República de Leões
24 Capítulo 24
Notas iniciais
O céu estava nublado, mas ainda assim alguns raios de sol escapavam por pequenos espaços perdidos ali. Era um belo dia, principalmente para o início dos jogos.
Pessoas caminhavam em direção ao ginásio onde seria realizado o evento. Evento esse que era considerado um dos mais importantes. Talvez, não fosse o fato de competirem pela coisa mais importante. Mas sim pela honra. Perder nunca é opção. Se existe guerra entre as três maiores repúblicas, as menores não iriam perder a chance de fazer alguma outra república seus servos por uma semana.
O ginásio estava cheio. Até pessoas que não moravam na Quadra estavam ali, certamente convidados pelos seus amigos.
A loira ao centro, segurando um microfone sem fio na mão, dava os detalhes e explicava como os times haviam sido escolhidos, também descrevendo a trajetória e o tempo deles.
— Cada time foi numerado, sendo assim, na caixa há números de um ao cinco. O primeiro time sorteado irá jogar contra o segundo sorteado. O terceiro, com o quarto. Ambos os vencedores se enfrentarão numa terceira partida.
— Mas vai sobrar um time. — Colin disse, achando que a garota se confundira na decisão do sorteio.
— Sim, vai sobrar um time. — Ela respondeu, um tanto nervosa.
— Significa que o último time, ou melhor, o que não for sorteado vai ser privilegiado e ficará descansando enquanto os outros se enfrentam. — Colin também era nervoso. — Não me force a fazer piada de loira, por favor...
— Mas não existe justiça na Quadra. Você é novato e não sabe de nada. Foi a decisão que tomamos. O quinto time ficará apenas estudando as estratégias, qualquer um pode ter a sorte de não ser sorteado.
— Mas isso é injusto! — Lydia gritou da arquibancada. — Há times que irão jogar três vezes consecutivas enquanto um apenas irá aproveitar a chance e facilmente derrotá-lo.
— Fale pelo seu time, Lydia. Não importa quantas vezes jogarmos, iremos vencer. — Sean estava próximo da garota.
— De qualquer forma isso é injusto. Quem escolheu essa louca para realizar os jogos? — Danion também gritou, esse por sua vez estava na multidão abaixo.
— Querida, eu sei que sua mente é tão perversa quanto a minha, mas ninguém vai ter disposição pra jogar três vezes seguidas. — Colton tomou o microfone da mão da garota.
— Não há justiça na Quadra! — A morena, também da organização, gritou.
— Mas que palhaçada é essa?! — Sebastian, que estava calado e apenas observando, ergueu a voz da arquibancada, silenciando a todos que ali estavam. Era a vez de o líder impor a voz.
Se havia alguém na quadra que pudesse silenciar a todos, esse alguém era ele. Certo que em alguns momentos Sean deixava escapar um sorriso de provocação, apenas para ir de contra a autoridade do outro. Mas nesse momento ele percebeu que não era apropriado fazer isso.
Sebastian saltou da arquibancada, caindo no chão em pose perfeita, dando um show de masculinidade, principalmente ao se levantar. Quão sortuda Lydia era?
Caminhou enquanto os demais se afastaram para ele passar, parou em frente à loira e então falou:
— Vai me explicar o que tá acontecendo ou devo te perguntar o porquê de estarem fazendo isso?
— Explicar o quê? — Ela gaguejou, olhou para a amiga, e a mesma desviou o olhar.
Sebastian caminhou até a caixa negra, feita de um papel mais resistente, e simplesmente a rasgou. Nada foi encontrado dentro.
— Mostre-me o que tem nos bolsos. — Ele perguntou, não ousando tocá-la. Estava sendo educado o suficiente.
A mesma se negou a fazer isso.
— Lydia... — O ruivo disse, em um tom normal que, devido ao silêncio do ginásio, foi fácil para a garota escutar.
Lydia, diferente do namorado, não saltou da arquibancada, ela desceu as escadas calmamente e foi mais agressiva, retirando a mão da garota dos bolsos e enfiando as suas ali dentro, retirando alguns pedaços de papeis. Não deixou que a morena escapasse, e também encontrou papeis com ela.
Em cada papel estava escrito por quatro vezes o nome das três maiores repúblicas, enquanto apenas uma vez o nome das outras menores.
— Vocês são burras ou o quê? — Dessa vez, a grosseria tomou conta do ruivo. — Acha que não iríamos notar essa trapaça? Trapaça essa feita por crianças, ou melhor, até uma criança seria mais inteligente ao trapacear.
— Ia sobrar um time, não tínhamos ideia o suficiente.
—Pouco me importa! Faríamos uma nova seleção, acrescentaríamos outro time, tudo o que fosse necessário, menos trapaça. O que vocês fariam, hein? De forma mágica enfiariam o nome de uma de nossas repúblicas — disse, referindo-se ao William e Sean — na caixa e, provavelmente, nos enfrentaríamos, dando espaço para um time das repúblicas menores aproveitarem enquanto estávamos exaustos? Você acha isso justo? Correto? Inclusive, as repúblicas da qual vocês fazem parte passaram na seleção. É impressão minha ou queriam fazer deles vitoriosos?
— Não nos culpem! Vocês ganham todos os anos.
— Nos divertimos, antes de tudo! E se vencíamos, certamente era porque nos esforçávamos. E nunca usamos uma das repúblicas menores como servos, usamos? Os jogos são pra todos na Quadra, mas devido ao aumento repentino de membros da Quadra, chegamos à conclusão de que teria a seleção, de forma justa.
— Não pague de bonzinho! Não há justiça na Quadra! —A morena gritou.
O silêncio tornou-se um caos. Uns acusavam Sebastian de injustiças dali, outros daqui. Havia quem o defendia. Caine até sofreu ofensas de alguns garotos que estavam ao seu lado, e imediatamente saiu da arquibancada, aproximando-se do irmão.
— Calem a boca! — O ruivo dessa vez tomou o microfone, silenciando-os novamente. — Os jogos estão cancelados por tempo indeterminado. Voltem pra suas repúblicas. Não ousem me desafiar agora, ou eu garanto que o pior acontecerá. — Ele disse, encarando uma jovem que o olhava, provavelmente querendo insultá-lo.
Sebastian caminhou sem antes dizer para onde ia. Ele apenas atravessou a multidão, que ainda assim o considerava líder da Quadra, abrindo espaço para que o mesmo passasse.
Já estava distante quando os companheiros líderes, a namorada e os membros das maiores repúblicas resolveram segui-lo.
Embora não quisesse admitir, sabia que havia uma divisão na Quadra.
Parou em frente ao bebedouro, e não demorou muito para que todos estivessem ali. Antes mesmo de se aproximarem do ruivo, ele disse:
— Sean, William e Octavio. Preciso conversar com vocês.
— Eu? — Octavio perguntou, surpreso.
— Você é tão líder quanto Sean.
