Renegados [interativa]

4 [Três] Uma Longa Viagem


Notas iniciais
Tudo bem, esse capítulo ia ser maior, mas eu achei que ficaria muito cansativo e decidi dividir >.<

E...

Boa leitura o/ Falo outras coisas nas notas finais.


Quando abriu os olhos, Susan estava deitada sobre o frio piso de seu apartamento. Passou ainda algum tempo deitada, tentando lembrar o porquê de estar ali. Tinha certeza de ter saído... Apertou forte os olhos, respirando fundo, para se levantar. Mas era como se seu corpo estivesse pregado no chão. O irmão aproximou-se, abaixando-se sobre ela. Susan via-o abrir a boca e gesticular, embora não escutasse nada do que era dito. Estava surda? Iria ao médico — o que estivera adiando tanto — assim que pudesse se levantar. Poderia ser o stress. Tentou falar ao irmão que tudo estava bem, mas a voz não saia, e novamente sentiu-se impotente naquele corpo que não a obedecia. Sentiu cócegas na mão esquerda, e viu de rabo de olho o coelho de focinho cinzento e pelos brancos, os olhos escuros — não vermelhos — fitando-a com uma inteligência que não podia existir em um animal.



E ela conseguiu mover a mão. E o corpo. Respirou aliviada, sentando-se, agora ouvindo os questionamentos preocupados do irmão. Disse que estava tudo bem e foi ajudada por ele a se levantar. Will olhou para o coelho, no chão.



– Como o Alegre escapou do cercado? — Perguntou.

Sue ia responder, até abriu a boca para isso, mas uma ventania estranha a distraiu. Como haveria vento dentro de casa? Virou-se, e não pôde conter uma exclamação ao ver o enorme buraco — precipício! — que se abria no chão de sua sala. Afastava-se de costas lentamente, quando esbarrou no irmão. Virou-se para ele.

– Você vê aquilo? — Disse ela, assustada.

Will olhou para o lugar que ela apontava, uma expressão confusa no rosto. Caminhou até lá, apesar dos protestos de Susan, e estranhamente pisou sobre o buraco, parecendo sequer notá-lo. Sue teve, no momento, certeza de que estava totalmente pirada. Quando àquilo acabasse, ela mesma se internaria em um manicômio.

Respirou fundo, repetindo para si mesma que nada daquilo era real, e caminhou à passos curtos até o imenso buraco, que parecia sugá-la.

E foi engolida por ele.

Nos momentos seguintes, apenas via escuridão, como se flutuasse no nada.

Assim que abriu os olhos — nem notara que os fechara — viu-se em um bosque, com árvores grandes de troncos grossos e copas que tapavam o sol. Arbustos, e relva macia onde estava deitada. Levantou-se com facilidade, sacudindo a poeira de suas roupas e repetindo para si mesma que tudo não se passava de um sonho.

Até que viu Alegre passar por ela saltitando como um coelho. Ele parou por algum tempo, parecendo olhá-la, então virou-se e continuou o caminho. Sue se sentiu em "Alice No País das Maravilhas", e já que estava naquele sonho maluco, decidiu seguir o coelho.

Depois de algum tempo esforçando-se para alcançar o passo do pequeno animal, Sue o perdeu de vista, indo encontrá-lo novamente na beira de um penhasco. O vento batia em seus cabelos, e o cheiro de terra e grama parecia tão real que por um momento ela achou que tudo ali fosse real. Aproximou-se do penhasco, vendo por sobre ele uma vasta imensidão, sendo que mais distante parecia haver uma cidade. Ela apenas enxergava um borrão, mas tinha certeza de avistar um castelo.

