República de Leões
45 Capítulo 45
Notas iniciais
— Certo, é impressão minha ou uma confusão vai acontecer aqui? — Nate levantou as duas mãos ao entrar na casa e se posicionar no centro da sala.
William ainda continuou do lado de fora, mas Octavio o puxou para dentro. Joe apareceu, buscou as muletas do filho e sentou-se no sofá. Sean olhava curiosamente a expressão de Willam, que mostrava-se desconfortável estando ali. O loiro não tocava em nada e também não se movia. Octavio o compreendia e por isso nada falava, também preferiu por não tocar no namorado e agravar ainda mais a situação ali dentro.
Suzana, apesar de tudo, não era uma mulher burra. Ela certamente suspeitava do que seu filho estava aprontando.
— É melhor irmos, outra hora aparecemos. — William disse já querendo dar as costas.
— Sugiro que fique. — Sean pediu.
— Não recebo ordens suas. — Não deu ouvido.
— É melhor que ele vá, não há espaço para pessoas como ele aqui. Deveria levar esse outro garoto junto. — Ela apontou para Colin, que até então estava em silêncio.
Colin, assim como William, queria ir embora dali. Sentia-se ninguém ou até mesmo muito pequeno, literalmente, perto dos presentes. A começar por Suzana, seguida por William. Era confuso demais para ele.
— Na verdade, é melhor você calar a boca. — Sean somente direcionou o olhar para ela.
Os queixos de todos foram ao chão. Embora Nate tivesse que tomar uma posição diante do que ouviu, ele somente olhou para a mulher e esperou alguma resposta dela.
— Eu ainda sou sua mãe e exijo respeito. — Suzana não abaixou a cabeça.
— Acha mesmo que...
— Sean... — Joe tocou em seu braço, acalmando-o.
Sean e Joe ainda não estavam próximos, apesar de que os dias em que Sean precisou de alguém presente, o mais velho esteve por ali, com Suzana aparecendo algumas vezes. Joe tentava ao máximo ser um pai presente, querendo pagar pelos dias em que esteve longe do filho.
— Por que nos reuniu aqui, Sean? — Nate perguntou querendo pôr fim ao mistério.
— Certo, pai, direi.
Quando Joe ouviu Sean chamar Nate de pai, sentiu o desconforto. Mas não sentiu ciúmes e até ficou feliz de ouvir aquilo.
— É melhor irmos para o quarto conversar: eu, você e ele. — Suzana sugeriu.
— Dá pra deixar ele falar? — Nate a encarou.
— Eu vou falar aqui. Os anos de mentira tem de ir ao chão. — Iniciou o moreno.
Sean, com a ajuda das muletas, diante do silêncio de todos, aproximou-se de Colin. William abaixou a cabeça, mas logo a reergueu quando viu o moreno tocar no ombro do garoto.
— Ele é meu namorado. — Desabou na cara de todos de maneira direta.
Apesar da surpresa ser generalizada, Colin era o mais impressionado. Ele levantou a cabeça e tentou ler a expressão do moreno, que mantinha os olhos fixos aos de Suzana que parecia querer matá-lo. Joe olhava toda a situação sem surpresa, ele sabia que Sean faria algo do tipo um dia. Já Nate pensava que tudo aquilo era uma brincadeira e por minutos em meio ao silêncio encarou Sean de tal maneira, a ponto de querer fazer várias indagações. William somente olhou para Octavio.
— Deve ser uma surpresa e tanto para vocês, mas primeiramente digo que não me importo com quem irá se opor ao que acabei de dizer. Eu estou namorando o Colin e nada ou ninguém dirá que isso é loucura minha.
As pernas de Colin tremiam.
— Isso é loucura sua! — Suzana era ousada demais para tal. — Sabe o que penso a respeito disso.
— Você também é...
— Gay? Você sempre soube. — Sean completou o que Nate ia falar.
— Talvez eu soubesse, de verdade. Suspeitei por alguns dias com as histórias que William me contava. No dia em que vocês brigaram por Octavio, pensei que tinha feito aquilo só pra provocar seu irmão. — Nate se explicou.
— Tem algo contra isso? Porque bem, vejamos... Se o William fosse hétero você certamente estaria me dando um sermão enorme. Mas o William é gay e você nunca se opôs a isso, porém não duvido que você esteja querendo falar algo por ser eu.
— Eu não estou triste, apenas surpreso, Sean. Mas esse garoto é amigo do William, certo?
— Um dia conversaremos sobre isso, pai. — William finalmente pronunciou-se. — Uma longa história de mentiras na qual fui envolvido.
— William, sem drama. — Sean falou, não perdendo a postura de garoto grosso.
— Foi por isso que nos reuniu? Pra assumir sua sexualidade perante todos? Isso aqui tá muito confuso, já que não entendo o porquê da presença de William e Octavio, e quem é esse cara? – Nate perguntou.
— Estudamos na mesma universidade, me formei logo após a sua formatura. A propósito, me chamo Joe.
— Não me lembro... — E sorriu sem graça.
— Não foi só por isso que os reuni aqui. — Sean olhou para Suzana. — Ela sabe o motivo.
Nesse mesmo momento todos olharam para a mulher que não se intimidava.
— Te dou o direito de falar a verdade. — Sean continuou a lhe olhar. — Ou prefere que eu fale?
— Você não sabe o que está fazendo. Lembre-se que primeiramente eu sou sua mãe.
— Mães não tratam o filho da forma que você me trata.
— Mães cometem sacrifício pelo bem dos filhos. Você não sabe o quanto eu lutei para que você pudesse ter tudo o que tem.
— Você nasceu em berço de ouro, Suzana. — Nate se meteu. — Nunca soube o que é passar fome, então para com esse papo de boa mãe e sofredora.
— Não falo de alimento, mas de tudo o que uma mãe sofre por um filho. Você nunca se preocupou com o filho que teve para sequer se meter nessa conversa. Sempre dando valor ao bastardo e tornando-se ausente para o meu. — Suzana proferia as palavras de maneira dura e direta.
Nate se calou.
Sean também se calou, embora seu coração estivesse ferido e um tanto abatido, sem saber se era certo ou errado desmascarar a mãe ali, diante de todos, mas ele sentia vontade de largar o fardo que estava carregando. Porém, Suzana era sua mãe. Uma mãe. Sean cresceu na ausência do pai que sempre deu mais valor ao William. Ela tentou suprir a falta que o homem fazia na vida do filho, mesmo tendo uma maneira errônea de mostrar-se preocupada.