O moreno tigre se sentiu ofendido.
Quando os quatro entraram no banheiro, Sebastian imediatamente se virou.
— Vocês sabem o que está acontecendo, não sabem?
— Se isso acontecer, direi que eles são burros demais. —Sean disse, imediatamente.
— Não acho que seja um ato impensado, eles certamente querem derrubar a hierarquia da Quadra. — No fundo, William queria concordar com Sean. — Eles cometerão um erro. Não dá pra ficar sem líder na Quadra.
— O engraçado é que eles fizeram de Sebastian o líder e agora querem pôr fim nisso... — Octavio aproveitou a fala do namorado.
— E nós sabemos o porquê disso... — Sean não segurou a língua.
Sebastian olhou para William e o loiro para o namorado.
— Somos culpados por aquilo. Na verdade, eu não tenho culpa nenhuma, sou obrigado a me manter calado por causa de vocês. Por mim, eu já teria contado tudo.
— Não vamos falar disso agora. — Sebastian resolveu mudar de assunto. — Joshua irá gargalhar do que aconteceu quando ouvir sobre isso.
— Já quebramos a cara dele e dos amiguinhos uma vez, não vou me importar de repetir o processo. — Sean como sempre dizendo o que vinha em mente.
— Não quero brigas, Sean. Prefiro evitar enfrentá-los.
— Eu ainda tenho a cicatriz que o Luke me causou. — Octavio comentou. — O que você fará, Sebastian?
— Por enquanto, nada. Não acredito que eles irão tomar uma atitude agora — disse, referindo-se aos membros da Quadra — mas no momento em que não mais me ouvirem, terei que estar preparado mentalmente e fisicamente.
— Temos as maiores repúblicas da Quadra, do que você tem medo? — Sean perguntou.
— Eles estão em maioria. — William respondeu, seco.
— Temos dinheiro. Tá, eu tenho.
— Cala a boca, Sean. Pensa um pouco. Eu durante todos esses anos evitei que o caos acontecesse. Sem liderança a Quadra torna-se um completo inferno. Não conseguimos vagas na república oferecida pela universidade, não tivemos essa sorte. O fim da Quadra significa que muitos aqui terão que voltar para seus estados. E há muitos que não tem sequer relação com tudo isso que tá acontecendo, não quero ser culpado por isso. — Sebastian desabafou.
— Não deixaremos que isso aconteça, Sebastian. Ainda há um jeito de pensar e acabar com isso de vez, não sei como. Você poderia indicar um novo líder ou... Fazer uma votação? — William sugeriu.
— Não acredito que isso vá resolver algo, se o que eles querem é viver sem regras, líder não tem importância.
— No final, teremos que partir para agressão. Não adianta usar palavra de conforto. Se eles não querem ordem, problema é deles. A república está no nome da minha família, não corro risco de ser expulso da Quadra e todos nós sabemos disso. Só não entendo por que essas crianças fazem esse show todo, sendo que a regra maior da Quadra é não envolvermos polícia.
— Não podemos deixar que os outros saibam o que está acontecendo. Tenho medo que ajam por impulso e acabem prejudicando ainda mais. Terei que ficar de olho no Caine para caso algum engraçadinho tente usá-lo para me atingir. Espero que vocês evitem conversar sobre isso em suas repúblicas, e William, segura aquele babaca do Danion. Sean, juro que te surro caso Adrian saiba. Não confio nesses dois garotos.
Dado fim à conversa, Sebastian abriu a porta do banheiro encontrando todos os outros espalhados, mas ainda assim próximos. Lógico que todos esperavam que o ruivo dissesse algo, mas este permaneceu calado.
— E então? — Colton perguntou, olhando-o confuso.
— Essa desgraça sempre incomodando. Não percebe que agora não é momento pra perguntas? — Colin disse, irritando-se com o outro.
— Aposto que tua língua tá coçando pra fazer perguntas ao William quando chegar na república. Anão ridículo.
— Eu já disse que vou quebrar essa tua cara, desgraçado! — Colin deu o primeiro passo, levantando o braço, mas felizmente ou infelizmente, William o puxou pela cintura, fazendo o pequeno se debater tentando sair dos braços do loiro.
— Não é hora pra isso, Colin. — Ele disse.
— Eu juro que vou pisar na cara desse garoto, me larga, William! — Ele gritava, ainda tentando sair.
Sean quem não estava gostando nada daquilo. Sua vontade foi socar William. Principalmente por ver que o loiro tinha todo o braço envolvendo o corpo do menor, ambos os corpos encostados. Tal pensamento foi tão absurdo, que considerou a posição íntima demais.
— Essa tampa de garrafa ainda acha que consegue bater em mim? — Colton sorriu, provocando.
— Que tal fazermos nosso próprio jogo? — Sebastian interrompeu a briga, colocando o melhor sorriso na cara.
— Como? — Colton se assustou, temendo que o ruivo pudesse querer mostrar que ele tinha alguma estratégia contra aqueles que queriam derrubá-lo.
— O ginásio tá livre, eu estou com vontade de jogar. E há séculos não mostro a vocês quem é que manda. Estou com sede de vitória.
Colton suspirou aliviado.
— Estamos em três times. Queremos prêmio. — Danion comentou.
— As regras continuam as mesmas. Porém, como estamos em três times, teremos que dividi-lo em dois. O time que perder irá fazer tudo que o time vitorioso pedir durante uma semana. — O ruivo disse.
— Não acho uma má ideia. Eu aceito a proposta. — Octavio, que sempre gostou de esportes, logo apoiou. William também ganhou o apoio quando exibiu um sorriso, porém, tal sorriso foi desfeito quando recebeu uma cotovelada em sua costela do pequeno que permaneceu a se debater.
— Eu ainda assim não irei participar, estou farto de confusão. E toda vez que jogam acabam brigando, não aceitando o ponto da equipe adversária. — Rick disse.
— Eu não estou a fim, mas se vocês quiserem... — Leo também disse.
Gaspar, Ian e Lydia também disseram não.
— Irei voltar para minha república. Não irei perder tempo com isso. Dois times... Significa que terei que me juntar a quem não gosto. — Sean não gostando da a proposta, falou.
Sean colocou suas mãos no bolso da bermuda e passou por Colin.
Não se sabe de onde Colin conseguiu forças para se soltar do William. Ele logo parou em frente ao Sean, conseguindo chamar a atenção do maior.
— Está com medo? — Colin provocou, mas Sean apenas sorriu. — Do que está rindo, idiota?
— De você achando que estou com medo.
— Mas é a verdade. O pessoal vai jogar, pondo em risco a reputação, diga-se de passagem. E você acabou de admitir que vai fugir. William é tão bom que deixa você assim?
— Não me provoca, garoto... Não adianta.
— Vamos fazer o seguinte, se por acaso eu perder, farei absolutamente tudo o que você quiser. Isso não inclui o meu time.
