Notas iniciais
Os três.

Caine era o único a permanecer acordado em sua república, antes estava conversando com seu irmão, mas até o ruivo acabou se rendendo ao sono. Como sua cama era encostada à janela, ali então era o seu lugar preferido. Estava sentado, segurando em mãos a sua xícara preta com chocolate quente. Não tinha algo melhor para fazer, e o sono, por algum motivo, havia desaparecido. Talvez por cochilar à tarde.

Pensativo, o garoto não tirava os olhos da lua cheia perdida sobre as nuvens negras.

— Você deveria dormir, Caine. — Falou sozinho. — Quero saber com que cara irá acordar pela manhã.

Até conseguiu sorrir depois do que disse. Tomou mais um pouco da sua bebida antes de se acomodar na cama levando os joelhos até o seu queixo. Estava tudo tão silencioso. Caine tinha o quarto somente para si, por ordens de Sebastian.

Esse quarto, há dois anos, era do ruivo antes de começar a namorar com Lydia. Quando o irmão mais novo decidiu escolher a mesma universidade, não pensou duas vezes em passá-lo para ele e dormir com a namorada. Não deixaria nenhum engraçadinho dormir com o pequeno, até porque conhecia os companheiros de república. Quando querem transar, chegam a expulsar seus parceiros que dividem o quarto, ou até mesmo, se necessário, acabam transando com alguma garota sem se preocupar com quem estava dormindo na cama ao lado. Isso, no início, foi difícil de digerir para alguns moradores daquela república, porque um calouro não deveria ter aquela exclusividade. Mas era Sebastian, o cara mais generoso e considerado o melhor líder da Quadra Nove, e Caine, sendo seu irmão, deveria ser respeitado. Deveria.

O garoto se perguntava por que não conseguia dormir aquela noite. Sentiu que sua resposta foi respondida ao encontrar, na madrugada, vagando, tombando em latas de lixo, e totalmente desorientado: Danion.

O coração pareceu querer sair por sua garganta. O único movimento era o de seus orbes que seguiam os passos de Danion, que em seguida caiu sentado no gramado da república de Sean. Caine continuou parado, observando-o ficar de pé, viu o branquelo abrir seu zíper e ali mesmo urinar, girando em círculos. Percebeu então que o outro estava bêbado demais para tomar tal atitude naquela madrugada.

Saiu correndo de sua república, mas não ousou se aproximar do branquelo. Permaneceu parado, ao lado da porta sem que o outro o percebesse. Se o garoto continuasse ali, com certeza os resultados seriam trágicos caso algum dos Tigres o flagrasse fazendo aquilo.

Caine se aproximava em passos leves, não querendo assustá-lo.

— O que você quer, Caine? — Danion indagou, assustando-o.

— C-como você sabe que sou eu?

— Porque eu te vi me observando da janela. Estou bêbado, mas não sou cego. — Resmungou, tonto.

Ele não conseguiu obter argumentos necessários. Cruzou seus braços protegendo-se do frio enquanto observava o outro fechar o zíper da calça. O silêncio permaneceu por alguns segundos, até que o mais velho deles resolveu falar:

— Tem cigarro aí?

Danion não conseguia ficar de pé, foi necessário que Caine se aproximasse para que ele fosse seu ponto de apoio.

— Você não me ouviu, caralho! Tem cigarro aí? — O branquelo perguntou.

— Não. — Ele respondeu, em um tom razoavelmente baixo.

— Como assim não tem cigarro?

— Você os pegou hoje pela manhã. — Palavras transmitiam o medo que ele estava sentindo.

O branquelo revirou os olhos mostrando a irritação. Danion passou o dia inteiro sem fumar, provavelmente estava com um desejo absurdo de sentir leveza pós-fumo.

— Precisamos sair daqui, Danion. — Caine sugeriu, tentando não incomodar.

— Por quê? — O branquelo gargalhou, olhando diretamente para a janela de Sean. — Você acha que eu tenho medo deles?

— E-eu não sei, mas com certeza eles te socariam caso descobrissem de você ter mijado no gramado deles.

— Não me importo. Se eu tivesse bebido mais um pouco, com certeza teria feito um estrago maior...

— Eu te ajudo a atravessar, vamos. — O cortou, não dando continuidade ao que ele estava falando.

— E quem disse que eu preciso de ajuda?

