República de Leões
8 Capítulo 08
Notas iniciais
Copos descartáveis espalhados pelo gramado, corpos caídos, carros sujos de vômito, paredes úmidas usadas como vaso sanitário tendo como resultado o mau cheiro, fatias de pizza coladas à parede, ao teto e algumas espalhadas pelo carpete. Uma garota dormindo no sofá com mais dois garotos caídos em suas pernas. Roupas íntimas em panelas, mesas e cadeiras. Um casal ainda se pegando no banheiro, a luz prestes a não mais funcionar no quarto onde cerca de cinco pessoas dormiam, sendo que três em uma mesma cama. Quase trinta cigarros em um mesmo cinzeiro, alguns ainda acesos. Esse foi o resultado da última festa que seria para calouros, onde metade da Quadra Nove estava presente. Na verdade, foi o suficiente para deixar o ruivo enfurecido quando na manhã seguinte resolveu observar o estado da república menor.
Na manhã seguinte todos acordaram reclamando das dores no corpo, dores na cabeça e perguntando o que aprontaram quando estavam fora de si. Poucos foram aqueles que tentaram ir para a faculdade.
— Caine, acorda. — O ruivo chamou, tomando o cobertor do irmão.
A luz do sol adentrou o quarto quando as cortinas foram movidas, aquilo foi como uma bomba para o pequeno, que sentiu a dor latejante vir multiplicada.
— Droga, Seb, fecha essa cortina. — Ele disse, encolhendo-se na cama pondo o travesseiro em sua face.
— Levanta! Eu não tô de brincadeira. — Gritou, assustando Caine.
— Mas que droga.
— Se nossos pais souberem que você bebeu até chegar naquele estado, jamais te deixariam sobre minha proteção. E você não vai deixar de ir à universidade por estar de ressaca.
— Eu não bebi tanto assim. — Falava enquanto se sentava na cama, pondo a mão na cabeça, evitando olhar para a janela. Caine não tinha certeza do que dizia.
— Sabemos que você tem o corpo fraco pra bebida. Agora se levanta e vá tomar um banho. Gelado, de preferência.
— Me deixa faltar hoje, por favor. — Pediu, com a voz chorosa tomada pela preguiça.
— Não. — O ruivo respondeu, sincero e grosso.
— Sim. — A voz de Lydia interrompeu o diálogo.
Os irmãos Luduzi olharam para a garota, parada, encostada à porta e de braços cruzados.
— Deixa o garoto faltar, Seb. Sabemos muito bem que de nada vai adiantar ele estudar estando assim. — Ela caminhou, envolvendo seu braço no ombro alto do namorado.
— Claro que não. Eu não me importo se ele bebeu. Só o quero na universidade.
— Será mesmo que você não se importa? Acho que já chegou o momento em que você tem de aceitar que Caine não é mais o seu irmãozinho. Ele bebeu, e daí? Está conhecendo a vida agora, ou será que você também não passou por isso?
— Não se mete, Lydia. Eu sei cuidar do Caine.
Nem mesmo Caine conseguiu entender o motivo daquele estresse na manhã.
— Ela está certa, Seb. Eu não sou mais uma criança. — Caine disse.
— Os dois contra mim? E você ainda é uma criança para os nossos pais. E se eu não cuidar de ti aqui, eles irão me culpar caso você entre em um caminho errado. E não posso esquecer de que para os outros, você é uma criança que vive a aceitar ordens. Vou ter mesmo que citar nomes?
Caine engoliu o seco. Não conseguiu ter respostas diante daquelas palavras e estava começando a ficar com medo do que Seb pudesse fazer com ele.
— Que merda de caminho errado? — A garota passou a mão entre seus fios de cabelo enquanto caminhava no cômodo — Ninguém na Quadra Nove se atreveria a mexer com ele, afinal, ele é o irmão do Sebastian. Esqueceu que é esse o título que ele recebeu aqui?
— Eu desisto. — O ruivo se deu por vencido, saindo do quarto.
— Seb, espera. — Caine o chamou, mas não obteve resposta, olhou para Lydia que apenas sorria para ele. — Será que ele ficou com raiva de mim?
— Só não está aceitando o fato de que você tá começando a ficar independente. Logo passa, e ele percebeu que também está atrasado pra universidade. Quando ele voltar, iremos conversar.