Sean avaliou seus pensamentos até que resolveu abrir sua boca:
— William e eu não somos irmãos. — Desabafou.
O primeiro a levantar a cabeça foi Colin, que por pouco não levou a mão ao queixo para segurá-lo. Joe, Octavio e Suzana não estavam surpresos, mas os corações estavam num turbilhão de emoções. Nate e William foram os mais impactados, ambos loiros, mantinham os orbes claros no olhar de Sean.
Nate, depois de alguns segundos, sorriu.
— Próxima piada. — Ele realmente tentou brincar.
— Não estou brincando, pai. — Sean continuava a olhá-lo.
Colin logo apertou a mão do namorado, percebendo que ele estava tenso.
— Quer dizer que durante todos esses anos eu carreguei nas costas uma verdade que nunca existiu? Ou melhor, eu era considerado o culpado pelo término do maldito casamento entre a sua mãe e o meu pai, quando na verdade você também é um bastardo? — William usou do termo que tanto era usado para ofendê-lo.
Ele então afastou-se de Octavio e caminhou até se aproximar de Sean, pouco se importando com Colin.
— William, não é hora de brigar. — Octavio queria se aproximar.
— O culpado você nunca foi considerado, mas sim ele, pelo erro que cometeu. Se não tivesse transado com aquela mulher talvez... — Sean disse.
— Eu não teria nascido. — O loiro completou.
— Não foi isso que eu quis dizer, William. E não é disso que estamos falando. — Mantinha a calma.
William sabia que Sean tinha razão.
— Me diz que isso é mais uma das suas brincadeiras. — Pediu o loiro.
— Nós nunca fizemos o teste de DNA, William. Tanto você, como meu pai e até mesmo o Joe, fomos enganados por ela que queria manter a reputação da minha família, que por 23 anos culpou nosso pai pela separação deles.
William se virou.
— Isso é muito sério, Sean... — Nate ainda mantinha a calma.
— Por que ninguém acredita em mim?! — Sentiu-se ofendido. — Eu estou aqui dizendo para todos que não sou seu filho, que William e eu não somos irmãos e que minha mãe também te traiu.
— Isso é verdade? — Nate virou-se para encarar Suzana.
A mulher, ainda séria, não fazia sequer algum movimento.
— Eu não estou te julgando, Suzana. O que eu quero saber é se tudo isso que acabei de ouvir é verdade...
— E se julgasse, seria um hipócrita. Já que cometeu o mesmo erro. — Ela rebateu.
— Então é verdade... Realmente, você tem razão em dizer que não posso te julgar. Eu vou agir como adulto e não vou gritar aqui, nem mesmo fazer qualquer ação contrária a atitude que eu deva tomar. Mas eu estou surpreso. Sean não é meu filho?
— Eu sou o pai dele. — Joe ficou de pé.
Joe puxou do bolso uma folha de papel, do exame de DNA com autorização do moreno.
As mãos de Nate tremiam, mas ele tentava manter a calma. Segurou o papel já estando familiarizado com aquilo e rapidamente obteve a resposta que queria.
— Você me odeia? — Nate indagou para Sean.
— Você nunca deixou de ser meu pai. — Admitiu o moreno.
— Isso é...
Sean o interrompeu:
— Mas eu também não posso mais fingir que não sei da verdade. Você sempre foi um pai ausente. Sempre esteve para William enquanto já chegou a dizer que não tinha orgulho de mim. Não irei me esquecer disso.
— Acho que precisamos de um tempo só para nós dois... — Nate sugeriu.
— Talvez, no entanto, quando eu achar que é certo.
— Quem diria, hein? — Nate virou-se para Joe. — Nem sequer me lembro de você e agora descubro que é pai do garoto que sempre achei ser meu filho. Sinceramente, não sei o que dizer e nem como agir. Estou perdido, mas ao mesmo tempo... — Fez uma pausa e logo olhou para Suzana. — Satisfeito em ver a máscara dessa mulher finalmente cair.
Suzana, enfurecida, pegou o primeiro porta retrato que encontrou e lançou contra Nate, que foi amparado por Octavio quando o puxou.
— Como pode falar assim comigo? Você não deveria nem abrir a boca. Como ousa chamar Sean de seu filho se nem mesmo você o tratou como um?
— A questão não é essa... — Nate tentou falar, mas foi interrompido.
— É claro que a questão é essa! Olhe para ele e faça a pergunta para tirar suas dúvidas. Sean cresceu na falta do pai. Posso não ser a melhor mãe, já que tudo o que eu penso não é aprovado por ele, mas dei o máximo de mim. Lembra das vezes em que você não comparecia aos eventos quando ele ainda era um garotinho? Não venha bancar um pai no final do campeonato, pois quem já pisou na linha de chegada está aqui há muito tempo: eu. Fui mãe e pai ao mesmo tempo. Você viveu para esse garoto aí. — Apontou para William.
— Eu tentei manter o equilíbrio entre meus dois filhos, diferente de você que quis Sean acima dele.
— Ensinei meu filho a não ser perdedor.
— Calem a boca! — Sean exaltou-se. — Não me façam um problema entre vocês dois. Se eu tive mãe e não tive pai, pouco importa. Eu não tive ninguém, pra ser mais exato. Uma mãe que só quer aquilo que considera melhor para ela e não para mim. Um pai que durante a semana só aparecia uma vez e no mês duas. — Ele riu. — Sério que vocês tão discutindo para ver quem errou menos? Eu não me importo mais.
— Então realmente não somos irmãos? — William também entrou na conversa — Todos esses anos acreditando numa mentira criada por essa mulher? Também, isso não faz diferença alguma. Nunca nos tratamos como irmãos, só estou surpreso por de fato, acredito, nos vermos livres de alguma forma, já que o pequeno elo que tínhamos era apenas pelo laço de sangue.
— O único elo que temos agora é o Colin. Mas você vai somente perceber isso quando perdoá-lo. — Soltou o moreno sem se importar com o rumo da conversa.
William mostrou o seu desconforto.
— Eu deveria estar feliz por saber disso? — William perguntou para o pai. — Eu me sinto... Livre? Pai, eu não estou triste, estou satisfeito.
— Eu preciso conversar com o Sean. — Nate se virou.
— Não hoje, não agora e eu não sei quando. Mas eu estou farto de você e dela. Prefiro estar com o Joe. — Admitiu.
— Então do dia para a noite ele rouba o cargo que eu carreguei?
