República de Leões
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Às vezes, não é legal provocar aquele considerado um dos mais temidos da Quadra. Quando punhos se fecham, sinal de que coisa boa não irá acontecer. Quando a ira de um Tigre é despertada, é difícil realmente de segurar.
Mas, antes que isso acontecesse, a mão amiga de Octavio segurou seu punho, imediatamente acalmando o amigo. Ele conhecia Sean tão perfeitamente que se por acaso o amigo se deixasse ser dominado pela raiva, acabaria agredindo quem quer que fosse, e sua força, quando tomado pelo ódio, era impressionante.
— Você tem certeza dessa escolha, não tem? — Ignorou as palavras de Colton.
Connor só não se escondeu entre os novos amigos, porque não tinha lugar. William era o único maior que ele, e o loiro ainda mantinha distância. Apenas assentiu.
— Espero que você aguente viver aí. Não há voltas, Connor.
E saiu de lá.
Sean teria jogado todas as coisas de Connor pela janela se Octavio não resolvesse tomar a frente.
Connor já estava impedido de entrar em sua república, e não teve o direito de recuperar suas coisas. Octavio quem pegou tudo que era do garoto e ainda ajudou a levar à sua nova república. Os demais não ousaram fazer piadas na presença do ex-namorado de William. Provocar Sean era diferente de provocar Octavio.
— Seja bem vindo, Connor. — Ian falou, sorridente.
[...]
Oito dias se passaram desde que Sean perdeu pela primeira vez um membro para os Leões.
Seus encontros com Colin não eram tão frequentes, o moreno resolveu relaxar a ter que brigar com o menor. E claro que ele conhecia o outro, sabia que a qualquer momento o pequeno usaria Connor para atingi-lo, como sempre costumava fazer ao falar do irmão.
Octavio e William começaram seus estágios e já estavam abrindo mão da vida tranquila que tinham. Embora não possamos considerar sossegada uma vida dentro da Quadra. Caine passou o final de semana fora com Sebastian e Lydia, esses visitaram seus pais no jantar de trinta e quatro anos de casados. Danion, por sua vez, continuou a fazer as mesmas merdas de sempre, aprontar em festas e levar pessoas para sua cama.
Octavio improvisou uma cesta de basquete em frente a sua república. Era cerca de onze horas da manhã, dia ensolarado. Sean e ele competiam entre si para ver quem tomava a bola e marcava mais pontos. Octavio tinha a grande vantagem sobre o amigo, mas mesmo assim, este não desistia tão fácil e até marcou alguns pontos.
— Não vai desistir? —Octavio perguntou, provocando.
— Tô tentando quebrar suas pernas, se ainda não percebeu. — Foi essa sua resposta.
Sean avançou, mas Octavio, habilidoso, rapidamente passou a bola entre as pernas do moreno, o irritando mais ainda quando acertou em cheio a cesta.
— Tá muito fácil, preciso de um adversário mais forte. — Novamente provocou.
— Babaca. Não ache que você vai vencer esse jogo.
— Estou com mais de dez pontos de diferença. Quais chances você tem de me vencer? — Octavio girou a bola em seu dedo.
Sean caminhou em direção a sua garrafa d’água, sentou no gramado e repousou os braços em seus joelhos. Octavio se posicionou ao seu lado, mas ainda de pé.
— Entregando o jogo assim?
— Quais chances eu realmente tenho contra você? — Levou a mão à testa, impedindo de ter a visão ofuscada pelo sol.
Colin, sozinho em seu quarto, não retirou os olhos do moreno enquanto o observava jogando. Até torceu por sua vitória, mas notou que no basquete ele não era tão bom. Seu coração ardeu quando viu aquela pele sendo queimada na manhã ensolarada. O preferia com os cabelos negros e pele branca, mas mesmo ficando um pouco vermelho por causa do sol, sua beleza permanecia.
Recriminou-se ao pensar em tais coisas e tentou se afastar da janela, porém, Sean se atreveu a olhar para a janela da república à frente e para sua infelicidade, ou felicidade, encontrou Colin, parado, encarando-o.
A saudade apertou o coração de cada um deles. Há dias não mantinham contato íntimo. Os beijos quentes não mais existiam. Tudo pelo orgulho do Tigre que perdeu um dos seus e, evitando confusão, achou melhor se afastar do Leão.
Colin se afastou da janela segundos depois evitando aqueles olhos negros que pareciam queimar seu corpo, embora estivesse distante. A distância já não era mais problema para aquela ligação apenas com um olhar.
— Tem certeza que é apenas pegação entre vocês? — Octavio indagou, despertando o amigo daquela hipnose.
Sean se levantou e molhou sua face com o pouco da água que tinha.
— O que mais seria? — Disse, tranquilo.
— Essa cena me lembrou uma com o Colton, te fiz a mesma pergunta, dias depois soube do namoro secreto de vocês.
Sean por pouco não bateu no amigo.
— Não é algo que eu gostaria de ser lembrado. E Colin tem suas diferenças. São pequenos e afiados, mas o calouro tem um lado que eu não consigo explicar. Ele consegue ser melhor.
— Melhor em que sentido?
— Em todos.
— Não acha que está se apaixonando? —Indagou, caminhando ao lado do amigo.
— E eu lá tenho cara de quem me apaixono assim? E desde o Colton, pretendo me manter longe de relacionamentos sérios.
— Não é porque algo no passado te deixou bem abalado que você deve ter medo de coisas futuras. Eu ainda tenho meu pé atrás com Colin, mas se você realmente estiver apaixonado, eu vou ter de te apoiar.
— Eu não estou apaixonado, Octavio! E mesmo que isso viesse a acontecer, eu cortaria o mal pela raiz. —Falou, abrindo a porta da república.
— Jura que não?
Sean revirou os olhos e apressou seus passos, deixando o amigo para trás.
[...]
Danion fumava... Como de costume. Os pés largados no sofá da sala e a cabeça repousada no estofado. Tinha um ar tão grande de superioridade que qualquer que passasse por ele o olharia dos pés a cabeça e com certeza pegaria antipatia.
Colin, após descer as escadas, retirou os pés do garoto e sentou-se no lugar que sobrou. Irritado como sempre foi, novamente se colocou de pé e arrancou os cigarros das mãos de Danion e o lançou janela a fora.
— Tá maluco? —O branquelo perguntou, irritado.
— Se você quer morrer, o problema é seu. Mas eu não quero e esse mau cheiro tá me incomodando.
— Custa pedir para que eu saia?
— E você sairia? — Encarou.