O branquelo soltou de seu braço caminhando sozinho, mas rapidamente caiu ao chão. Seu corpo com certeza sentiu a dor do impacto, tanto é que ele proferiu insultos ao vento. Caine rapidamente correu para ajudá-lo e dessa vez, Danion, teve que aceitar a ajuda.

— Não ache que eu vá te comer por causa disso, Caine.

O menor sentiu seu rosto corar, as palavras ficarem presas em sua garganta. Apesar de a frase soar de forma ridícula, ele conseguiu ficar sem graça. Até porque já tivera sonhos eróticos com o branquelo. Caine não era um garoto como os outros, tal assunto mexia com ele deixando-o perdido e sem jeito.

— E-eu não quero isso. — Ele conseguiu dizer, finalmente dando o primeiro passo.

— Não quer? — Ele sorriu, ironizando — Em seus olhos eu consegui perceber o quanto você me deseja.

— Você tá bêbado demais, Danion. — Ele se defendia, perdendo-se nas palavras.

Danion apenas sorria como forma de provocação ao outro. Enquanto atravessavam, o branquelo ousou meter a mão nas nádegas de Caine, apertando-as. O coração do menor por um instante parou de bater, seu corpo tremeu com aquele gesto. Poderia facilmente arriscar e socar o outro por ter feito aquilo, ou simplesmente acabar cedendo — coisa que sempre quis.

— Me diz se você não gostou disso?

Caine, mais uma vez, ficou sem saber o que falar e continuou caminhando.

— Eu sei o quanto você me deseja, garoto. — Danion continuava a dizer. — E por isso você vai tá sempre me servindo. Afinal, sou Danion... Quem não quer um cara como eu?

— Chegamos. Você quer que eu ajude a entrar? — Respondeu, contornando o assunto, parando em frente à porta.

— As chaves estão no meu bolso, pegue-as. — Ordenou revirando os olhos.

Era uma armadilha. Quando Caine levou a mão ao bolso do branquelo, o maior, rápido, a segurou levando-a para seu membro latejando na calça. Danion adorou quando o viu sem graça, fazendo o outro pressionar cada vez mais.

— Que tal cair de boca? Adoro uma adrenalina. Nós dois. Aqui. Em frente à república. Ninguém iria ver. Acredite.

Caine, por sua vez, retirou a mão do membro do outro rapidamente, encontrando as chaves e abrindo a porta. Qualquer outro teria socado o branquelo, mas por amor, a paciência do menor ultrapassava os limites.

— Eu sei o quanto você quer, para de fingir ser difícil, caralho.

Ele o agarrou novamente, levando as mãos até as nádegas do garoto, apertando-as mais forte do que a última vez. A presa e o predador. A malícia contra a ingenuidade.

— Por favor, Danion, para! — Pediu, tentando se afastar. Mas o outro parecia realmente estar disposto a querer pegá-lo ali.

Caine, a propósito, era virgem.

— Larga o garoto, Danion. — A voz de Colin surgiu naquele diálogo.

Caine sentiu-se mais constrangido ainda por notar que estava sendo observado, ou pior que isso, flagrado enquanto o branquelo tentava agarrá-lo. Mas Colin pareceu não estar preocupado com o que vira, pelo contrário, estava sorrindo para o companheiro de classe.

Danion, irritado e descontente por, felizmente, não conseguir o que queria, atravessou a porta, encontrou o ombro de Colin e em seguida os outros objetos, apoiando-se até então desaparecer na pouca iluminação daquela madrugada.

— Obrigado por trazê-lo. — Colin falou, encostando-se a porta.

— Na verdade, ele já estava aqui. Ou melhor, — virou observando a república à frente — Ali. — Apontou. — Aprontando.

— O que ele fez dessa vez?

— Urinou no gramado de Sean.

— Que ele tenha a sorte de não descobrirem.

Era exatamente isso que Caine estava desejando. Não queria mais ver Danion se metendo nas brigas e no final acabar machucado. O branquelo era bom de briga, mas a covardia nos confrontos era algo absurdo.

— Ele te acordou?

— Eu estava acordado. Foi quando o vi bêbado vagando por aí. Você sabe onde ele esteve?

— Somente Leo sabe. — Caine sentiu os ciúmes. — Os dois sempre contam tudo um ao outro, até mesmo para onde vão. Porém, sabemos que era algum tipo de festa, certo? — Indagou, sorridente com o que disse.