— O cargo que você nunca soube administrar. — O moreno encarou.
— Acabou a palhaçada? — Suzana, do seu lugar, expôs a sua raiva. — Já que todos sabem da verdade deveriam ir embora, agora, imediatamente. Eu preciso conversar com o Sean.
— Eu também não quero conversar com você. Eu não os trouxe aqui para conversa particular, caso contrário iria eu ao encontro de cada um. Mas se não quis, estou bem aqui. Estou bem do jeito que preferi estar e, sinceramente, pai e mãe não faz mais diferença para mim. Se é errado? Foda-se. Eu sempre fui a ovelha negra da família.
— Sabe o que eu acho engraçado em tudo isso? — Nate chamou a atenção de todos. — Se fosse em família de novela, todos estariam aos gritos. Mas nossa família é tão cheia de mentiras, falhas, segredos que nada é tão surpreendente. Descubro que não sou pai do Sean, que minha ex-mulher também me traiu e que um cara que estudou na mesma universidade que eu é o verdadeiro pai dele.
— Eu sempre soube que seria assim quando a verdade fosse revelada. Da mesma forma que eu me senti quando descobri que era bastardo, filho fora do casamento. Nada mais é surpresa nessa família. Mas o que é mais engraçado é o fato de você não parecer sofrer com isso, também deve estar se sentindo livre como o William.
Nate não negou, mas não era exatamente aquilo que Sean estava falando.
— Agora chega disso tudo. Só quero dizer que William vai trabalhar no hospital. — Sentenciou o moreno.
— Como? — Suzana perguntou.
— Oi?! — Octavio assustou-se.
— Tá brincando. — O próprio Nate disse.
— Pareço estar brincando? — Encarou todos. — William vai trabalhar no hospital.
— Isso não é possível e eu não admito. — A única mulher presente gritou.
— Se com segredos você se manteve firme, com os mesmo segredos você continuará no comando do hospital, mãe. — Sean se mantinha sério.
— Sean, você não... — Suzana balançava as cabeças repetidas vezes.
— Eu sou gay, não sou? Sou filho fora do casamento. O que o meu avô acharia disso? Você decide.
— Me respeita! — Ela gritou. — Eu ainda sou sua mãe para que exija isso de mim.
Sean estava querendo mesmo fazer sua mãe pagar por tudo o que tinha feito, por mais que lhe partisse o coração e isso o fizesse se arrepender logo depois. Mas ainda queria mostrar que não iria perder o coração frio com todos aqueles, independentemente dos laços de sangue ou não. Sean não estava no mundo para brincar, ele simplesmente se considerava um coração de pedra, frio demais para qualquer pessoa.
— Eu não quero trabalhar para essa mulher. — William quebrou o diálogo. — Se isso te deixa feliz, saiba que irei preferir outros meios. Obrigado, mesmo não achando necessário essa mudança radical. Eu te conheço, Sean. E sei que faz isso não pensando em mim, mas na queda da sua mãe.
O moreno o encarou. O moreno admitia que não pensava no bem do loiro.
— Acho que isso tudo acaba aqui. — William continuou. — Já que toda a verdade veio à tona, agora é só digerirmos e seguir com a vida. Como já disse, isso para mim não tem tanto efeito já que nunca o vi como um irmão. Somente estou satisfeito, assim como o meu pai, de ver essa mulher ter seus segredos expostos.
Colin não tirava os olhos de William. Queria se meter na conversa e ir contra as falas do loiro, mas dessa vez sabia que deveria manter a sua personalidade oculta e ficar em silêncio. Afinal, naquele mar de pessoas da alta sociedade, Colin era um grão de areia. Sem contar que não fazia parte do problema.
William, sabendo onde era a saída, foi sozinho. Octavio olhou uma última vez para Sean e, assim como Colin, sentiu que não deveria interferir nos problemas que não eram seus. Logo depois correu atrás do namorado que já parecia entrar no carro de Nate.
Nate aproximou-se de Sean, beijou-lhe a testa — com dificuldade, já que o filho era mais alto — e olhou em seus olhos, dizendo:
— Nunca te enxergarei com outros olhos, senão meu filho. Mesmo não sendo o pai dos sonhos. — Sean permaneceu encarando-o. Nate logo olhou para Colin. — Quem diria, hein garoto? — E saiu logo em seguida.
Suzana permaneceu em seu lugar por vários minutos até que, em silêncio, apanhou a sua bolsa e não olhou para Sean, passou pela porta e também foi embora. Ela acabava de cair e quem a derrubara foi o próprio filho.
Agora somente restava Joe, Colin e Sean.
Colin finalmente pôde se mover e caminhar até a porta para que assim a fechasse. Sean recebeu ajuda de Joe e sentou-se no sofá, olhando para os pedaços do porta-retrato que Suzana jogou.
Colin continuou de pé, olhando para Sean que tinha os olhos fixos no chão, mas em poucos segundos encontrou os do agora namorado. Os dois permaneceram naquele misto de sentimentos, um encarando ao outro.
Joe era tão evoluído, que para ele aquilo não era estranho. Ele simplesmente permaneceu em seu lugar, respeitando o momento do filho.
— Eu desmascarei minha mãe, não sei se devo me arrepender. — Disse o moreno novamente abaixando a cabeça. – O que a fez contar a verdade sobre você? — Agora olhava para Joe.
Pego de surpresa, Joe olhou para Sean.
— Do nada ela simplesmente me disse que você é meu pai.
— Ela me procurou pra falar a verdade sobre o passado, mas infelizmente ela queria que eu o transformasse... Você entende né?
— Ela acreditava que a presença de um pai na minha vida me tornaria hétero?
— Foi mais ou menos isso, mas ela também me explicou que Nate não te dava o devido valor e por isso estava me contando a verdade. Meu irmão é gay, Sean. Ele me ensinou, ou melhor, transformou minha visão sobre o mundo. Quando Suzana me procurou, o assunto acabou retornando ao passado onde relembramos nossas aventuras até que surgiu a gravidez. Eu tinha sonho de ser pai, como já te disse, mas Suzana negou todas as vezes quando suspeitei que você era meu o filho.
— Seria melhor se não fosse... — Coçou seu braço e encostou-se no sofá.
