República de Leões
46 Capítulo 46
Notas iniciais
Era uma selva de pedra. Assim William batizou o novo lugar que iria morar. Com tudo gigante e bastante movimentado.
Recém-chegado à Seattle, o loiro ainda estava com seu pai dentro do carro, perdidos. Apesar de a universidade ficar em um lugar conhecido e as informações ajudassem a localizá-la, Nate não tinha noção de nada. Era sua primeira vez ali e seu senso de direção não estava nos melhores dias.
Quando finalmente encontraram, William desceu do carro e em quase dez minutos de despedidas entrou na universidade. Foi lá que descobriu, da pior maneira, que as repúblicas — o ninho — oferecidas pela universidade já estavam ocupadas.
A sala da secretaria quase caiu quando William bradou e pisou a mulher com palavras. Ele dizia que era um absurdo fazerem aquilo com alunos que abdicaram de suas vidas em outra cidade para focarem em uma nova. A mulher teve que explicar que a superlotação era algo que eles não tinha controle, afinal a concorrência era grande. Também explicou que o lugar não servia apenas para calouros, partes dos blocos eram para veteranos que independente do período buscavam a chance de sair do aluguel.
Com a matrícula finalizada, William não ia largar seu sonho por isso. Ele saiu da universidade, buscou um mapa do lugar e parado em meio à multidão de pessoas que entravam e saiam, estudava a região.
— Ei, você, poderia me dar uma informação? — Ele pediu gentilmente para um garoto que estava entrando na universidade.
Foi ignorado.
William remexeu em sua mochila e buscou por alguns trocados espalhados. Depois arrastou sua mala e novamente pediu ajuda:
— Ei, não tem muito aqui, mas vocês poderiam...
O grupo a qual William pedia informação se dispersou e ele novamente ficou sem reação. Ninguém era gentil naquele lugar, nem por uns trocados. William avaliou sua roupa e constatou que nada estava fora do normal.
Os calouros cheiravam as próprias axilas achando que estavam fedendo. Isso até já foi tema em uma mesa de debates na universidade, um tema idiota, apenas pra descontrair. Faixas foram até feitas com o nome: “Abaixo as axilas”.
Era típico ser ignorado na entrada da universidade, com tamanha correria quase ninguém dava a devida atenção.
William atravessou a avenida e chegou até à lanchonete.
Foi quase impossível conseguir entrar e ter lugar vago. No meio do tumulto, uma garota caiu no chão e William se encarregou de ajudá-la, ainda assim recebeu insultos por atrapalhar a fila, mas ele ignorou tudo isso. Nem sequer recebeu agradecimento, a garota simplesmente continuou a andar. William somente abaixou a cabeça e buscou um lugar para ficar, teve que se sentar no balcão e recebeu insultos quando reclamavam das coisas que ele carregava.
— Ei, calouro! — Um jovem alto, provavelmente do mesmo tamanho que William, de cabelos bem encaracolados e escuros, os olhos eram azuis índigo. — Dia difícil, não? — Sorriu simpático e deu ao William o cardápio.
William o olhou enquanto ele já havia partido pra atender outra pessoa, mas rapidamente voltou sua atenção à ele.
— É melhor ser rápido na escolha antes que alguém comece a achar que você apenas ocupa lugar. — Apoiou seu cotovelo no balcão e enxugou com um lenço que estava preso a sua cintura.
— Eu quero esse da promoção. —Apontou, referindo-se ao hambúrguer, refrigerante e batata.
O garoto gritou do lugar que estava, fazendo o pedido. William ficou assustado.
— O que foi? — Sorriu mais uma vez.
— É tudo tão agitado aqui.
— A tendência é ficar pior.
O moreno se virou para buscar um pedido e entregar a garota que estava sentada ao lado de William.
— Já achou um lugar pra ficar? — Ele perguntou.
— Ainda não, fiquei sabendo hoje que...
— Que está na rua?! — Gargalhou.
William o encarou, não gostando do que ouviu.
— Olha, vou dar uma dica: Espera até tudo se acalmar e depois aparece na Quadra Nove. Se você tentar ir agora vai ouvir vários nãos e, provavelmente, vai odiar o lugar. Tem o refúgio dos universitários, as quitinetes douradas, não são lá essas coisas, são US$ 60.00 a diária! Um preço até salgado pra uma diária, mas com uns US$ 200.00 você sobrevive por uns três dias, depois tenta a sorte.
Quando William pensou em falar algo, o garoto novamente afastou-se e entregou cardápios as novas pessoas que se sentavam, voltando-se para William depois disso.
— Onde fica essa Quadra Nove? — Perguntou o loiro, ainda digerindo a informação.
Ele olhou para a janela, no outro lado da avenida.
— Vai com escudo a prova de balas. — Piscou, virou-se e rapidamente voltou com o pedido de William.
— Ei, eu vou comer aqui. — William o encarou, estranhando.
— Desculpa, bonitão, mas com essa movimentação toda vai ser impossível você continuar aqui dentro. É melhor ir logo para as quitinetes antes que lá também lote.
William se levantou com o seu pedido em mãos, segurou a sua mala e olhou para garoto já atendendo um novo cliente.
— Qual o seu nome? — Ele perguntou ao ver William se afastar.
— William. — Respondeu.
— Sou Mark, prazer! — E acenou, virando-se.
Willian, desconfortavelmente, saiu da lanchonete e ali se lembrou de que não pediu informações sobre o lugar sugerido por Mark, até o nome tinha esquecido. Quando olhou para trás, viu que seria um martírio tentar entrar no estabelecimento e por isso seguiu seu caminho até a entrada da universidade. Foi na própria secretaria que ele pediu informação sobre o lugar, lembrando-se apenas da palavra dourada, mas isso foi o suficiente para ele obter a resposta.
William chegou ao local e teve a sorte de ocupar uma das três últimas quitinetes oferecidas. Tendo que pagar dez dólares a mais, visto que o homem alegou querer lucrar com isso, assim... Na cara dura.
Tinha até esquecido de como era bom tomar banho e por isso passou horas no chuveiro e estava torcendo pra água de todo o local acabar, só assim traria prejuízo ao dono ganancioso. E se realmente faltasse água, William seria o primeiro a pedir reembolso com aumento.
Deitou-se na cama, apenas vestindo um calção em tecido fino, mesmo que de dia, estava cansado pela viagem. Estava até com preguiça de se desfazer de suas roupas na mala, visto que um pequeno armário encontrava-se ao lado do banheiro. Também acreditou que em breve teria que por tudo novamente na mala, então decidiu deixar onde estava.
William ficou mexendo em seu celular por algum tempo e decidiu ligar para o pai:
— Eu vou dormir na rua! — Dramatizou, como era de costume.
— Irei te buscar para irmos a um hotel.
— Estou brincando, pai. — Sorriu e ficou olhando pra sua mão. — Consegui um lugar por três dias, vai embora todo o dinheiro que você me deu. Mas até lá eu consigo um lugar fixo, uma república na verdade. Me falaram sobre uma Quadra Nove, devo conseguir algo lá.
— E a universidade não tem república? — Perguntou com a voz cansada.
— Acredita que as vagas se esgotaram? Eu quase quebrei a mesa daquele lugar...
— Bem que me avisaram...
— Te avisaram e você não me disse nada?
— Eu achei que você iria conseguir. Não vi problema nenhum.
— Eles dizem que já buscam por vagas nas repúblicas bem antes das aulas iniciarem, é ridículo. Ainda dizem que são poucas as vagas liberadas, apenas dos alunos formados.
— Se nada der certo, devo conseguir um hotel para você. Pelo menos por um mês, mas não é porque sou médico que vou conseguir arcar com isso.
— Estou falando que irei conseguir, pai. Não precisa se preocupar. Irei dividir aluguel com alguém. Sou bom em fazer novas amizades...
— Será?
— Eu acho que sim... — Não acreditou nas próprias palavras.
— De qualquer forma não quero que desista do seu sonho, daria algum jeito, é esse o meu papel, não é?
— Eu compreendo e por isso te amo. Agora antes que isso vire algo idiota, irei desligar e descansar um pouco. Hoje mesmo vou nessa Quadra Nove.
— Me ligue mais tarde. Até mais.
— Certo, até mais, pai. — Finalizou a ligação.
William jogou seu celular na cama e se levantou, pronto para comer do lanche que havia comprado. Já estava frio, mas ele se alimentou mesmo assim. Não era ruim, até se impressionou visto que as condições da lanchonete não pareciam as melhores.
O loiro acabou desistindo de voltar para Quadra Nove e preferiu realmente ouvir as palavras que Mark havia dito. Foram três dias de tédio e reclamações sobre a água quente do lugar, tendo horários determinados para isso. William quase desistiu de continuar nas quitinetes, mas como era a única opção que tinha, engoliu pedras e aceitou.
Nesses três dias, William voltou à universidade para conhecê-la. Não fez amizades com ninguém, senão com a secretária que no primeiro dia havia ouvido suas reclamações. Mas não era considerada amizade, apenas alguém para lhe passar informações. E William conseguia ser bem inconveniente enchendo a mulher de perguntas que por diversas vezes deu várias desculpas alegando estar ocupada; o que não era uma mentira.
A despesa foi além do que tinha planejado, não tinha contado com a alimentação. E William comia bastante, sendo assim optou por macarrão instantâneo no terceiro dia.
William saiu das quitinetes ainda resmungando com o dono do estabelecimento, novamente falando sobre a água fria. Diferente do primeiro dia que estava agradável.
Seu caminho foi direto até à Quadra Nove.
Ao por os pés no local, diante das repúblicas que ali se encontrava, William perguntou se realmente valia a pena. Ele imediatamente viu um grupo de garotos brigando e a covardia era tremenda, mas ainda assim o agredido permanecia de pé. A confusão só teve fim com a chegada de reforços.
William passou pelo círculo formado e dali buscou por ajuda.
Começou pelo final da Quadra, achando a área menos agitada, apesar das casas serem menores.
Ele bateu na menor delas, como algumas, ela não tinha primeiro andar e poucas janelas.