Caine estava preocupado. Odiava irritar o irmão mais velho, mesmo que nesse caso não houvesse motivos para isso. Mas ele conseguia entender a preocupação do irmão, já que sempre cresceu sendo protegido por ele.
— Eu estava muito bêbado? — Ele conseguiu indagar.
— Não. Seb exagerou tentando te causar medo. Você só vomitou nele enquanto ele te ajudava a entrar na república. Você não se lembra de quem foi te buscar lá?
— É tudo muito vago. Só me lembro de que eu estava com Colin e bebíamos moderadamente. Depois Danion apareceu e ficou dançando com alguém, e teve uma confusão. É, teve uma confusão. — Ele dizia enquanto tinha lembranças.
— Confusão? De quem exatamente.
— Não foi dos mais problemáticos. Digo: Tigres contra Leões. Eram garotos que nunca vi. Não consigo lembrar o motivo.
— Lembra-se de mais alguma coisa? — Lydia perguntou levantando-se, ela realmente parecia estar preocupada.
— Como assim?
— Nada. — Ela disse, de imediato. — É que bêbados somos capazes de tudo, até mesmo de falar os segredos mais íntimos para outra pessoa.
— Eu não conversei com Danion durante a festa, só lembro-me de vê-lo uma vez dançando com duas garotas ao mesmo tempo.
— Deve ser por isso que você bebeu tanto. Agora levanta daí e vai tomar um banho e escovar os dentes, ainda sinto o cheiro da bebida.
Na república de William, ele era o único a estar bem. Até mesmo Rick não suportou a ressaca, sendo assim, cada um teria que fazer sua própria alimentação. A república estava em silêncio e ao que parecia ninguém iria para a universidade hoje. Certamente iriam se prejudicar, já que para alguns ainda estavam no início dessa vida universitária.
Ele caminhava sozinho, observando a bagunça. Aproveitou a oportunidade e foi até a cozinha, levou um bloco de notas para anotar tudo aquilo que precisavam; era o mês de compras. Mais tarde conversaria com Rick sobre o assunto, afinal, o amigo entendia mais de economia e sabia das necessidades melhor do que ele.
Acabou por encontrar Gaspar caído no chão da cozinha, logo atrás do balcão. Acordou o amigo, mandando-o para a cama e depois sorriu. A noite desses garotos certamente foi boa. Sua república parecia não ser mais a mesma devido ao silêncio mortal.
Alguém bateu à porta e ele caminhou até a sala, abriu sem antes perguntar quem era. Deu de cara com o ruivo, líder dos Águias.
— Seb? — Ele indagou, assustado. — O que faz aqui?
Não era um horário comum para visitas. E quando Sebastian procurava William, geralmente tinha um dedo de Sean no meio.
— Precisamos conversar.
O loiro deu espaço para que o amigo entrasse. Seb já entrara ali milhões de vezes, mas era educado o suficiente para receber a oportunidade e entrar. Will indicou o sofá para que eles sentassem e ali conversassem.
— Então? — William perguntou.
— Você soube da festa de ontem, não soube?
— Claro. Dos calouros que cursam arquitetura, não é?
— Exatamente essa festa. Cara, eu deixei de ir à universidade só pra ter essa conversa com você.
— Então me fale logo que eu estou ficando preocupado. — O loiro não conseguiu esconder o nervosismo ao perceber a expressão do ruivo.
— Ontem, ou melhor, hoje na madrugada, quando fui buscar Caine, acabei encontrando isso no chão. — O ruivo colocou a mão no bolso e de lá tirou um pequeno saco plástico contendo um pó branco.
— Não é o que eu estou pensando, certo? — O loiro perguntou, assustado.
— Se o assunto não fosse sério eu realmente não estaria aqui, Will. Agora vejamos, se eles usaram dessa maldita droga na noite anterior, certamente vão começar a usar depois. Quem daqui esteve na festa ontem?
— Fora eu, acho que todos estiveram.
— Então precisamos interrogá-los. Isso não pode se espalhar pela Quadra Nove, o que os pais de cada um pensariam a respeito disso aqui?
— A Quadra Nove deixaria de existir. Ou melhor, metades dos universitários teriam que morar com seus pais ou até mesmo voltar pra suas cidades.
— Estou preocupado com Caine. De lá, ele foi o único a ir à festa, eu não tenho certeza, na verdade. Mas se ele usou disso aqui, eu com certeza serei capaz de bater nele. Só que agora não posso fazer isso, ele acordou com a ressaca.