— Se sua intenção é me ofender, saiba que sempre consegue. Mas eu sou adulto e não devo fazer disso um problema, afinal, você tem toda a razão de ser assim comigo. Mas eu já disse que estou tentando recuperar o tempo perdido. Quero um dia te apresentar para meus familiares que nem sequer sabem que tenho um filho. Você não entende o quanto isso é importante para mim. E não me importo se você é gay, hétero ou qualquer outra coisa, você é meu filho e o exame de DNA é a prova de que você é sangue do meu sangue. Sua mãe, Suzana, mostrou-se uma mulher diferente daquilo que eu pensava, infelizmente. Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto, mas quando ela me procurou e disse que queria que eu o conhecesse, eu fui capaz de aceitar a sua proposta e dizer que não era a favor da homossexualidade só para um dia te ver.
Sean olhou para Joe, porém nada disse. Joe tinha olhos de súplica, ele queria que Sean acreditasse em suas palavras. Afinal, era o seu herdeiro.
— Eu acredito no que ele diz. — Colin, em seu lugar, disse.
— Isso não é um problema seu, Colin. — Sean ainda não perdia alguns costumes.
— Se eu e você somos namorados, então isso é um problema meu. Se ele cuidou de você durante esse tempo, deveria simplesmente dar uma chance e enxergá-lo como um pai. Sei o valor que um pai tem e quando quase perdi o meu, dei ainda mais importância à presença paterna em minha vida.
— Obrigado, garoto. — Joe sorriu. — Que tal a partir de hoje começarmos uma nova vida? — Ele se dirigiu a Sean.
— A simplicidade de vocês, para tudo, me enoja. Eu não sou um bom filho.
Então Joe se levantou, estendeu a mão e olhou para o moreno.
— Um passo de cada vez. O primeiro é somente deixar com que eu me preocupe com você, certo?
Sean ergueu sua cabeça, olhou pra Colin fazendo sinal positivo e então subiu seus olhos aos de Joe. Tanta semelhança, senão fossem os cabelos encaracolados do mais velho e a aparência mais velha, diriam que eram gêmeos.
— Não tenho sequer força para levantar um braço. — Disse.
Mas Joe somente inclinou seu corpo para frente, beijou a cabeça de Sean e caminhou até a porta.
— Vou fazer uma tatuagem de tigre, já que isso significa lealdade. — Brincou enquanto caminhava. — Agora se preocupe em recuperar o que é seu e volte a estudar, essa é a minha primeira ordem como seu pai.
Sean o encarou. Joe tocou o ombro de Colin e sorriu. Sem antes dizer para onde ia, o mais velho saiu da casa.
Colin e Sean sozinhos novamente.
[...]
No caminho, o celular de William tocou. O loiro não queria atender, mas fez isso ao reconhecer o número de Leo.
— Diz, Leo. — Ríspido o atendeu.
— Nossa, quanta grosseria. — Leonard resmungou. — Você tá na república?
— Não.
— Droga, eu precisava falar com o Danion, mas ele não me atende.
— Deve tá transando...
— Você tá estranho, Will. Aconteceu alguma coisa? — Leo perguntou.
O volume do seu celular estava alto o suficiente para fazer Octavio e Nate escutarem a conversa. William olhou para os dois antes de responder:
— Cara, depois eu te falo. Só preciso me acalmar.
— Tem certeza de que não quer conversar? Eu hoje iria aparecer na república, há dias não comemos todos juntos como nos velhos tempos. Acordei inspirado para isso.
— Eu farei um jantar. — Octavio acabou envolvendo-se no assunto.
Talvez até seria melhor para William ter a presença de todos os seus amigos, reunidos. Mesmo que para isso fosse necessário ligar para Colin.
— Octavio está aí? — Leo perguntou.
William então entregou o celular para Octavio. No minuto que se passou, dessa vez o celular de Octavio que tocou. O moreno entregou o celular para William e disse que era Caine ligando.
Revirando os olhos e estressado pelo dia, William atendeu ao celular:
— William, o dia não está nada legal. Danion está preso no quarto.
— Vocês brigaram?
— Bem... Eh... O Edgar está com o Joshua, aconteceu uma confusão aqui na Quadra.
— Joshua causando problemas para o Danion novamente?
— Mais ou menos... É que...
— Certo, Caine, irei resolver isso.
— William, espere, eu.. E-eu...
E o loiro desligou o celular sem nem sequer ouvir o que Caine tinha para falar. William tinha voltado de um plantão estressante, acabou de descobrir que Sean e ele não eram irmãos. Mesmo que isso não tenha lhe causado tanto impacto, ainda assim se sentia mexido. Em seguida descobria que novas confusões aconteceram na sua ausência.
— Pai, pode me deixar na universidade?
Nate ingenuamente nada disse, enquanto Octavio ainda batia papo com Leonard. Eles seguiram até que o loiro desceu na universidade.
Octavio só agora tinha percebido onde estava e olhou para o namorado descendo do carro.
— Ei, Octavio, eu preciso dar uma volta e espairecer. — Ele olhou para o namorado que estava prestes a sair do carro.
Octavio engoliu em seco e parou o movimento que estava fazendo. Despediu-se de Leonard e voltou a olhar para o namorado. Até Nate compreendia que William precisava respirar, se assim poderiam dizer.
Octavio balançou a cabeça e encostou-se no banco. Nate despediu-se do filho e seguiu em direção contrária, na qual deixaria Octavio na Quadra e dali iria fazer como William: respirar. Se não conseguisse, iria procurar alguém pra desabafar, afinal, nunca viu Sean o desprezar tanto.
William ainda usava a camisa branca, gravata azul e calça também clara. Sem jaleco parecia um homem de negócios, com jaleco tornava-se um dos médicos mais gatos que aquele hospital já tinha visto. Mas ali, naquele momento, suas roupas não tinham sequer importância. William não parecia o mesmo com elas ou sem elas.
Ninguém nunca foi tão forte quanto o líder que William foi. Aguentava tudo pela proteção dos seus companheiros. Chegou a perder companheiros que um dia amou. Lembrava-se do dia na lanchonete na qual descobriu que Santiago seria um Tigre. Do dia em que teve Colin espancado sendo entregue por Sean em seus braços, da falsa traição de Octavio e de quando soubera que Danion foi espancado. Meses mais tarde perdera sua república. No ano seguinte descobriu que a pessoa que mais protegeu deitava-se com o maior rival, no mesmo período foi responsável pelos cuidados do mesmo rival e, hoje, a verdade veio à tona. Por anos foi motivo de piadas e humilhações pela família de Sean, mais especificamente pelo filho e pela mãe, e na verdade, Sean nunca foi seu irmão.
William estava, sem sombra de dúvidas, sobrecarregado pelo passado e pelos problemas.