Ao ser atendido por um garoto rabugento e cheio de espinhas, William iniciou o diálogo:
— Por um acaso você...
— Não! — Interrompeu.
— Eu só...
— Não!
— Eu posso...
— Não! — Permaneceu interrompendo.
— Droga, deixa eu falar! — Quase atropelou as palavras.
— Não temos vagas. Ninguém vem aqui senão pra pedir isso. Sinto muito.
O garoto não teve educação alguma e fechou a porta na cara de William que pensou em derrubá-la. O loiro olhou para o céu, sentindo o sol fritando o seu cérebro. Repousou debaixo de uma árvore e em seguida foi à outra república, ainda do mesmo tamanho da que tentou por uma vaga. Eram vizinhas.
William bateu por diversas vezes a porta, mas não foi atendido. Dali foi diretamente a mais uma república, tendo que atravessar a rua. Era toda azul, com péssimos acabamentos.
— É vaga? — O garoto que o atendeu imediatamente perguntou.
— Sim! — Saiu como uma súplica.
— Demorou, garoto.
— Eu posso dormir no sofá! — Implorou.
— Não seria um problema, mas veja você — deu um passo, ficando ao lado de William, de frente para a república — um quarto, uma cozinha e uma sala. Apenas isso! Um quarto pra três garotos, na sala dormem dois. A cozinha é um nojo e ninguém se atreve a dormir nela. É horrível dormir no meio de roncos e peidos, você tem certeza de que quer isso? Essa merda de república é menor que o meu pau que nem é tão grande assim.
William fez uma cara de nojo. O garoto era bem mais baixo que ele e por isso teve que olhar para baixo e encará-lo.
— E então, vai encarar? — Ele perguntou.
William negou com a cabeça, luxuoso. O garoto somente sorriu, voltou para sua república e se despediu de William com um aceno de mão.
William coçou a cabeça e preocupado foi nas demais repúblicas, sempre sendo rejeitado ou não atendido.
Poucas foram as repúblicas que restavam para visitar.
William então foi na maior delas, pulando algumas.
Ele foi atendido por um ruivo, alto e com algumas tatuagens. Parecia exausto, provavelmente estava arrumando algum cômodo, devido à bagunça logo atrás dele.
— No que posso ajudar? — Perguntou o ruivo.
— Cara, me ajuda oferecendo uma vaga nessa república. — Suplicou.
— Eu não posso fazer isso pra você, esse lugar aqui tá cheio de pessoas. Consegui uma vaga tendo que praticamente chorar. Olha só, estou procurando encaixar minhas coisas em algum lugar. — Olhou para trás. — E ainda tem gente lá em cima já brigando por cama.
— Eu durmo na sala!
— O dono daqui não permite isso. Até eu usei disso quando pedi.
— Não tem como eu falar com ele?
— Ele vai estar aqui à noite. Posso tentar convencê-lo, bem... Você e mais três garotos que já apareceram aqui pedindo por uma vaga.
William, embora entristecido, gostou da forma que foi tratado pelo garoto. Ele não foi rude e agiu simpático.
— Volta aqui à noite, quem sabe alguém tenha desistido? E isso não é difícil... Lidar com pessoas é terrível. Ao mesmo tempo em que amei estar na universidade, odeio estar aqui. Eles não avisaram nada sobre as repúblicas...
— Finalmente alguém que pensa da mesma forma que eu. Enfim, obrigado de qualquer forma. Vou tentar nessa da frente. — William olhou para a faixada da república, branca com detalhes pretos.
— Ah, nem tenta... — O ruivo coçou a cabeça, pondo em seguida as mãos no bolso retirando de lá alguns pedaços de papeis. Ele jogou tudo na lixeira.
— Por que não?
— Eu tentei. Eles quem selecionam as pessoas, são uns bandos de mimados, ricos e idiotas. Quase caí no soco com um deles.
— Eu nunca pensei que fosse tão difícil achar uma república... — William já estava começando a ficar cansado. — Vou ouvir seu conselho e não ir lá, melhor evitar machucar alguém.
O ruivo sorriu ao perceber que William não se intimidava com nada e se considerava forte.
— Vou continuar a arrumação aqui, à noite você aparece. Meu nome é Sebastian, se não conseguir uma vaga em qualquer república, daremos um jeito.
— Me chamo William. Irei aparecer sim, não se esquece de convencer o dono desse lugar, por favor. — Estendeu a mão e foi retribuído. — Até a noite.
Sebastian e William foram apresentados de maneira amigável, mesmo sendo apenas dois desconhecidos.
William foi pra debaixo da árvore logo a frente da república. Descansou lá e até sentou-se no gramado. Ficou encarando a república que o ruivo tinha dito para não ir. Ela realmente era a mais bonita de todas as que visitou, com uma bela faixada, gramado bem verde e parecia ter sido pintada recentemente.
Abrindo mão dos pensamentos e descanso, William se levantou e foi para a república vizinha a que estava.
Era mediana, com um primeiro andar. Infelizmente a faixada também estava desgastada como as demais, mas ainda assim parecia ser um lugar seguro.
Ele bateu e esperou, quem abriu a porta foi um garoto da sua mesma altura, com cabelos caídos um pouco abaixo dos ombros. Ele usava um chapéu de cowboy e calças jeans, estando sem camisa e descalço.
— Se você me disser que está buscando por vagas, eu juro que quebro os seus dentes. Já é a décima primeira pessoa e eu estou farto disso.
William, assustado, não deixou de encará-lo.
— Vai mesmo tentar a sorte? — William foi ousado ao perguntar.
— Garoto desaforado! Você acha que eu tenho tempo pra ficar a cada dez minutos atendendo alguém?
— Custa ser educado?
— Olha, vai se foder. — O garoto fechou a porta de maneira rude.
William ficou boquiaberto com aquela situação. Foi tudo tão de repente. Tipo quando se toma um susto de uma caixa de surpresas. Foi algo que futuramente seria engraçado de lembrar, mas que agora o deixou irritado e desapontado com o lugar.
O loiro deu as costas para a república e saiu arrasado. Suas aulas iriam começar e ele não sabia como dar continuidade ao curso se nem mesmo tinha lugar para ficar hospedado. Mesmo o pai sendo médico, não poderia simplesmente comprar uma casa. Tinha que calcular tudo direito para assim decidir se permaneceria ou não no lugar.
William voltou para lanchonete, e diferente do primeiro dia, estava tranquila. Ele sentou-se no balcão de cabeça baixa e pediu por uma água, mesmo sem olhar quem o atendia.
Com o pedido em mãos, William foi agraciado com uma mão em seu ombro, fazendo massagem.
— Dia difícil? — Mark perguntou, sorridente.
William levantou a cabeça e Mark se afastou, voltando para trás do balcão. Ele apoiou-se com o cotovelo e ficou olhando para o loiro.
— Não consegui vaga em nenhuma república. Aquele lugar é um caos.
— Imaginei. Você tem cara de que jamais se adaptaria a um lugar daquele. Tem pele bonita e parece ser bem cuidado. Morar lá iria acabar contigo, além do fato de se tornar universitário. É como entrar numa batalha que durará anos, referente aos períodos do seu curso. Sou prova disso.
— Pelo menos tem um lugar para ficar. Aquele lugar lá que você indicou me leva ao prejuízo, o dono cobrou mais só por querer lucrar.
— Que mal tem nisso? Muitos ganham uma grana nessa época do ano. Cada um sobrevive da melhor maneira. Tipo eu, trabalhando nessa lanchonete pra arcar com as despesas.
— Você tá me dizendo que estuda aí? — Olhou para a universidade a frente.
— Eu e metade dos funcionários daqui. Sou bolsista, tenho que sobreviver de alguma forma. Não nasci em berço de ouro. — Mark até sentou-se.
William pareceu impressionado.
— O que foi?
— Deve ser uma correria a sua vida. Imagina só: estudar e trabalhar?
— E ainda dar conta de uma república com sete homens, todos barulhentos e encrenqueiros. A vida realmente não é fácil.
— Você tem sérios problemas e dar toda uma informação de vez. Primeiro me manda pra um lugar por três dias, não me falou que a água lá era quente por tempo limitado e o dono costuma ser desonesto. Manda-me ir pra Quadra Nove e não me fala da grosseria do pessoal de lá. E cá estou sabendo que você é universitário e mora nesse mesmo lugar que já odeio. — William bebeu da água e não olhou para Mark.
— Espera aí, loirão. — O chamou pelo nome engraçado e isso incomodou William — Apenas tentei ajudar. E também só estamos tendo tempo pra conversar agora. Poxa, te conheci quando? Ontem?!
— Tem três dias... — Corrigiu.
— Que seja. Até pensei que você nem mesmo ia aparecer mais aqui. Como disse, você tem cara de que não frequenta esse tipo de lugar.
— Não me confunda com um rico mimado, como aqueles da república lá.
— Os conheceu? Que ótimo! Também compartilho do mesmo ódio. — Sorriu e se levantou para pegar um pedido. Ele voltou rapidamente após anotar e entregar na cozinha — Eles são os que menos sofrem. Eu daria tudo pra levar a vida que eles levam, mas odiaria conviver com eles.
— Que merda eu vou fazer? É sério, preciso de um lugar pra ficar.
— Tem problema se não ficar em um lugar confortável?
— Nenhum! — Olhou para Mark com olhar pidão, entendendo a indagação do seu novo colega.
— E se dormir no sofá?
— Qualquer coisa, até no chão!
— Olha que é sério o que estou falando, hein. Depois não vá reclamar de dores nas costas, no corpo e etc...
— Eu juro!
— Tem a minha república, bem... A que sou líder. Não vai ser fácil pra você, ainda resta um sofá sobrando e eu estava guardando exclusivamente pra você, desde que o conheci. Mas até te dei uma chance de conseguir algo melhor. Uma cama, talvez.
William, mesmo feliz, desconfiou de algo. Ele encarou Mark causando desconforto no moreno.
— Por que está sendo tão gentil comigo?
— Não sei, pretendo descobrir. Talvez eu quisesse te comer. — Foi direto e enxugou o balcão.