— Não, mas mesmo assim eu estava quieto, fumando e relaxando e você aparece para me infernizar. Ainda falam que eu sou o mais chato da república.
— Mas com certeza você é o mais chato da república.
— Só depois de você, é claro. — Se acomodou no sofá, irritado.
Ligou a televisão pondo em um canal de esportes. Danion não era fã de esportes e sequer entendia de tudo a respeito, mas adorava assistir competições.
— A porra desse almoço não vai ficar pronto? Eu deveria tá na lanchonete como o resto do pessoal costuma fazer.
— Se tá reclamando tanto porque não vem aqui me ajudar? — Rick gritou da cozinha em resposta.
— Mereceu. — Colin falou, exibindo o sorriso de quem provoca.
Danion o chutou não forte o suficiente para machucá-lo, apenas para retirar aquele sorriso. Porém Colin, ainda assim, permaneceu sorrindo, deixando o branquelo vermelho de irritação.
— Eu continuo curioso para saber o que são esses jogos da Quadra. Do jeito que vocês falam que as guerras entre Sean e William estão piores ultimamente, se eles se enfrentarem, com certeza vai ser um grande jogo e eu vou odiar perder.
— Já estou acostumado a perder. É sempre assim. E toda vez que Sean e William se enfrentam nos primeiros jogos, acaba em confusão. É divertido por isso.
— Alguém sai machucado? — Colin mordeu o lábio pela dúvida.
— Ano passado, um garoto acabou caindo e deslocando o braço.
— E mesmo assim continuaram os jogos?
— Claro. Há substituições. O garoto que foi burro demais e tentou me derrubar enquanto eu corria pra defender meu time.
Colin então mandou um olhar de surpresa para o branquelo.
— Foi você?
— E o que você queria que eu fizesse? Que deixasse ele ficar me empurrando a cada cinco segundos na tentativa de me derrubar? Foi suficiente um único pé para derrubá-lo.
— Se os jogos forem assim, eu realmente não vou querer participar disso.
— Larga de ser fresco. Você já enfrentou os brutamontes da Tigre e tá com medo? Já que a porra desse almoço não sai, eu vou dar uma volta. Se eu ficar aqui sentindo esse cheiro vou acabar indo na cozinha e comendo tudo pré-cozido.
O branquelo apenas calçou sandálias, retirou mais um cigarro do bolso e o acendeu assim que pôs os pés para fora da república. Sebastian passava por ali no momento.
Sebastian e Danion não eram considerados inimigos. Porém, o jeito audacioso do branquelo acabava irritando-o. E, pelas coisas que soubera, evitava contato deste com o irmão. O ruivo sempre soube dos sentimentos do caçula, e por conhecer o leonino tão bem, evitava que Caine se relacionasse com ele. A fama de Danion não era motivo de orgulho.
— Bom dia, senhor líder e soberano da Quadra Nove. — O branquelo falou, provocador.
— Bom dia, senhor Salladric, dono de toda riqueza do mundo. — Respondeu no mesmo tom de voz.
— Como vai o irmão?
— Bem longe de você.
— Não entendo o porquê desse preconceito comigo. — Abriu os braços — Não faço mal ao seu irmão, Seb. — Danion então se aproximou do outro, procurando sombra.
— Não faz mal? —Gargalhou, cínico. — Claro que faz mal. Muito mal. A propósito, eu tenho que quebrar uma promessa.
— Você quebrando promessas? — O sorriso. — Então eu não sou o único errado da Quadra, não é? Se até o líder dela vive a quebrar promessas, porque não posso?
— Só que essa é por uma causa justa.
Danion não teve tempo de pensar quando recebeu em cheio um soco de Sebastian. Seu corpo só não caiu no chão porque ele se equilibrou. Foi imediato o sangue descendo de seus lábios. Ele sorriu, virando o rosto para o ruivo. O vermelho do sangue entrou em contraste com o branco dos seus dentes. Aquilo doeu muito, mas ele não demonstraria nada.
— Caine chegou em casa completamente estranho. Parecia tentar me esconder algo, até sentir o cheiro de cigarro. Você sabe que meu irmão não consegue mentir, Danion. Não quando eu sei usar das palavras.
— Então ele contou a verdade? — Cada vez que falava, seus dentes ficavam mais vermelhos.
— Tentou te defender, como sempre. Mas eu já cheguei ao limite. Tentei por dias me segurar para não te bater porque prometi a ele.
— Por um acaso ele contou que eu o beijei? — O branquelo cuspiu, tentando eliminar o acúmulo de sangue, e em seguida passou a mão para limpar seu lábio.
Sebastian já era ruivo, e com a face vermelha pela raiva que sentiu no momento, assemelhou-se a um tomate. Segurou-se para não mais socar o branquelo.
— Você tá assumindo para mim que também curte garotos, Danion? Eu bem que suspeitava.
— Eu sempre curti, na verdade. Acho que já está na hora das pessoas saberem. Passei dias pensando nisso, e se quer saber, não mais me importo. E eu não sou gay, antes que pense. Claro que prefiro viver do proibido e pegar aqueles cuja população considera algo errado e sujo. Posso até ser bi, porém, prefiro garotos.
— Eu nunca entendi porque meu irmão consegue gostar tanto de você, sinceramente...
— Talvez porque seja eu que apesar de tudo consegue mostrar-lhe as loucuras do mundo. Por favor, Sebastian, até quando você vai prender seu irmão? Caine não é mais uma criancinha, é graças a você e toda essa sua proteção que ele tem medo do mundo. Medo das pessoas.
— Meu irmão é jovem e gay. Era eu quem o defendia das malditas piadas que ele sofria na escola. Eu sacrificava meu intervalo para vigiá-lo, evitando que pessoas como você, de má fé, tentassem agredi-lo. Eu não vou deixar você fazer meu irmão de putinha, Danion. E, se por acaso, eu novamente souber que você está ensinando-o a fumar, as coisas vão se estreitar pra você. E não me importo se William tentar intervir, eu realmente quebro seus dentes e desfaço esse sorrisinho seu. E o soco será mais forte que esse.
O ruivo deu as costas e voltou para sua república. Danion poderia ser alguém bom de briga, mas seu corpo comparado ao do outro, era tão inferior que as chances de tentar vencê-lo eram mínimas. Sentiu uma raiva súbita e não soube explicar o motivo para isso. Entrou em sua república chutando a porta, assustando a Colin, que quando ia xingá-lo, notou a fúria do outro e preferiu ficar em silêncio.
[...]