— De qualquer maneira, eu não preciso saber, certo? — Sorriu sem graça.

— Você gosta dele, então precisa saber. — Colin disse, escondendo o sorriso.

— C-como?

— Danion já me falou sobre você, principalmente quando o encontro bêbado desse jeito. E acho que ele não é o único a perceber isso.

— Então quer dizer que ele fala de mim?

— É Danion, ele fala de todo mundo. Leo e ele são como jornais da Quadra Nove. Praticamente sabem de tudo e contam tudo sem poupar. Porque você acha que ele é odiado? Cada um aqui é odiado por algo.

Colin disse uma das grandes verdades na Quadra Nove, cada um era odiado por algo. Ele, no caso, era odiado por sua valentia e ousadia. E por isso, conquistou o ódio dos Tigres, mas para a república rival, isso seria fácil, afinal, só de ser um leonino ele já era considerado odiado.

— Eu sendo odiado por alguém? É difícil de imaginar já que não faço mal a ninguém.

— Sua paciência e mansidão acabam despertando ódio em algumas pessoas.

— Sério isso que você tá me falando?

— Leo já me contou de garotos que “Odeiam o irmão de Sebastian.” — Fez aspas no ar.

— Seb é querido por todos... Pelo menos eu acho.

— E por isso sentem inveja de você. E bem, Sebastian tem sim pessoas que o odeiam, afinal, ele é um líder respeitado e acaba despertando ódio daqueles que não simpatizaram com ele. Tem gente que odeia alguém só de ouvir a voz. Como entender isso, não é?

O diálogo dos garotos foi interrompido quando Colin, de sua república, viu que as luzes do quarto de Sebastian foram acesas. Caine só teve tempo de sorrir para o dono de olhos castanhos e correr de volta à sua república antes que o irmão descobrisse. Não queria participar de um interrogatório e tomar um sermão do mais velho, mesmo que isso já não fosse mais necessário. O ruivo teria que aceitar que o seu pequeno irmão já estava crescido.

Já era manhã. Diferente dos dois últimos dias, não chovia. Teve gente que acordou feliz só por esse motivo, afinal, acordar em dia chuvoso é de matar e fazer qualquer um permanecer na cama. Rick costumava ser o primeiro a acordar, pois ele adotou esse costume desde que tomou posse da cozinha para si, e também sabia que precisava deixar tudo pronto.

— Bom dia. — O loiro disse, aparecendo no cômodo.

William vestia apenas uma cueca manchada no seu lado esquerdo, calçava sandálias pretas e seu cabelo estava todo bagunçado. Apesar disso, estava bem disposto, ele fora um daqueles que acordou feliz por conta do dia ensolarado.

— Bom dia, senhor líder da república. — Brincou Rick. — Colin ainda não acordou?

— Ainda não, e eu não quis acordá-lo. Segundo ele mesmo falou, hoje só tem aula às nove.

— Mas ele costuma acordar juntamente comigo. Me diz, o que vocês ficaram fazendo durante a madrugada? — Rick parou, sério, fuzilando o loiro.

William, por incrível que pareça, ficou sem graça.

— Eu não fiz nada. Logo quando terminei de ler fui dormir enquanto ele ficou fazendo projetos. — Falava enquanto caminhava até a geladeira para beber água.

— William Grandinni... — Ele esperava resposta, ainda com os braços cruzados.

— Colin é uma criança, Rick. E bem, não o vejo como um objeto sexual para transar sem compromisso. E puta que pariu, você adora tocar nesse assunto.

— Faz um tempo que você não se relaciona com ninguém, e sua amizade com o garoto vem crescendo cada vez mais. Isso é motivo pra que eu possa desconfiar. — Rick voltou a caminhar pela cozinha, indo em direção à mesa, preparando-a.

— Meu foco tá nos estudos.

— Octavio te fez por o foco especialmente nisso.

— Vamos ter que falar sobre ele novamente?

— Você precisa viver, William. Já te falei isso milhares de vezes e se possível falarei mais.

— Certo, Rick. Eu já entendi, mas por enquanto eu posso ter uma manhã em paz? Não tenho aula hoje, acho que mereço esse dia sem me estressar com nada, certo? Porra, logo pela manhã e você tocando nesse assunto novamente. — Ele disse, batendo a geladeira.

— Bate a geladeira novamente e eu juro que te deixo sem saber o que é masturbação.