— Os daqui também estão assim. — Foi nesse momento em que o loiro teve uma explosão de dúvidas. — Espera... Seb, você não tá achando que tem algo errado não?
— O que você tá querendo dizer com isso?
— Estão todos — deu ênfase na palavra — de ressaca. Até mesmo o Rick se rendeu a ressaca. E se por acaso misturaram isso na bebida ou puseram qualquer outra coisa?
— Vi com meus próprios olhos o estado da casa onde fizeram a festa, não está nada legal. E acho que somente a bebida não seria capaz de fazer tudo o que fizeram. Caine vomitou em mim, me xingou, e disse outras coisas que bem, prefiro não lembrar.
— Se essa moda pega...
— Precisamos saber urgentemente quem fez isso. Não gosto nem de pensar na hipótese de que estão vendendo essa porcaria dentro da Quadra Nove. — O ruivo jogou-se no sofá e passou a mão por seus fios vermelhos.
— Já não basta as brigas, agora teremos que lidar com algum idiota que vem repassando drogas dentro da Quadra. Eu só espero que não seja algum leonino.
— Nem eu quero que seja algum Águia.
Os dois ficaram no silêncio por alguns minutos. Na mente de ambos a mesma coisa se passava. Juntos tentavam criar teorias para o que pudesse ter acontecido na noite anterior. Infelizmente, para o loiro, ele teve a lembrança do beijo com Octavio.
— Era só isso, Will. Se eu souber de mais algo eu te aviso.
— Digo o mesmo.
O ruivo se levantou e caminhou até a porta, antes que saísse, o loiro o chamou:
— Você já falou com Sean sobre isso?
— Ainda não. Preciso voltar e conversar com Lydia. Acho que discutimos e não percebemos. Mas quando eu quiser conversar com Sean, te chamo.
— Prefiro não socá-lo. — Ele sorriu de leve, fechando a porta e voltando para o sofá em que antes estava sentado.
Durante todo o tempo de líder que teve, essa com certeza tinha sido uma das maiores preocupações. Certo que ele já sabia que existia drogados não só na universidade como também na Quadra Nove, mas era regra não repassar ou vender algo do tipo, que cada um usasse por vontade própria e longe daqueles que detestavam esse ato.
— Will. — A voz chorosa de Colin o chamou.
O dono dos olhos castanhos estava parado enquanto apoiava-se no corrimão da escada.
— Me ajuda a descer, a cada passo que dou parece que minha cabeça vai explodir.
O loiro não negou o pedido, e pra facilitar ainda mais a descida de Colin, o ergueu do chão carregando-o em suas costas, até levá-lo à cozinha. Quando colocou o garoto na cadeira, de imediato, pensou em indagá-lo sobre o que tinha conversado com Sebastian, mas estava cedo demais para tal.
— Não tem nada pronto? — Colin indagou, insatisfeito com a mesa vazia.
— Rick provavelmente só irá fazer o jantar. Mas se você quiser, eu posso fazer torradas. Bem, é a única coisa que sei fazer. Torradas com bacon é uma boa combinação. Pelo menos eu acho. Tem ovos, acho que uns dois, ainda.
— Não eram somente as torradas que você sabia fazer? — Colin perguntou, sorrindo para aliviar a dor. Piorou.
— Que seja. Eu posso arriscar fazer bacon e ovos.
— Eu não posso negar. Estou faminto e desejando dormir novamente, mas a fome é maior que o desejo de voltar pra cama.
— Certo. Tem chá pronto, aproveita e toma um pouco enquanto eu preparo tudo. — Disse o loiro.
Durante todo o preparo, o loiro ficou em silêncio pensando em como começaria O diálogo com Colin. Não queria parecer grosso, já que o assunto não era simples assim. Muito menos querer se meter na vida dele, afinal, conhecia o pequeno há pouco tempo e ele facilmente poderia ser usuário.
— Por que o silêncio? — Colin indagou, despertando William da tempestade que havia em seu cérebro.
— Como? — Foi só o que conseguiu responder naquele momento.
— Você está sério.
— Estou?
— Corta essa, Will. Aconteceu alguma coisa?
Foi então que ele respirou fundo e pôs seus pensamentos no lugar.
— Não é nada. Só estou pensando nas despesas desse mês. Ian ainda não deu o dinheiro, e bem, o que eu tenho não é o suficiente. — Mentiu.