— Só pode estar brincando... — William parou para enxergar um tom irônico no que tinha ouvido.
— É lógico! — Mark gargalhou. — Claro que não deixei um sofá guardado pra você. Só acabei percebendo que você é um cara legal e não acho justo te deixar na rua. — Acalmou-se. — Em duas horas eu saio daqui. Se eu fosse você ia correndo buscar suas coisas.
William levantou-se e ainda continuou a olhar para Mark.
— Eu só disse que era brincadeira o lance do sofá, quanto a querer te comer estou falando sério. Vai aguentar, loirão? — Mark, com um sorriso travesso, repousou seu queixo na mão enquanto o cotovelo estava apoiado no balcão. William ia abrir a boca e proferir insultos, mas foi interrompido. — Ei, calma, calma! Eu tô brincando! — Ele correu, dando a volta no balcão.
William e Mark nem sequer eram amigos, ainda conhecidos em menos de 24hrs. Por sorte a simpatia e descontração de Mark eram necessárias para conseguir vários amigos e com William não foi diferente. Mesmo estando desconfiado, o loiro aceitou a ajuda do colega. Depois disso William acreditou que há pessoas boas no mundo.
Ele voltou para as quitinetes e jogou tudo dentro de sua mala, aproveitou e tomou um novo banho. Percebendo que a água estava fria, William saiu do cômodo e deixou o chuveiro ligado. Uma atitude infantil? Sim! Mas ele pouco se importava, queria era dar prejuízo ao ganancioso dono do lugar.
William voltou para lanchonete e Mark ainda estava trabalhando, não querendo incomodá-lo, sentou-se no canto do estabelecimento e lá ficou esperando o tempo passar.
Com o passar das duas horas, Mark foi obrigado a ter que fazer hora extra devido à falta de um funcionário. Não tendo o direito de reclamar, pediu para que William esperasse um pouco mais.
William mexia em seu celular e olhava através das janelas a movimentação constante de carros na avenida. Viu quando uma garota entrou na lanchonete e conversou algo com Mark, rapidamente ela passou a caminhar em sua direção.
— É tão difícil, não? — Ela perguntou.
Loira, a garota tinha uma boa presença. Sentou-se ao lado de William e lhe estendeu a mão.
— Erica, prazer!
— William.
— Will! — Disse rapidamente.
— Como? — O loiro guardou o celular.
— William é muito formal. Melhor te chamar de Will, prático e rápido... Também íntimo. Não fique assustada comigo, é que eu não costumo fazer toda aquela apresentação. Mark mandou te fazer companhia.
William, retraído, nada disse.
— Então, William, qual curso você vai fazer?
— Medicina. — Foi ligeiro.
Erica o encarou, orgulhosa. Ela soltou um grito mudo e agitou as mãos.
— Companheiros de profissão! — Ela repousou a cabeça em seu ombro e o abraçou. — É tão difícil encontrar estudante de medicina na Quadra.
— Você por acaso...
— Sim! — Interrompeu. — Passaram-se dois anos desde que fui caloura como você. Acredite, você vai amar estudar aqui. Mesmo com todos esses problemas de hospedagem, vale a pena.
William ainda achava tudo uma loucura, uma garota que surge de repente o abraçava daquela forma e parecia ser uma amiga íntima. Não se esquecendo de Mark que também foi simpático com ele.
— Vocês costumam agir assim ou sinto que estão tramando pra mim?
— Assim como? — Ela perguntou, desfazendo-se do abraço.
William sempre foi desconfiado.
— Gentis e simpáticos... Desde o primeiro dia que coloquei os pés aqui fui tratado da pior maneira. Tantos me viraram a cara quando busquei por ajuda e, de repente, vocês dois estão sendo simpáticos.
— Está falando do Mark e eu?
— Tem mais alguém?
Erica não gostou de ouvir a última pergunta carregada de grosseria, por isso mandou um olhar de desaprovação.
— Na maioria das vezes, cada um somente se importa com sua sobrevivência. Imagine-se numa selva. — Ela então notou naquele momento a tatuagem de William, um leão em seu braço.
— Está me falando que é perigoso e que eu preciso estar atento?
— Exatamente. Da mesma forma que existem pessoas parceiras, amigas e educadas, vão existir o oposto disso. Uns servem de alimento para os mais fortes. Há briga constantemente e não é fácil sair confiando em alguém.
— Eu tinha uma imagem completamente diferente sobre a universidade.
— Acha que isso é como filme da Disney? Ninguém vai levantar, dar piruetas e cantar. Você precisa fazer o seu bando, leão. Aproximar-se das pessoas certas. É essa a desvantagem de morar na Quadra Nove.
William engoliu em seco e ficou olhando para Erica.
— O que vocês estão conversando? — Mark se aproximou, agora sem o fardamento ridículo da lanchonete, que consistia numa camisa amarela, calças jeans branca e sapato marrom.
— Sobre como é lindo morar na Quadra Nove. — Ela se levantou.
— Ela costuma assustar as pessoas, não liga William. — Mark disse, sorridente.
— Ué, claro que não assustei ninguém. — Sozinha, passou a caminhar.
— Quem não te conhece que te compre. — Juntou-se a ela numa caminhada, segurando a mala de William.
Assustado com a generosidade, William ficou parado por poucos segundos até notar que eles estavam se afastando e então andou.
Voltar para o lugar que foi tão mal recebido não trazia um sentimento bom, mas se Mark estava mostrando o contrário do que Erica tinha dito, William não hesitou.
Agora ele estava parado em frente à república que mais tinha detestado, principalmente por surgir um garoto querendo agredi-lo.
— É aqui? — William perguntou, sua expressão era de nojo.
— Não gostou? — Mark perguntou.
— Eu estive aqui mais cedo e...
Nesse mesmo momento a porta da república foi aberta por quem não deveria aparecer ali naquele lugar. William deu um passo para trás e Mark não entendeu o porquê daquela reação.
O garoto com jeito de cowboy e William ficaram trocando olhares carregados de ameaças.
— Que merda tá acontecendo aqui? — Mark perguntou enquanto Erica mexia nos fios encaracolados em sua cabeça.
— Eu vou ter que conviver com esse garoto? — William perguntou.
— Mais um? — O estranho havia perguntando para Mark. — Porra! O que foi que tínhamos combinado?
— Frank, é melhor ficar calmo. Já te falei os meus motivos. — Mark pediu, tocando o ombro do companheiro.
— Frank sempre foi tão chato. E olha que nem mesmo eu, quando estou naqueles dias, fico assim. É melhor eu voltar para a minha república.
Erica deu a volta nos garoto, tocou o queixo de William e sorriu.
— Você não mora aqui? — William perguntou.
— Já está sentindo a minha falta? — Ela parou. — Não se preocupe, verei você todos os dias. Serei sua guia. Mark irá te passar as informações necessárias para um primeiro dia. Eu darei as demais informações... As melhores! — Ela piscou e virou.
William viu quando Erica entrou na república que mais desejou participar, onde havia conhecido o ruivo chamado Sebastian.
Seus olhos voltaram para Mark e Frank que sussurravam. William fingiu tossir, mostrando-se incomodado com a conversa particular.
Depois ele viu quando Frank entrou na república e Mark continuou, sorridente.
— Sinto que não terei um bom convívio com ele. — Disse o loiro.
— Ninguém tem um bom convívio com Frank. Frank e eu somos irmãos, não parece né? Vai entender a genética.
— Eu também tenho um irmão... Queria não ter, mas tenho... — As palavras saíram como um sussurro ao abaixar a cabeça.
— Oi? Não ouvi direito, pode repetir?
— Esquece, eu não disse nada. — Ergueu a cabeça.
— Que seja, vamos entrar.
William obedeceu a ordem de Mark e entrou na república.
No momento que pôs os pés na sala, William sorriu para três garotos reunidos no sofá, um deles era Frank. Infelizmente seu sorriso não foi correspondido e ele desfez.
Frank ficou de pé e saiu, indo para a cozinha.
William avaliou o cômodo, não era um lugar apertado, mas nem tão espaçoso assim. Os sofás eram próximos da janela e a TV ficava ao lado da escada que levava ao primeiro andar, ainda desconhecido por William, como os demais cômodos.
— William, esses são Bill e Carl.
Bill era baixo, negro e de olhos verdes. Uma beleza que William conseguiu constatar naquele momento. Usava óculos e boné, suas roupas eram coloridas e cheias de estilos. Carl também era negro, os olhos eram castanhos e tinha lábios grossos. Ele usava calça de nylon e estava sem camisa, exibindo tatuagens estampadas em seu tórax.
Bill e Carl sorriram. William, ao deixar suas coisas na sala, rapidamente foi puxado por Mark.
Eles passaram por um curto corredor, conhecendo o banheiro e dois quartos. O corredor levava a cozinha, ela era extremamente rústica, a o piso escuro entrava em contraste com a madeira da parede.
Viu Frank sentado, alimentando-se. De pé estava um garoto de pele clara e cabelos castanhos, ele não tinha olhado para William dos pés a cabeça, como todos os outros, apenas sorriu e deu as costas, voltando a cozinhar.
— Dan fica responsável pela cozinha... — Então Mark aproximou-se do ouvido de William — Mas nem toda comida que ele faz é tão boa assim.
— Já disse que não sou cozinheiro, porra! — Dan resmungou. — Vocês comem porque querem.
— Mas eu não disse nada, estava apenas elogiando a sua comida. Mas não quis que ouvisse pra inflar seu ego. — Mentiu descaradamente.
Dan nem mesmo se virou, continuou fazendo o que William deduziu ser o almoço.
— E esse é o Frank... Meu irmão, você já o conhece. — Mark acenou, mas o irmão não o respondeu. William nem sequer o olhou.
Eles passaram por um novo corredor, ainda mais curto que o outro, dava passagem para o último quarto da casa.
Mark abriu a porta do quarto, mas não encontrou ninguém.
— Esse é o quarto de Frank. Ele dorme aqui com Dan e Bill. Como está vendo, é apertado. Isso porque são três nesse quarto.