— Por que vocês estão brigando? — Colin então apareceu.

Colin não estava tão diferente do loiro, porém, usava bermuda e sandálias. Coçava os olhos e ainda bocejava, suas palavras foram tão pesadas pelo sono que soou como uma buzina de caminhão, áspera e grossa.

Os dois garotos logo pararam de discutir, trocando olhares rápidos em busca de respostas. Como Rick sabia que William detestava tocar naquele assunto, foi mais fácil para ele contorná-lo. Não tão fácil assim.

— O senhor líder leonino aqui, — apontou com a colher — acordou de mau humor, apenas isso.

— Will? — Colin indagou, não acreditando. Não era um idiota qualquer.

— O quê? — Ele indagou sentando-se.

— Tá, vou ignorar e fingir que vocês não estão brigando. Alguém sabe que horas são? A bateria do meu celular acabou e o relógio da sala parou de funcionar. — Avisou.

— Quando saí do quarto, não passava das seis da manhã, certamente deve ser sete e alguma coisa. — Rick falou.

— Ei, Colin. — William chamou, e rapidamente obteve o olhar que queria — Dormiu tarde?

— Na verdade sim, mas por dois motivos. — Também sentou à mesa e prosseguiu: — O primeiro por causa do projeto e segundo porque encontrei Danion tentando agarrar o irmão de Sebastian.

— Eu estava bêbado. — Foi a vez de o branquelo aparecer, usando apenas uma camiseta sem estampa azul, cueca e sandálias. — Alguém tem um remédio pra dor de cabeça aí? — Ele disse, esfregando os olhos e caminhando em passos lentos até sentar e suspirar.

— Exatamente. — Colin continuou. — Lembra-se de ter mijado no gramado de Sean?

— Eu fiz isso? — Perguntou, realmente impressionado. — Que seja. Puta que pariu, dor de cabeça do caralho. Não me recordo de muita coisa.

— É sempre assim. — Rick disse, pondo bacon na mesa, seguido de torradas e ovos — Bebe e quase nunca se lembra do que faz.

— Não tenho culpa se isso acontece só comigo. — Ele resmungou, roubando um bacon do prato.

— Alguém sabe do Gaspar? — O loiro indagou mudando o assunto sem que percebesse. — Há dois dias não o vejo.

— Vai dizer que você não sabe? Tá namorando uma garota da república do Ed. Inclusive, ele estava na festa comigo ontem, não duvido de que tenha dormido por lá mesmo. —Danion falou.

— Galera, algum de vocês vai pra universidade agora? — Ian apareceu, outra surpresa naquela manhã. — Tô com o carro aí, se alguém quiser carona.

— Infelizmente eu só tenho aula às nove. Caso contrário eu iria com você. — Colin disse, infeliz.

— Eu não irei hoje. Não vou conseguir me concentrar na aula com essa merda de dor de cabeça. — O branquelo fala enquanto mastigava.

— Eu vou com você, Ian. Só um instante, me deixa pegar meus materiais. — disse o cozinheiro da casa, correndo para os fundos da república e aparecendo segundos depois.

— Mais alguém? — Ian indagou. Não obteve resposta. — Certo. Vejo vocês mais tarde. Vamos, Rick.

Os dois saíram da república deixando somente Colin, William e Danion ainda na cozinha enquanto comiam. Leo participou da conversa minutos depois quando acordou assustado achando estar atrasado para a universidade. As horas se passaram, e cada um estava em seu devido lugar: Danion dormindo, Leo em uma apresentação, William lendo e Colin estudando.

O pequeno Colin só fizera amizade com Caine. Apesar de serem de repúblicas amigas, ambos tiveram dificuldade de aproximação, principalmente da parte do irmão de Seb, sempre calado não ousava conversar com o outro. Mas o dono de outros castanhos, sempre atrevido logo o puxou para conversar enquanto estava no refeitório durante o intervalo. Ainda, para os garotos, os assuntos eram vagos e giravam em torno da república e universitários.

Em aula, Colin saiu da sala alegando precisar ir ao banheiro. Não que fosse necessário avisar, afinal, estudava quem queria, mas no final de período cada professor sabia especificamente quais eram aqueles alunos que viviam a sair da sala de aula e só voltavam horas depois. Esses eram marcados.