Ainda estava admirando a paisagem, quando ouviu um som de folhas secas sendo esmagadas — ou algo assim. Virou-se, surpreendendo-se com um homem bastante alto — quase dois metros, ela achava — com uma pele quase translúcida. Não possuía cabelos, nem orelhas, seus ouvidos eram dois buracos. Não possuía lábios também, apenas uma linha fina no lugar da boca, e seu nariz era fino e pequeno. Os olhos atraiam toda a atenção do rosto. Eram amarelos, e a pupila era um pequeno rasgo negro como dos gatos. Ele ficou parado, ali, encarando-a de modo nem um pouco amigável. Inconscientemente, Sue afastava-se de costas, e estava prestes a cair do penhasco quando viu outra "pessoa" aparecer por trás do estranho homem.

Era uma garota — ou ao menos deveria ser –, baixa, ficava ainda menor perto do "homem". Seus cabelos eram louros, finos e despenteados. Os olhos eram azuis, o corpo bastante infantil. Mas chamou mais a atenção de Susan quando sorriu, talvez para acalmá-la, o que não adiantou muito. Seus dentes eram todos afiados e pequenos, como de uma piranha ou tubarão. Ou ainda do gato Cheshire.

Sue ia dar mais um passo para trás, o que resultaria em uma queda mortal, mas uma voz fê-la parar.

– Espera! Não... Não dê mais nem um passo — Disse um rapaz, surgindo por trás da dupla esquisita. Aparentava ser jovem também, embora não fosse baixo como a garota ou alto como o ser. Possuía cabelos ruivos, escuros e bagunçados, olhos verdes e pele clara, embora não tanto como da criatura estranha ao seu lado. Seu corpo era definido, para um jovem rapaz. Ele seria o único a parecer um pouco mais "normal" ali, se não fosse o par de chifres brancos, sendo que um deles estava partido.

– Tudo bem, isso está muito estranho, então eu gostaria de acordar agora — Susan disse para si mesma, fechando os olhos apertados como fazia ao ter um pesadelo do qual não conseguia sair.

Passaram um, dois, três segundos...

– Isso não é um sonho — Ela ouviu alguém dizer, e abriu novamente os olhos. A "garota" falava, sorrindo como se debochasse dela.

– Vocês vão estar ferrados quando o Mestre souber que trouxeram um humano da Terra... — O rapaz ruivo falou para os dois ao seu lado, embora seus olhos não deixassem Susan, como se ela fosse uma criatura exótica.

A garota levantou as mãos para o alto.

– Não foi eu, o Phy fez isso. E não sei por que também, ele não fala, lembra?

O homem alto e estranho moveu-se pela primeira vez, caminhando até próximo do penhasco, e quando Sue pensava que se aproximaria dela, virou bruscamente. Abaixou-se próximo a Alegre que apenas observava tudo, parecendo entediado. Se um coelho pudesse parecer entediado.

– Está... Sentindo isso? — O ruivo perguntou, aproximando-se do coelho. — O Phykos trouxe um mago! Como...?

– Acho que nunca vamos saber... — A garota murmurou de modo nostálgico. Virou-se, depois. — Acho melhor voltarmos, está ficando tarde... Os sem-magia estão cada vez mais perto.

– E o que faremos com ela?

Todos passaram, então, a encarar Susan diretamente. Menos o homem estranho, que encarava o coelho.

A mulher respirou fundo, não conseguindo assimilar bem tudo àquilo.



_____



Eveline caminhava pelas ruas vazias, na noite fresca de Santa Catarina. Gostava de sair durante algumas noites para o bosque municipal local, para que Nirvana, sua coruja suindara, pudesse voar um pouco e caçar pequenos animais. Ela sempre achara impressionante o fato de o animal nunca ter fugido, mesmo tendo essa oportunidade, já que Line nunca lhe cortara as asas.



A essa hora, o bosque estava fechado, mas isso não era um problema quando ela poderia entrar facilmente. Poderiam haver alguns maus elementos, mas ela não via muito problema nisso. Olhou para o alto, procurando com os olhos pela ave que a seguia. Era estranho, já que nunca disseram nada sobre pássaros se apegarem aos donos, mas desde que Line encontrara a coruja quase morta sob uma árvore, se apegara muito a ela.