Sebastian acabara de entrar em seu quarto, quando Lydia o abraçou para beijá-lo. A garota notou que o namorado não estava bem, e até desfez o abraço para que pudesse encará-lo. O ruivo caminhou até sua cama, retirou os sapatos e repousou sua cabeça no travesseiro.
— É meu último ano aqui e eu realmente não sei como vou embora sabendo que Caine ficará sozinho.
— Você quebrou a promessa que fez ao Caine, não foi? — Lydia indagou, suspeitando.
— Eu não resisti. Eu estava voltando do banco quando o encontrei parado em frente à república. Eu juro que tentei ficar quieto, mas ele veio com provocação.
— Sebastian, Caine vai ficar muito magoado com você. Olha, eu até entendo que você só quer o melhor do seu irmão e eu admiro isso, mas ele precisa aprender a quebrar a cara. Uma hora ele vai se tocar que esse garoto não quer nada com ele.
— Mesmo assim, não vou deixar que aquele garoto faça meu irmão de empregado ou de saco de pancadas. Eu deveria ter batido mais nele, ah se deveria.
— Vem cá.
Lydia puxou o namorado da cama e retirou sua camisa, admirando pela milésima vez o corpo bem definido do namorado e as tatuagens espalhadas em seu corpo. Pôs Sebastian sentado em uma cadeira e os braços sobre as pernas.
— Relaxa os ombros. — Pediu.
Lydia costumava fazer massagem em seu namorado quando ele se encontrava em momentos assim. Acostumou com o tempo e até se sentia bem fazendo isso.
A porta do quarto imediatamente foi aberta com Caine aparecendo.
— Você prometeu! Prometeu não bater nele.
Sebastian antes de responder abaixou sua cabeça e passou a mão em seus cabelos. Levantou-se e se aproximou do irmão, mas imediatamente os braços pequenos de Caine o impediram de se aproximar.
— Me desculpe, eu juro que tentei me segurar.
— Mesmo assim, uma promessa não deve ser quebrada. Eu nunca mais vou acreditar em você, Seb. Não mais. Eu vi você batendo nele.
— A paciência me faltou, Caine. Ainda não fiz o que realmente tenho vontade de fazer. Já disse que você é novo demais e sou eu quem vai te defender sempre aqui na Quadra. Aquele garoto te fez fumar. O que você espera que eu faça? Que fique sentado apenas observado você ser influenciado?
— Ele não me forçou a nada. Eu quis experimentar. —Mentiu.
— Desde que você nasceu eu te conheço. Acha mesmo que não consigo ler seus pensamentos? — Exagerou. — Fumar tá longe de ser uma de suas vontades.
— Ai, Seb, às vezes eu tenho vontade de sair daqui. Essa sua proteção às vezes me sufoca, sabia? Eu realmente não sei por que não posso fazer exatamente tudo que eles fazem.
— Pra onde você iria? Se tornar um deles? Eu não sou obrigado a ouvir isso, Caine. Nossos pais estariam decepcionados caso ouvissem isso de você. Parece que você adora ser maltratado, pisado e ser feito de lixo por ele. Caralho, tu ama quem não te ama. Sabe que pessoas assim tendem a sofrer.
— E daí se eu o amo? Você também não ama a Lydia? É amor.
— Mas no meu caso é recíproco. O seu é apenas uma ilusão, Caine. Uma ilusão. O garoto só quer te fazer de empregado. A propósito, eu retirei todos os cigarros que você esconde em seu quarto. Chega! Chega disso, caralho.
— Você não tem o direito de mexer em minhas coisas. Eu não quero mais falar com você, Seb. Nunca mais. — Caine foi obrigado a dar as costas para o irmão.
— Volta aqui, Caine. Não quero você com raiva de mim... — Sebastian tocou-lhe o ombro.
— Vai se foder, me larga! —Disse, retirando a mão do outro.
O ruivo assemelhava o menor como uma criança, literalmente. Palavrões nunca fizera parte do vocabulário do outro, e até para Lydia aquilo foi uma surpresa. Caine, com seus dezoito anos, estava dizendo palavrão e aquilo era algo histórico para o mais velho dos Luduzi. Não que palavrão fosse algo realmente impactante, mas mandá-lo se foder era sinal de muita ofensa.
Caine até parou de andar quando notou as palavras. Tentou se virar para encarar e se desculpar com o irmão, mas Seb simplesmente afastou-se dele e saiu do quarto. Realmente irritado e decepcionado com o irmão. Lydia tentou sorrir para o menor e passou por ele. O namorado, no momento, era a prioridade.
[...]
Mais um plantão. Quando os estágios retornaram, William e Octavio passaram por um rodízio de problemas. A começar por pessoas com ferimentos considerados leves, até casos graves como queimadura, atropelamento e gente esfaqueada. Nada que causasse-lhes espanto, já estava tão habituados com coisas assim e seu dever era apenas cuidar, claro, sob cuidados do médico formado que os auxiliava.
Dessa vez, os dois estavam dentro de uma sala com milhares de papéis a serem organizados em diferentes tipos de caixas. O loiro era encarregado de separar os diversos tipos de casos, enquanto o moreno colocava caixas nas prateleiras. William estava sentado. Octavio de pé.
Observar William usando jaleco, com os cabelos maiores do que antes e barba por fazer, matava Octavio de orgulho. Ele não estava diferente do loiro, mas por acompanhar tudo desde o início e ver em sua frente o resultado de um sonho de infância, enxia seus olhos de lágrimas.
— Confesso que hoje eu preferia tá na emergência. — William disse, suspirando.
— Estamos apenas obedecendo ao que a Ellen pediu.
— Prefiro estagiar pela manhã, há casos para serem resolvidos. E Ellen nos colocou nessa tarefa que tá começando a me dar sono.
— É só uma etapa, William. E é de madrugada, o movimento é menor, deixa que eles dão conta das coisas lá, aproveita e cumpre o que nos pediram.
— Parece que o tempo parou.
— Temos mais duras horas de estágio, depois disso estamos livres. Não consegue aguentar até lá?
— Parece que tô aqui há um século e esses papéis nunca acabam.
— Há um jeito de melhorar as coisas... — Octavio então se levantou.
— O que? Enfiar tudo nas caixas e dizer que o trabalho foi bem feito?
— Não, idiota. Vamos esquentar as coisas.
Octavio surpreendeu William quando arrancou seu jaleco e o beijou. A sala era pequena e apertada, cercada por prateleiras. O loiro quase tropeçou com o susto que tomou e até afastou o moreno.
— Estamos estagiando, Octavio. Não acho que é certo.
— William, quebre as regras uma vez na vida. — Segurou o peito do loiro, sorrindo maliciosamente.