— Eu tenho grana que recebi dos meus pais, como sempre. Posso te dar a metade.
— Não é preciso. Ian e Danion conseguem isso facilmente.
— De qualquer maneira eu me sinto obrigado a ajudar. Poxa, agora eu moro aqui. Não vou aceitar um “não” como resposta.
— Outra hora conversamos sobre isso, tudo bem? Agora coma. — Ele disse, pondo o prato com bacon sobre a mesa.
— Ainda estou te achando estranho. Mas como você sempre foi fechado, não irei insistir.
William sentiu aquilo como uma ofensa. Porém, não demorou a ignorar. Não poderia dar continuidade a tal assunto. Quando chegasse o momento, ele perguntaria ao garoto sobre a festa.
Colin não demorou a devorar a primeira torrada, William fizera o suficiente para os dois.
O loiro observava o corpo do garoto até notar, depois de muito tempo, a tatuagem com números romanos. Há alguns dias ele tinha visto a mesma tatuagem e ia perguntar a ele o motivo dela, porém, acabou esquecendo devido aos ocorridos, a correria da faculdade entre tantas outras coisas.
— O que significa isso? — Ele tocou a pele do garoto, avaliando a tatuagem.
— 21. — Respondeu, ainda mastigando.
— Claro que eu sei. Só quero saber se tem algum significado.
— É a quantidade de pessoas que já transei. — Ele disse, dando de ombros e voltando a mastigar.
O loiro quase cuspiu todo o café que tinha bebido. Olhou assustado para Colin procurando mais respostas. Não estava acreditando naquilo, ou melhor, estava.
— Claro que não, Will. É apenas século 21, período da liberdade. O mundo dando espaço, abrindo os olhos entre outras coisas. Eu nasci nessa época, acho importante.
— Liberdade?
— Tá. Eu sei que ainda existem muitos tabus a serem quebrados, porém, vejamos o avanço que demos até agora. Se eu sobreviver até o século 22 quem sabe eu faça outra tatuagem? — Brincou.
O loiro sorriu de leve.
— Você ainda não pensou em fazer um leão? Sabe... Ficaria legal em você. — Sugeriu.
— Eu? Um leão? Olha só o meu tamanho, Will. E acho que isso não combinaria comigo.
— Porque não combinaria? — Ele perguntou de imediato.
— Olha Will, eu sei que você quer que eu prove ser um leonino fazendo essa tatuagem, mas a verdade é que isso não faz o meu tipo. Em você a tatuagem fica bela e te descreve. Em mim não faria sentido. — Colin não percebeu como sua voz saiu com desprezo.
— É. Acabei percebendo que você acordou de mau humor. — Disse, tomando um pouco de chá.
— Eu não estou de mau humor. Minha cabeça só está doendo e você vem me falar de tatuagem, de leões, no final estaríamos novamente falando sobre repúblicas. Às vezes enche você falando disso o tempo todo. Desligue-se da república um pouco.
O loiro se levantou sem antes terminar de comer. Teria voltado pra sala se Colin não fosse mais rápido e o segurasse pela mão. O menor ainda mastigava. Sentiu sua cabeça doer e reprimiu os olhos.
— Sem drama, Will. Eu não quis ser grosseiro. — Ele disse.
O loiro não respondeu. Até porque não conseguia responder. Qual palavra seria mais cabível para aquele momento? Não existia.
— Outra hora conversamos. — Falou, por fim, soltando-se de Colin e voltando para seu quarto.
Foi algo confuso. Estava tudo tão bem e em um minuto as coisas ficaram assim. Ninguém diria que William ficaria chateado com Colin algum dia, mas ele realmente ficou. O motivo foi idiota, diriam os outros, mas para ele, ser um leonino significa muito. Certo que na maioria dos casos ele também achava idiota. Só tentou entender a parte em que Colin disse: “Não faz o meu tipo.” Como se aquilo fosse algo brega, desnecessário.
Colin procurou não se importar com isso. Talvez fosse estresse de momento. Não sabia se da parte dele ou da de William. Continuou a comer com paciência. Sua cabeça explodia, não tinha solução. Estando deitado ou de pé, parado ou em movimento. Ela estava ali para acabar com seu dia.
Duas horas se passaram. Colin estava na sala, cochilando, a televisão estava ligada. Quem a desligou foi Ian, que comia uma tigela de cereais enquanto observava a luz do sol e o vento brincando com a cortina.