Logo quando Colin entrou no banheiro, sentiu vontade de voltar para sala de aula. Não pelo mau cheiro — típico de banheiros masculinos. Mas porque viu Sean no mictório. O moreno logo abriu um sorriso, fechando o zíper enquanto o via entrar para uma das cabines.

Só os dois estavam ali, para o azar de Colin.

— Tem vergonha de usar o mictório? — O moreno falou, sua voz ecoando pelas extremidades do lugar.

O mesmo ar de sarcasmo. O mesmo tom de voz provocador, e a velha expressão de quem quer abusar de sua presa.

Colin nem se importou em responder, embora quisesse muito ser grosseiro estava com paciência suficiente para tal.

— Vou entender que sim. É normal pra garotos de pinto pequeno. — Continuou.

Quando Colin terminou, saiu da cabine e foi em direção à pia para lavar as mãos. Não olhava para o moreno, embora quisesse muito. Desde o último ocorrido admitia adorar encarar aquele olhar ameaçador, profundo e provocante. Mas o nojo que sentia por Sean era maior do que a admiração por sua beleza.

O moreno continuava com suas provocações, embora estivesse irritado por não conseguir tirar o menor do sério. Diante dele, Colin era tão pequeno, porém, suas palavras eram duras e isso o tornava grande, fazendo, muitas vezes, Sean recuar.

Sean caminhou até ficar atrás de Colin, que agora o olhava através do espelho. Os dois braços apoiaram-se na pia, e o pequeno ficou entre eles. O dono de olhos castanhos poderia facilmente passar por debaixo de seus braços e fugir, mas qualquer reação resultaria em uma briga. E sim, ele sabia que perderia.

— Não vai falar nada mesmo? Gosto de gente que apanha calado, eu facilmente poderia te bater aqui, sem que ninguém nos visse, simplesmente pra fazer você pagar por tudo o que disse. — Falava baixo. — Sem William para te proteger.

— Então faça o que tem que fazer e saia daqui. — Colin dizia, fingindo não temer.

Suas pernas tremiam. Mas nesse caso, ele não soube identificar o verdadeiro motivo, pois não sentia tanto medo assim do moreno. Não mais.

— Sempre tão valente... — Sean disse, afastando-se dele.

— Você não cansa de dizer isso? — Colin virou, encarando-o com as mãos ainda molhadas.

— Não.

— Vai me bater agora ou vou ter que esperar até você reunir seus amiguinhos e ordená-los a bater em mim como fez da última vez? — Ele sabia que não era verdade, mas era o único argumento cabível às provocações.

— Eu não mandei te espancarem! — O moreno gritou. Foi atingindo mais uma vez pelo peso das palavras. — Eu não mandei ninguém te bater. — Seu tom voltara ao normal.

— Você é covarde, Sean. Danion... Rick... Vai dizer que com eles também não foi o mesmo.

— Não me chama de covarde. — Ele deu um passo à frente, fazendo Colin recuar e encostar-se à pia. — Não tem um dedo meu metido nisso que aconteceu. D-danion — gaguejou, irritado— foi por puro azar de querer enfrentar sozinho três dos meus garotos, e Rick eu não sei exatamente como aconteceu.

— Como não sabe? — Colin perguntou, sua voz em tom de deboche.

—Porra! Eu não te devo explicações, garoto.

— O grande Sean, temido e odiado por todos. Tão babaca. Covarde! — Colin disse, caminhando, dando ênfase na última palavra.

Sean foi mais rápido e o empurrou contra a pia.

— Repete.

Colin sentiu então a ira do moreno. Seu corpo novamente tremeu, sua voz ficou presa dentro de si. Seu corpo não correspondia aos seus comandos, correr, certamente, não era uma das alternativas.

O moreno caminhou até Colin, parando a sua frente e encarando. Porque ambos não conseguiam reagir? Qualquer um poderia facilmente atacar; um com palavras e o outro com os punhos. Mas nada disso aconteceu. Silêncio, olhares. A respiração.

Tudo se desfez quando o punho do moreno chocou-se contra o vidro atrás de Colin, quebrando-o. Em fração de segundos o sangue descia pelo espelho. Sean parecia não se importar com a dor. O que era dor para ele, afinal? Sua mão permaneceu ali enquanto ele encarava o pequeno. Era uma loucura, algo que fugia do normal. Colin viu, dentro daqueles olhos profundos, as chamas negras do ódio. Um arrepio percorreu de seus dedos do pé aos ombros. Agora, realmente, admitia sentir medo. Brincara com o fogo.