Mark novamente puxou William, passaram por Dan e Frank e pararam no corredor.
— Nesse quarto aqui — Mark apontou para o quarto da esquerda — dormem Alex e Andrew. No outro — Apontou para o da direita — dormem Carl e Dave.
William ainda não tinha decorado todos os nomes. O mesmo aconteceria quando estivesse em sala de aula. Eram várias pessoas para conhecer. Só esperava que fosse diferente da república, na qual não se sentia bem vindo.
— Você escolhe em qual desses dois quartos pretende dormir. Mas não espere total mordomia.
— Acho que Alex e Andrew podem ser simpáticos... Carl pareceu não gostar muito de mim.
— Você tá tendo uma péssima impressão de todos aqui.
— É só que eles realmente fingem que não existo. Não que eu esperasse uma grande recepção, mas algo caloroso eu imaginei.
— Às vezes Erica tem razão quando diz que esse lugar é uma selva. Mas não se preocupe. Está vendo sua tatuagem de leão? Mostre que também há um leão dentro de você. No final, irá descobrir que são todos amigos. Leva tempo até se adaptar... Afinal, é difícil lidar com pessoas.
William concordou com a afirmação de Mark.
— Acho que vou escolher o quarto de Carl então, quem sabe assim consigo ser amigo dele.
— Seria uma pena se eu estivesse mentindo.
William o olhou, assustado e se sentindo um tolo.
— Vem, vamos comigo.
Mark dessa vez não puxou o loiro, permaneceu andando até buscar pela mala de William na sala e subir sozinho para o primeiro andar. William encontrou os dois garotos ainda conversando e subiu. Não tinha um corredor naquele lugar, apenas a porta de passagem para o quarto.
William sempre fazendo suas avaliações descobriu um novo banheiro e se deparou com enormes janelas, caminhando até elas.
O quarto era espaçoso, bem diferente dos outros da casa. Era limpo e cheiroso. Com uma única cama de casal, estantes e armários, além de alguns quadros.
— Enquanto todos dormem no apertado lá embaixo você fica aqui?
— É essa a vantagem de ser líder, William. Ter um quarto só pra você e...
— E porque me escolheu para dividir contigo? Eu sou o novato aqui. — William se virou enquanto Mark tirava a camisa.
Sim, William se sentiu atraído e tentado ao corpo de Mark.
— Porque você não agiu como um babaca e nem parece ser um. Acho que papai do céu me disse que um anjo iria aparecer nessa república, eu simplesmente pisquei e puft, lá estava você.
— É sério, Mark. Eu não tô achando isso legal. É muita gentileza.
Mark olhou para William e continuou sorrindo até então se jogar na cama.
— Tenho meus interesses.
— Isso me assusta.
Mark, ainda deitado na cama, pôs um travesseiro entre as pernas e repousou a cabeça em seus braços.
— Vamos às regras, certo?
— Me passe o máximo de informação possível.
— Que garoto prendado. — Brincou.
Mark novamente se remexeu na cama e William sentou-se ao seu lado.
— Há regra pra Quadra Nove e regra pra república.
— Imaginei.
— Pra Quadra Nove só há uma regra: Nada de polícia. Parece meio assustador, não é? Mas é realmente isso. Essa regra jamais deve ser quebrada. A Quadra nem sequer deveria existir justamente pelas confusões que existem aqui, mas tudo é abafado. Só em casos extremos que é necessário acionar a ajuda deles. Mas até agora ninguém foi assassinado... — Ele fez uma pausa e olhou para William que não se impressionou. — Droga, achei que você iria se levantar e correr.
— É bem difícil me colocar medo.
— Percebi. — Sorriu. — Continuando: Então, tudo aquilo que chame a atenção da polícia deve ser evitado, as drogas são proibidas por isso. Há universitários loucos aqui, sério. Daí se você usa, faça isso no sigilo, mas não exponha. É melhor não chamar a atenção da universidade.
— Então tudo o que eu preciso fazer é não me envolver com a polícia.
— Exatamente isso. Você pode até matar alguém, contato que esconda o corpo... Certo, essa é a única regra. Ah, ia esquecendo, há um líder que nos representa dentro da Quadra Nove, mas ele não faz muito. Então, considere isso nulo.
— E quanto à república? — William já se mostrou entendido.
— Aqui as coisas são diferentes, talvez piores... Ou não. Como já sabe, eu sou o líder. Parece até besteira, mas é necessário ter um líder na república. Caso contrário isso aqui seria pior do que já é. Eu decido quem sairá daqui, mas nunca quem entra. Claro que só em alguns casos, como o de agora onde eu noto que não causaria problema algum.
— Por que você não decide quem entra?
— William, você já se perguntou por que é tão difícil conseguir vaga na Quadra Nove?
— É difícil conseguir vaga em tudo.
— Existe uma regra em nossa república que está ligada a superlotação. Evitando com que isso aconteça, há um limite para membros. Antes era dez, logo foi reduzido para oito.
— Estou sendo o nono.
— Quebrei a regra e acho que é por isso que você não é tão bem vindo aqui. — Mark pareceu não transmitir confiança na afirmação.
— Levando em consideração que agora eles sabem que dormirei em seu quarto, isso só piora a situação. — Deu continuidade o loiro, evitando perguntar se era verdade ou não o que tinha ouvido.
— Não se preocupe com isso. Um deles era pra estar dormindo no sofá da sala, mas deram um jeito de fazer um quarto para três. E, além disso, não vejo problema em ter você dormindo aqui.
— Um líder quebrando uma regra não é legal... Eles vão começar a te desrespeitar.
— Se fizerem isso, aí sim eu mostro que não sou tão legal assim. A liderança, mesmo não parecendo tão necessária, ela realmente serve para esses fins. Por tudo em ordem. Ser líder não é apenas receber título, William. Como disse, eu não decido quem entra nesse lugar, só em casos especiais. — Mark fez uma pausa e respirou fundo — Deixa eu te explicar melhor: Todo ano alguém se forma e é impossível esse ciclo ser quebrado, como há durações de curso diferentes e desistências, uma, duas ou três pessoas saem da república.
— Todos vocês já estão aqui há bastante tempo?
— Eu só tenho até esse semestre. No próximo semestre mais três sairão. Alguns deles provavelmente irão desistir... É sempre assim. Mas deixa-me continuar falando, certo? Ok. São graças às desistências que eu tenho o direito de decidir colocar alguém aqui, mas as demais vagas elas geralmente são passadas para parentes e amigos dos formandos.
— Eu estou entendendo o que você tá falando. — Balançou a cabeça.
— No momento minha vaga está livre, ou seja, quem procurar por vagas pode consegui-las assim que eu sair. Mas Dan já garantiu que um primo dele terá a vaga dele aqui caso seja aprovado, chamado Leonard. Carl também disse que um primo chamado Rickson irá ocupar o seu lugar. Sim, eu tenho memória fotográfica e lembro até dos nomes desses garotos.
— Leonard e Rickson, bom saber desses nomes. Irei conhecê-los então.
— Gostou né? É bom ser assim, selecione as pessoas corretas, William.
— Entendeu agora porque é complicado conseguir vaga aqui? Às vezes um membro de uma república vai pra outra, mas é uma questão de troca. Mas ainda reforçando, o líder em casos especiais decide a entrada de um novo membro. Eu entrei nessa república graças ao antigo líder. O ajudei numa confusão e cá estou. — Sorriu.
— Troca de favores, no caso. — Disse, descontraindo.
— Mais ou menos isso. Ouvi casos de pessoas que transam por uma vaga ou até se tornam escravos sexuais.
— Certo, agora eu entendi mais ou menos como funciona isso aqui. Mas agora pode me falar das regras.
— São regras básicas para questão de convivência. A regra da alimentação é simples: Não coma a comida do outro. Quer ver os portões do inferno se abrir? Faça isso. Não sei se você notou, mas na cozinha tem alguns armários. Cada armário um nome. Nele você coloca o seu alimento, nós não temos cozinheiro, apenas o Dan. Por isso há um armário em especial onde cada um da uma quantia necessária. Aí quando ele resolve cozinhar algo ele tira de lá, daí comemos todos sem confusão alguma. Sobre ser líder... Sou eu o responsável pela grana e também pela feira da república.
— Eu me alimento como um leão, vai ser uma tarefa difícil...
— Logo você se acostuma. Até perdi uns quilinhos. Comida de universitário é macarrão instantâneo, abra os armários dos outros e tudo o que irá encontrar é isso.
— Quanto à limpeza?
— Cada um limpa aquilo que sujou. Você faz do seu quarto o que quiser, ele pode ser repleto de lixo, é seu quarto... Ninguém deve reclamar. Ou seja, você não tem prioridade sobre o quarto dos outros. Mas... — Mark esfregou as mãos — Eu tenho, por isso exijo a limpeza... Adoro ser líder! — Gargalhou — Espero que o próximo líder faça isso.
— Até eu sou a favor disso.
— Você também precisa saber que todo o problema que ocorrer aqui dentro deverá permanecer aqui. Eu, como líder, não admito que falem mal da minha república para os outros. É expulsão imediatamente.
Mark realmente pareceu grosseiro na informação. William nada disse.
— Pra finalizar, você só precisa saber que a república é alugada e todos nós damos certa quantia a cada final do mês. Isso é previsível, acredito que você já sabe.
— Melhor do que ficar pagando diária. — Ele levantou-se.
— E não é um preço absurdo. Eles deveriam te adorar porque sabem que o valor vai diminuir, afinal, tem mais um pra dividir.
Mark se levantou e foi para a janela, ele ficou olhando a movimentação por alguns segundos enquanto William ficou ao seu lado.
— As repúblicas tem nome? — Indagou.
— Não. São conhecidas pelo nome dos líderes.
Em um breve silêncio, Mark tocou o ombro do William, acariciando:
— Vista sua melhor armadura, meu caro. E seja bem vindo.
[...]
Estando há dois meses na república, William nunca se considerou bem vindo. Deu graças pelas exigências da universidade, fazendo com que ao final da aula ficasse na biblioteca e só voltasse para a república quando tivesse certeza de que iria dormir.