Ele caminhou de cabeça baixa aceitando a neve cair em seu corpo até conseguir entrar no Ninho, informando ser aluno da universidade. Não era preciso pedir informações sobre em qual bloco Joshua estava, já conhecia, afinal, não era a primeira vez que colocava os pés ali.
Ao bater na porta e esperar, William somente tirou as mãos do bolso e estalou os dedos quando em poucos segundos o próprio ruivo abriu a porta.
— Oi, Joshua. — Ele disse, baixo demais.
O ruivo, despreparado, foi recebido com um soco no estômago, atingindo o ferimento que ganhou na luta mais cedo. William entrou no bloco já derrubando tudo, com força o suficiente jogou-o sobre o centro de sala feito de vidro que se quebrou.
Joshua gemeu de dor e sentiu as costas ser perfurada. Levantando-se ele se preparou para então se defender. Conseguindo, segurou um braço do loiro, desviou do segundo braço e socou William duas vezes no estômago até conseguir roubar o seu ar.
Só agora então Edgar apareceu, sem voz e sem presença, ele não conseguiu sequer interferir.
William em seguida recebeu um soco no nariz, que fez o sangue descer imediatamente. Joshua correu de encontro ao loiro e o lançou contra o sofá, montando sobre ele em seguida, levando suas duas mãos ao pescoço do loiro, pronto para asfixiá-lo.
Já vermelho e perdendo o ar, William não retirou os olhos de Joshua. Mas como todo bom leonino, não iria existir ninguém capaz de segurar o verdadeiro rei da selva. O rei leão.
William, com a palma da mão, atingiu o ouvido do ruivo que, um pouco ensurdecido, caiu de lado, dando passagem para que William o segurasse pelo braço, o erguesse e com o joelho atingisse o seu estômago. Desnorteado, Joshua recebeu um, dois, três socos na face e caiu sobre o balcão da cozinha.
William finalmente parou com a agressão e limpou seu nariz.
— Sabe, você estava merecendo isso há tempos. — Disse o loiro.
Joshua bradou e se virou, ainda tentando atingir o loiro. William o segurou pelo pescoço e o devolveu ao lugar que estava.
— Nós dois, de fato, nunca brigamos assim, Joshua.
— William... — Edgar tentou dizer. Mas o loiro ergueu a mão o impedindo de falar.
— Há muito tempo eu tinha me calado e fechado os olhos para certas coisas. Vinguei Colin ao bater em Connor. Vinguei Octavio após a mentira do Sean. Não sou um vingador, mas o que você fez com Danion merecia algo pior.
— Me deixe me recuperar e veremos do que sou capaz.
— Recuperado ou não... Venha até mim quando achar que deve. Eu só preciso agora acabar com toda essa palhaçada que cerca a nós leoninos. Se somos alvos fáceis, saiba agora que todo leonino tem um pai, um leão sem juba: eu.
William ainda deu as costas limpando o nariz, olhou a bagunça que tinha feito na sala e depois para Edgar.
— Desde o que Colin fez, não mais me importa com quem os outros se relacionam. Só espero que consiga conviver com ele, que tenha coragem e seja homem para encarar Danion.
Não foi preciso William fazer perguntas para Edgar, o fato de vê-lo ali, preocupado e seminu, foi suficiente para que deduzisse. Tinha aparecido no bloco achando que Edgar tinha sido um alvo, mas vê-lo naquela situação mudou completamente o seu objetivo.
Mas William, querendo admitir ou não, sentia-se aliviado. Ele saiu do bloco e caminhou até a saída, pela avenida movimentada seguiu a pé, novamente recebendo a neve cair.
Quem rugir mais alto... vence.
[...]
Caine ainda estava de pé ouvindo alguns gritos de Danion, mesmo que não tão altos, era notável como ele descontava sua raiva em alguns objetos, senão todos.
A todo o momento o pequeno tentava chamar pelo nome do namorado que não dava atenção. Tudo o que Danion queria, naquele momento, era ser forte o suficiente e capaz de ir ao Ninho bater em Joshua, mas reconhecia sua força perante o ruivo.
A manhã foi embora e a tarde tinha chegado ao fim. Caine até ligou para William em busca de alguma solução. Mas William acabou interpretando mal a situação. Quando Octavio apareceu na república, Caine correu para a porta na esperança de encontrar William.
— Cadê ele?
— Está de cabeça quente e precisando de um tempo sozinho.
— Droga... Tem certeza disso? — Pareceu desapontado.
— Sim. — O olhou com ar de suspeita — Por quê? Aconteceu algum problema?
— Bem, pela manhã houve uma confusão das grandes e novamente uma polêmica tomou conta da Quadra. — Caine abaixou-se ao notar que o Jornal da Quadra, recém-produzido, estava no canto da porta. — Sabia que ia encontrar isso aqui. — Entregou ao Octavio.
— Aiai... — Disse o moreno abrindo o jornal.
— Parece que Joshua e Edgar estão juntos e, por isso, Edgar acabou metendo-se numa confusão entre Noah e Joshua. Para mim, isso é o de menos... Mesmo que estranho, mas eu estou preocupado com Danion que não soube como reagir, viu Edgar virar as costas para ele e ir com outro.
Octavio ainda estava lendo o jornal e ficou impressionado com a informação, ainda mais detalhada pela autoria de Harry.
— Quando eu penso que nada vai ficar pior... — Referiu-se a conversa que teve minutos antes na casa de Sean.
— E agora Danion tá trancado no quarto sem querer conversar com ninguém. Lembra do que ele disse no dia em que descobrimos sobre Colin e Sean? Ele parecia estar a favor do William, mesmo reconhecendo depois que Colin era seu amigo.
Octavio ainda tentava pôr as informações no lugar, procurando racionar e acalmar Caine que parecia tão perdido quanto ele. Não era simplesmente agir como na situação entre William e Colin, até porque Danion foi escapando na presença de Caine.
— Eu vou tentar conversar com ele, Caine. Mesmo achando que William e Danion são parecidos em alguns quesitos, vai ser difícil. Mas e o Edgar, como está? Isso que fizeram com ele foi um absurdo.
— Estava um pouco machucado, mas abalado demais com tudo isso. No fundo, no fundo, Colin, Edgar e eu temos algo em comum, apesar das distinções. Colin enxerga o que ninguém mais vê em Sean, Edgar escuta o que ninguém mais escuta do Joshua e eu... Amo alguém que ninguém um dia disse amar.
