dia agarrado ao novo namoradinho dele. Reclamou tanto de mim sobre o fato de eu beijar as pessoas e agora vive aos beijos por aí...
— Pelo menos é o namorado dele, não?
— Até você?
Colin levantou as mãos e se rendeu.
— Samuel nem mais tá dividindo o quarto comigo. Porra, ele era a pessoa mais próximo de mim naquela república. Mas quem disse que eu me importo? Vai tomar no cu, fica fazendo charminho e quem vai acabar perdendo é ele.
— Como está o seu primo? — Colin cortou o assunto imediatamente.
Luke o olhou. Em seguida sentiu a necessidade de respirar. Falou tanto que parecia ter desaprendido a controlar o ar que entrava e saía de seus pulmões.
— Parece estar bem.
— Onde é que ele está morando mesmo?
— Califórnia. — respondeu olhando pra o gramado dos leões. — Tá de namorado novo. Ele tá bem, costuma me mandar mensagens e às vezes me liga. Acho que é melhor ele lá do que estando aqui, sabe... Noah já fez mal a muita gente.
— Ao Edgar, especialmente.
— Sim. É por isso que o Joshua nunca vai perdoá-lo. Eles não se veem desde o dia em que o Noah foi internado. Minha família nunca foi perfeita, sempre quebrada em traições, mentiras, falsidades...
— Tem certeza de que quer falar sobre essas coisas pra mim?
— Só o Samuel sabe disso. Não vejo problema em falar pra você. Dizer que minha família vive sob aparências principalmente por conta dos pais do Joshua e Noah, os queridinhos da TV? Bem, é a mais pura verdade.
Colin olhou pra trás e abriu a porta temendo que alguém estivesse colado nela e tentando escutar a conversa, felizmente ninguém fazia isso.
— Deve ser horrível.
— Eles que se fodam, eu só quero viver.
— Está certo. Queria ser igual a você.
— Estaria ótimo se namorasse comigo, mas resolveu escolher o Sean. — brincou.
Colin sorriu e foi abraçado, dessa vez sem maldade da parte do moreno. Apenas um gesto belo da amizade que os dois tinham.
— Luke, posso perguntar uma coisa? — questionou o pequeno, olhando-o.
— Claro, ué.
— Você disse pra mim que não nasceu pra se apegar... “Não de novo”. — fez aspas no ar na intenção de destacar a fala do amigo.
Nesse momento, Colin e Luke levaram os olhos à porta dos tigres onde de lá viram sair o homem velho de cabelos grisalhos, apoiado em uma bengala. O motorista saiu do carro preto estacionado em frente à república e o ajudou.
Colin não desviou o olhar um segundo sequer, por isso, acabou também recebendo o olhar de Enrico sobre o seu. Ambos se encararam rapidamente até que os olhares se perdessem no instante em que o homem entrou no carro.
Colin só voltou a falar quando o carro se distanciou.
— Como eu o odeio.
— Você o conhece? — perguntou Luke.
— Não.
— Como o odeia se não o conhece?
— Apenas sei quem é, jamais vou querer conhecê-lo. Mas deixa essa história pra lá, vamos voltar ao que estávamos falando.
— Pensando bem... — Luke ficou de pé. — Vou dar uma passada na lanchonete, marquei um encontro e já está na hora.
— Sério? — perguntou aborrecido.
— Se o Samuel não quer me dar, tem quem queira.
— E dessa forma você acha que vai conseguir a amizade dele novamente? Apenas por sexo?
Luke estendeu a mão e Colin a segurou para ganhar força e se levantar.
— Te vejo depois. Aliás, estou sabendo do seu aniversário. Tô pensando em ir de Fred Flintstone.
— Isso não vai dar certo, Danion me paga!
— Vai ser a melhor festa da Quadra, ainda mais porque o Fred usa um vestido, isso significa que não necessariamente preciso usar cueca por baixo, vai facilitar, não acha? — Luke sorriu e escondeu o rosto em seu braço temendo apanhar do pequeno.
Colin revirou os olhos e abriu a porta de sua república.
— Tchau, quase namorado. — despediu-se o moreno piscando e sorrindo.
Colin somente mostrou o dedo do meio, mas sorriu.
Colin e Samuel eram as duas únicas pessoas por quem Luke tinha grande afeição na Quadra. Perdendo o Samuel, Luke tinha agora, somente, o líder dos leões como seu único amigo, ou melhor, o único que suportaria as suas maluquices e ainda aceitaria ouvi-lo.