William sabia que se Mark não fosse líder sua presença ali não seria aceita. Certo que Dan era alguém que até conversava com ele, mas Dan tinha suas amizades e preferencias. Carl, por exemplo, sempre foi grosso com William. Frank era outro exemplo, esse sendo duas vezes mais rude que o primeiro citado. Dave era um membro ausente, mas que às vezes trocava palavras com William.
O loiro, agora, estava caminhando ao lado de Sebastian e Erica, as únicas pessoas com quem tinha um ótimo contato, infelizmente não eram da sua república.
— Não tem mesmo vaga na sua república, não é? — Perguntou o loiro ao ruivo.
— Cada república segue o mesmo padrão, Will. — Erica respondeu. — Mark te explicou como funciona.
— Eu já disse que durmo no sofá! Custa aceitarem? — Indagou mais uma vez, já irritadiço.
— Richard já deixa com que dois façam isso. Tudo isso porque dois só tem até esse mês pra continuarem lá. E Mark gosta pra caralho de você, não faz isso com ele. — Sebastian tomou a voz.
Richard era o líder da república que Sebastian e Erica faziam parte.
— Aproveitando que estamos aqui, preciso da ajuda de vocês. — Sebastian deu continuidade ao diálogo.
— Já até sei do que se trata.
— Do que? — William, desentendido perguntou.
Eles já tinham chegado à Quadra Nove, embora ainda estando alguns metros de suas repúblicas.
— Da Lydia, é claro! Não está sabendo? — Erica tocou a testa do loiro.
— Claro que não estou sabendo. Esqueceu que não estou na mesma república de vocês? — Ele respondeu, novamente tocando no assunto anterior.
— Lydia tomou a atitude de me beijar ontem à noite... Isso foi na frente de todos. Em dois meses eu já estou começando a ficar louco com essa garota. Devo prosseguir?
— Não sei... Desconfio. Três são os motivos: Você é ruivo! São raros os ruivos nesse lugar.
— Tem o Joshua. — William interrompeu.
— Eu não suporto esse cara, então não conta. O segundo motivo é: Você é citado em toda conversa de garota, tá popular, digamos assim. E o terceiro e último motivo está relacionado a ser referencia em liderança, tomando a confiança de todos na república.
— Ah, nem é pra tanto... — Sebastian coçou a cabeça, enrubescido.
— Enfim, é essa minha opinião. Apesar disso, eu gosto dela. — Finalizou a loira.
— Se você realmente pensa em ter um relacionamento sério, vai em frente. Já eu não tenho tanta sorte com isso.
— Você nunca nos falou dos seus interesses amorosos, Will. — Erica, parando agora estando em frente a sua república, quis dar inicio a outro assunto.
— Não é tão legal de falar sobre.
— Por quê? — Sebastian indagou.
— Outra hora nós conversamos. Vou ver se encontro Mark por aí.
— Está fugindo, não está? Não ache que vou desistir disso. — Ela sorriu e com Sebastian entraram na república.
William sorriu, mas não foi sincero. Ele deu as costas e caminhou até sua república. Somente notou ali que havia esquecido as chaves e a porta estava trancada. William bateu e olhou através da janela, ele viu que Frank e Alex estavam conversando, Bill estava vendo TV.
O loiro bateu mais algumas vezes e eles fingiam não ouvi-lo. Cansado e não querendo se humilhar, William sentou-se encostado a porta e ficou esperando alguém, gentilmente, abrir.
Era incrível como as pessoas nem sequer o conheciam e o tratavam daquela forma. Motivos não eram necessários para aquilo, afinal William era apenas um calouro lidando com um bando de veteranos egoístas que não aceitam o carinho que Mark demonstra ter por ele.
Enquanto sentado, ouviu gargalhadas vindas de lá de dentro. Até viu quando Frank pôs a cabeça na janela. Até se levantou achando que ele iria abrir a porta, mas Frank ignorou e voltou a se reunir com os amigos.
William estava sendo paciente. Afinal, não tinha muita moral ali dentro.
Ele viu o final da tarde transforma-se em noite.
— O que faz aí? — Mark perguntou ao aproximar-se da porta.
Saindo do trabalho mais cedo, Mark finalmente apareceu na república. Sua barba já estava grossa, deixando-o numa aparência muito mais adulta.
— Prefiro não brigar e muito menos te dar prejuízo quebrando essa porta. — O loiro levantou-se.
— É, realmente... Ia ser complicado ter que comprar uma nova porta. Mas o que houve?
Mark estava exausto. William até estranhou não encontrar o velho sorriso maroto que ele costumava soltar. Sua expressão nada era engraçada, seriedade tomava conta de seu olhar.
— Eu esqueci minhas chaves. Ninguém quis abrir a porta pra mim. Tem uns quarenta minutos que estou aqui esperando alguém. Mas não se preocupa com isso, você está aqui agora.
— Você está falando sério? — Perguntou dando alguns passos para ficar ao lado de William.
— Tente abrir a porta.
Confirmando o que o loiro havia dito, Mark procurou por suas chaves e a abriu.
Mark abriu a porta e dessa vez encontrou apenas Bill e Frank sentados jogando na TV da sala. Ele, estressado, simplesmente foi até a tomada e puxou os fios, parou em frente aos dois e tomou os controles, arremessando-os no chão sem qualquer remorso.
William assistiu toda a cena incrédulo ao fechar a porta.
— Quem comprou isso fui eu mesmo, então não tem problema algum em quebrá-lo, afinal, só joguei uma única vez. — Ele explicou, ainda olhando os outros dois.
— Qual o problema, Mark? — Bill perguntou, levantando-se.
— O problema?! Vocês se negaram a abrir a porta para o garoto.
— Ele não tem as chaves? Aqui não tem empregada de ninguém. — Frank olhou para William.
— Eu falei pra ele não se preocupar com isso, Frank. — Ainda tentou explicar o loiro.
— Sabe por que vocês o tratam assim? Inveja! E se eu quiser, cito o maior dos motivos: Ele dorme no meu quarto, come da minha comida e ainda é o meu protegido aqui.
William não gostou da última frase. Afinal, ele não se sentia alguém indefeso.
— Virou gay agora, Mark? — Frank perguntou. Seu comentário soou bem homofóbico.
Frank simplesmente foi recebido com um soco na cara a ponto de cair no chão. William correu para segurar Mark que iria continuar agredindo o irmão.
— Eu sou mais velho que você, mais forte que você e líder desse caralho aqui. Se você ousar me desrespeitar, não me importa se é meu irmão ou não, eu quebro os seus dentes e te expulso dessa república.
Frank, caído no sofá, ficou olhando para o irmão sem tomar qualquer reação. Depois disso, levantou-se com a mão no nariz e foi direto para o banheiro, Bill o seguiu rapidamente.
Mark ficou mais alguns segundos no lugar que estava. Depois subiu a escada e ainda sobre os degraus retirou sua camisa, abriu a porta do quarto e caiu na cama.
William fechou a porta e ficou ao lado dela, olhando para Mark que nervoso não parava de passar a mão nos fios negros.
— Amanhã irei me desculpar. — Falou o moreno.
— Se quiser, eu irei com você. Causei problemas na relação dos dois.
— A culpa não é sua, Will. Meu irmão extrapola os limites. E até sei o motivo.
— E qual seria? Eu só acho que eles não foram com a minha cara e ligando isso ao fato de eu estar acima do limite de membros.
— Essas regras de liderança também são um saco. Não ter direito de escolher quem entra é chata pra caralho. Caso contrário metade deles não estariam aqui.
William, de alguma forma, sentia que Mark não estava sendo sincero no que falava. Era estranho não ter o direito de escolher alguém.
— E porque você não muda essa regra?
— Esqueceu que a república é alugada? Eu só sirvo pra organizar as coisas aqui dentro. Meu título de líder às vezes não é bem compreendido. Você viu quando mesmo depois de avisar, eles continuam implicando com você. Se eu fosse de fato o dono disso aqui, aí é diferente. Como é o caso da república à frente, a liderança lá pertence aos familiares, então eles podem ser considerados donos da república.
Mark tinha um costume de ser bem contraditório. William até se sentiu confuso pelo que estava ouvindo, pois se lembrava de cada palavra da primeira conversa deles.
— Nunca vi o líder de lá, nem mesmo sei o nome. — Soltou o loiro, realmente dando atenção ao assunto.
— Steven, descendente de italianos metidos.
— Então sendo assim, por sua república ser alugada, eles podem dar a vaga deles pra quem quiser. Então por que você é líder, afinal? É realmente isso que não entendo. Não considero o problema da superlotação um problema pra me tratarem mal.
— Eu sei que você vai me xingar, porque eu sempre conto metade das informações... — Mark sentou-se na cama e coçou a cabeça.
— Era de se imaginar, estava na cara que você não tinha contado tudo. — William por pouco não revirou os olhos — Aproveite e me explique sobre o poder de expulsão que você tem.
— Certo. Droga, esqueci de beber água.
— Depois que me conta você vai.
— Meu irmão está na cozinha, não quero vê-lo por enquanto. Mas irei te explicar: A cada saída de um líder, um novo é escolhido. Como funciona essa escolha? Simplesmente o antigo líder decide quem será o novo. A votação não é aceita porque é algo que não desperta confiança. Enquanto líder você tem uma visão geral sobre todos os membros da república.
— Essa parte eu já imaginava que fosse dessa forma.
— Quando fui eleito líder, passei por um processo de adaptação. Cara, quem iria imaginar que logo eu seria líder? Então o dono da república, um velho feio e nojento, aparece aqui para pedir com que me obedecessem, já que estou representando-o. É ele a cabeça disso tudo. Resumindo: Antigo líder. Velhote. Euzinho!
— Por isso você cuida das despesas, não é? Sempre sai uma vez para encontrar esse velho.
— Sim. E é um saco ter que explicar que os cômodos estão intactos e bla-bla-bla. O desgraçado nem tinta quer comprar e também quer aumentar o aluguel.