— Sábias palavras, Caine. — Octavio sorriu. — O coração não escolhe a quem amar, mesmo tendo os nossos olhos e a razão. Logo eu que me acho tão maduro, às vezes dou uns conselhos que nem eu mesmo consigo seguir. De qualquer maneira, ainda é cedo demais para decidir o que fazer no caso do Edgar, se deixamos as coisas acontecerem ou se tomaremos alguma atitude.
— No fundo, eu consigo sentir o que Danion sente. — Abaixou a cabeça. — Ele tem toda a razão em reagir assim.
Caine fechou a porta e novamente caminhou até o seu quarto na esperança de conseguir conversar com seu namorado. Octavio agora estava preocupado com William, mas ainda assim respeitou o tempo que o namorado pediu.
Octavio e William ainda não tinham dormindo, embora cansados, o dia não permitiu que ambos descansassem. Teria que tomar um dos melhores banhos de sua vida, já que há horas não tinha contato direto com a água e dali iria direto a algum supermercado aberto para comprar os preparativos para o jantar, fazendo indo pensando em nada mais e nada menos que William.
Caine sentou-se no corredor e ali ficou esperando, ainda chamando por Danion. Levantou-se rapidamente ao ouvir a porta ser destrancada e, ao girar a maçaneta, encontrou Danion sentado na cama, de cabeça baixa.
Caine se deparou com o quarto revirado, o que era de se esperar. Ele conhecia aquele temperamento explosivo de Danion quando extremamente enfurecido, mas Danion costumava descontar em tudo que encontrasse pela frente, como foi no dia do soco que recebeu e os demais acreditaram que Danion vivia a bater nele.
Caine ajoelhou-se à frente do namorado e segurou suas duas mãos, fazendo com que o branquelo erguesse a cabeça e encontrasse o mais belo olhar de sua vida, aquele olhar que era como um remédio, calmante.
— Por que eu sou tão fraco? — Indagou para Caine.
— Como pode dizer algo assim depois de tudo o que passou?
— Droga, Caine, eu tinha toda a oportunidade para fazer Joshua pagar pelo que tinha feito.
— Sangue se paga com sangue, Dan?
Danion abaixou a cabeça, ainda segurando as mãos de Caine e logo a ergueu novamente.
— Eu não sou como você, Caine. Eu não consigo perdoar a todos.
— Quem disse que eu o perdoei? — Caine tentava ir de encontro aos sentimentos que Danion estava expondo.
— Você conseguiu se meter na confusão a favor dele.
— Não, Dan. Eu fui por Edgar, em nenhum momento eu pensei em Joshua.
— E o Edgar? — Danion se levantou, soltando as mãos de Caine, o pequeno fez o mesmo ao se levantar — Velho, eu não entendo o que é que tem de errado na nossa república. A república de leões é a mais azarada e a mais perseguida.
— Eu estou tão surpreso quanto você, Dan. Eu jamais iria imaginar que Edgar estava envolvido com Joshua, apesar do Jornal da Quadra um dia falar sobre. Mas para nós aquilo era apenas uma das mentiras que Harry costumava contar.
— Eu vou expulsá-lo da república, você sabe...
— Quem sou eu para ir contra a vontade do líder? Mas eu queria te dar alguns motivos para que você não fizesse isso.
— Existem motivos, Caine? Caralho, ele não é o Sean... É o Joshua, o cara que quase tirou minha vida naquela covardia e ainda te envolveu... — Ia explodir mais uma vez, mas Caine o tocou ao abraçá-lo. — Te envolveu... — Murmurou, acalmando-se.
— Não mais se lembrará daquele dia, certo? — Pediu.
Danion nada disse.
— Sabe por que você não abandonou o Colin, Dan?
— Ele não é o Colin, Caine.
— Mas você é o Danion.
Danion não estava conseguindo compreender as palavras de Caine. O olhava esperando por mais até que Caine resolveu prosseguir:
— Uma vez ouvi de um de vocês que o leão é fiel a sua família, jamais abandona o seu bando. Apesar de ter várias leoas... Mas essa parte não vem ao caso. — Caine balançou a cabeça tentando manter o foco. — Mesmo estando a favor do William ou até mesmo confuso, quando Colin precisou de alguém você estava lá, mesmo sem perceber.
— Ah, Caine, mas isso é... — Encabulado, tentou buscar por palavras.
— É uma curiosidade do rei da selva. William um dia tomou essa responsabilidade para ele e é digno da coroa que carrega, você de príncipe também tornou-se rei ao liderar isso aqui. Mesmo com os motivos que eu tenho que compreender, não abandone um filho que precisa do seu apoio. Edgar e Colin não escolheram amar aqueles em quem nós não confiamos... O mesmo valia para mim, quando me falavam que você jamais me faria feliz.
Caine olhou para Danion, mas ele ainda não se pronunciava. Caine novamente olhou para a bagunça feita por Danion, tantos objetos quebrados que sentia pena de Leonard caso aparecesse no quarto e encontrasse aquela bagunça.
— Eu quero mandar Edgar ir se foder, descontei minha raiva em tudo isso aqui. — Danion falou ao caminhar para a saída do quarto.
— Faça isso se assim te fará bem. — Virou-se e o acompanhou. — Mas faça como os leões e não deixe sua família desamparada.
— Caine, você... — Danion ficou encarando o namorado que não retirava os olhos dele. Aqueles olhos ingênuos, puros e infantis. Logo socou a porta, descontrolado. Ao sentir a dor, Danion gemeu e acariciou a mão. — Que merda você anda fazendo comigo? — Indagou ainda gemendo.
Caine somente sorriu e segurou a mão do namorado na tentativa de amenizar a dor.
Danion ficou olhando para Caine por alguns minutos enquanto o namorado fazia massagem em sua mão. Tocou o queixo do namorado e aproximou seus lábios aos dele. No mesmo momento sentiu seu estômago roncar. Caine tinha ouvido.
— E-eu quero ser seu alimento. — O olhou.
Danion a princípio não entendeu o significado daquilo que Caine falava, mas como o pequeno permanecia o olhando até então tocar no cós da calça do branquelo, a ficha de Danion caiu.
— Isso é sério?! — Danion perguntou assustado. — Você tá pedindo para transarmos nessa bagunça? Caine... Você não brinca comigo!
Caine somente o olhou.
— Foda-se a fome! Quer dizer... Ah, você entendeu! — Danion empurrou Caine para dentro do quarto e trancou a porta.