— Você é maluco. —E deixou escapar um sorriso.
Nem mesmo Octavio e William, considerados um casal perfeito, viviam de perfeições. Tem dias que nascemos simplesmente para quebrar regras. Esses são os verdadeiros jovens da Quadra Nove.
William puxou Octavio pelos dois braços, encostando o corpo do outro ao seu. A sala estava trancada, ele se lembrou disso e não se preocupou.
Talvez, aquele fosse o beijo mais ardente que já deram. Era rápido, feroz, com desejo.
— Espera, espera! —William disse, ofegante e com os lábios vermelhos.
— O que?
— Preservativos... Não faço nada sem, você sabe.
— Roubei alguns enquanto caminhávamos para cá. — Sorriu.
William dessa vez tomou o controle e girou em seu próprio eixo, pondo Octavio encostado à prateleira. Jogou seu jaleco no chão e pôs Octavio de costas para ele. O moreno se encarregou de tirar seu próprio cinto e abaixar sua calça. William teve certa dificuldade por conta da adrenalina que estava sentindo. Tudo que fez foi abrir seu zíper e dali mesmo pôr o membro pra fora.
Afastou as pernas de Octavio, pôs o preservativo e, sem delicadeza, adentrou no moreno, que mordeu o próprio braço pela dor e prazer sentidos, deixando escapar um curto gemido.
— Se eu for expulso da universidade, saiba que não te perdoarei. —William disse, acomodando-se dentro do outro.
— Pelo menos não foi um motivo qualquer. — Sorriu. — Tenho certeza que faríamos história. Há tantas salas no hospital que ninguém descobriria absolutamente nada.
— Ainda acho tudo isso uma loucura.
— Tá. Agora cala a boca e manda a ver, nosso tempo é curto. —Pediu Octavio, tocando a coxa do outro, encaixando-o.
William, antes de iniciar seus movimentos dentro do outro, beijou-lhe o pescoço, fazendo com que este arqueasse as costas. Quando Octavio suspirou, o loiro simplesmente se moveu arrancando mais suspiros.
A prateleira começou a ranger, mas eles poucos se importaram com isso. Um movimento dentro de Octavio equivalia a um movimento na prateleira, semelhante ao som de uma cama velha.
William não tinha piedade de Octavio e parecia investir cada vez mais forte no moreno, que gemia entre dentes, numa tentativa de abafar os gemidos.
— Vai com calma, William. —Pediu, sem ar.
— Não.
O loiro estava realmente disposto a prosseguir com os movimentos. Tanto é que quase derrubou a prateleira, o que o fez parar e esperar Octavio se acomodar. Mas quando isso aconteceu voltou a investir no moreno. A adrenalina era sem sombra de dúvidas a melhor coisa que o ser humano podia sentir.
Octavio sempre sabia quando o loiro estava prestes a chegar ao ápice. Este, em alguns momentos, costumava morder seu pescoço com tanta força que certo dia chegou a machucá-lo. E era exatamente isso que estava acontecendo.
O pescoço do loiro já estava vermelho, sua testa suada e sua respiração descompassada, embora leve. Cravou seus dentes no pescoço de Octavio e desacelerou os movimentos na mesma intensidade do gemido.
Quando se afastou de Octavio, o loiro apenas gargalhou, completamente suado e sem fôlego. O moreno levantou suas calças e se virou para ele, também rindo. O moreno amava aquele sorriso, amava aquela expressão e se possível passaria horas admirando.
— Um fetiche? —Octavio disse, limpado a testa.
— Será?
— Não sei. A única coisa que sei é que nunca mais olharei essa sala como antes.
Pois é, até os mais comportados tendem a dar algumas rapidinhas em seus plantões. William e Octavio provavam isso. Mostraram que uma simples sala pode virar um quarto de motel. Branco no preto, preto no branco. Cinza seria o sexo?
[...]
— Me desculpe. —Caine disse, cabisbaixo.
Ambos estavam no gramado em frente à universidade. Abaixo de uma árvore, outros universitários também estavam ali. O lugar era ótimo para descansar. Se possível, pessoas levariam suas camas e dormiriam no local.
— Pelo soco? — Danion sorriu. — Já estou acostumado.
— Sebastian descobriu sobre o cigarro. E-eu não consegui mentir depois que ele sentiu o cheiro em mim. Na verdade, eu até tentei. Mas ninguém é tão viciado em cigarros como você...
— Não se preocupa, Caine. — O branquelo o puxou para si. — Sebastian só quer o teu bem. Ele estava certo.
— Claro que não estava. Ele precisa aprender que sou maior de idade e não preciso ser tratado como uma criança.
— Garoto, você acha mesmo que qualquer pai deixaria alguém ser meu amigo? Eu fumo e bebo, falo o que penso e fujo de regras. Sou ousado, barulhento e festeiro. Que boa influência te daria?
— É isso que me faz gostar de você. — Confessou. — A sua rebeldia me atrai.
— Então você pensa em ser rebelde também? — Perguntou, tragando.
— Não exatamente igual a você... É que... Bem, eu não quero viver de mesmices. Eu quero, no futuro, poder contar para as pessoas que não fui eternamente o Caine ingênuo que dizem por aí. Quero saber o que é loucura. Só você consegue me mostrar isso, Danion.
O branquelo apenas riu. Não queria e não podia ser tocado por palavras. Mas as palavras deste era tão impactantes que tentavam derrubar aquela enorme barreira. E na batalha Caine vencia.
— Tá a fim de cometer uma loucura? —O branquelo perguntou de imediato, afastando-se dele e amassando o cigarro na árvore.
— Agora? —Caine indagou olhando para os lados.
— Sim. O primeiro ato de rebeldia: matar aula!
— M-mas...
— Deixa, você não é capaz.
— Claro que sou! — Se determinou, encarando-o.
Tão pequeno e fofo com aquela cara de gente valente.
Danion o observou dos pés a cabeça e chegou a constranger o garoto. O branquelo estava realmente surpreso com a atitude.
— Prefiro que me mostre esse lado seu. Agora vem comigo.
O branquelo nunca era delicado, e toda vez que puxava Caine pelo ombro, este tendia a tropeçar. Juntos caminharam até o estacionamento onde a moto de Danion sempre permanecia.
Subiu e imediatamente pediu para que o outro fizesse isso. Caine pôs sua mochila nas costas e subiu na moto. Mas havia um problema:
— Cadê o capacete?
— Quem disse que eu preciso? Não é de loucura que você quer viver, Caine? Então enfrentar a morte é a maior loucura que qualquer um pode fazer. Tem certeza que é capaz disso?