— Concordo sobre a tinta. Tá precário a faixada desse lugar.
— Não precisa humilhar! — Ele olhou para William com olhos grandes. — Sobre eu ter o direito de expulsar, bem... É justo. Ou você acha que não? Preciso mesmo explicar?
— Desculpe... — Caminhou até a cama e sentou-se, também cansado.
— Não precisa se desculpar. Se eu não tenho o direito de escolher quem entra, devo escolher quem sai. Você foi a primeira pessoa que coloquei aqui dentro, como te falei, quebrando a regra. Aliás, o líder só realmente escolhe alguém quando há desistências. E bem... Não existiram desistências, mas aqui você está.
— Eu sei que faz sentido você não escolher quem entra. Não vou ser hipócrita, se eu tivesse um irmão... — Ele pausou e então se lembrou de Sean. — Ah, esquece. Por que você não falou do velhote desde o início?
Mark o olhou um tanto confuso, mas percebendo que William certamente mostrou desconforto, não indagou sobre o que ele iria falar.
— Não tem necessidade e aprendi com o antigo líder que não é bom falar sobre ele. Já houve caso de membros daqui que encontraram o número dele e fizeram várias reclamações. Imagina o resultado? Aí eu apenas digo que fui eleito pelo antigo líder. O velhote aparece uma vez a cada nova liderança para realmente mostrar quem é a autoridade.
William encerrou suas perguntas e retirou seus sapatos e meias. Ele deitou-se na cama e buscou pelo livro na mesa de cabeceira.
— Mas ser líder é tão cansativo, Will. — Mark deitou-se em seu estômago, para a surpresa do loiro. — Tem dias que eu quero simplesmente chegar aqui e descansar. Eu estudo, tiro horas pra trabalhar e ainda tenho que lidar com um bocado de marmanjos. Há tantas histórias pra te contar sobre quantas vezes salvei um deles da expulsão da universidade... Seja líder um dia e saiba tudo o que passo.
— É tipo uma casa... Se não o pai e mãe, nada estaria no lugar. Afinal, os filhos devem respeito aos seus pais. Mas Mark, você ainda não me contou porque eles me detestam tanto.
— Porque você é meu protegido, oras.
— Vai se foder. Eu não preciso da sua proteção, sei me virar.
— Quem era o loirão que dormiria embaixo da ponte, quem, quem?! — Mark deitou-se mais no corpo do loiro e levou a mão ao livro de William, derrubando-o de lado.
Emburrado, William revirou os olhos, mas continuou em seu lugar. Mark sorriu e não percebendo, fez cocegas no estômago de William. O loiro contraiu-se um pouco, mas nada disse. Apanhou seu livro e finalmente iniciou a leitura.
[...]
Em seu quinto mês, William já estava, de fato, adaptado a rotina e situações dentro da Quadra Nove. Presenciou diversas confusões e até participou de alguns jogos em nome da sua república. Sua situação com Frank não tinha melhorado, mas suas discussões eram menos recorrentes. Bill, pelo contrário, adotou uma postura ridícula diante o loiro. Alex, Carl e Dave só falavam o necessário com William.
William só continuava no lugar por causa de Mark. Sim, eles já eram amigos. Grandes amigos, com histórias do passado sendo reveladas. Mark não perdeu o poder que tinha na república, era sim um líder presente, ainda servia como conselheiro e escudeiro. Ele entrou em confusão com um membro da república vizinha em defesa de Frank. Ah, Frank era realmente um problema para a república. Ele era causador de várias e várias brigas da qual Mark participava sempre.
William, Erica, Sebastian e Mark estavam em uma mesa reservada no refeitório da universidade. Eles acabaram se encontrando por acaso.
No meio da conversa, Lydia apareceu e sentou-se ao lado do ruivo, beijando-o.
— O que?! — Mark arregalou os olhos.
Lydia sorriu e Sebastian também.
— Desde quando? — Erica perguntou, também surpresa.
— Desde ontem. — Sebastian estufou o peito.
— Estão namorando? — William indagou.
— Se não fosse eu, não estaríamos. — Lydia cruzou as pernas e apoiou o cotovelo à mesa.
— Pelo visto tem casal novo na área e o Mark aqui solteirão. Vamos namorar, Erica.
— Por favor, Mark, não me faça...
— Eita, garota, não maltrata esse pobre coração. — Ele a interrompeu.
Todos começaram a gargalhar do que Mark tinha dito, principalmente Erica que já estava esperando essa resposta.
— Pronto, Lydia e eu, Mark e Erica... Só sobrou o Will. — O ruivo, carismático, provocou o loiro.
— É mesmo William, não há nenhuma garota da nossa república que te despertou interesse? — Erica perguntou com as duas mãos no queixo, sorrindo.
William travou. Até estava sendo difícil de respirar. Ele olhou para todos como se estivessem o acusando de algo e por isso ficou sem resposta por quase um minuto. Então abaixou a cabeça, apoiou os braços na mesa e disse:
— Qual a possibilidade de vocês pararem de falar comigo se eu falar que sou gay?
Era a primeira vez que ele finalmente assumia para alguém ali. O primeiro, a saber, foi o pai, isso se tirarmos a sua história com Octavio, por quem nutre uma grande paixão e se descobriram juntos.
William nem mesmo se atreveu a levantar sua cabeça e esperou, de verdade, ouvir alguns insultos ou piadas da sociedade homofóbica em que se encontrava.
— Então corrigindo o que a Erica disse: Não há nenhum garoto da república dela que tenha te despertado interesse? — Mark, tentando deixar William confortável, indagou.
Mas ele só piorou as coisas quando derrubou a armadura poderosa que William carregava. O loiro ficou constrangido e surpreso por ninguém o ofender.
— Meu irmão mais novo é gay e eu o amo mais do que qualquer coisa. Acha mesmo que esse seria um problema em nossa amizade? — Sebastian também o acolheu com palavras.
— Adoro gays! Gays são fabulosos! — Erica descontraiu mais ainda, porém estava sendo sincera. Ela adorava ter amigos gays.
— William, ninguém aqui vai te virar as costas por causa da sua sexualidade. — Lydia tocou o seu queixo e o fez levantar a cabeça.
William ainda não conseguiu falar nada, mas sorriu constrangido.
— Viva os gays! — Erica aplaudiu, brincando.
William olhou para a loira e sorriu mais uma vez. Um sorriso grande e bonito.
Eles prosseguiram com a conversa e por alguns minutos focaram na sexualidade de William, onde o loiro revelou sobre algumas coisas do passado e citou o nome de Octavio. Erica foi a quem mais se interessou pelo assunto e quem mais fez perguntas.
A conversa fluía até Mark parar de falar de repente quando viu o irmão, um pouco mais a frente, receber um soco e cair no chão, em seguida sendo encurralado por mais dois garotos. Porém, a surpresa maior veio ao perceber que William levantou-se primeiro.
William poderia não ter a melhor relação com Frank, mas algo acontecia quando mexiam com os membros da república que fazia parte.
Ele sem avisar e sorrateiramente tocou no ombro de um dos garotos que encurralavam Frank, ao olhar para trás, recebeu dois socos fortes o suficientes para deixá-lo no chão sem entender o que havia acontecido. Quando os outros dois pensaram em atacar William, o loiro despertou, como se dentro dele um leão habitasse e rugisse.
William girou ao desviar de um soco, segurou a mão do adversário e a levou até as costas do mesmo, segurando-o pelo pescoço. O outro, que tinha pensado em atacar William, parou. Will empurrou o corpo que segurava e o chutou, fazendo-o cair sobre o outro.
Quando pensou em socar os dois que estavam caídos, foi impedido.
— Não suje suas mãos com sangue. — Mark disse, encarando-o. — Você já fez o suficiente.
Todos ao redor olhavam para William que sozinho venceu três garotos. Frank estava sentado, enxugando o nariz que havia sangrado. Ele estava incrédulo.
— Estava demorando muito para você se meter em uma confusão, Frank. — Mark disse, olhando para o irmão. Ele estendeu a mão. — Da próxima vez ficará sem nariz.
— Eu não sabia que seriam três contra um. — Frank ainda com o nariz sangrando, tentava falar e sentiu também o gosto de sangue.
— E mesmo sendo três contra um, ele sozinho os derrubou.
— Eu faria o mesmo se não fosse pego desprevenido.
— Ah, cala a boca. — Mark virou o rosto.
William já estava se afastando quando encontrou por ali o ruivo tatuado já conhecido: Joshua. O ruivo tinha um olhar superior ao dele, mas William não mostrou-se intimidado. Joshua já tinha ganhado notoriedade e William sabia disso, mas ambos nunca trocaram uma palavra.
— Para onde está indo? — Mark perguntou ao acompanhá-lo.
Sebastian, Erica e Lydia também estavam acompanhando-o. Mas eles não conseguiram falar nada. Foi total surpresa ver William reagindo daquela forma.
— Depois de hoje, tenho certeza de que William vai se igualar ao Sebastian. Se William quis provar a masculinidade... Provou de colher cheia. — Erica comentou.
— Três calouros que já estão sendo destaques: William, Sebastian e Lydia. Pessoal, me passem a receita. — Mark pediu, parando em frente a eles.
Sebastian era realmente irresistível, mesmo sendo calouro, a sua beleza chamou a atenção de toda a Quadra, incluindo também a universidade em geral. Até em redes sociais já havia saído: O gato ruivo de Seattle. Não foi preciso se meter em confusão para isso.
Lydia era vista como uma das garotas mais cobiçadas do lugar. Mas sua fama foi recebida pelo fato de rejeitar todo o garoto que tentava algo com ela. Até foi criticada por já ter sido vista beijando Sebastian em alguma festa e só acharam que eles se beijaram pela popularidade do ruivo. Outro motivo para ser assunto entre grupos de fofoca deu-se quando Lydia desbancou e enfrentou a namorada de Steven, líder da república dos ricos.
E William, depois de hoje, certamente era destaque.
Ainda comentando sobre a briga do refeitório, eles chegaram até a Quadra Nove. Eles se reuniram abaixo da árvore da república de Sebastian, Lydia e Erica.