Danion apareceu depois. Sua cabeça não estava tão diferente da de Colin, ele até resmungava a cada passo que dava. Sentou no sofá e abraçou a almofada em que o menor repousava a cabeça. Esse acordou assustado, sentindo a dor latejante.
— Puta que o pariu, Danion. — Gritou Colin, mas percebeu que isso foi pior.
— Caralho. Não grita. — O branquelo pediu, tapando os ouvidos.
Ian era o único a estar normal com isso. Não tinha acordado com dor de cabeça, o que foi um milagre. Detestava acordar de ressaca, e depois que viu os seus amigos assim não se arrependeu de não ter bebido.
— Onde está Will? — Danion perguntou, logo quando todos se acalmaram.
— No quarto. Chateado comigo. — Respondeu Colin.
— Chateado? — Ian perguntou.
— Sim. Tudo isso por causa da tatuagem que não quis fazer.
— Ah, quanto a isso é melhor se adaptar. Ele não vai sossegar até você fazer. Ele leva muito a sério tudo isso aqui. Já perdemos a conta de quantas vezes brigamos por causa disso. Certo que eu fiz uma. —Ian mostrou uma pequena, no mesmo lugar que Colin tinha o XXI. — Mas de tanto ele insistir.
— Mas gente, eu não sinto vontade de fazer um leão. Não por agora. Só acho exagero da parte dele ficar chateado com isso.
— Vamos deixar de falar sobre isso. Vocês viram o que eu vi na festa? — Danion perguntou, mudando completamente o rumo da conversa.
— O que? — Ian e Colin indagaram ao mesmo tempo.
— Velho, eu posso ser idiota e um puta do chato bêbado e às vezes costumo esquecer as coisas. Mas parece que estavam repassando drogas na festa.
— Sério isso? Eu não vi nada do tipo. — Colin perguntou, assustado, sentando-se.
— Eu não sei para onde estava indo, puta que pariu, odeio esquecer-me das coisas. Mas era em algum quarto, corredor, não lembro. Tinha um grupinho reunido. Era pó. Só não sei se Crack ou Cocaína.
— William não pode saber disso. Caso contrário nos mataria. — Ian disse dando a última colherada.
— Ele já sabe. — Colin disse.
— Como tem tanta certeza disso? — Danion perguntou, acomodando-se no sofá.
— Hoje pela manhã ele estava estranho demais. Ele tentou enganar com história das compras, dizendo que Ian não deu a metade dele. Só que eu não acreditei. Acho que alguém já contou para ele.
— William sempre sabe de tudo. Não adianta esconder. — Ian revirou os olhos. — Foi bom você me lembrar também de que devo entregar a minha parte das despesas. Ia novamente esquecer.
Os três garotos não souberam como dar continuidade ao diálogo. Colin pensava em William. Danion na festa e no que viu. Ian tinha o mesmo pensamento. Quem quer que fossem as pessoas reunidas e usando drogas, essas com certeza seriam descobertas.
— Eu vou falar com William. — Disse Colin.
Ele não esperou nenhuma intervenção. Já estava na metade da escada quando então percebeu que teria que ir com calma, sua cabeça quase explodiu. Entrou no quarto em silêncio e encontrou William parado em frente à janela. Não havia movimento na rua. Estava um completo deserto.
— Olha, eu estou aqui pra...
— Se desculpar. Eu sei. — O loiro disse, interrompendo as palavras de Colin.
— Como você sabe?
— Porque eu estava te esperando pra isso. Você foi grosso demais comigo e uma hora iria perceber o erro. E eu te desculpo. Porém, agora precisamos conversar. Sente-se aqui. — Falou caminhando em direção à cama.
Aquilo deixou Colin confuso.
William foi rápido no que disse. Chamou a atenção de Colin. O pequeno já imaginava do que se tratava. Contudo quis bater no loiro por causa disso. Passou duas horas pensando em como falar com ele e no final acabou descobrindo que Will não estava tão chateado assim.
Para não piorar a situação, ele somente obedeceu.
— Bem. Por onde devo começar... — William iniciou o diálogo.
— Olha, eu sei sobre o que você quer conversar. Sobre a última festa, certo?
— Sim. Mas não é sobre a festa em si, até porque qualquer um tem o direito de se divertir.
