Renúncia
2 É assim que deve ser
– Ei?
Tirei o rosto do volante, assustada com a voz de Israel que quebrou o silencio que havia reinado desde a casa de Moly. Israel raramente falava, conversávamos quase sempre com o olhar, e isso até que me confortava, nunca gostei de tagarelas.
Sua expressão carrancuda continuava o que significava que ele esperava uma resposta minha. Israel não insistiu em falar, talvez porque estivesse ficando escuro, ele sabia que a noite era uma péssima hora para discutir, e bem, ele iria discutir uma hora ou outra. Ele deu um suspiro, e voltou a fitar a estrada que agora ao longe podia se ver as “coisas” perambulando devagar. Meu corpo estremeceu, e meu peito se encheu de ar, enterrei o pé no acelerador e Israel deu um pulo do banco, o motor do carro fazia um barulho alto, mesmo que eu não entendesse nada sobre carros, estava óbvio que aquele barulho não estava certo.
Israel arregalou os olhos e fitou o velocímetro, fingi não perceber a seta vermelha tremendo para o lado direito e continuei a enterrada com mais força no acelerador. Eu realmente não havia notado como estava noite, eu precisava chegar ao Porto, mante-los em segurança, como prometido, com toda certeza já havia sido feito o toque de recolher, eles reclamariam outra vez, eles reclamam por qualquer coisa.
Com um rompante Israel puxou meu pé do freio e com o braço empurrou meu corpo para traz, para manter minha cabeça longe do vidro frontal do carro quando, este parou com agressividade no meio da estrada. Israel não disse uma palavra, apenas olhou meus olhos com uma expressão dividida em raiva e preocupação.
Meus olhos focaram no movimento da beira da estrada, a poucos metros de nós, se arrastando para o meio da rua, com os dentes expostos, e se a ele fosse dada meia chance, ele enfiaria os dentes na bebê, ele a mastigaria não se importando com o choro dela, engolindo o que foi a pele rosada e infantil de sua face.
Ele precisava ser exterminado.
Abri a porta do carro com um rompante, ignorando as frases que Israel dizia ao me seguir, puxei a machadinha que estava presa em minhas costas, e segurei com força em minhas mãos, Israel me puxou para o canto e dizendo coisas sobre poupar a “vida” da coisa. Meus pulmões arderam e a imagem de meu pai chutando minha mãe para o canto do quarto, mastigando a pele dela e como um animal correndo até o berço da filha recém-nascida, tomou minha mente.
Tirei Israel de meu alcance e mirei na cabeça da coisa, e minha machadinha foi e voltou, foi e voltou, foi e voltou, foi e voltou...
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