— Eu não sou covarde. — Ele disse, sério, afastando-se de Colin e saindo do banheiro.

Notou que sua mão estava sangrando. Pouco se importou com isso. Iria para algum banheiro longe dali.

Quando a noite chegou, a república de William estava menos animada do que nos dias normais. Colin estava com Caine em uma festa para calouros na república logo no início da Quadra. Danion foi de penetra. Leo estava trancado em seu quarto, assistindo aos vídeos de sua apresentação. Rick nem mesmo preparou o jantar hoje, tivera assuntos mais importantes como uma noite amorosa com o seu namorado bem longe dali. Namorado misterioso. Ian tinha um encontro com seus pais. E Gaspar... Só era leonino porque suas coisas estavam ali, porém, quase nunca parava na república.

William continuava em seu quarto, como sempre. Lia. O seu maior vício. Deitava na cama de Colin enquanto perdia-se nas palavras daquele pequeno livro, que o dono dos olhos castanho lhe emprestara. No meio da página, as palavras de Rick se repetiam em sua cabeça.

Era uma verdade. O loiro há um bom tempo não matinha sua vida sexual ativa, nem mesmo estava disponível para relacionamentos amorosos. Todos participavam de festas, namoravam, beijavam e ele, diferente disso, tornou-se, aos poucos, alguém caseiro que já não mais se importava com a vida de antes. As únicas coisas que permaneceram foram o temperamento explosivo e as lembranças.

— William? — Alguém o chamou, já abrindo a porta.

Era Octavio. O grande garoto de corpo moldado pela academia estava usando uma jaqueta jeans, seguido por uma camisa escura e calça da mesma cor. Segurava na mão um copo descartável com alguma espécie de bebida vermelha. Não continha álcool.

— Oi. — O loiro respondeu, seco logo quando viu ali.

— Você não foi à festa. — Dizia, novamente sem jeito de começar a ter algum diálogo.

— Soube que seria para calouros.

Octavio sentia falta do loiro. De encontrá-lo sorridente, brincalhão e carinhoso. Isso já não mais existia. Era por isso que insistia, de algum modo, a ter poucos minutos com ele, embora soubesse que William agiria friamente. Não poderia deixar que o loiro perdesse sua verdadeira essência. Conseguiu enxergar, lá no fundo, o seu verdadeiro eu implorando para ser solto. Sabia que nada seria como antes, mas dos poucos diálogos que tinham, esses eram o suficiente para apagar, por segundos, todas as mágoas e ressentimentos existentes entre eles.

— É uma festa na Quadra Nove. Tem bebida. Você acha mesmo que só os calouros iriam participar? — Ele tentou brincar.

— Que seja. De qualquer maneira eu não estou no clima para ir.

— Está todo mundo lá, até o seu protegido Colin.

— Meu protegido?

— Claro. Assim como eu cuido de Sean você cuida do garoto.

— Não vem com esse assunto novamente, Octavio. — O loiro disse, fechando o livro.

— Eu não estou aqui pra brigar. — Disse, manso. — Só queria conversar com você.

O loiro deu o seu silêncio como resposta, voltou para sua cama e sentou, cruzou seus pés pondo seu travesseiro em sua coxa. Octavio aproximou-se, sentando-se ao seu lado depositando o copo de bebida na mesa de cabeceira.

— Não vai me expulsar? — Ele indagou.

— Você disse que queria conversar comigo. Diga-me sobre o que é e penso sobre o caso.

Octavio parou de falar. Estava pensando por onde começar. Tinha diversas falas planejadas em sua mente desde que estava sozinho naquela festa não tão longe dali.

— Você me esqueceu? — Ele disse, firme, sem retirar os olhos do outro.

William foi pego pelas palavras. Um mar de pensamentos estava afogando-o naquele momento. O que tinha que esquecer: Octavio ou o que já passaram juntos? Poucas eram as palavras que ele poderia usar, mas essas estavam presas dentro de si. E nada as fariam serem libertas. Não conseguiu mais olhar o moreno a sua frente por tanto tempo assim, levou seus olhos à porta e continuou a ficar pensativo.

— Não. E também não esqueci o que aconteceu. — Disse, sendo sincero.

— Então por que estamos assim?

— Decidimos isso juntos. — Novamente voltou a ficar seco.

— Você quem decidiu, eu apenas escolhi te respeitar e aceitar o que você me pediu.