Caine tinha que fazer o seu melhor para conseguir fazer Danion esquecer, por horas, o ocorrido. Às vezes, até os mais ingênuos precisam usar de uma das armas mais fatais: o sexo.
Se existirem gemidos, certamente será o fundo musical do jantar.
[...]
Leo estava parado em frente ao espelho, incrédulo ele olhava para a marca em seu pescoço. As algemas ainda estavam no chão e a cama totalmente revirada.
— Qual a desculpa que terei que dar para isso que você deixou no meu pescoço? — Indagou ao se virar, ainda tocando o pescoço.
Santiago, ainda nu e com o corpo suado, estava parado na passagem para a cozinha, bebendo um copo com água.
— Veste um suéter. — Logo bebeu da água.
— Boa ideia! — Disse ao mostrar o indicador em sinal de aprovação.
Leo logo esfregou os dois punhos que ficaram presos enquanto Santiago e eles transavam. Passou por Santiago e abriu a geladeira também com sede. Viu o namorado de costas e quis morder as suas nádegas, mas se controlou. Estava próximo das 20hrs, horário marcado para o jantar.
— Tenho mesmo que ir? — Santiago perguntou.
Leonard sabia que Santiago jamais iria aparecer naquela república, e bons eram os motivos para isso ocorrer.
— Ficarei feliz se você for.
— William, Danion e Caine sob o mesmo teto. Isso não vai ser divertido.
— Eu estarei lá, Santiago. E todos devem me respeitar, afinal, respeito cada relacionamento dentro daquela república. E olha que no quesito relacionamento, nós leoninos somos todos problemáticos, porque, diga-se de passagem... Ninguém é aprovado ali dentro.
Santiago sorriu com a ironia feita por Leonard.
— Se eu não estivesse com tanta fome e essa geladeira não estivesse vazia, naquele lugar eu não pisava.
Leo aproximou-se de Santiago, levou sua mão ao membro dormido do namorado e o encarou.
— Sou eu quem aguenta isso que você carrega entre as pernas por quatro ou cinco vezes na semana, então, por favor, aguente a presença dos meus amigos pelo menos por uma noite. Uma noite! — Ao soltar seu membro, Leonard sorriu. — Agora vai pro banho.
Santiago olhou incrédulo para Leonard que mantinha o sorriso vitorioso em sua face. Mas de uma coisa Leonard tinha razão e o Santiago tinha que concordar: eles tinham uma vida sexual bastante ativa.
Santiago, querendo contrariar Leonard, o olhou com desprezo, mas então lhe deu as costas indo diretamente para o banheiro. O seu banho não foi demorado, porém o suficiente para fazer com que recuperasse as energias, ainda que sem se alimentar. Ao sair, Leonard entrou como um foguete no banheiro, quase o derrubando.
Santiago escolheu suas roupas calmamente e até o banho de Leo terminar, ele vestia a cueca. Ao final de todo o processo, ambos usavam suéter. O de Santiago era azul com gola V, estampado com losangos cinza e branco centralmente, completando a roupa, camisa social branca, calça cinza e sapatos claros. O de Leo era bege com listras grossas marrons e finas vermelhas e sua calça e sapato escuro.
Devido ao banho de loja que Santiago tinha recebido, desde que foi cotado para estampar a capa de uma revista local, não tão conhecida, mas que devido ao seu ensaio ganhou um pouco de notoriedade, tentava ao máximo manter-se bem vestido. E adorava o inverno por isso. Leonard sempre gostou de vestir-se bem, apesar do visual não combinar tanto com ele e suéter não ser uma peça de roupa que ele admirava, até que se sentiu bem usando.
Ainda descendo as escadas, eles trocaram alguns beijos. Eram um casal de apaixonados.
No táxi Leo e Santiago se comportaram, devido ao taxista que mandou um comentário preconceituoso ao ouvir um noticiário na rádio local. Quando Leo tinha pensado em falar algo, Santiago apertou a sua coxa, pedindo para que ele nada falasse. Tem momentos em que é melhor manter a calma.
Leo desceu do carro recriminando Santiago, no entanto, ele não dava importância ao que Leo falava, pelo contrário, estava pensando em como seria comer na mesma mesa que William.
— Tem certeza que devo entrar? — Santiago perguntou enquanto estavam parados na entrada da república.
— Segure a minha mão. — Pediu Leonard.
— Leo...
— Estamos atrasados, já são 21hrs.
Leo então abriu a porta.
Octavio era um homem cujos dons culinários impressionavam. Mesmo que Rickson carregasse toda a fama, quando Octavio queria fazer algo bom e agradável, ele se esforçava. E por ser um jantar para reunir os companheiros de república, mesmo que na ausência de Colin e Edgar, o cardápio foi recheado.
Ele teve que se virar nos trinta e preparar tudo rapidamente, com a ajuda de Samuel eles conseguiram terminar de preparar tudo com uma hora de atraso ao horário marcado.
Numa única mesa, pequena e já na sala, sobre uma tábua, havia queijo, presunto, peito de peru, mortadela picante e mais alguns aperitivos. Ao lado uma cesta com torradas e brioches. Ele também tinha encomendado sushi e pôs sobre a mesa, afinal, tinha os seus truques. Tudo isso foi comprado já pronto e ele não fez muita coisa senão cortar, nem isso na verdade, Samuel que fizera.
O prato principal, também sobre a mesa, já que não tinha todas as engenhocas para um jantar digno dos ricos, era um filé ao molho madeira e champignon. Próximo tinha creme de milho, arroz branco, dessa vez não industrializado, e Caesar Salad (salada César) conhecida por eles. E para a bebida, logicamente, o vinho.
Octavio também se encarregou de afastar os sofás, mas como não tinha cadeira suficiente, as retirou. Quem quisesse comer que se servisse e se espalhasse por aí. Afinal, estavam dentro de uma república e o jantar foi feito de última hora.
Octavio vestia uma camisa social em azul marinho, tinha acabado de sair do banho.
— Eu jurei que iríamos comer cachorro quente. — Disse Leonard ainda olhando para a mesa.
— Não sou como o Rickson — Brincou — Mas me esforcei.
Octavio, simpático, estendeu a mão para Santiago que, inseguro, o correspondeu. Aquele aperto de mão foi um tanto aconchegante, deixando-o o mais confortável.
Octavio colocou a cabeça para fora da república procurando por Samuel que tinha ido chamar Luke.
[...]