[...]
Arthurzinho dormia profundamente nos braços do branquelo.
Depois de tanto gargalhar e brincar, o branquelo, nesse dia, foi quem deu banho no bebê e, depois de Caine ter feito o alimento do sobrinho, Danion também se encarregou de alimentá-lo em seus braços. Pra quem antes não suportava a criança, naquele momento, mostrava-se completamente diferente.
— Sebastian logo vai chegar. — Caine falou ao entrar no quarto.
— Sebastian?
Caminhando em direção às coisas do sobrinho para arrumá-las, Caine o olhou de relance, vendo-o deitado na cama enquanto Arthur repousava em seus braços com a cabeça afundada em seu pescoço, perninhas juntas e braços abertos numa espécie de abraço.
— Ele vem buscar o filho dele, Dan.
— Como assim buscar o filho dele? Nós cuidamos durante esse tempo e ele simplesmente acha que deve chegar assim e levar o Arthur embora?
— Dan... — Caine o olhou.
— E fala baixo que ele tá dormindo.
Caine até poderia ficar aborrecido, mas percebendo que seu namorado tocou as costas do sobrinho acariciando temendo acordá-lo com o diálogo, o líder dos águias somente sorriu e voltou a arrumar as coisas.
— Ele não poderia ficar mais uma semana? — perguntou baixinho o branquelo.
— Se o Sebastian permitir, sim. Mas ainda não é o melhor tempo para tê-lo aqui.
— Foi você quem aceitou cuidar dele e agora quer despachá-lo?
— Não é isso que estou querendo dizer, Danion. Também adoraria ter meu sobrinho aqui comigo mais tempo, mas eu estou cuidado dele pela necessidade do meu irmão e da Lydia de se ausentarem.
— Eu não entendo.
— Não era você quem tinha ficado contra essa ideia?
— Sim, mas... — Danion parou de falar, não conseguia imaginar nada que pudesse ser usado em sua defesa.
— O veremos sempre, Dan.
Mas antes que pudesse dizer algo o ruivo pareceu se materializar no quarto. Sebastian nem mesmo tinha passado em casa, veio direto a Quadra para matar saudades do seu filho, já que o único contato que tivera foi através do telefone quando Caine tentava de alguma forma fazer Arthur produzir algum som — gargalhadas de bebê, por exemplo.
— Mas já chegou? Eu ainda não arrumei as coisas dele.
— Eu vim direto, liguei quando ainda estava na estrada. Teria passado em casa, mas mudei de ideia. Onde está o meu filho? — perguntou sem notar a presença do branquelo.
Caine então olhou para a cama onde Danion estava deitado. Sebastian, a princípio, não acreditou no que estava vendo. Depois disso, sentiu uma onda de ciúmes desabar sobre ele tão forte que, por alguns segundos, ele perdeu a noção das palavras.
— Me dê meu filho. — pediu ao largar uma pasta no chão e aproximar-se do branquelo.
— Ele está dormindo! — exclamou, logo arrependendo-se quando sentiu Arthur remexer em seu corpo. — Shh!
— Ele pode dormir muito bem em meus braços, devolva-me.
— Seb... — Caine saiu do seu lugar e tocou o braço do irmão. — Ele quase não dormiu durante o dia, deixe-o descansar um pouco.
— Mas, mas... Olha só com quem ele está deitado? Esse garoto...
— Por que não janta conosco? Aproveita e toma um banho.
— É, vai lá e me deixa aqui.
— Você tem sorte de ele estar dormindo. — admitiu o ruivo. — Caso contrário eu o tiraria do seu braço agora.
O ruivo tocou a própria gravata e se desfez do nó dela em seu pescoço.
— Sabe o que é engraçado? — começou a dizer baixinho o branquelo. — Primeiro o Caine e agora o Arthur. Não adianta, eu sou demais.
Sebastian fechou o punho com força, mas controlava-se. Perder a cabeça não era uma boa ideia.
Foi então que o bebê começou a se remexer com mais frequência até um som agudo tomar todo o quarto: o choro do Arthur.
— Está vendo aí? — acusou o branquelo, sentando-se na cama e balançando Arthur devagar em seus braços. — A culpa é sua!
— Você que é um estúpido! Agora me devolva o meu filho! — pediu, furioso.
— Não! Ele está comigo. — rebateu firme.