Sean não era tão ingênuo, Colin sabia disso. Mais do que a vontade de vitória, Colin queria que o moreno participasse, estivesse ali com ele. E a proposta era tão irresistível. Sean certamente iria aproveitar.
— E se eu perder? — Ele perguntou.
— Você fará absolutamente tudo que... — Colin olhou para o loiro ao lado. — Tudo o que ele pedir.
Quando digo que Colin era tão malvado quanto Sean, não minto. Nasceram um para o outro, tais provocações passavam dos limites. Era nítido o ódio carregado de tesão que um tinha pelo outro. Colin era tão doente quanto o outro.
— Por que essa anã britânica tem que colocar o William no meio de tudo? —Colton até que conseguiu arrancar gargalhadas, principalmente do Danion.
— Está certo. — Sean disse, dando meia volta.
Colin sentiu certo arrependimento ao fazer tal proposta. Sean não negou, não demorou a pensar. Apenas aceitou como se estivesse certo da vitória.
— Quem vai tirar time comigo? — Sebastian perguntou.
— Por que sempre vocês? Não, eu quero tirar time dessa vez.
— E eu jamais me juntarei ao seu time, então irei tirar também.
Sebastian levantou os braços em sinal de rendimento, vendo que a raiva dos dois pequenos estava clara.
Todos estavam levando a sério aquela rivalidade. Colin era tão ácido. Colton não deixava barato. O leonino estava em desvantagem e todos sabiam disso, ele não teria chances caso tentasse partir para agressão. Colton era bom de briga, e seu tamanho não era o ponto fraco. Pelo contrário, ele abusava do tamanho para se defender e atacar.
— Você primeiro... — Colton disse.
— William! — Disse, alto.
— Tão previsível, quem é o próximo... Danion? Sebastian? Octavio? Caine? Bem, como adoro essa rivalidade sexy dos irmãos, é lógico que escolho o Sean.
— Sebastian.
— Octavio. —Colton reconhecia o poder daquele.
Octavio ficou desapontado com a escolha de Colton. Não queria jogar naquele time, mas não queria parecer uma criança birrenta. Apenas aceitou.
— Caine.
— Danion, tão lindo. — O pequeno até acenou. Danion aceitou calado.
— Connor, você vai?
O leonino olhou para Ian.
— Posso?
Ian sorriu como um bobo após a pergunta. Connor estava pedindo permissão. Um aceno foi o suficiente.
— Connor! — Colin repetiu. Mesmo que esse o tivesse espancado no passado, não queria guardar mágoas. Acabou percebendo que o garoto era uma boa pessoa.
— Edgar.
Santiago e Adrian foram os últimos.
— Bem, como sei que não vai escolher o Adrian porque ele te espancou, e eu não gosto do Santiago, sabemos então quem fica com quem.
— Tá, e o que iremos jogar? — Colin perguntou, dado fim à seleção de time.
— O jogo mais esperado de todos na Quadra. O basquete.
Colin não fazia ideia de como se jogava isso.
De repente, Lydia apareceu com uma bola de basquete em mãos. Não se sabe como foi que ela encontrou aquilo, muito menos notaram quando ela saiu. A garota girou a bola nos dedos e sorriu, caminhando na frente enquanto os demais a seguiam para a quadra de basquete.
Alguns membros das repúblicas menores continuavam no ginásio, tanto é que se acumularam na arquibancada quando perceberam que haveria um jogo.
Colin, William, Sebastian, Caine, Connor e Santiago. Tal time tinha dois jogadores inexperientes, porém, a defesa era absurda, principalmente quando se tinha Sebastian e William. E bem, Sebastian valia por dois se levarmos em conta a sua altura.
Colton, Sean, Octavio, Danion, Edgar e Adrian. Tal time tinha Octavio, considerado o melhor jogador de basquete da Quadra, e Sean estava ali. Ambos eram sem dúvidas monstros quando jogavam em sincronia. A falha do time estava na comunicação, afinal, Sean não suportava ninguém em seu time.
Posicionados na Quadra, ambos os times estavam confiantes e esperando Lydia lançar a bola.
— E-eu não sei jogar isso. — Colin falou para Caine.
— Eu também não.
— Apenas passem a bola. — Sebastian bagunçou o cabelo do irmão, passando confiança para o menor.
Logo quando posicionados, Colin não retirou os olhos de Sean. O moreno tirou então a camisa, exibindo o físico que o pequeno já provara diversas vezes. Como amava aquele corpo, se sentiu desconfortável por isso. Sean não foi o único a fazer isso, logo, todos tomaram a mesma atitude de jogarem sem camisa.
Sebastian e Connor ficaram na defesa, protegendo a cesta. Caine e Colin ficaram no meio, e na linha de frente estavam William e Santiago.
A formação do time de Colton era previsível. Na linha de frente Octavio e Sean, no meio Colton e Danion. Na defesa Adrian e Edgar.
— Certo, grandalhões, as regras vocês já sabem. Há cestas de dois e três pontos, o jogo é dividido em quatro períodos de dez minutos, tendo uma pausa de cinco. Vence o time que fizer mais pontos. E pelo amor de Deus — deu ênfase — não briguem, apenas joguem e aceitem a derrota.
Foi só finalizar que a morena lançou a bola para o ar, correndo imediatamente antes de ser esmagada pelos dois brutamontes que saltaram. William saltou primeiro, porém, Octavio tomou mais impulso conseguindo usar a mão e lançar a bola para trás.
Sean, como já era de se esperar, avançou, atravessando a barreira feita por Santiago, mas foi tão fácil que ele deixou um sorriso escapar. Colin estava logo à sua frente, mas o pequeno era tão fácil de derrubar, que Sean quis humilhá-lo.
Parou em sua frente e segurou a bola com as duas mãos, estando no tempo determinado pelas regras, Colin tentou pegá-la, mas o moreno conseguiu lançar a bola entre suas pernas e pegá-la, deixando o pequeno boquiaberto e extremamente irritado. Já podia imaginar ele insultando-o mentalmente.
Porém, a ousadia do moreno acabou fazendo-o perder a bola facilmente para Sebastian, que ele nem sequer havia percebido, mesmo com todo aquele tamanho. O ruivo aproveitou e viu que William estava sozinho, e arremessou a bola para o amigo.
Octavio saltou na frente, roubando a bola para si, correu e saltou. Marcando uma cesta de três pontos aos dois minutos de jogo. A dupla imbatível.
Colin não fazia ideia de que o jogo era assim, ele certamente estava ciente da derrota. Não conseguiu sequer parar Sean, que o fez de idiota na frente de todos. Sua vontade era insultar o moreno e bater nele. Desejava sua morte.
O que ele não percebeu, foi a bola passando a centímetros da sua face, numa velocidade absurda. William estava perto da cesta adversária, ele conseguiu atravessar Edgar e Adrian, marcando uma cesta de dois pontos.