Seu corpo estremeceu, sentiu o arrepio e o suor frio. Engoliu em seco, fechou seus punhos onde se apoiou e disse:
— Então vamos!
O pequeno pôde ver, através do espelho retrovisor, o sorriso mais perfeito do mundo, segundo considerava. Danion estava mesmo disposto a atiçar o medo do garoto.
Danion deu partida sem antes perguntar se o pequeno estava seguro, Caine por pouco não caiu da moto. Juntos saíram da universidade, cantando pneu e chamando a atenção de vários pedestres que temiam ser atropelados.
O destino o branquelo sabia, já Caine não tinha ideia. Fechou seus olhos sempre temendo o pior. Em alguns momentos se arriscou a abri-los, porém, a cada vez que o branquelo atravessava uma multidão de carros, temia o pior e voltava a ficar de olhos fechados.
— Você tá com medo? — Indagou.
O vento parecia mandar as palavras para longe, pois estas passavam por seus ouvidos de forma rasgada.
— Não! — Mentiu.
Danion ousou sorrir e continuo a dirigir na mesma velocidade. Se há uma verdade no mundo, com certeza era o fato de Danion ser louco. As palavras que Caine dissera antes novamente tomaram seus pensamentos. Danion era a loucura. Caine o juízo. Tais coisas não poderiam se misturar? Provavelmente não. Isso era regra. Mas o branquelo costumava quebrá-las.
— Abre os olhos.
— Não!
— Abre os olhos, Caine. — Gritou.
— Não é uma boa opção.
— Me dê orgulho, vamos, abra os olhos.
Caine, com dificuldade, abriu primeiro o olho direito e, quando viu, já não estava mais no trânsito da cidade, com edifícios e casas ao redor. O lugar era aberto, livre, com muitas árvores de diferentes espécie ao lado e muito verde pela frente. Nunca esteve nesse lugar e jamais saberia da existência. Quando notou, os dois olhos, sem seu comando, estavam abertos.
A velocidade que Danion ainda dirigia era assustadora, mas o medo antes sentido estava indo embora aos poucos.
— O último desafio... —Danion gritou. — Abre os braços!
— Você tá louco?! Eu não quero morrer!
— Desafiar a morte... Desafiar a morte. — Repetiu.
— Mas eu sou pequeno e facilmente posso voar daqui.
— Não vai, confie em mim.
— Você não é tão confiável. — Tentou falar baixo, mas não conseguiu.
— Eu aposto um beijo se você abrir os olhos.
— Prefiro a vida. — Oferta tentadora.
— Tem certeza que vai me negar um beijo? —Danion adorava brincar com o psicológico de Caine. Queria mesmo ver o pequeno ser corajoso e mostrar para ele que seria capaz de ser louco. — Abre os braços, garoto!
E Caine abriu. Sem medo. Sem pensar. Apenas abriu. Ele evitou os pensamentos antes de tomar a atitude, temendo ficar novamente inseguro.
O vento chicoteava sua face, os cabelos, embora curtos, eram levados pelo vento. Danion apenas o observava do espelho retrovisor. Caine era realmente corajoso. Um pequeno rebelde.
Danion parou sua moto na ribanceira. Aquilo por segundos assustou Caine que se perguntou o que fariam agora. Pular?! Pensou. Não, isso ele com certeza não faria. Suicídio era demais.
Tudo que sentiu foi o toque de dedos frios tocarem o seu queixo, e quando seus olhos subiram para saber o que o branquelo fazia, sentiu seus lábios selarem no outro, levemente.
Não era um beijo quente, e não envolvia língua. Era apenas uma promessa cumprida.
— Agora vamos voltar. Marque o dia de hoje... O velho Caine ficou para trás.
Antes de subir na moto o branquelo disse:
— Saiba que eu não te amo, Caine. —Diferente das outras vezes, o branquelo não conseguiu olhar nos olhos do menor.
[...]
Connor ainda estava se habituando ao lugar. Ainda era difícil socializar com o pessoal da casa. Rick demonstrava não estar satisfeito com sua presença. William só dava-lhe bom dia, boa tarde e boa noite. Só vira Gaspar duas vezes, mas este era tranquilo e até brincou com ela em algumas tardes. Colin ainda mantinha as lembranças do espancamento, mas não conseguia mais odiar o garoto, porém, evitou conversas.
— Cadê o idiota do Danion que ainda não chegou? —Rick indagou. — Só Gaspar desaparece assim...
Eles estavam se preparando para comer.
— Deve está por aí infernizando a vida de alguém. —Colin respondeu, sentando-se à mesa.
— É tão bom saber que vocês me amam. —A voz do branquelo surgiu no diálogo. —Cheguei, está bom? Tive que ir dar uma aula de loucura para um aluno meu. E olha, o garoto tem futuro.
— Onde estava, Danion? Eu te procurei na universidade e não te encontrei. — Leo indagou.
— Caine não foi à aula hoje... Pelo amor de Deus, Danion, você quer mesmo brigar com o Sebastian? Ontem mesmo ele te deu um soco. — Colin o repreendeu.
— Já disse que não tenho medo do Sebastian. Só estou mostrando ao irmão dele o que é viver no limite.
— Eu só espero que você saia bem machucado quando Sebastian te bater. — Leo disse.
— Vocês viram o Ian? —Connor indagou, tentando se enturmar no diálogo.
— Eu estou aqui, Connor. Não vou sumir. — Respondeu, aparecendo no mesmo lugar e sentando-se ao seu lado. Apertou sua bochecha. Aquilo novamente chamou a atenção de Colin.
— E o William? —Danion indagou.
— Teve plantão. Achei melhor deixá-lo dormindo. —Rick respondeu. — E acho bom vocês deixarem macarrão suficiente para ele. Mais tarde preciso ir ao supermercado. As coisas começaram a acabar e foi só isso que consegui fazer. — Em seguida pôs uma travessa com macarrão sobre a mesa.
— Tá cheiroso. — Connor disse. A boca cheia d’água.
— Claro. Fui eu quem fiz.
Quando Danion atreveu a se servir, Rick deu-lhe uma tapa no pescoço. Um “ai” mudo escapou de seus lábios, e Connor apenas riu daquilo. Ian levou sua mão à boca do garoto. Provocar Danion não era uma opção.
Rick serviu primeiro Colin, em seguida Leonard e passou por Danion parando em Ian. Connor não foi servido. O ex-tigre sentiu a decepção no momento. Ele realmente estava faminto, tanto é que sorria esperando a vez que não chegou.
Ian olhou para Rick que pareceu ignorar a situação, deu as costas e voltou a lavar sua louça.