Enquanto isso, Arthur permanecia chorando.
Mas Sebastian, como pai, realmente tinha o direito de ter a criança em seus braços e, por ter esse direito, conseguiu tomar o filho para si.
Ele começou a caminhar com Arthur em seu braço, balançando-o de modo com que tentasse tranquilizá-lo.
Danion inconformado e, ainda sentado na cama, odiava com todas as forças a presença do cunhado. Sebastian era, sem sobra de dúvida, seu inferno na terra. A pior pessoa com quem já tivera contato desde o dia que conheceu Caine.
— Shh! Shh! — falava o ruivo acariciando a cabeça do filho.
Magicamente o choro foi cessando, transformando-se em fungadas.
— Como eu queria que você morresse. — falou o branquelo fuzilando-o com o olhar. — Puta que pariu, você é insuportável.
Em respeito ao irmão, Sebastian evitou falar do espancamento de Danion.
— Você nem mesmo gosta do meu filho, lembro-me bem o que disse quando pedi ao meu irmão para deixá-lo aqui.
— Foda-se! Arthur gosta de dormir nos meus braços. Você acha que foi fácil acordar de madrugada pra fazer ele parar de chorar ou então pra alimentá-lo? E os dias que eu não fui pra universidade? Vai se foder, seu filho da puta do caralho!
— Ele é meu filho!
— Infelizmente!
— É melhor eu ir, antes que eu quebre a cara do seu namorado. — falou abrindo a porta.
Quando saiu acabou parando na sala no momento em que ouviu a voz do seu irmão o chamar.
— Eu não poderia nem pelo menos me despedir do meu sobrinho? — pediu. — E eu nem terminei de arrumar as coisas dele.
— Eu ouvi o Arthur chorar. O que aconteceu? — Clara apareceu na sala. Ela prendia os cabelos enquanto olhava confusa para Sebastian.
— Não foi nada, ele só acordou. — respondeu o líder.
— Sebastian vai levá-lo?
O ruivo confirmou.
— Ah não, sério? — perguntou entristecida. — Poxa, eu estava tão acostumada com ele na república.
A loira foi se aproximando do ruivo para poder acariciar o bebê. Ela conseguia arrancar sorrisos de Arthur sempre que mudava a entonação de sua voz.
Com os olhos úmidos, Arthurzinho soltou uma gaitada tão fofa que até mesmo seu pai, que antes de mau humor, não resistiu e sorriu.
— Eu vou sentir saudades disso. — falou sorridente a garota.
Danion surgiu na soleira da porta do quarto. Os braços cruzados e um semblante que já deixava explícito que seu humor estava alterado.
— Eu vou terminar de arrumar as coisas dele.
Caine voltou pra o quarto e, quando passou pelo namorado, parou. O olhou por alguns segundos, mas decidiu continuar caminhando ao seu destino.
Danion ficou assistindo Clara brincar com o Arthur nos braços de Sebastian, este também participando das brincadeiras com o filho. Se ele parasse pra pensar em como agiu na chegada de Arthur, ia se sentir ridículo, pois agora o que mais queria era estar participando de todas as gargalhadas que o bebê deixava escapar.
Caine surgiu atrás dele com as coisas do sobrinho já arrumadas.
— Está tudo aqui. — disse o pequeno.
Sebastian apenas fez um aceno com a cabeça. Assistiu seu irmão se aproximar e tomar Arthur em seus braços.
— Caine, o que foi isso? — só naquele instante Sebastian percebeu o hematoma no rosto do seu irmão.
— Eu caí. — como se já estivesse ensaiado aquilo, respondeu na mesma hora, forçando-se a olhar para o sobrinho.
— Caiu? Caiu como?
— Caindo, Sebastian. Eu escorreguei no banheiro e o rosto foi direto na pia. Isso já tem uns dias, estou melhor.
— Onde está o Colin? Vou perguntar se isso é verdade.
Clara não acreditava no fato de Caine estar mentindo. Ela, inclusive, preferia ter seu rosto afundado no chão a ter que assistir aquilo.
— Colin está com o Sean. — respondeu o pequeno. — Ninguém me bateu, acredite.
— Do jeito que seu namorado é um imprestável, não duvido nada que ele não tenha conseguido te defender.
— Quer sair dessa republica na base da porrada? — retrucou o loiro.
— Pagaria pra ver. — sorriu o ruivo.