O jogo começou bem.
Colton estava com a bola em mãos, passou para Danion, e o branquelo, mesmo não sendo tão experiente quanto os outros, estava fazendo o melhor. Conseguiu até passar por William. Caine então decidiu tentar tomar-lhe a bola, mas o branquelo tentou fazer o mesmo que Sean, porém falhou, pois Caine já estava preparado e Sebastian apareceu logo atrás dele, intimidando Danion, que deixou a bola cair. Colin aproveitou a oportunidade, segurou a bola e a jogou para Connor.
Connor não era tão ruim no basquete, inclusive, participara dos jogos uma vez e não fizera feio. Porém, agora estava contra Octavio e Sean. Fez o possível e o impossível para conseguir atravessar o rei do basquete mas, vendo que não tinha chances, sua única alternativa era passar a bola para Santiago.
Santiago, após receber a bola, avançou. Desviou do ataque de Colton, girou no próprio eixo, desviando de Danion e pouco depois arremessou. Uma cesta de três pontos.
Ele ouviu um grito da arquibancada, Leonard. Evitou olhar para o lugar e apenas voltou à sua posição, antes que o time adversário iniciasse um ataque.
O primeiro tempo terminou com um placar de 18 pontos para os Tigres e 14 pontos para os Leões. Vale destacar que Octavio marcou três cestas de três pontos.
Ao final da pausa, quando o jogo retomou, William estava mais empolgado. Quando a bola chegou em suas mãos, graças a Caine, o loiro avançou tão rápido que se não fosse o aparecimento de Sean, ele certamente faria pontos em menos de um minuto.
Um loiro. Um moreno. Ambos se encarando. A tensão no ar era tão nítida que nem mesmo Octavio, tendo a chance de tomar a bola, resolveu intervir. William estava tão determinado a quebrar a barreira feita pelo irmão. Sean, por sua vez, iria provar ao loiro como se joga basquete.
William fingiu saltar, e quando Sean pulou, o loiro apenas avançou, passando pelo lado do moreno, que rapidamente virou para acompanhá-lo. William deu um passo para trás, desviando novamente de Sean. Irritado, o moreno semicerrou os olhos e impulsionou seu corpo, pegando um pouco de vantagem, tomando a bola e indo em direção à cesta inimiga. Colin estava novamente ali, parado em sua frente. Com raiva, novamente passou a bola entre as pernas do pequeno. Colin soltou fumaça pelos olhos. Coitado.
William não ficou para trás, conseguindo derrubar a bola da mão do Sean. Apanhando-a e tomando a direção oposta à que estava.
Por alguns segundos uma luta intensa pela posse da bola se iniciou. Era algo tão impressionante, que Colin observava boquiaberto aquilo. Ele não podia fazer nada, ninguém queria fazer nada. Era divertido e encantador de uma forma certamente estranha.
Corpos incríveis e suados. Era uma tentação para os olhos alheios, e Colin não podia negar que estava começando a ficar excitado com o que via. Porra, Colin, porra! Pensou o pequeno.
— Você vai intervir? — Caine perguntou para Sebastian.
— Se eu vou?! Cara, isso não acontece há séculos! William e Sean sempre são a atração do basquete quando se enfrentam no x1. — O ruivo respondeu, quase gargalhando.
E, ao que parecia, todos pensavam da mesma forma. Literalmente todos os outros jogadores não tinham mais necessidade na Quadra.
Quando pensavam que William finalmente marcaria ponto, Sean aparecia e impedia que isso acontecesse. O mesmo valia pro moreno.
Com a bola na mão, quicando-a enquanto corria, Sean focou na cesta e se preparou para saltar, William até gritou — grito semelhante a um rugido — e também saltou, tocando a bola e lançando-a para fora da Quadra.
Quando retornaram ao chão se encararam. Ofegantes e suados, pediram um tempo para beber água.
O jogo prosseguiu no mesmo ritmo, porém, dessa vez todo o time trabalhou em equipe. Ao final do segundo tempo, o placar estava com diferença de dois pontos. Leões com 30 e Tigres com 28.
— Por um acaso isso entre você e Sean é uma aposta? — Colin perguntou, observando William de costas.
— É questão de honra. Melhor que nós dois, somente Octavio. Combinamos de que eu iria quebrar a barreira do Sean e ele não pode interferir.
— E qual a graça de ter um jogo onde somente vocês dois participam?
William se virou, mais sério do que nunca.
— Enquanto ele estiver com a bola, sou eu quem deve recuperá-la. Entenda, Colin, é tudo questão de honra.
O menor se calou.
Santiago pôs a mão em seus joelhos, apoiando-as ali, estava exausto. O jogo deu início e ele foi obrigado a despertar, avançando e correndo em direção à bola que estava com Colton. O ex-leonino abriu os dois braços, impedindo o menor de avançar.
Colton tomou a iniciativa de passar por debaixo de seu braço, mas tal movimento foi tão previsível que Santiago tomou a bola para si, passando pelo menor, deixando-o para trás.
— Veadinho! — Colton disse, irritado por perder a bola.
Tal insulto foi suficiente para Santiago largar a bola e voltar furioso. Colton não teve nem sequer tempo de pensar, logo estava no chão com o nariz sangrando. Santiago aproveitou a oportunidade e chutou o estômago do menor enquanto caído, outro chute.
Leonard saiu às pressas da arquibancada, ele provavelmente tinha noção do que havia acontecido. Para quem passa por fase de aceitação, ser insultado com algo relacionado à sexualidade era extremamente perigoso, principalmente quando esse alguém guardava tal remorso pelo que era.
Todos ali só perceberam que Santiago batia em Colton, quando a bola saiu da quadra.
Sean e Colin foram os únicos a permanecerem em seu lugar, os demais tentaram separar Santiago de Colton.
William foi o primeiro a intervir, pondo-se no meio deles e retirando Colton dali, que estava muito machucado com a quantidade de chutes que tomou. Santiago estava preso nos braços de Octavio e Sebastian.
— Veadinho! — Colton tornou a insultá-lo.
— Eu vou matar esse garoto, me soltem! — Santiago gritava.
— Veadinho! Encubado!
Santiago até que conseguiu se soltar daqueles dois brutamontes por tamanha raiva que sentia. Porém, quando tentou tocar em Colton, Leonard apareceu em sua frente. Santiago parou, deu meia volta e correu em direção aos banheiros.
— Eu vou atrás dele. — Caine disse.
— Você não vai, fique aqui. — Sebastian disse, segurando-o pelo ombro.
— É claro que eu vou, sabemos o que está acontecendo, Sebastian.
— Isso não é problema seu, Caine. Você não vai, já disse.
— Sebastian, isso é mais sério do que você pensa. Não se sabe o que esse garoto pode fazer. Me solta.
— Caine... Não.
Caine, por mais uma vez, foi forte o suficiente para retirar a mão do irmão de seu ombro e correr atrás de Santiago.