A lua estava cheia no céu, o que ajudava a iluminar os locais onde os postes haviam sido vandalizados. Eveline logo avistou o bosque, e aproximou-se pelo portão, que estava fechado. Agarrou as grades com ambas as mãos e passou a escalar o portão, pulando para o outro lado em seguida. Nirvana planou sobre sua cabeça por alguns instantes, para em seguida sumir por entre as árvores. Eve estava caminhando pela trilha, para dar a volta no bosque, quando ouviu algumas vozes discutindo entre si. Abaixou-se por trás do tronco de uma árvore.

– ... Olha, ela está brilhando. Quer dizer que tem um mago por perto. – Uma das vozes disse.

– Mas como vamos saber o que é? Pode ser qualquer animal! Pode ser até uma formiga, pelo que ficamos sabendo...

Line os ouviu se mover, e por algum motivo seguiu-os, embora não pudesse vê-los bem da distância em que estava.

– São ordens do príncipe, não podemos voltar até encontrar ao menos um mago.

Eveline aproximou-se um pouco mais, o suficiente para ver duas silhuetas, sendo que uma delas segurava uma pedra grande e não lapidada que brilhava fracamente. Até notar Nirvana passar, dando uma rasante na cabeça dos homens, a pedra brilhando o suficiente para iluminar toda aquela parte do bosque. E quando a coruja se afastou, voltou ao normal.

– É ela, vamos!

Os dois passaram a perseguir a coruja, embora Eveline tivesse certeza de que não a pegariam. Seguiu-os, tendo que apressar cada vez mais o passo pela trilha quase inexistente daquela parte. Nirvana era apenas um borrão no céu, embora seu voo fosse calmo, como se apenas quisesse atrair aquelas pessoas. Não seria pega.

Até Eveline notar que um dos homens empunhava um arco, posicionando uma flecha e retesando-o.

– Espera – O outro disse, parando o que se preparava para atirar – Temos que levá-lo vivo.

O que carregava o arco grunhiu uma confirmação, levando apenas alguns segundos para que a flecha voasse pelo ar com tamanha exatidão que o que Eveline viu a seguir foi um borrão branco caindo. Nirvana.

Os dois correram, passando com agilidade pelas árvores e rochas. Eveline os seguiu, embora um pouco mais lentamente. Quando finalmente chegou ao local onde a ave caíra, viu um dos homens pegando-a pela asa direita, já que a esquerda fora atingida pela flecha. O outro tirava coisas da mochila, e desenhava símbolos estranhos no chão.

Eveline não pensou muito, precisava fazer alguma coisa. Tateou os bolsos por algo, encontrando um spray de pimenta – afinal, segurança não era demais, principalmente quando ia sozinha até o bosque -. Pegou uma pedra um pouco maior que sua mão, e aproximou-se furtivamente do homem que segurava a coruja pela asa, olhando-a como um animal exótico. Mas, por um deslize, pisou em um galho seco, produzindo um barulho que ele rapidamente se virou para checar. Recebendo uma pedrada bem no nariz, e debruçando-se sobre si para estancar o sangramento nasal que veio a seguir.

O outro se aproximava com uma expressão mal humorada. Usava roupas estranhas de lã, sendo que Santa Catarina nem era tão frio assim. Seus cabelos eram compridos e tinham uma mecha trançada, além de uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, aproximando-se muito do olho. Line apontou o spray de pimenta para ele, que parou, olhando o objeto com alguma suspeita. Pressionou o spray, fazendo jorrar o líquido diretamente nos olhos do agressor. Correu até Nirvana, que estava com uma flecha encravada na asa esquerda. Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, viu o homem que segurava o nariz aproximando-se com uma lâmina de forma nem um pouco pacífica, e pegou a coruja, fugindo dali antes que algo pior acontecesse.