Danion, obviamente, sabia que fácil não seria, mas como sempre foi confiante, não duvidava da sua capacidade de fazer isso. Entretanto, ele apenas mostrou o dedo do meio ao ruivo.
— Dan, não quer ele um pouco? — Caine perguntou aproximando-se do namorado. Estava torcendo pra que o assunto mudasse e seus hematomas fossem esquecidos pelo irmão.
— Não. — respondeu, arisco. — Ele é todinho do pai dele.
— Meu filho só gosta de você quando tá dormindo, assim ele não sabe quem o segura. — provocou.
Mas Sebastian calou-se quando viu o seu filho sorrir e estender os braços tentando de alguma forma alcançar Danion enquanto segurado por Caine.
Danion, esforçando-se para não se derreter por aquela doçura de olhos bem grandes e sorriso que derretia qualquer coração, até desviava o olhar. Os vários sons aleatórios produzidos pela criança o deixavam cada vez mais frágil, perto de não resistir e tomá-lo em seus braços.
— Dadan. Da-dan.
Essas foram as palavras entoadas por Arthurzinho.
Nesse instante Danion arregalou os olhos surpreso. Imediatamente o semblante transformou-se numa espécie de sorriso frouxo.
As pequenas mãos de Arthur fechavam e abriam no ar, ainda sorridente enquanto encarava Danion.
Caine, assim como o namorado, surpreso, sorriu enquanto alternava o olhar do sobrinho ao namorado. Clara também sorriu, mas Sebastian, por sua vez, não acreditou.
— Dadan. — repetiu Arthur.
O famoso “papá” e “mamã” não foram pronunciados, mas o que parecia ser o apelido do Danion (Dan) esse sim estava sendo proferido pelo pequeno.
Não conseguindo se segurar mais, Danion estendeu as mãos e pegou Arthur no braço. A criança soltou gargalhadas enquanto era abraçado, recebendo cheiros e beijos do branquelo.
Se o pai da criança estava furioso? Sim. Mas Sebastian se conteve justamente porque Caine o olhava sorridente realmente feliz com as primeiras palavras do Arthur.
— Vocês ouviram? Ele falou meu nome! Ele falou meu nome car... — mas Danion se conteve, pronunciar o palavrão não viria a calhar enquanto estivesse com Arthur nos braços.
Danion assoprou o umbigo de Arthur que gargalhou fortemente, depois saiu andando com ele pela casa, gritando aos quatro cantos que Arthur tinha falado o seu nome.
Sebastian coçava a cabeça sem parar, odiando aquilo. Sua vontade era a de pegar seu filho e ir embora. Estava tão perplexo que sequer conseguia reagir.
— Bem, agora vou indo. — não mais conseguindo, Sebastian foi buscar por seu filho.
Danion, sorridente, olhava para Arthur distraído até ter o bebê tomado por Sebastian. Arthurzinho continuou a rir nos braços do pai.
Sebastian beijou a bochecha do filho e isso resultou e mais gargalhadas do pequeno, em seguida ele apanhou a mala pronta e pediu pra Clara buscar a pasta caída no quarto.
— O que custa deixar ele mais uns dias conosco?
— A saúde mental do meu filho.
— Cara, eu só não vou te xingar com todos os palavrões possíveis por conta do Arthur.
— Eu tô me segurando pra não quebrar a sua cara. Agora vou indo.
Sebastian foi até o Caine, tocou-lhe a nuca e beijou-lhe a testa.
— Apareça lá em casa esse final de semana. Lydia vai chegar e acho que podemos almoçar juntos.
— Vamos levar comida pronta, quem sabe lá você pode envenenar nossa comida.
— Quem te convidou? — perguntou o ruivo.
Danion engoliu sua resposta.
Sebastian saiu da república e foi caminhando direto para o seu carro estacionado. Clara quem se encarregou de abrir a porta traseira, arrumando cadeirinha de Arthur que ficava posicionada no banco traseiro.
Danion ficou na porta da república vendo tudo aquilo sem retirar os olhos do ruivinho nos braços do pai até ser colocado na cadeirinha.
Caine e Clara ficaram lado a lado enquanto vendo Sebastian entrar no carro.
— Se você quiser, pode dormir esse final de semana lá em casa. Podemos comemorar minha promoção.
— Você conseguiu?!
— Sim! — respondeu sorridente.
— Eu sabia! — disse, empolgado. — Pode deixar que aparecerei.
— Vou indo lá. — o ruivo ligou o automóvel.