— Não quero ninguém indo atrás dele! — Caine gritou. Todos pareceram concordar.
No fundo Sebastian sentiu orgulho do irmão por vê-lo como um líder nato e impor ordem. Incrível como todos o obedeceram.
William, assim como Octavio, estavam tão sérios e trocando olhares. Eles cuidavam dos ferimentos de Colton.
— Será? — Octavio murmurou.
— Não sei, talvez não.
— Eu estou preocupado. Se for isso que estou pensando, eu nunca iria imaginar tal coisa sobre ele.
— Leonard já me falou sobre, não acredito que seja.
E ambos finalizaram a conversa, dando total atenção ao Colton, que tinha os olhos cheios de raiva.
[...]
Caine olhou em todos os banheiros, em todas as cabines. Estava quase perdendo as esperanças de encontrar o garoto quando ouviu um barulho, semelhante ao de uma porta batendo. Acompanhou o som, até encontrar Santiago sentado ao chão na última cabine. Seus punhos sangravam e ele então pode notar o espelho quebrado.
Santiago tinha escuridão em seus olhos. Estava abatido, cansado. E não foi o jogo que lhe causara isso. Parece que no momento em que foi insultado, deixou escapar toda a mágoa que sentia durante todos esses dias, ou talvez metade dela. Até quem o odiava, sentiria pena dele se o encontrasse naquele estado. O garoto calado e misterioso que sempre foi, agora estava chorando, pondo para fora sua dor.
— Não se aproxima... — Santiago disse, em um soluço.
Embora temendo a raiva do outro, Caine deu dois passos e sentou-se ao seu lado. Em silêncio, eles permaneceram assim por cerca de dez minutos. Os únicos sons produzidos ali eram os dos soluços que Santiago deixava escapar enquanto chorava.
— Por que veio atrás de mim? — Santiago perguntou, querendo dar fim ao seu choro.
— Preferia ficar sozinho, sem ninguém pra te dar apoio? Nem sempre conseguimos ser fortes, Santiago.
— Seu irmão me detesta, não confia em mim por eu já trair os leoninos. Não acredito que ele vá gostar de te encontrar aqui.
— Bem, ele tem seus motivos. Mas eu não sou o Seb. Estou aqui apenas para te ajudar.
— Ajudar?
— Quer me contar o que está acontecendo? — Caine indagou, não querendo forçar nada com o garoto.
Caine, de todos na Quadra Nove, foi o único a não ter problemas com sua sexualidade. Não teve problemas com a família, muito menos se odiou por ser quem era. Santiago era totalmente o oposto daquele que estava ao seu lado. Caine seria tipo uma âncora que segura o barco sobre as ondas.
Um longo silêncio se iniciou novamente.
— Eu não sou gay. — Santiago murmurou, finalmente. Logo, uma lágrima desceu.
— Eu também não.
— Como não? Todo mundo sabe do seu amor pelo Danion. — Ele preferia não ter ouvido isso.
— Sim, mas apesar de tudo eu sou humano. Gay é só uma palavra que usam para me diferenciar dos demais. Não que eu me ofenda com isso. Só acho que, bem, a palavra deveria ser usada para uma boa causa, mas ela se tornou uma ofensa. Hoje em dia, chamar alguém de gay é um insulto à sua sexualidade.
— Mas continua sendo gay, não é?
— É, você está certo. Mas isso tem alguma diferença? Continuamos sendo garotos, temos corpo de garoto e um... Pinto?! — Caine o olhou, como se a palavra fosse um absurdo. — Você deixou de ser homem por isso?
— Eu não sou gay! — Exaltou-se, ofendido com a pergunta.
— Tá, tá, tá! Você não é gay, desculpe. Então faça de conta que estou falando sobre mim. Eu deixei de ser homem? Sou um monstro? Sou depravado? Dou em cima de todo mundo? Minha família tem vergonha de mim?
Santiago parou para pensar em todas as perguntas. Caine não deixou que ele respondesse.
— Pare de associar a palavra a uma ofensa.
Santiago novamente chorou.
— Eu tenho planos... E-eu quero ser pai. Não adianta dizer para mim que eu posso ser feliz sendo quem sou. M-mas eu cresci de uma forma diferente, e-eu, ah... Você nunca vai entender. Você nunca passou pelo que passei. E-eu quero ter um futuro sem ter que me esconder, sem ter de ser ofendido pelos demais.
— Santiago, por um acaso você já parou para pensar que não importa o que você seja, se negro ou branco, se pobre ou rico, se gay ou hétero, as pessoas sempre irão procurar um motivo para te julgar?
— Eu não quero ter que viver numa vida me escondendo e temendo a reação das pessoas, Caine.
Era impressão ou Santiago finalmente conseguira se abrir para alguém? Caine era tão educado e fofo que não precisou de muita coisa para fazer Santiago finalmente admitir seu real problema. O que na verdade não é um problema, mas sim uma fase árdua da vida de quem cresce ouvindo que tal sentimento é errado.
— Você não precisa, assim como também não precisa contar ao mundo o que você é. Apenas viva, sorria e faça o que for preciso. Garanta sua felicidade.
— Eu sonho com uma família. Não posso construir uma sendo assim. Eu quero casar, ter filhos... I-isso... imp-possível!
— Talvez seja esse o maior problema de quem passa pela fase da aceitação. Eu cheguei a passar por essa fase, mas não foi árdua. Não sei se é exatamente igual. Mas eu pensei em como seria meu futuro. E olha, hoje em dia, eu vejo que não há dificuldade alguma para tal. Há tantos meios de se ter um filho, Santiago.
— Uma família normal, Caine. É isso que eu quero. Um pai, uma mãe.
— Mas nesse caso, é uma escolha sua. Viver enganando uma garota e dizer que tem uma vida normal para seus filhos. Mas e se isso acontecer, já pensou se algum filho seu passasse pela mesma situação? O que você diria a eles? “Minta e finja, você conseguirá ser feliz.”
— N-não sei.
— Você conseguiria ser feliz?
Tal pergunta pegou Santiago de jeito, deixando-o quieto, calado e pensativo.
Santiago beijou Caine.
Impulso. Ele não sabia o porquê de ter feito aquilo, talvez, para provar para si mesmo se realmente gostava dos lábios de algum garoto. Caine, por sua vez, não rejeitou, apenas se assustou. Foi apenas um encontro de lábios.
— Caine...
A voz de Sebastian era tão conhecida, que só assim Caine afastou os lábios. Encarou o irmão um pouco sem graça enquanto Santiago continuou no chão, também sem graça e assustado. Pensou que Sebastian pudesse rir dele, mas o que o ruivo fez foi apenas erguer a mão para Caine e o puxar para si.
Sebastian estava surpreso com a descoberta.
— Foi pra isso que você o seguiu? — Ele perguntou, irritado.
— Eh... Ah... — Caine estava constrangido.