— Tudo bem, eu me sirvo. — Connor murmurou para Ian, mostrando o melhor sorriso que podia fazer para esconder o desconforto — Eles ainda estão chateados com o que fiz ao Colin.
— Eu não quero mais comer. —Ian disse em alto e bom som, chamando a atenção de todos.
— Como não? Você ama o macarrão do Rick. — Leo perguntou, surpreso. Ele realmente não notou o que aconteceu.
Colin sabia perfeitamente o que e passava. Ele viu quando Rick não serviu o garoto. No lugar de Connor, teria falado um monte e assim como Ian também perderia a fome. Porém, permaneceu em silêncio. Queria saber como o outro reagiria.
— Rick, da casa, você é a pessoa que mais me decepcionou esse ano. Sinceramente, a partir de hoje eu não como mais da sua comida. Não importa quanto dinheiro eu gaste naquela lanchonete, mas se for para tratá-lo assim, faço questão de reduzir a alimentação. —E se levantou.
— Por causa dele? —Rick se virou, apontando para Connor. — Faça-me o favor, Ian. Eu ainda não engoli isso. Dias atrás ele era declarado nosso rival, hoje é amigo? Eu vou ter que servir um Tigre? Sei das minhas limitações.
— Você já serviu ao Octavio. Ele é um Tigre, ex-namorado do William e que o traiu.
— Octavio sempre foi a exceção dos demais, porque simplesmente o conheço.
— Ian tá gostando desse garoto? — O branquelo gargalhou. Ele não se importava com a briga. Falar quando não devia era uma especialidade do Danion.
—Ele agora é um de nós e merece ser tratado igualmente. Todo mundo sabe que Connor não é igual a eles. Se fosse, certamente ele teria se levantado e te agredido pelo que fez agora. — Continuou a defendê-lo.
— Ian, você já sofreu na mão dos Tigres...
— Não precisa discutir, Ian. Uma hora eles vão saber como sou legal e vão pedir para jogar comigo. Vamos comer... —Connor pediu, quase suplicando. Desde que chegara aqui, Ian literalmente brigava com todos pelo seu bem.
— Tá vendo aí? É realmente isso que você chama de inimigo? Falam tão mal dos Tigres e tão agindo iguais a eles. Desculpa, mas eu realmente perdi a fome.
Ian saiu da cozinha e caminhou em direção ao segundo corredor da casa, indo diretamente para seu quarto.
Todos olharam para Connor, que ainda assim sorria sem jeito e se sentia desconfortável. Seu prato permanecia vazio. Ele simplesmente pegou o de Ian e saiu do cômodo, mas antes de passar pelo corredor, Rick também teve a mesma ideia.
— Deixa que eu tento conversar com ele. — Rick se pôs em sua frente, impedindo-o de prosseguir.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Rick... Sinceramente? Ele no momento é melhor que você. —Colin interferiu, dando a oportunidade de Connor passar pelo mulato.
Connor foi às pressas ao quarto onde agora dormia. Ian estava sentado, segurando o controle do vídeo game, mas com o aparelho desligado. O ex-tigre permaneceu em silêncio, mas se sentou ao seu lado, ergueu o prato de macarrão pondo-o em frente ao rosto do outro.
— Eu trouxe pra você.
— Perdi a fome, já disse. — Estava de cabeça baixa.
— Você tem certeza? Estou com fome e se você não comer, eu mesmo faço isso.
— Pode fazer, sem problemas.
E realmente Connor fez. Ian olhou aquilo e sorriu. Ele realmente não era o tipo de pessoa que insistia muito.
Ian o observou comer, enquanto permanecia em silêncio. Connor tinha sua própria beleza, apesar de atrapalhado e largado. Os olhos de uma criança travessa, o cabelo curto, castanhos e bagunçados. Os lábios, o seu maior charme. Tinha um sorriso largo, enorme e perfeito. A boca do maior era com certeza aquilo que mais chamava sua atenção, porém, as palavras saídas dali quebravam todo o encanto.
Ian, por sua vez, tinha olhos claros, porém, usava óculos — apenas dentro da república. Os cabelos eram mais escuros que os do Connor. Por muitas vezes era considerado alguém sério e ligeiramente irritado pelo semblante sem expressão, mas ao sorrir toda essa imagem era quebrada. Até a forma de se vestir era diferente dos demais, lembrava uma criança arrumadinha com roupas de manga longa, gravatinha e sapatos sociais, com os cabelos penteados com bastante gel e que toda mãe dizia: “Tá um hominho”. Porém, agora, usava bermudas e uma camisa grande de Connor que chegava até parte de sua coxa.
— Ele realmente cozinha bem. Infelizmente não posso agradecer, tenho medo de que ele me acerte com a panela. —Dizia, com a boca cheia. Estava faminto.
— Connor, você se arrependeu de mudar de república?
Connor até parou de comer por alguns segundos e levou seus olhos aos de Ian. Sua bochecha parecia explodir pela quantidade de macarrão ali.
— Você quer que eu volte pra lá?
— N-não... É que... É que eles não te tratam da maneira que deveriam. Estou pensando seriamente em sair daqui por causa disso. Talvez realmente tenha sido um erro pedir para você ficar.
— Eu nunca me importei com as ofensas nem o modo com que os outros me tratam, Ian. Já cresci sendo chamado de babaca, burro entre tantas outras coisas. A república de Sean não foi diferente, estou adaptado a isso. Mas acredito que eles logo possam gostar de mim. E você teria coragem de sair daqui e me deixar sozinho? Com quem eu iria jogar? — Perguntou, franzindo o cenho.
Enquanto Connor falava, Ian notou os seus lábios sujos de molho. Ousou levar seu dedo polegar na região e limpá-la. Connor ficou imobilizado com o toque. O menor rapidamente sugou seu dedo só para poder experimentar o sabor daquilo.
— É, você tem razão. — Disse, passando a língua entre os lábios.
— Claro que tenho razão. Todos dizem que não tenho, mas eu sei que tenho. Tenho, não tenho? — O semblante da dúvida. Engraçado.O leonino se perguntou o que havia acontecido. Sempre acostumado a ter amigos inteligentes, que usavam palavras difíceis e tinham um vocabulário extenso, e com os quais na maioria das vezes vivia discutindo sobre política, religião entre diversos assuntos. E agora estava junto de alguém que com toda certeza seria criticado por ser seu amigo. Alguém com fama de babaca, bobo e que não pensa.
— Você quer jogar? Às vezes ajuda a esquecer de certas coisas...