Caine e Clara aproximaram-se na janela e se despediram de Arthur. Em seguida, afastaram-se do carro e Sebastian buzinou antes de dar a partida.
Foi-se embora uma das alegrias daquela casa.
Danion estava de coração partido. Os olhos marejavam.
Ele não queria que ninguém o visse daquela forma. Assim que o carro ganhou distância, ele imediatamente tratou de entrar no quarto, jogou-se na cama e, escondido embaixo do seu travesseiro, recolheu a meia verde do bebê.
As saudades que Arthur faria seriam grandes, mesmo com todos os choros, as noites mal dormidas e, inclusive quando o bebê interrompeu os beijos — preliminares — do casal numa madrugada dessas. Isso porque nesse dia Arthur começou a chorar no quarto da Clara, mas toda a república ouviu seu choro.
[...]
— É muito triste não te ter mais na Quadra. — Hugh falou ao amigo.
— Eu estou bem longe daqui. Às vezes é preciso que coisas assim aconteçam: se ausentar ajuda a esquecer, ou pelo menos, nos faz lembrar menos das coisas ruins que já passei naquele lugar.
Eles estavam sentados numa sala pequena de apartamento.
— Pelo menos dá pra sobreviver aqui. Meus pais disseram que eu poderia ficar em um lugarzinho melhor, mas optei por esse que é mais perto da Quadra e universidade.
Coincidentemente, o apartamento em que Kai estava era o antigo apartamento que Santiago morou com Leonard. O atual morador do lugar e seus amigos não sabiam desse detalhe.
— Sempre que quiser dormir lá na república, você pode ir. — disse o dono dos cabelos encaracolados.
— E dar de cara com aquele babaca do Pietro? Vai à merda, Hugh. — falou revirando os olhos e dando um copo d’água ao amigo.
Calvin, que também estava presente na conversa e, na maior parte do tempo pensando em Charles, manifestou-se naquele momento.
— E agora eu mudei de quarto, você pode dormir no meu.
— Muito obrigado, meus amigos, mas por enquanto ficarei aqui. Tô pensando na possibilidade de arrumar uma vaga na lanchonete. Mesmo que meus pais não queiram, mas eu prefiro economizar e ter um dinheiro a mais.
— E como foi dizer para seus pais que você sairia da república? — Hugh questionou.
— Eu contei toda a verdade pra eles. — seu tom de voz perdeu força.
— Seus pais devem estar odiando o Brandon. — Calvin comentou.
— Eu não contei sobre o lance da família do Brandon, acho que meus pais certamente iriam além de um simples ato de indignação. Mas contei sobre a namorada e o que aconteceu entre nós dois. Mas por que vamos falar do Brandon, não é mesmo? — sorriu mostrando-se forte.
— Porque ele está triste. — Hugh não poupou em ter que admitir isso. — Ele veio conversar comigo. Eu não soube o que falar, aliás, nem sabia que você tinha tomado essa decisão.
— Eu repensei muito antes de decidir. Mas depois da cena do banheiro, me odiaria se não tomasse essa decisão. — Kai fez uma pausa. — Ele está mesmo triste?
— É lógico, Kai.
— Sim. — até Calvin falou. — Pagando pelo que fez. Acho que merece.
— E o que eu poderia ter feito?
— Eu não estou dizendo que você está errado. Mas é como o Calvin disse. Ele está pagando pelo que fez. É necessário perder pra começar a dar o valor que algumas pessoas merecem.
— Por favor, vamos mudar de assunto... — pediu.
— E o Frank? — Calvin questionou.
— Vem mais tarde.
— Ok, já entendemos... — Calvin sorriu e ficou de pé. Cínico, ele olhou para o Hugh e tapou a boca.
Sem entender, Kai ficou olhando as expressões sugestivas do amigo até a ficha cair.
— Seus safados! Não! Não é porque ele vem aqui que isso possa acontecer.
— Quem garante?
— Inaugurar a cama nova... — Hugh brincou.
— Se é assim, vamos falar de como o Calvin estava na noite de ontem! Estranho!!
— Eu? Estranho?
Facilmente o sorriso foi desfeito.
— Sim. Você parecia distraído. Hugh e eu conversávamos e você nem prestava atenção no que dizíamos.
— Ah, eu estava pensando na minha filha. — disse e se sentou.
— Hm... Tem paquera nova nesse meio, não tem?
Alguém bateu na porta.