— De qualquer maneira, acho que a melhor pessoa para você conversar é Danion.
— O que você tá querendo dizer?
— William. — Colin revirou os olhos, entediado com a conversa.
— Você vai mesmo continuar revirando os olhos? O assunto é sério, Colin.
— Eu sei o quão sério é. Por isso mesmo Danion é a melhor pessoa para você conversar. É sobre drogas que você quer conversar, não é isso?
William engoliu o seco. Preparou-se tanto para surpreender a Colin sobre o motivo da conversa e acabou descobrindo que ele já sabia. Foi uma surpresa e tanto. Desejou até mudar o assunto, já que se sentiu um idiota. Mas se quisesse chegar a algum lugar, as perguntas e conversa teriam que serem feitas.
— Danion viu algumas pessoas, um pequeno grupo, usando. Crack. Cocaína. Não sei.
— E porque você só resolveu me contar isso agora? — William indagou um pouco chateado.
— Porque eu também descobri sobre isso há bem... Há cinco minutos?
— E você não chegou a usar da droga, não é?
Agora William conseguiu demonstrar sua preocupação, embora tivesse evitado perguntar isso e ferir Colin. Ninguém gosta de ser considerado um drogado. Tentou elaborar alguma frase melhor e menos impactante, porém, o resultado foi esse.
— Eu posso ser um filho da puta. Mas não arriscaria acabar com minha vida. Não quero ser uma vítima da overdose, e é um milagre não ouvirmos falar disso até agora.
— Tivemos a sorte. Mas se isso continuar se repetindo, só irá acabar em tragédia. Danion está lá embaixo? — Perguntou.
— Sim, com Ian. Você aproveita e conversa sobre “as compras.” — Fez aspas no ar. — Viu como foi um assunto rápido? Não teria problema se quisesse ter me dito isso lá embaixo. Só assim evitaria com que tivéssemos aquele diálogo sobre a tatuagem e me fizesse achar que você estava muito magoado. Seu idiota. — Colin tentou bater no loiro, mas ele desviou.
— Mas eu não menti quando falei sobre “as compras.” — Imitou o gesto do menor. — Também não quis parecer um curioso, embora nesse caso a curiosidade seja necessária. Até porque você precisa saber como a casa acabou ficando no final, aí sim diria que eu tenho razão em ficar curioso e descobrir o que de fato aconteceu.
— Sabe, eu até deixei de beber quando notei a diferença no comportamento de algumas pessoas. Só não entendo como fiquei bêbado tão rápido. Bebi pouco, pelo que recordo.
— Desconfio de que estavam misturando droga à bebida. Não que isso te faça ficar bêbado rapidamente. Talvez você tenha ficado bêbado rapidamente porque as bebidas daqui, geralmente, são fortes o suficiente para derrubar um leão. E bem, se compararmos o seu tamanho, diríamos que dois ou três copos foram o suficiente para te deixar naquele estado. — O loiro deixou escapar um sorriso que incomodou o menor.
— Até você vai fazer piada quanto a minha altura?
— Não foi isso que eu quis dizer. É só que, bem... Foi muito engraçado te encontrar bêbado. Você estava fora de si. A única parte legal foi ouvi-lo xingando Sean.
— Espera aí. Você tá dizendo que eu fiz coisas da quais eu não me lembro? —Colin perguntou, realmente assustado, levando a mão à boca e levantando-se da cama.
— Sim. — Respondeu, prolongando o M e fazendo cara de garoto travesso.
— Puta que pariu. Eu realmente passei da conta. Tudo que eu me lembro é de estar com Caine, dançando. Até achei que fosse ele que me trouxe.
— Não. Você voltou com Danion e Ian.
— Eu fiz mais alguma coisa, além disso?
— Você apontou para a república do Sean e gritou bem alto dizendo odiá-lo. Depois quis ir até lá e xingá-lo, mas eu te segurei. Você me abraçou e começou a dizer que me amava.
Colin quis correr dali e nunca mais voltar. Estava constrangido.
— Quer que eu continue? — O loiro perguntou, sorridente.
— Pra ser sincero, prefiro não continuar sabendo. Mas de qualquer forma, continue.
— Você pediu para que eu te carregasse até o quarto. Lá começou a chorar dizendo que sentia falta da sua mãe. E que iria arrumar as malas pra voltar pros braços dela. Eu tive que te dar banho, e você começou a fingir um afogamento. Bem, depois disso, felizmente, você dormiu depois de tanto tagarelar.