— Mark.
O moreno ouviu a voz de Alex o chamar e por isso se virou.
Ele então notou que Alex não estava sozinho, mas acompanhado de um garoto que nunca tinha visto. Embora já estivesse deduzindo o que acontecia.
— Eu quero que conheça o Colton.
Colton aproximou-se sozinho e estendeu a mão para Mark, sendo correspondido.
— Olá. — Foi só o que disse para todos em seu melhor sorriso.
Mas Mark ainda estava confuso e por isso olhou para Alex procurando por alguma explicação. Afinal, Alex não tinha mencionado substituições.
— Eu queria pedir permissão para Colton ficar na república, dividindo quarto comigo. Andrew foi embora da república.
Mark quase engasgou quando ia contestar o que ouviu. William também ficou surpreso.
— Como assim? Eu o vi hoje de manhã.
— Foi logo após você ir pra aula. Ele não quis que ninguém soubesse. Estava ferrado na universidade e preferiu não continuar.
— Mas por que ele não me procurou? Todos já sabem disso?
— Ah, Mark, aí é problema seu com ele. Sim, todos já sabem, Frank até saiu pra te avisar.
Mark ainda tentava digerir a informação recebida. Mesmo as desistências sendo algo comum, eram difíceis de aceitar rapidamente.
— Estão todos cientes da entrada de um novo membro? Não tem ninguém na espera?
— Já apresentei Colton a todos, só falta você.
William olhou para Mark. “Como assim todos tem que está ciente? E eu?” Perguntou-se o loiro.
— Certo, se não tem nenhum problema... — Mark olhou para Colton — Vista a sua melhor armadura e viva.
Colton sorriu em resposta.
— Armadura platinada. Impenetrável! — Disse o novato.
— Gostei da resposta. — Mark piscou.
— Seja bem vindo, Colton. — William disse.
Colton retribuiu as boas vindas com um sorriso.
— Preciso apresentar a república ou você também já fez isso? — Mark perguntou para Alex.
— Enquanto você está fora, eu costumo fazer tantas coisas... — Maliciou.
Mark fez a sua melhor cara de garoto safado e sorriu. William achou aquilo bem idiota e por isso olhou para Erica, Lydia e Sebastian, ambos querendo gargalhar alto.
— Então pode se acomodar, Colton. Depois te passo as regras e as informações de sobrevivência nesse inferno chamado Quadra Nove.
— Não precisa, meu irmão estudou aqui. Tenho conhecimento.
Colton deu as costas e com Alex foram até a república. Mark nem conseguiu responder e ficou surpreso mais uma vez com a resposta de Colton, porém, de um jeito estranho.
Mark se virou para os amigos que estavam em silêncio, olhou para trás mais uma vez e desabou:
— Ufa! — Respirou fundo. Tão fundo a ponto de dramatizar.
— O que? — Sebastian e Lydia perguntaram ao mesmo tempo, e eles trocaram olhares, foi algo romântico.
— Estava cansado de fingir que gostei disso.
— Espera, você não gostou?! — Erica perguntou, boquiaberta.
— Não...
— Ele não me pareceu confiável. — William admitiu.
Mark olhou para William e ficou admirado com o que tinha ouvido.
— Penso da mesma forma, Will. — Mark tocou em seu ombro, envolvendo-o numa espécie de abraço.
— Gente... Pois eu o achei simpático demais. — Erica, relaxadamente, proferiu.
— Também não vi nada demais no garoto. — O ruivo comentou.
— Não sei... Todo mundo aqui surpreende de alguma forma. — Dessa vez a morena falou.
Foi exatamente um minuto de silêncio até que iniciaram um novo assunto. No decorrer de meia hora, eles resolveram ir cada um para sua república.
William preferiu ir diretamente para o quarto enquanto Mark foi falar com o novato. Aproveitou também e ligou para Andrew, buscando por notícias do garoto que nem sequer se despediu dele.
Mais tarde, subiu para o quarto e encontrou William sentado à cama, enxugando os cabelos molhados devido ao banho recente.
— Sabe, eu deveria fazer o mesmo que você. — Iniciou o moreno, aproximando-se da porta do banheiro.
Mark se virou, retirou sua camisa, sapatos, calça e cueca na frente de William, depois puxou a toalha das mãos do loiro, sem sequer pedir permissão e entrou no banheiro.
Saiu poucos minutos depois, nu e com a toalha em seu ombro, buscando por uma roupa, mas acabou optando por apenas ficar de cueca. Caminhou até a janela e por ali ficou enxugando o cabelo.
William assistiu tudo aquilo um pouco nervoso. Era algo carnal e a excitação há alguns dias estava tomando conta de seu corpo. Afinal, há quanto tempo não tinha beijado ou transado com alguém? Meses antes de chegar à Quadra.
— O que foi? Tá ficando de pau duro só porque me viu nu? — Mark perguntou, sorridente.
Ele havia terminado de enxugar os cabelos e devolveu a toalha ao banheiro.
William, embora sem graça, interpretou aquilo como uma ofensa:
— Isso é uma piada homofóbica por que me assumi hoje?
— O que?! — Mark indagou de supetão. — Claro que não. — Ele passou a caminhar até a cama e sentar-se ao lado de William.
— Melhor assim...
Mark somente ajoelhou-se, ainda na cama, em frente ao loiro, sentando-se em seus próprios pés.
— Realmente, melhor assim... Isso somente serviu para que eu tomasse atitude de fazer algo com você.
Mark tocou o tórax do loiro e o empurrou sobre a cama, montando sobre ele.
— M-mark...
— O que? Não estou fazendo nada contra a sua vontade, apenas sinto sua excitação roçar a minha.
— Você é hétero.
— Quem te disse isso?
— Você e Erica se pegam...
— Mas nós nunca namoramos, nem mesmo assumimos algo.
— Isso só pode ser uma brincadeira sua. — Disse o loiro, virando o rosto, evitando contato visual.
— Sabe, há quanto tempo eu sonho em transar com você. Desde que eu te vi entrando naquela lanchonete, loirão! — Sorriu maliciosamente. — E hoje, depois do que ouvi sobre você... Tá na hora, não acha?
— Assim, de repente, você simplesmente monta em cima de mim e quer transar? Sou adepto ao romantismo.
— Não seja por isso...
Mark saltou da cama e buscou por uma rosa falsa que tinha como decoração em um pequeno vaso no quarto. Ele voltou e entregou ao William, que sorriu aceitando-a, mas lançando-a longe logo em seguida.
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— Ué, você gosta de garotos românticos.
— Eu não penso em ter algo sério com você.
— Também nunca quis isso. Não nasci pra esse tipo de coisa, mas apenas vivo de momentos. Esse é um momento que não dá pra desperdiçar.
Mark voltou a se deitar na cama, dessa vez não sobre o loiro, mas sim ao seu lado, tocando o seu queixo e depositando ali breves carícias.
— Eu tenho alguém... Quer dizer, não tenho. Mas gosto de alguém e não sei se é certo fazer isso.
Mark ouviu atenciosamente o que William estava falando.
— Você ainda gosta do tal Octavio, não é Will?
— Não. O meu ex-namorado não larga do pé do meu irmão e por isso brigamos com frequência. No fundo, acredito que escolhi esse lugar apenas pra fugir dele.
— Hm, quer dizer então que seu coração tem dono?
— Não exatamente.— Entrou em contradição — É complicado de explicar. E você?
— Não. Nunca consegui durar com alguém, por isso Erica e eu só trocamos alguns beijos por aí.
— Você é gay?
— Ah, isso? Sei lá! Gosto daquilo que me interessa. Se isso for ser bissexual, eu sou. Sou até pansexual. Vai saber... — Brincou.
William virou-se, ainda deitado, para ficar de frente ao Mark. Estando ambos na mesma posição, um de frente para o outro, eles ficaram naquele misto de sentimentos, embora não passasse de amizade.
Mark sorria, William retribuía.
— Vamos ficar aqui mesmo? Não rola nem sequer uma chupadinha? — Ele piscou.
— Há tanto tempo eu não transo com alguém por conta daquele babaca. — Revelou o loiro.
— Olha só... Você ganhou um bilhete premiado e está escrito: Transe com o Mark!
William sorriu a ponto de se contrair na cama.
— Eu não sou passivo, Mark. — Disse, ainda com falta de ar por rir bastante.
— Ok, sem problema!
Mark já havia perdido tempo demais naquele diálogo. Para ele pouco se importava se William gostava de outro ou não. Tudo o que queria era rolar naquela cama tendo aquele loiro por algumas horas. Por isso teve a inciativa de beijá-lo.
William foi pego de surpresa e sem poder falar algo, sentiu a língua de Mark invadir a sua boca e insistir para que fosse correspondido.
Mas de algo William tinha certeza. Lugar novo, vida nova. Talvez transar casualmente não fosse um problema naquele instante. Sendo assim, retribuiu o beijo.
Mark domou William de uma forma impressionante. Primeiro o levantou da cama, depois o fez sentar-se entre suas pernas, logo tomou o seu pescoço e ali pôs o pênis do loiro para fora, numa deliciosa masturbação.
Dali em diante, Mark e William transaram não apenas por uma hora. Sim por horas. Isso gerou suspeita nos garotos que bateram na porta do quarto e chamaram por Mark, mas eles não se importaram. A desculpa seria de que haviam dormido.
Também não se importaram com as cortinas abertas. Eles apenas aproveitaram aquele momento íntimo pela primeira vez
[...]
Final do primeiro período.
O dia parecia estar perfeito... Lá fora. William estava enfurnado no quarto, deitado e enfiado aos livros. Não era de se estranhar encontrá-lo daquela maneira. Sempre procurando ficar antenado em toda informação. Afinal, era seu futuro naquele lugar.
Pausando, William remexeu-se na cama e levantou-se, foi até à cozinha. No caminho viu o pessoal todo reunido na sala, jogando conversa fora. Encontrou Mark, sozinho, já na cozinha. Ele estava pensativo. Uma xícara de café quente estava logo a sua frente, acompanhada de algumas bolachas.