— Ele não tem culpa de nada, eu apenas quis... quis... quis...
— Não precisa explicar, Santiago. Só saiba que o que quer que tenha acontecido aqui, não deve virar notícia. Agora sei pelo que você passa. Não gosto de você, mas não irei te humilhar por isso. Colton já está na república e eu acho justo você ir para sua e só sair de lá uma semana depois. Acredito que ele não vá deixar as coisas tão baratas assim.
Caine parecia um boneco sendo arrastado por Sebastian. O ruivo estava com raiva. Sim, ele estava com ciúmes.
[...]
Depois daquela manhã caótica, o pequeno leonino estava na lanchonete sozinho. Maldito dia em que Rick escolheu não fazer comida e cada um tinha que se virar por sua conta. Colin, como era péssimo na cozinha, optou por ir à lanchonete, chamou Danion e Ian, mas esses negaram o convite. Com fome, não se preocupou em ir sozinho.
Não era um dia bastante movimentado, diferente do primeiro dia em que esteve ali. Estava esperando na fila pronto para fazer seu pedido. Como o dinheiro que sua mãe lhe dera serviu para ajudar na república, tinha que se contentar com o que estava na promoção. Hambúrguer, com porção de batatas fritas e um refrigerante a sua escolha. Infelizmente não era seu combo preferido.
— Se interessou? — Noah perguntou.
Noah McGraien era um loirinho, com olhos tão verdes, que todos os detalhes do seu rosto deixavam de existir graças à beleza que suas orbes tinham. Seus cabelos eram penteados para o lado esquerdo, arrumados, os lábios largos e nariz afilado. O típico filho de papai que tinha tudo o que queria.
Luke McGraien era seu primo. Moreno, seus olhos eram azuis, tão intensos e profundos como o mar, porém, um olhar travesso e pidão. Seus cabelos provavelmente eram penteados com os dedos, dando-lhe um ar rebelde. A boca era perfeitamente desenhada.
— Luke! — Noah o chamou.
— Oi?! —Ele se virou, encarando o primo.
— Não perca o foco, você sabe porque exatamente estamos aqui. Megan e Joshua logo chegarão.
— E seu namorado, o Caleb? Ele não vem?
— Não sei, estamos brigados. Disse para onde ia antes de sair do quarto. — Noah bebeu um pouco do suco.
— Porra, vocês brigaram mais uma vez? Isso ainda é por causa do Josh?
— Caleb é muito infantil às vezes. Ele quer que eu fique com raiva do meu irmão só porque brigaram.
— A relação de vocês é estranha. Ainda não entendo como namoram há quatro anos. Agora se me der licença... — Luke se levantou, voltando a olhar Colin à distancia, sozinho sentado em uma mesa.
— Aonde você vai?
— Ele é bonitinho, não é? Preciso conhecê-lo.
— Não podemos nos misturar com as pessoas daqui, Luke. Ele tem cara de ser um deles.
— Já comi tanto deles que não me importo com isso. Te amo, priminho, mas eu preciso conhecer aquele garoto.
— Luke! — Noah o chamou, mas o moreno fingiu não ouvir.
Luke era um caçador nato, já namorou algumas vezes, mas seus relacionamentos nunca foram duradouros devido ao jeito do garoto. Ele era sério, arisco, safado e um pouco engraçado. Não era uma combinação perfeita. Porém, por incrível que pareça, nunca traiu sequer um namorado ou namorada sua. Antes de se relacionar com outro, dava fim à relação.
Colin comia seu hambúrguer quieto e tranquilo, até se assustar com a aparição repentina do garoto.
— É bom? — Luke perguntou, pondo os cotovelos sobre a mesa.
Colin o olhou confuso, ainda com os dentes sobre o hambúrguer. Não conseguiu entender como um desconhecido bonito — ele tinha de admitir, se encantou pela beleza de Luke — estivesse ali.
— Eu não vou dar, é meu. Sim, sou egoísta. — Disse, finalmente mordendo o hambúrguer.
Luke se surpreendeu com a resposta direta de Colin. De longe parecia alguém tão indefeso e inseguro, mas sua resposta foi o suficiente para deduzir sua personalidade. Colin era tão arisco quanto Noah, a pessoa mais venenosa que ele conhecia.
— Vai ficar aí me olhando? Eu não te conheço, garoto, é melhor sair daqui. Está me atrapalhando.
— Costumo apreciar o que é bonito. — Disse, sem temer.
Colin engasgou, tomou um pouco do refrigerante após tossir algumas vezes.
— É impressão minha ou você está me cantando?
— Talvez eu esteja, mas eu não quero parecer aqueles garotos depravados. Só achei você bonitinho e não poderia deixar escapar a oportunidade de te conhecer. Sabe-se lá quando colocarei os pés pra esse lado novamente.
— Então você não é daqui? Que estranho, parece que eu já te vi em algum lugar.
— Tenho a mesma sensação.
— Luke! — Uma voz áspera chamou a atenção do moreno, ele olhou para trás.
Colin olhou para o garoto que o chamava a distância, acompanhado de mais dois garotos e uma garota.
— Acho que você precisa ir. Seus amigos estão te chamando.
— Sim. Acho que acabou de descobrir meu nome.
Colin assentiu, novamente mordendo o seu hambúrguer.
— E não vai me dizer o seu? — Luke o olhou confuso.
— Que diferença faria? Não nos veremos novamente.
— Isso quer dizer que está querendo me ver novamente? — Luke indagou, interpretando a frase de outra forma. Colin engasgou.
— C-claro que não! Eu só falei que não tem a menor diferença passar meu nome a um estranho.
— Luke! — Novamente alguém chamou.
— É melhor você ir. Não quero que aqueles brutamontes venham até aqui. Estão todos me encarando e eu não gosto disso.
— Eu não me importo com isso. Não saio daqui até descobrir seu nome. — Luke o fuzilou. Tais olhos eram tão belos que Colin até desviou.
Colin ficou em silêncio. O garoto era realmente persistente e um tremendo pé no saco. Era tão sério e travesso ao mesmo tempo que Colin não conseguia entender o que se passava em sua mente. Estaria ele cantando-o?
— Colin. Pronto, agora você já sabe o meu nome.
— Prazer, Colin. Nos veremos em breve.
Luke era tão descarado e despreocupado com todos ao redor que foi até o lado de Colin, deu uma mordida em seu hambúrguer e piscou para o pequeno, que ia levantar para insultá-lo. Mas novamente viu o grupo de amigos que ele tinha. Não entendia porque sentia aquilo, mas aquelas pessoas causavam-lhe medo de tão sérios que eram.
[...]
William tinha acabado de sair do quarto, Octavio estava no banho e os demais dispersos na república. Passou pela sala e encontrou Danion dormindo. O branquelo era o garoto problema da república e William às vezes tinha dúvidas se era realmente certo mantê-lo ali dentro.