— Não quero te humilhar, sabe... Aí você começa a arrumar desculpa e dizer que jogo muito mal. E acabei de lembrar que tenho que estudar, ainda não terminei de ler aquele maldito livro.
— Vídeo game é melhor que livro. Já te disse isso. Vamos por favor, só um pouco, e juro não pegar pesado com você.
Por que Ian não conseguia negar?
Connor deitou sobre as coxas do menor, impedindo-o de se levantar. Ian se deu por vencido e foi obrigado a pegar o controle que já estava próximo dali.
Era o mesmo jogo de luta que eles começaram a jogar há dois dias, nesse tempo o leonino só conseguira vencê-lo quatro vezes. Uma vergonha. Mas Connor não fazia piadas. Tá, ele fazia. Porém, tentava ajudar, mas o menor era ruim demais.
Antes mesmo do jogo iniciar, Connor, deitado, olhou para Ian acima, o leonino sorria e ousou brincar com seus cabelos castanhos.
— Acho que eu tô passando mal. — Connor falou. — Meu peito tá ardendo, meu coração tá acelerando. Minha mão tá até formigando. Será que eu vou morrer?
— C-como?
— Não sei. E-eu tô me sentindo estranho. Tem coisas em meu estômago, meu peito queima... Eu nunca senti isso. Na verdade, já senti uma vez e foi quando ganhei meu primeiro vídeo game.
Ian se sentia exatamente assim. Mas nem sequer notou, ficou preocupado.
O leonino levou sua mão à testa do garoto, tentando sentir sua temperatura. Nada parecia fora do normal.
— Você aparenta tá normal. Certo, agora dá play que eu quero te vencer.
Jogaram os primeiros minutos e Ian já se mostrou entediado. Começou a perder com frequência e aquilo o desanimava. Puxar assunto enquanto jogavam era a melhor solução:
— Você já gostou de alguém, Connor? — Ian perguntou.
— Gostar, gostar... Ou gostar de um jeito diferente? — Ele respondeu, sem tirar os olhos da TV.
— Gostar, se interessar, se apaixonar... Sabe, essas coisas bonitinhas de início.
— Acho que sim. Por quê?
— P-por nada. — Fez uma pequena pausa e tomou coragem pra prosseguir — É que eu tô começando a gostar de alguém, mas não sei se isso é algo bom. A pessoa é tão diferente de mim que chego a acreditar que é tudo loucura.
— Diferente?
— Ele é meio desligado, nunca iria notar isso. — Soltou, evitando olhar para o maior deitado.
— Então ele é bem idiota. Olha só, te venci mais uma vez. — Connor o encarou, mas Ian não prestava atenção nele, resolveu assim falar — Tá, continuando, se não notar isso ele é um babaca. Você é bonito, legal e gosta de jogar vídeo game. Que garota não se interessaria por você?
— É, ele é realmente um babaca. —Sorriu, dessa vez voltou a prestar atenção no jogo. — Já que perdi, é melhor eu ir estudar. Preciso.
Ian se levantou. Connor o olhou confuso.
— Poxa, tá legal, fica aqui. Por favor!
— Queria poder ficar, Connor. Mas eu realmente vou me prejudicar caso não estude. Outra hora, quem sabe.
Connor era realmente um burrinho. Se Ian queria algo com ele, teria que se esforçar muito para que o outro notasse isso. Connor por sua vez sentiu desânimo. As chances que um dia imaginou ter com Ian foram por água abaixo, pois esse acabara de admitir estar gostando de outro alguém.
[...]
Mesmo que não quisesse admitir, Colin sentia saudades de Sean. Do outro implicando com ele, sendo grosso e com aquele ar de superioridade. Do sorriso provocador, usado geralmente para tirá-lo do sério. Dos olhos profundos que queimavam. Algo bom e inquietante.
— Você tá estranho. Aconteceu alguma coisa?
Quem perguntou foi Annabel, uma garota que cursava o mesmo curso do garoto. Eles dois estavam caminhando no corredor, naquele término de aula. Annabel era loirinha, quase albina. Muito magra e vivia a usar tranças, porém, amava usar roupas largas e tênis masculinos. Não, ela não era lésbica, mas seu visual era diferente.
— P-preciso ir no banheiro. Até amanhã, Bel.
Colin rapidamente seguiu um caminho diferente do da garota. Não resistiu, Colin precisava matar a saudade. Naquele horário Sean sempre estava no banheiro. Tentou se esquivar de algumas pessoas que o paravam para pedir informações ou até mesmo conversar.
Quando abriu a porta do banheiro, não encontrou Sean ali. Dois alunos estavam lavando as mãos, e até tomaram um susto quando a porta foi aberta de surpresa. Os dois garotos, quando passaram pela porta de saída, até insultaram Colin pelo susto causado.
O pequeno teria saído do banheiro se uma das portas da cabine não fosse aberta e Sean aparecesse. Dessa vez, ele não sorria como antes e ignorou a presença do menor. Orgulhoso ao extremo.
Colin permaneceu parado, encarando-o. “Como ele ousa não falar comigo?” Pensou, querendo insultá-lo. “Vamos maldito, eu tô aqui, me provoque!” Continuou pensando “ Vai, desgraçado, não me ignora!”.
Sean lavou as mãos em silêncio e caminhou em direção ao Colin, que não notou que impedia a saída do maior.
— Preciso passar, sai daí. —Foi só o que disse, chocando-se contra o ombro do menor e passando por ele.
Colin ficou boquiaberto com a sua atitude. Sua vontade foi de esfregar o rosto bonito do moreno na parede.
O menor ficou apenas observando-o cada vez mais distante, mas quando notou que este retirava a chaves do carro do bolso, imediatamente moveu seus pés e o seguiu. O destino: estacionamento.
Quando Colin chegou lá, Sean já estava dentro do carro e prestes a sair. Na última vez, Sean quase atropelou o menor, por estar irritado. Dessa vez, o irritado era o pequeno e ele mesmo se colocou na frente do carro, impedindo-o de sair dali.
Colin até se atreveu a pôr suas duas mãos no capô aquecido. Sean saiu do carro irritado, batendo a porta logo em seguida. Parou em frente ao Colin, puxou suas mãos e o afastou.
— Que merda você quer?
— Que merda você quer? — Imitou. — Quero ir com você, ou não notou?
— Ir comigo? Não vou pra casa, Colin. Sei que você gostou de transar comigo e quer repetir.
A mania de socar o Sean a cada vez que ele dizia essas coisas ainda permanecia, quando o menor tentou fazer isso, foi impedido pelas mãos hábeis do outro.