Enquanto corria, ainda podia ouvir os passos cambaleantes que a acompanhavam. Era só um, sendo que o outro ainda deveria estar sem sua preciosa visão. Eveline tinha sorte de conhecer bem aquele bosque, de modo que não demorou a chegar ao portão, que estava fechado. Pensou por um momento em como escalar de volta segurando a coruja ferida, mas quando ouviu os passos se aproximarem, não pensou mais. Usando apenas uma das mãos, içou-se para cima com alguma dificuldade. Quando chegou ao topo, viu que o homem já se aproximava, então se jogou do para o outro lado, usando os cotovelos para amortecer a queda e não ferir Nirvana. Levantou-se, sentindo o corpo dolorido e sangue escorrer pelos cotovelos e joelhos, e se pôs a correr.

Depois de algum tempo e muito esforço, parou, ofegante. Percebeu que os havia despistado, e respirou aliviada. Precisava encontrar algum hospital veterinário aberto àquela hora, o que seria meio difícil. Mas, por enquanto, apenas precisava recuperar o fôlego.

Estava assim, segurando o pássaro com uma das mãos, e respirando descompassadamente, quando ouviu passos. Virou-se, de maneira defensiva, pronta para fugir, mas felizmente não era quem a perseguia.

– Desculpe, a assustei? – Perguntou em voz de veludo, um sorriso brincando em seus lábios. Possuía cabelos louros, meio compridos, e olhos azul gelo. Era bastante alto, o que fazia-a ter que olhar para cima para encará-lo. Embora ela tivesse certeza de que seus caninos eram mais afiados que o normal, não podia deixar de admirar-se com sua beleza inumana.

– Não, ah, eu só... – Tentou responder, ainda um pouco abalada pelo que acabara de acontecer.

Ele aproximou-se, tocando-lhe delicadamente o braço.

– Está ferida... E o que está segurando?

Eveline lembrou-se de Nirvana, que precisava urgentemente de cuidados. Mas não soube dizer nada, na verdade, sentia que havia algo errado com esse cara. Como se algo dentro de si, talvez um instinto adormecido, lhe gritasse que fugisse, que esse era mais perigoso que os outros. Tudo em seu ser gritava “perigo”, mas ela simplesmente ignorou.

– É... a Nirvana, ela precisa de ajuda. – Eveline disse, acrescentando – Preciso ir.

Line já ia virar-se para correr a procura de um médico veterinário ou qualquer um que pudesse ajudar, quando o homem a interrompeu.

– Eu posso ajudar – Sorriu, embora não pudesse evitar o brilho quase predatório em seus olhos. Tirou do pescoço um colar, com um pingente negro em forma de lágrima. Vidro, talvez. – Segure-a. – Ele pediu, e ela o fez. Com as mãos, o homem partiu a ponta da flecha, fazendo o mesmo com o cabo.

De uma vez, puxou a flecha. A coruja pareceu acordar por um momento, embora aquilo devesse lhe causar muita dor. O homem pressionou a pedra no ferimento, que brilhou, uma luz negra. De forma surpreendente, qualquer resquício do ferimento sumiu. A coruja rapidamente voou, afastando-se.

– Uau, o que foi isso? Algum truque? Aquela flecha parecia bem real. – Eveline exclamou, surpresa.

O homem riu.

– Não foi um truque. Vamos dizer que é... Mágica. – Pegou a mão de Eveline, levando-a aos lábios – À propósito, me chamo Magnus.

Notas finais
E então, o que acharam? Sério, se tiver algo errado com o personagem, com a história, com qualquer coisa me avisa '-' É que quando algum leitor desaparece, eu fico achando que foi algo errado que fiz. Então, antes de desaparecer, diga o que fiz de errado, tá?

E digam o que acharam do capítulo e dos personagens. O garoto ruivo da primeira parte é de ficha, mas como sua aparência estava muito humana decidi acrescentar os charmosos chifres >.< Chifres são fofos. E nada de levar para outros sentidos...

Eveline é da Pseudo Me. E ai, o que achou Pseudo Me? XD

Posto o próximo amanhã, okay?

Vejo vocês no review. E não sumam sem nem dizer adeus T-T