Saiu da república direcionando-se para a de Sebastian. O ruivo foi quem atendeu a porta, logo quando entrou, encontrou Sean sentado no sofá. Parece que eles também conversavam.
— Ótimo, a leoa está aí.
— O que ele faz aqui? — William perguntou.
— Provavelmente o mesmo que você. —Sebastian disse, olhando um tanto apreensivo.
— Eu não vou entregá-lo! — William defendeu, imediatamente já se sabendo o que conversavam.
— Você deve fazer isso, caso contrário mais pessoas irão pro abate por causa daquele merda. — Sean disse, levantando-se exaltado.
— Não quero briga aqui dentro e falem baixo que tem pessoas nos outros quartos. Não podemos expor tal informação.
Se Sean estava ali, era apenas por um motivo: Colin.
— Aquele garoto fez merda e tem que pagar pelo que fez. Por causa desse segredo, pessoas são pegas desprevenidas e espancadas por causa dele.
— E desde quando você se importa? Quem da quadra é tão importante pra você? Nenhum dos Tigres foram vítimas até o momento.
— Mas ele está certo, William. Eu não quero ter que ver mais ninguém machucado. E nós sabemos perfeitamente o porquê dos outros estarem se virando contra mim. Eles desconfiam de algo. Tem alguém espalhando boatos por aí. — Sebastian não queria mais ficar em cima do muro.
— Vocês não entendem? Eles o matariam caso descobrissem. Ele era novato, não sabia da divisão que existia entre a Quadra e o Ninho.
Ninho é o nome dado às repúblicas oferecidas pela universidade. Tal nome foi criado pelos próprios universitários, por se considerarem pássaros em liberdade.
— Foda-se, se vocês não fizerem isso eu vou lá ao Ninho e conto toda a verdade. — Sean fuzilava Sebastian, querendo que ele tomasse alguma atitude.
A última vez em que William ficou com raiva de Sebastian foi pelo motivo do ruivo ter conversado a respeito do segredo. Porém, Sebastian achou necessário falar, pois se Sean descobrisse, ele acabaria entregando e não entendendo o que se passava.
— William... — Sebastian suplicava, querendo que o amigo compreendesse.
— Eu não vou entregar o Danion. Ele pode ser um babaca, um estúpido, problemático que só se mete em confusão. Mas não quero vê-lo como os outros. Talvez, você queiram mandá-lo para o abate porque não conseguem suportá-lo. — William atingiu a ferida de Sebastian.
— Não envolva o meu irmão nisso, William.
— Mas é exatamente por isso, Sebastian. Eu sei que sou um tremendo filho da puta por deixar que outros apanhem no lugar dele, mas eu não posso deixar que nenhum mal aconteça a eles. E pelo que parece, Josh esqueceu do ocorrido.
— Mas que porra! — Sean agora o encarava.
William não queria dar continuidade ao assunto, saiu da república irritado e voltou para a sua. Encontrou Danion agora acordado, o loiro preferia ignorar sua presença, mas o branquelo fazia qualquer um notá-lo.
— O que aconteceu?
— Querem te entregar.
— C-como?! — Danion saltou do sofá.
— Eu não vou deixar que isso aconteça.
— Você não pode, Will. E-eu vou sendo odiado por todos na Quadra.
— E o que você acha que vão fazer comigo também? As pessoas não mais me respeitam por desconfiarem de mim. Sabem que estou protegendo alguém. Mas sabe de uma coisa? A culpa é inteiramente sua, Danion. — William estava furioso, descontando o estresse no branquelo — Se você ao menos fosse alguém que mostrasse arrependimento, se comportasse, e não vivesse se metendo em merda, nada disso teria acontecido. Mas não, você não passa de um riquinho mimado que acha que tem tudo nas mãos.
Danion ficou sem palavras, além de temer a raiva do loiro. Ele sabia que era culpado. William conseguiu dizer tudo que estava entalado em sua garganta.
— E ele? — Perguntou, referindo-se ao Sebastian.
— Sean conseguiu convencê-lo. Mas você que é um babaca por brincar com o irmão dele, Danion. Eu ainda espero o momento em que você amadureça e ponha essa cabeça no lugar. Você não tem juízo!
— Cara, eu não fazia ideia de que aquilo daria nisso tudo. S-se eu soube, sei lá... Eu era novato e não tinha noção da rivalidade que existia.
Octavio descia as escadas, os cabelos ainda úmidos, ele parecia pedir silêncio para os dois.
— Por favor, não piorem a situação. Daremos um jeito nisso e ninguém mais irá se machucar.
Alguém bateu à porta. Octavio, não vendo problema, caminhou até ela, abrindo-a. Quando William olhou para o moreno, viu que coisa boa não era. O namorado parecia ter visto algum fantasma. Danion, olhando distante, preferiu sair dali. William então se aproximou da porta, conseguindo ver claramente quem estava ali: Joshua, Megan, Caleb, Noah e Luke.
Joshua era literalmente o líder dos cinco, ou melhor, o líder de todo o Ninho. Embora não fosse necessário haver liderança, afinal, o lugar era propriedade da universidade e eles eram responsáveis pelo lugar. Mas querendo ordem e poder, Joshua, dono de um temperamento violento, conseguiu facilmente mandar em todos que quisesse. Um ruivo.
— William... Quanto tempo! — Joshua sorriu, sádico.
— Até parece que não nos vemos nos corredores da universidade. — William tentou parecer seguro.
— Sempre com as mesmas respostas. — Noah resolveu participar do diálogo. — O povo desse lugar é tão sem criatividade. Olhem só as casas — o loirinho olhou ao redor — todas acabadas, sem cores. A única arrumadinha é essa aqui. —Ele disse, olhando para a de Sean.
— Sean! — Luke pareceu se animar. — Ele ainda mora aí? Cara, aquele moleque é bom de briga.
— O que você quer, Joshua? — Will perguntou, irritadiço.
— Estou aqui pra por um fim em tudo, ou melhor, pela última vez.
— Última vez?
— Bem, nas três vezes passadas em que tentei um acordo, três pessoas desse lugar sofreram as consequências. Estou querendo por fim em tudo isso e querendo que você me revele quem foi o babaca que acabou com nossa festa. Caso contrário, a guerra será entre nós líderes. E sabemos bem o fim de tudo isso.
— Ainda é cedo pra decidir o vencedor, Josh. — Sebastian apareceu, juntando-se a William. Lydia o acompanhava, assim como Sean.
— Que nostálgico isso. Vejam só, eles cinco e nós cinco. — Megan estava sorridente.
— Seu cabelo ainda não cresceu, Megan? — Lydia provocou. — Nossa, adorei colocar fogo nele.
Até Lydia tinha uma rival. Megan preferiu não responder.