— Não daríamos certo, Octavio. Nunca demos. Veja a nossa história e perceba que foi marcada por tristezas. — Sua mão pressionou o travesseiro. A raiva.

— Você não tem certeza disso que tá dizendo.

— Claro que eu tenho. — Ele disse, voltando a encarar o moreno.

— William, nos descobrimos juntos. Nos perdemos juntos. O primeiro beijo, o primeiro sexo, o passeio escolar e tantos outros momentos. Será mesmo que nossa história foi marcada por tristeza?

— E veja com quem você acabou ficando no final. — Falava imediatamente, não querendo ser atingido pelas palavras.

— Caralho. Eu não tenho nada com o Sean. Ele é só meu melhor amigo, seu irmão. Eu acabei por entrar nessa guerra sem que percebesse.

— Eu não disse que você tem algo com ele, mas também sei que já teve, Octavio. Afinal, ele também se descobriu com você.

— Quando isso aconteceu comigo e com Sean, eu já tinha me entregado a você há muito tempo. E você havia deixado de falar comigo, o que queria que eu fizesse? Foi só uma única vez. Já com você foi diferente, William, existia química entre nós. Com o seu irmão foi só... Uma noite sem compromisso.

— Eu não consigo esquecer tudo tão facilmente.

— Meu Deus, William. Você não percebeu que quando tudo isso começou éramos jovens demais? Imaturos. Se não fosse essa rivalidade entre seu pai e a mãe de Sean, minha mãe não acabaria estando também envolvida. Eu fui obrigado a escolher seu irmão por causa dela. Mas agora somos praticamente independentes, já deveríamos esquecer tudo o que passou.

— Já conversamos sobre isso.

— E chegamos a alguma conclusão? Não percebe que por conta disso você vem se acabando? William, eu não sei o que é seu beijo há mais de um ano. Eu não sei o que são seus toques e nada mais. Não mais me relacionei com ninguém porque ainda espero você voltar a ser o mesmo, porque eu sei que aí dentro — ele levou sua mão ao coração do loiro — o garoto valente por quem me apaixonei ainda existe.

Tudo que Rick havia dito voltou como lembrança. Ele imaginou o amigo aplaudindo Octavio pelas palavras que disse. Mas se negava a aceitar tudo isso. Porém, o pote de água estava logo ali, parado em sua frente. E o loiro estava perdido vagando nesse deserto.

Ele segurou a mão de Octavio, cobrindo-a com as suas. Logo a massageou, depositou um beijo de leve até encontrar os olhos do moreno, olhando-o.

Foi Octavio quem tomou a atitude de beijá-lo. As lembranças mais íntimas vieram através daquele contato. Não era um beijo qualquer e nunca seria. Era um beijo voraz, ambos os corações batiam na mesma sincronia. Qualquer que fosse a tristeza existente ali, logo estaria sendo queimada pelo fogo daquele beijo. O loiro rapidamente se encarregou de arrancar a jaqueta jeans do moreno, jogando-o na cama e atacando seu pescoço. A resposta foi um longo suspiro até alcançar novamente aqueles lábios.

Dessa vez foi Octavio quem tomou o controle da situação, retirando William de cima, até que ambos acabaram de joelhos, aos beijos, em cima da cama. O moreno estava prestes a retirar a bermuda do loiro quando esse, por sua fez, impediu o movimento de suas mãos.

William olhava, através da janela, a república a sua frente.

— O que foi? — Octavio perguntou, sem graça. — Fiz algo de errado?

— Não. — William disse, levantando-se da cama.

Caminhou até a janela e ficou ali parado, sem olhar para trás. Octavio se perguntou o motivo daquilo. Não tinha respostas seguras e ficou confuso. Há minutos estava beijando-o e de repente o loiro parava, sem explicar o verdadeiro motivo.

— A verdade é que você é um Tigre e eu um Leão, Octavio. No final acabaremos sempre brigados pelo mesmo motivo. Sendo assim, você sempre estará ao lado de Sean.

Notas finais
Oi meus amores, finalmente um capítulo novo não é? Me desculpem a demora, mas eu estive em um evento de música que durou de quinta à domingo. E na semana eu tive prova teórica do detran aí tive que estudar. Mas cá estou eu postando o capítulo e respondendo os reviews ao mesmo tempo.Amo muito vocês, espero que gostem do que leram.