Engolindo em seco, Calvin agradeceu mentalmente o fato de alguém bater à porta e, com isso, roubar a atenção. Hugh quem se levantou pra atender já se sentindo a vontade no apartamento.
O sorriso de Franklin ganhou forma assim que a porta foi aberta e, nesse momento, Hugh olhou para Calvin e, numa gargalhada quase uníssona, eles se juntaram, deixando o garoto plantado na porta sem entender o que havia acontecido.
— Que aconteceu? — perguntou coçando a cabeça.
— Nada, Franklin, nada... — Kai, odiando os amigos, levantou e puxou o garoto para dentro. Franklin o abraçou por trás e beijou-lhe a cabeça.
Eles teriam bons momentos juntos dentro daquele cômodo durante o resto do dia. Foi por isso que Kai marcou de assistirem filme e comer tudo o que é doce e gorduroso.
[...]
Os dias seguiram. E seguiram com o ritmo agitado que somente a Quadra Nove oferecia. Como, por exemplo, os já saudosos leoninos e suas gritarias, que tinha como linha de frente Patrick e Julius e suas discussões diárias. Nos águias tínhamos Luke e suas provocações com Carter, que sofria com facilidade nas mãos de Luke, entretanto Samuel estava presente e o resultado era estresse, gritos e ofensas. Nos tigres havia o Charles e, com esse estando presente, a relação com os outros dois Ferazzas era fria e, atualmente, distante. Brandon preferia estudar, Sean sempre foi o mais isolado e Charles não costumava socializar.
— A festa tá prevista pra começar às 22 horas do sábado. — Danion disse.
— Mas o Colin só completo ano no domingo. — Marcus falou.
— Exatamente. A maioria aqui tem prova na segunda feira. — Patrick comentou. — Foi inteligente pensar assim.
— O Colin nasceu na madrugada do dia 26 de outubro. A festa começando às 22 horas do sábado podendo prosseguir durante a madrugada. — Danion, o mais intimo de Colin naquela república, lembrava-se perfeitamente da data de aniversário do seu amigo.
— Então está tudo pronto? — Marcus perguntou.
— Sim. Eu quero encher a cara. — falou o branquelo. — Pra vocês que não estão acostumados, é essencial que fechem a porta da república. Coisas costumam serem quebradas e, até mesmo, furtadas. Sem contar que o banheiro fica uma porcaria. Na festa que teve nos águias, por exemplo... Ainda bem que o Caine trancou o quarto dele, mas os demais... Transaram até no quarto do Luke, até hoje ninguém sabe quem foi.
— Colin nos mataria. — Patrick disse.
— Todos com suas fantasias? — perguntou o dono da república.
— É claro! — Marcus e Patrick disseram ao mesmo tempo e sorriram pela coincidência.
Qual foi a festa da Quadra Nove em que não aconteceram momentos marcantes? Seria assim com todas.
Momentos bons pra uns e ruins pra outros.
[...]
— Muito obrigada pela vaga. — agradeceu a garota sorridente enquanto colocava as malas no chão.
— Ah, que nada. — falou o homem, dono da república que estava ali presente apenas para negócio.
Logicamente, pela boa grana que havia ganhado o dono daquela república menor, ele jamais rejeitaria a presença daquela garota. O mesmo aconteceu pra os dois últimos moradores que entraram lá: Jamie e Dimitri.
A república menor tinha apenas dois quartos, um passou agora a ser exclusivo da garota.
— Chegou em um bom momento. Amanhã vai ter festa na Quadra. — Dimitri falou.
— É mesmo? — sorriu ela.
— Dizem que as festas daqui são boas. Até eu estou curioso para ver.
— E por acaso você sabe me dizer quem é Sean?
— É o líder dos tigres. Acho que é ele ali que vem descendo do carro.
A república menor não ficava tão próxima das três maiores, mas ainda assim dava pra ver quem entrava e saia daquelas repúblicas. Dimitri abriu a janela e mostrou à garota.
Sean saia do carro atendendo ao celular.
— E aquele é o namorado dele, o Colin.
Falou ao avistar o pequeno também sair do carro.
Larah, a garota nova, apenas sorriu.
— Ótimo. Obrigada. É apenas o Ferazza que me importa.
Dimitri a olhou com curiosidade ao perceber maldade naquele olhar e, especialmente, por perceber que ela sabia o sobrenome do moreno. Não tão diferente dela, ele já simpatizou.
Dias escuros.
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