Joshua era alto e ruivo. Tinha olhos verdes, entrando em contraste com a cor de pele e cabelos vermelhos. Era um pouco mais baixo e menos musculoso que Sebastian, mas ainda assim conseguia fazer qualquer um temê-lo pela má fama que carregava. Era irmão de Noah, o loirinho traiçoeiro, namora Megan desde o momento que pisou na universidade.
Megan tinha cabelos na altura do ombro, em corte chanel. Era baixinha, uma anã perto do namorado Joshua. Morena e de olhos castanhos. Qualquer um que olhasse para a garota iria admirar os seios fartos.
Caleb era tatuado e suas tatuagens escapavam pela camisa roxa que usava. Seus olhos eram também verdes como os de Josh, porém, havia no pescoço uma cicatriz das várias brigas em que se meteu no Ninho, inclusive, foi Joshua quem causou a cicatriz. Seus cabelos eram castanhos e levemente espetados. Usava camiseta, exibindo a tatuagem em seu braço.
— Nostálgico? Bem, da última vez que brigamos quase fomos expulsos da universidade por quebrarmos mesas e cadeiras. Isso é bom pra você? — Octavio perguntou para a garota que parecia se divertir com tudo aquilo.
— A briga só aconteceu ali por causa desse aí que tá calado. — Noah apontou para Sean.
— É o Sean, Noah! — Luke novamente sorriu. Ele parecia gostar de tirar sarro do moreno. — Não se lembra dele? Nunca vou me esquecer desse nome, o garoto que conseguiu dar um soco em mim. O que foi que eu fiz mesmo? Ah, lembrei, cortei alguém, só não lembro quem.
Octavio preferiu ficar calado.
— Que seja, isso não é nome de gente.
— Então, não vão mesmo entregar a pessoa que queremos? —Joshua perguntou, indo direto ao ponto.
— Não queremos, Josh. Você não deve sair querendo bater em todos por causa de um erro que um dos nossos cometeu.
— Um erro imperdoável, William. E eu não vou parar até descobrir quem foi.
— Josh, é melhor parar ou eu irei realmente responder as suas provocações da maneira que você quer. Por muito poupei os seus companheiros. — Sebastian pareceu ameaçador.
— E você acha que venceria, Sebastian? — Josh indagou, não temendo a resposta. Ele tinha ar de vitorioso.
— Vencer? E tem de haver algum vitorioso nisso? Parece que você sente prazer em machucar as pessoas e eu não quero envolver mais ninguém nisso. Se a rivalidade existe entre nós, outros não precisam ser prejudicados.
— Sim, venceríamos. — William interrompeu a fala do ruivo.
— Sério, William? — Josh gargalhou — Há muito tempo estamos à frente de vocês. Sei de quase tudo que acontece aqui por um dos seus.
William pareceu surpreso.
— Está me dizendo que você tem uma espécie de espião aqui?
Abrindo passagem com malas em mão, Gaspar saía da república cabisbaixo e temeroso, mas ainda assim com atitude e coragem para se juntar aos rivais da Quadra. Ele murmurou algo no ouvido de Joshua que sorriu largo. Parecia ter ouvido a melhor coisa do mundo.
— Gaspar? — William soltou um murmúrio.
— Me desculpe, William... Mas não dá pra ficar aqui com vocês. — Ele disse, ficando ao lado de Noah.
— Por que?
— E-eu me sinto limitado aqui na Quadra. Quando eu tentei dar aquela festa, vocês não permitiram. Há muito tempo esse lugar perdeu a graça. Eu literalmente nem morava mais com vocês, vivia saindo pra ficar com o pessoal do Ninho.
— Viu? Eu estou sempre à frente de vocês, não importa o que tentem, eu irei saber primeiro e saber me defender. Sei do caos que a Quadra tá passando pelo segredo de vocês, será que sua liderança durará? — Virou-se para Sebastian.
Todos estavam boquiabertos com o que acabaram de ver. Gaspar era um traidor. Principalmente William, que já foi traído por muito dos seus e mais uma vez isso acontecia, só que dessa vez não houve aliança com Sean, mas sim com os rivais da Quadra.
— Gente?
Imediatamente todos olharam para o dono da voz. Colin estava se sentindo um completo estranho com todos aqueles olhares.
— O que está acontecendo aqui? — Ele perguntou, vendo que havia algo estranho acontecendo em frente à sua república.
— Olha só! — Luke saiu do seu lugar, pondo a mão no ombro do pequeno — Tão bonitinho ele, né gente? — Luke indagou, sorridente. — É meu, encontrei na lanchonete.
— Seu? — Foi inevitável, Sean indagou por impulso e todos olharam para ele.
— Sim, meu. Algum problema?
Colin quis enfiar sua cabeça em um buraco. Por sorte, todos estavam focados na conversa que não deram bola pra o que Sean falou, sendo assim, ninguém desconfiaria de nada.
— Sai! — Colin disse, afastando-se de Luke.
— Esse Luke é um tarado, nos desculpem. — Caleb falou, pondo a mão na cara vendo que o amigo estragara a tensão do lugar.
— Como eu disse, é a última vez que apareço aqui, iremos nos encontrar nos corredores da universidade ou em qualquer lugar que seja, mas fiquem atentos pro pior. Eu juro que tentei conversar com vocês, mas parece que não se importam. Se mais gente sair machucada, saibam que a culpa é inteiramente de vocês.
— Então vá embora sabendo que irei caçar todos aqueles que machucarem um dos meus. — Sebastian ameaçou.
— É guerra, Sebastian? — Joshua o encarou, dessa vez o sorriso foi desfeito.
— Entenda como quiser, Josh, só não deixarei mais ninguém daqui sair machucado.
— Então cuide do seu irmão. — Joshua sorriu e deu as costas, fazendo com que todos tomassem a mesma atitude.
Sebastian ia avançar, ficou furioso quando ouviu o irmão mais novo sendo ameaçado, mas William e Octavio conseguiram segurá-lo.
Luke, antes de ir embora, olhou para Colin e mandou-lhe um beijo e uma piscada. Sean aguentou tudo aquilo calado. Olhou para o pequeno, que estava completamente perdido. Se esses viviam brigando, agora teriam mais motivos para tal.
[...]
Há alguns anos, uma briga quase colocou fim na Quadra Nove. As repúblicas oferecidas pela universidade, ou melhor, o Ninho, tinham o apoio da diretória para o que quer que fosse. A Quadra era apenas conhecida como lugar de baderneiros e tudo de ruim acontecia naquele lugar.
Não é à toa que pessoas escolhem tal lugar por não haver mais opção. A república dos Tigres não era exatamente uma república, era apenas a casa de um estudante, família do Sean, até ele fazer do lugar uma república. Logo, os Águias apareceram e finalmente os Leões.
Na geração de Sebastian, William e Sean, um novato chamado Danion dera início à guerra que antes teve fim.
— Logo eu comandarei a Quadra e a transformarei num lugar melhor que o Ninho. — Colton disse, olhando seu reflexo no espelho.
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