Luke não estava tão animado assim, passou horas com a tia no telefone contando o que havia acontecido e onde Noah estava. Tinha optado por não ficar na clínica com o primo e rapidamente voltara para casa no momento em que a mãe de Noah apareceu por lá.
— Como posso deixar você aqui sozinho? — Perguntou o loiro ao moreno enquanto eles estavam na sala, ainda revirada após a confusão.
— Está se preocupando comigo, Samuel? — Olhou para ele.
— Não! Só querendo que você morra. — O fuzilou.
Luke sorriu, Samuel ruborizou.
— O meu pau mágico conquistou seu coração?
— Quer saber? Vai se foder.
Samuel deu as costas, saindo da república com facilidade, já que a porta estava caída. Luke, percebendo que não tinha o que fazer, correu, ergueu a porta e, mesmo sabendo que corria risco de ter a república assaltada, deu um jeito da porta parecer estar fechada e correu para alcançar o loiro.
— Ei, calma! — Disse ao alcançá-lo.
— Ora, ora... Resolveu então jantar conosco?
— É comida de graça. Não se rejeita comida de graça! — Coçou a cabeça e estapeou a bunda de Samuel. O loiro imediatamente parou. — Que foi? Você não gosta?
— Tá me achando uma puta sua, Luke? Se eu te chamei pra jantar, não significa que estou interessado em ir para a cama com você novamente.
— Veremos até a terceira taça de vinho. — Sorriu e caminhou convencido. — Vai mesmo rejeitar a minha bundinha? — Luke então parou, acariciou a própria nádega e sorriu travesso.
Samuel não resistiu e também sorriu, mas no fundo queria esmurrar aquele moreno.
Quando entraram logo encontraram Octavio e Leonard conversando no canto da sala, sentado próximo deles estava Santiago. Octavio falava sobre William e que queria ligar para ele, mas só não fazia por confiar no namorado e que ele apareceria a qualquer momento. Connor e Ian tinham chegado há pouco e Connor não parava de pôr comida em seu prato, mesmo Ian alertando que ninguém ainda comia. Danion e Caine foram vistos saindo do quarto, o branquelo usava calça, sandália e uma camisa regata, ignorando o frio. Já Caine estava agasalhado, há trinta minutos eles ainda estavam revirando os lençóis no chão, pois o da cama não puderam usar.
Logo Samuel e Luke interagiram com Clara e Gale, que foram os primeiros a se servirem. Não era um jantar formal, cada um vestia-se com o que queria, Clara, por exemplo, só usava uma blusa e calcinhas porque Gale a alertou, mas ela ficara com vontade de andar apenas de sutiã.
O tempo foi passando e todos já estavam comendo, as histórias foram colocadas em dia e Leo e Danion finalmente puderam conversar sobre o ocorrido.
— Não acredito que você o trouxe aqui. — Danion comentou para o melhor amigo.
Santiago estava sentado no sofá, isolado até Connor aparecer e sentar ao seu lado. Connor então puxou assunto, relembrando os tempos nos Tigres.
— As coisas ruins ficaram para trás. — Leo bebeu do vinho.
— Não te incomoda saber que Caine e ele...
— Quem se importa? — Leo mostrou as marcas em sua mão — Estou muito bem servido, Dan. — Brincou.
Do outro lado, Caine olhava para Santiago enquanto fingia ouvir o que Gale falava. Deveria ir até lá e conversar com ele, talvez novamente pedir desculpas e tentar algum diálogo e foi exatamente isso o que fez. Saiu do seu lugar, deixando Gale falar sozinho e parou em frente ao Santiago, sentando-se logo em seguida entre Connor e ele.
Santiago, desconfortável, olhou para Leonard que ainda não tinha visto aquilo.
— Como está? — Caine perguntou.
— Vamos, Connor, tem sobremesa! — Ian puxou o namorado pelo braço que aceitou sem pestanejar.
Sozinhos, Santiago o olhou.
— Bem. — Sempre monótono.
— Leonard mandou um exemplar da revista que você posou, ótimas fotos, Santiago. — Tentava a todo custo criar assunto.
— Ei, Caine — Santiago o olhou — Não quero parecer indelicado, mas não força a barra, tudo bem? — Dito isso, ele se levantou.
Caine ficou sentado e sem graça, talvez ainda fosse cedo para conseguir falar com Santiago. Santiago jamais perderia a sua essência. Nem todo mundo era igual naquele lugar. Perdoar não era algo comum para este.
Nesse mesmo momento Leonard viu quando Santiago caminhava para fora da república e rapidamente se prontificou a ficar em sua frente.
— O que houve?
— Melhor irmos embora.
— Por quê?
— Está chato, não estou me divertindo. E aquele garotinho vem tentar falar comigo como se do dia para a noite as coisas fossem ser esquecidas.
— Santiago...
— O que foi, Leo? Você pediu para que eu estivesse aqui e estou, mas acho que já deu a hora, não?
— Me desculpe.
Leonard estava desapontado.
— Deixe-me pelo menos dar tchau para o pessoal.
Leo abaixou sua cabeça e quando pensou em virar as costas, Santiago segurou a sua mão, Leo, surpreso, o olhou.
— Não faça isso... — Pediu, reconhecendo que estava errado. — É que ainda me sinto perdido nesse lugar.
— É a única família que eu tenho, Santiago.
— A quem devo pedir sua mão? — Olhou para todos na sala.
Leo sorriu e, esquecendo-se de que Santiago ainda sentia-se desconfortável, às vezes, o beijou. Santiago ao receber o beijou olhou ao redor, mas ninguém tinha achado aquilo estranho, todos estavam comunicativos e conversando bastante.
Naquele mesmo instante a porta da república foi aberta, e só nesse momento a atenção de todos foi roubada, levando os olhares diretamente para William Grandinni, o rei daquele lugar.
Ele estava acabado. Mesmo que não tivesse bebido, parecia um bêbado morador de rua. Rouba desabotoada e suja, o nariz com marcas de sangue e os cabelos bagunçados.
Como ele tinha feito aquilo?
Em um ato de rebeldia quando foi até a torre da cidade e de lá saiu gritando para o mundo palavras de ofensa, querendo rasgar a sua roupa.
Octavio caminhou quase que em câmera lenta até aproximar-se do namorado e tocar a sua nuca e acariciar. O gesto fez com que o loiro repousasse um pouco a sua cabeça e fechasse os olhos.
— Vamos tomar um banho e depois se juntar aos nossos amigos, certo? — Disse, baixinho.
William somente concordou.
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