— O que deu em você hoje? E não estou querendo transar com você. Isso não vai se repetir.
— Tá bom. Agora é melhor você ir, se você não notou, tem pessoas se aproximando. Não quero que me vejam com você.
Sean novamente não se importou com a presença de Colin. Afastou-se do menor e parou ao lado da porta do carro. O pequeno era dez vezes pior que Octavio quando se tratava de insistência.
— Quer que eu grite pra todos que o líder dos Tigres adora dar uns amassos em garotos?
— Quer também dizer que você deu a bunda para mim? E que gostou, gemeu e ainda pede mais cada vez que me vê? — Respondeu seco, abrindo a porta. — Agora entra nesse caralho e não fala mais nada.
Colin sorriu de lado, vitorioso. Sean por pouco não lhe mostrou o dedo do meio.
Antes mesmo do pequeno colocar os cintos, o moreno pisou no acelerador e saiu. Sem rumo, sem destino.
Novamente o medo de sofrer um acidente. Sean era sem dúvidas a pessoa mais imprudente no trânsito. Ele resmungava, xingava e buzinava a cada dez minutos. Colin se perguntou como diabos ele ainda não perdera a carteira e não recebera grandes multas.
— Tá irritado por causa do Connor?
— Ele fez a escolha dele.
— Mas você perdeu pro William. Isso me deixaria irritado, com toda certeza. Odeio perder. Ainda bem que ganho todas as brigas contra você.
— Você não cansa de esfregar as coisas na minha cara? — Sean indagou assim que parou no sinal vermelho.
— Não estou fazendo isso, estou?
— William para lá, William para cá. Sempre! Em nosso diálogo o nome dele tem que tá metido.
— Ciúmes? — Tipo uma criança travessa. Os olhos brilharam por tamanha provocação, acompanhado do sorriso amarelo.
— Ciúmes? Eu? Olha se eu lá tenho cara de quem gosta de você.
Ofendeu. Mas Colin relevou.
— É, eu também não gosto de você. Então somos iguais. Agora me diz para onde estamos indo.
— Não sei. Você quis entrar no carro. Então é melhor calar a boca e parar de fazer perguntas. Tô começando a me irritar.
Novamente pisou no acelerador, dessa vez cantou pneu. Colin permaneceu o resto do caminho em silêncio. Estava com medo do moreno, que mostrava-se nada feliz. Não mais provocava nem o atacava com fome de beijos.
Colin queria sair do carro irritado com isso. Acabou se adaptando tanto a ser pego de surpreso que sentia falta disso. Seus olhos imploravam por isso, mas o moreno ignorava-o, literalmente.
Sean também estava irritado com o menor. Tentou ignorá-lo de todas as formas, e até conseguiu. Mas o pequeno insistiu tanto que a vulnerabilidade apareceu. Logo este começou a falar de William e sua raiva só tendia a aumentar. Orgulho.
O moreno acabou estacionando em uma praça. Em sua frente diversas crianças brincavam nos vários brinquedos espalhados. Uns saltavam, outros corriam e uns até choravam. Mães passeavam com seus filhos. Cachorros também estavam presentes fazendo a festa e usando árvores como banheiro.
Colin olhou para o moreno e voltou a sua atenção para a praça.
— Tá, não me diga que você veio aqui pra chorar e lembrar-se da sua infância? É isso?
— O combustível acabou, se você não notou.
— Como?
— Estamos dirigindo há mais de uma hora, se você não notou. E eu literalmente andei em círculos. Não abasteci o carro desde o dia que te comi.
O soco, dessa vez com vontade, e o moreno deixou.
— Não repete isso nunca mais na sua vida ou eu juro que arranco sua língua.
— Mas eu te comi mesmo, Colin. Consegui tirar o que você chama de virgindade. Te levei até minha casa, te preparei um jantar e te comi.
— Porra! Que merda você tem na cabeça? Tô começando a ficar ofendido com isso, de verdade.
— Você entrou no meu carro com certeza achando que eu iria para casa, não é? Qual outro motivo te levaria ao estacionamento? Eu percebi que você clamava pela minha atenção. — Sean se virou para ele.
— Ah... Eu, só... Eh... Eu fui apenas...
— Tá vendo aí? Não consegue me responder. Logo você que tem resposta pra tudo.
— Isso não significa nada.
Sean ofegou, encostou sua cabeça no banco do carro e começou a olhar para frente. Colin continuou parado, encarando-o. Tinha algo errado com Sean. Algo muito errado. Mas o moreno era tão calado, tão misterioso e, embora isso o atraísse, também o incomodava.
Às vezes temos que tomar atitude para certas coisas. Colin não deveria ser uma exceção.
Retirou seu cinto e simplesmente beijou a bochecha do moreno, que imediatamente se virou para olhá-lo. Franziu o cenho e encarou o menor.
— O que foi isso?
— Eu senti sua falta, tá bom? Eu não queria tá admitindo isso.
Colin só admitiu por um único motivo: ver um sorriso se formar na face do moreno. Mas ele estava muito enganado se pensasse como os filmes da Disney. Sean novamente o ignorou.
— Droga. Que diabos está acontecendo com você?
— Colton.
— O que tem ele? — Seu coração apertou. Tanto é que não mais encarou Sean depois disso. — V-você gosta dele?
— Já gostei. — Admitiu. —Muito, por sinal. Não quero que fique surpreso com isso. Hoje só sinto desprezo, nojo, ódio. E me arrependo muito de um dia ter tido algo com ele.
Colin sentiu as palavras. Eram como pedras sendo lançadas ao seu corpo. Mas ele não nunca poderia admitir que se sentia incomodado ao ouvir isso. Sean apenas desabafava.
— Por que você não resolve logo as coisas? Você sempre tem um jeito pra tudo. Você adora derrubar as pessoas.
— Não é tão fácil assim. Colton e eu temos segredos. Segredos que eu não posso te contar. Minha vontade é matá-lo, mas tenho amor a minha vida e não quero viver preso.
— Por um acaso você tem medo do Colton? —Colin indagou, dessa vez olhando para o moreno.
— Não. Ele não me dá medo e é por isso que tenta de toda forma me atingir. Na Quadra meu medo se resume em um.
— Você é tão grande, forte... Não aparenta ter medos. Do que você tem medo, afinal?
— Gostar de você me dá medo.
A face fora iluminada pelo sol no momento em que Sean se virou para encará-lo. Colin não conseguiu se mover, piscar e respirar. Sean, pelo contrário, tocou a face do outro com os seus.
— É esse o meu maior medo. E é por isso que tô te tratando tão mal.
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