— Meu Deus, você só pode tá brincando comigo.
William gargalhou. Nunca que na vida iria encontrar um Colin constrangido daquela forma. O pequeno nem mesmo teve coragem de olhar para ele depois de saber tudo isso, caminhou de um lado para o outro, pensando em como foi capaz de ter feito isso.
— Para de rir. É sério. Isso não é nada legal.
— Não tenho culpa. Foi engraçado.
— Para Will. — Colin arremessou o travesseiro nele.
O loiro não conseguiu se controlar. Ver Colin vermelho de vergonha era algo bastante engraçado.
— Eu preciso encontrar Caine. Preciso saber o que fiz durante a festa. — Se levantou de imediato. Pegou a primeira camisa que encontrou e saiu. Usava branco e bermuda verde. Não percebeu e estava usando as sandálias do William, que tinha o dobro do tamanho de seu pé.
Sebastian e Sean estavam de pé na sala da república do ruivo. O assunto era o mesmo entre as três maiores repúblicas. Como o moreno sabia que em sua república não tinha privacidade o suficiente, sugeriu que fossem para outro lugar. E lá estavam eles na república dos Águias.
— Tem certeza que o assunto é muito sério? Eu tô com uma baita dor de cabeça.
— Se não fosse sério, com certeza não teria te procurado.
— Você e seu bom humor. — O moreno retrucou.
— Somos iguais nisso. Agora me deixa olhar se realmente estamos sozinhos. Me espera aqui. — E disse, desaparecendo no corredor largo da casa.
O moreno já havia entrado ali diversas vezes, mas nunca perdia a oportunidade de observar as fotos que sempre mudavam. Na parede, costumava ter uma foto com o nome de cada membro. Típico de algum reality show. Sebastian era o que mais chamava a atenção simplesmente por ser ruivo. Seu irmão não tinha o cabelo de um vermelho tão intenso, mas também se destacava entre as fotografias. Apreciou a foto de Lydia, que até em um pedaço de papel tinha beleza suprema.
Sean ouviu alguém bater à porta, retirando sua atenção das fotografias. Ele olhou para o corredor esperando que Sebastian voltasse e fosse atender a pessoa, mas isso não aconteceu. Ele teria que fazer isso.
Foi um susto. Não só para ele como também para a pessoa do outro lado: Colin. Ambos não souberam o que falar no primeiro momento. Sean ficou sem palavras. Colin sem reação. Mas isso não demorou cerca de cinco segundos quando ambos puseram para fora o desprezo que sentiam.
— Tenho certeza que não estou na república errada. — Colin provocou, dando um passo para entrar.
— É melhor você voltar outra hora, ninguém te quer aqui. — O moreno disse, fechando a porta, mas o menor foi rápido o suficiente para impedi-lo.
— Você só terá o direito de fechar a porta quando estiver em sua república. Agora sai da frente que quero entrar. — Colin disse, sua voz pesada pela raiva de encontrá-lo ali.
— Pede licença. Seja educado. Você não está em sua república e eu nem sei se Sebastian te deixa entrar. É melhor esperar aí fora. — Tentou mais uma vez fechar a porta.
— Caralho. Para de ser babaca. Eu não tô em sua república. Estou aqui pra falar com Caine.
— O anão realmente vai querer me insultar? Olha que com um chute te ponho pra fora dessa república. — O moreno ameaçou, apertando a maçaneta da porta.
— Faz isso. Vou adorar ter mais motivo para te odiar.
— Sentimento recíproco, só que o meu é mais levado para o lado do desprezo. — Sean revidou, atingindo o seu objetivo.
Colin foi tomado por uma força maior que a que ele tinha, conseguiu empurrar a porta com o moreno junto. Sean só não caiu porque era rápido demais para tal ação. O menor pôs a mão na cabeça sentindo as marteladas da maldita dor que sentia. O moreno apenas o observava, fuzilando-o.
— Eu não tenho medo de você, Sean. Nem das suas ameaças.
— Um pequeno como você também não me coloca medo.
Foi uma batalha entre olhos. Claros e escuros. Caramelo e pérola negra. Transpiravam ira, raiva. Exalavam ódio e desprezo. Era assim que eles se sentiam naquele maldito silêncio que se formou. Uma palavra com certeza iniciaria uma grande confusão.
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