Não pronunciando uma palavra, abriu a geladeira e optou por refrigerante. Ele sentou-se no balcão, tendo visão ampla de Mark, que nem sequer moveu-se em sua chegada.
— Mark? — William o chamou.
O moreno o olhou.
— Tá tudo bem?
— Em três dias estarei longe daqui... Estou pensando em tudo o que me aconteceu desde que cheguei a esse lugar.
William não gostava de saber disso, muito menos dos dias que pareciam se passar cada vez mais rápidos.
— Sabe, eu realmente vou sentir saudades. Irei voltar pra minha cidade. Já fui chamado para trabalhar, Will. Todo o esforço valeu a pena. Lidei com tanta coisa nessa república que me sinto uma carpideira... Só que sem pagamento. — Não deixou de fazer uma piada.
— Se ficar pensando nessas coisas vai realmente chorar. Eu já estou triste só de seguir sem você.
— Sério?! — Os olhos de Mark brilharam.
— Claro, idiota, você é meu único amigo aqui dentro. Veja só o Colton... Em pouco tempo conquistou o que em seis meses eu não consegui. E mesmo assim... Não consigo sentir empatia por ele.
— Mas você é melhor do que ele. E olha só... Você me comeu, ele não. — Não perdeu a oportunidade de fazer uma piada.
William estava bebendo do refrigerante e quase engasgou ao ouvir aquilo. Porém, acabou ficando sem graça. Mark não tinha pudor algum, ele apenas mandava na lata. Lembrar-se daquele dia foi legal, apesar de tudo. Sexo sem compromisso, intimidade entre amigos.
Em silêncio, ambos permaneceram por algum tempo. Mark finalmente comeu das bolachas e bebeu do café, até iniciar um novo diálogo:
— Enrico Ferazza era um universitário, futuro médico. Segundo as boas línguas, era um descendente de italianos que deixava qualquer marmanjo no chinelo pela beleza e riqueza. Não foi atoa que se juntou a mais oito amigos, todos bonitos e desejáveis para que morassem consigo na casa que tinha aqui. Então, nasceu “Os Nove”. Em qualquer festa eles tinham que estar presentes, mesmo que não todos. Mais tarde o lugar foi chamado de “Casa dos noves”. Com festas luxuosas, sempre acabando sendo finalizada com a chegada de polícia por conta da reclamação dos vizinhos. Mais tarde, percebendo que não tinha jeito, a casa logo à frente, a maior delas, procurando investir, colocou uma placa avisando sobre alugueis de quartos. E como era de se esperar, rapidamente encheu, surgiu então uma república. Dos nove amigos, dois deles acabaram em uma enorme confusão por conta de popularidade, algo bem fútil. Com a saída de Gregory Reymond da Casa dos Nove, ele resolveu se juntar a outros amigos e alugar a república próxima. Eram as três maiores casas daquele lugar, com mais quarto e espaço para reunir se possíveis dez ou mais universitários.
Mark se levantou e foi atéo balcão de frente para o loiro. William era bom em compreender todos os detalhes e palavras, juntando todas as peças imediatamente. Mark então continuou:
— Gregory apelidou sua casa como “República de Gregory”. Mas o lugar onde estava sempre ficou conhecido como “Casa dos Noves”. Era esse o ponto de referência. Mais tarde, todas as três casas foram chamadas de repúblicas, existindo sempre uma rivalidade entre Gregory e Enrico. Eles costumavam disputar sobre as melhores festas que cada república proporcionava. “Vai pra uma festa? Onde? Lá nos nove?” — Mark criou um próprio diálogo — Por isso, casas e mais casas entraram no negócio de colocá-las a venda, mas o aluguel sempre foi a preferencia. O lugar recebeu então o nome de “Quadra dos Nove” e atualmente “Quadra Nove”. — Mark então fez uma pausa, olhou para o corredor e voltou seus olhos aos do loiro — Não foi por causa de nove repúblicas, como muitos imaginam, foi apenas por causa de nove garotos gostosos que esse lugar recebeu o nome de Quadra Nove. — Ele sorriu, considerando o nome do lugar uma babaquice.
No final, Mark esperou ouvir algo de William que ficou calado por um bom tempo. Mesmo tendo prestado atenção em tudo o que ouvia, o sobrenome Ferazza foi o que mais chamou a atenção em toda a história.
— Por que está me contando isso? — O loiro perguntou, olhando bem em seus olhos.
— É o que todo o líder precisa saber. — Disse distraído brincando com as bolachas que tinha em mão.
— Mas eu não...
— Sabe, Will, eu menti pra você. — O interrompeu.
William então sentiu o coração parar no tempo, assim como o seu corpo. Detestava mentiras acima de qualquer coisa.
— Desde o princípio eu sabia o que queria no momento em que o vi naquela lanchonete, a maneira como você agiu ao ajudar aquela garota sem receber nada em troca. Gestos como esses são raros aqui. Cada um pensa somente em si e tudo só é valido se tiver algo em troca. Quando sugeri as Quitinetes Douradas pra você, literalmente usei desse tempo para pensar. Há dias a minha república estava caindo em ruínas... Eu não confio em nenhum deles, nem mesmo em meu irmão. — Admitiu — Eles sabem disso. Já cheguei a dizer diversas vezes sempre que entravamos em conflitos. Mas um dia eu disse que até o final da minha liderança nenhum deles seriam líder... Porque eu já tinha encontrado.
— Está me dizendo que...
— Sim, William. Eu quero que você continue dando sequência a liderança na república. Foi um ato arriscado, mas que por sinal valeu a pena. Eu simplesmente olhei para você e te vi como líder. Até porque você exala isso. Você dá a sua cara para receber um tapa se necessário for para ajudar alguém. Eu só menti por necessidade. Eu quis testá-lo aqui dentro, saber das suas reações. Nunca existiu limite de membros aqui. A república é como coração de mãe, sempre cabe mais um. O motivo deles realmente não gostarem de você é porque já anunciei sua liderança antes mesmo de você se tornar membro. Sabe por que William? Você é bom.
— Mas, Mark... E-eu...
— Por favor, William... — O interrompia sempre — Eu não quero deixar essa república nas mãos de pessoas que não confio. Eu sei que ela irá afundar. Eles não se importam com nada senão com eles próprios.
— Mark eles me detestam e por isso mesmo eu não vou conseguir liderar. — Ainda nervoso, o loiro gaguejava.
— Mude essa história. Mostre quem é que manda. Olhe a tatuagem em seu braço, Will.
— O que tem ela? — Observou o braço.
— Faça com que todos se prostrem diante do seu rugido. Já leu Game Of Thrones? Tem uma frase que diz: Ouça-me rugir.
William não deixou de olhar para Mark um só segundo. O moreno parecia clamar por uma resposta positiva. Mark foi sincero em tudo o que disse.
— Mark, estão te chamando! — Alguém gritou da sala.
— Ele chegou. — Retirou as mãos do balcão.
— Quem?
— Aquele que vai entregar a sua coroa.
Mark deu as costas e passou pelo corredor.
— Mark, espera! — Chamou o loiro, seguindo-o.
Quando William chegou na sala, todos já estavam em silêncio.
Um homem, de barba já branca e robusta estava de pé, próximo da porta. Suas roupas pretas estavam amassadas.
— E então? — Indagou o homem, rápido e objetivo. Ele parecia não querer perder tempo ali dentro.
— Eu sei que todos vocês já sabiam quem seria a minha escolha para a liderança dessa república. Mesmo com a maioria tentando me convencer a escolher Colton como líder, pela rápida simpatia, eu não mudei de ideia em todo esse tempo.
Todos já estavam olhando para o William. Mark continuou:
— Eu renuncio do meu cargo de líder e o entrego para William. — Também foi objetivo.
Mark abaixou sua cabeça, ainda na esperança de William ficar em silêncio ou disser que sim. Ele tinha medo de William negar a oferta.
— Quem é William? É você? — O senhor perguntou para o loiro. William confirmou balançando a cabeça. — Estão vendo ele, não estão? Qualquer um deve obedecê-lo.
Dito isso, o velho estendeu a mão para Mark, recebendo certa quantia de dinheiro em um envelope e partiu.
Foi tudo tão rápido que eles ainda estavam tentando analisar toda a situação. William olhava para todos da mesma forma que era observado.
— Parabéns, William! — Colton, sorridente, foi cumprimentá-lo.
Ser líder de uma república às vezes soava como um cargo idiota, mas naquelas circunstâncias era algo a se conquistar. Afinal, você iria impor regras e mandar em quem quisesse.
William somente subiu as escadas após aceitas as congratulações de Colton, Mark foi logo atrás dele. O encontrou de pé em frente à janela.
— O que é ser líder, Mark? — Perguntou assim que ouviu a porta ser aberta.
Mark entrou e ficou em silêncio por um tempo, observando William que estava de costas.
— Ser líder é ser tanta coisa... Basta jogar na internet. Mas ser líder de uma república, William, acima de tudo: É saber falar, ouvir e perdoar. Tudo depende do seu perdão, Will. Se você não perdoa, jamais será perdoado. Se você fala o que não deve, colocará tudo ao chão. Se você não aceita ouvir ou simplesmente não costuma compreender os dois lados... Vai criar conflitos.
— Você fez tudo isso aqui, mas eu também aprendi com você que ser líder é ser amigo.
— Mas nem sempre todos querem sua amizade. — Mark sorriu, fraco.
— De qualquer forma, você foi meu amigo. E então eu serei amigo de todos lá embaixo.
— Quer dizer que você aceita?
— Não posso dar parar de dar continuidade ao reinado que você construiu.
Mark foi até William, virou as costas e pediu para que William levantasse um pouco a sua camisa. Quando fez isso, William sentiu o que era admiração de verdade: Um pequeno leão foi tatuado nas costas de Mark.
— Não mais República de Gregory ou República de Mark... Batize-a com o nome de República de Leões.
William virou Mark e o abraçou, beijando-lhe a testa e bagunçando seus cabeços.
Dava-se início a um novo reinado.
Dias depois Mark foi embora.
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