Renegados [interativa]
5 [Quatro] Entre Rãs e Cães
Notas iniciais
Enfim, boa leitura o/
Ah, e leiam as notas finais. Depois, claro, pode haver spoilers.
Samasha, uma garota de cabelos castanhos claros que alcançavam os ombros e olhos verdes, estava sentada no sofá do seu pequeno apartamento, fazendo seu desjejum ali mesmo. Vivia sozinha, então não precisava se preocupar muito com regras como quando se morava com alguém. Mudara-se de Santa Catarina para o Rio de Janeiro depois de passar em uma universidade local, para o curso de Veterinária. Desde então, vivia naquele apartamento, que era pago pelos pais, embora tivesse que trabalhar meio período na lanchonete da faculdade para pagar as despesas extras.
Agora, ela assistia a um noticiário qualquer da TV, que apenas lhe chamara atenção por se tratar de sua terra natal, Santa Catarina. Do seu lado, no sofá – e tomando boa parte dele -, estava Nina, sua cachorra da raça boxer. Parecia prestar atenção na TV, embora normalmente fosse agitada e impaciente.
A jornalista falava sobre um duplo assassinato que poderia ter sido cometido por um assassino em série, que ainda estava à solta. Era algo um pouco incomum no Brasil.
– ...Esta manhã, em Florianópolis, Santa Catarina, dois corpos foram encontrados em um bosque local. Ambos encontravam-se brutalizados, e faltando-lhes um órgão: O coração. As vítimas não foram reconhecidas, e portavam objetos para um possível ritual satânico, além de algumas armas medievais. Segundo o laudo médico, foi encontrado resquícios de uma substância comum nos sprays de pimenta, o que revela outra testemunha na cena do crime. A polícia federal foi designada para o caso, mas não quiseram comentar sobre o assunto...
– Cada coisa – Samasha murmurou, terminando rápido o café da manhã e levantando-se. Não poderia se atrasar para o primeiro tempo.
Nina parecia prestar atenção na TV, mas quando viu que a dona pegava a bolsa para sair, correu em sua direção. Fora um grande trabalho para que permitissem o cachorro no apartamento, pelo seu porte, e era especialmente difícil quando ela decidia tornar-se desobediente. Samasha destrancou a porta, mas quando percebeu que a cadela tentaria sair – da última vez que fizera isso, fora uma bagunça e tanto – não abriu.
– Nina, senta! – Disse em voz firme, embora a boxer apenas a olhou e continuou do modo como estava. Samasha tentara treiná-la diversas vezes, mas era como se Nina tivesse vontade própria. Nenhum adestrador sobrevivia a Nina, A Implacável. – Fica. Aí.
Nina afastou-se dois passos e sentou-se, encarando Samasha obedientemente. Nem parecia a mesma cachorra. Ela abriu a porta, e quando estava prestes a sair, Nina passou como um furacão por entre suas pernas.
– Espera! – Gritou de forma indignada, quase sendo derrubada. Era baixa, o que fazia Nina parecer ainda maior perto de si. Fechou a porta do apartamento e se pôs a perseguir a cadela.
_____
A garota caminhava de um lado ao outro no imenso salão. Em sua face, uma expressão preocupada. Era a filha mais nova do Rei Rogen, fruto de seu último casamento. De alguma forma, todas as esposas do Rei acabavam morrendo, e cada filho seu era de um casamento diferente, exceto pelos mais velhos – Crystal e Misha – que eram gêmeos. Nell, além de filha mais nova, também era a mais distante dos irmãos. Alguns criticavam muito seu jeito de ser, principalmente pelo fato de recusar-se a casar, o que seria obrigatório caso quisesse assumir a coroa. Vardfall ainda não superara o machismo. Mas se Nell conseguisse a coroa, seria obrigada a superar, além de aceitar muitas outras coisas consideradas polêmicas. A garota queria fazer uma reforma total em seu país, a única coisa que a fazia entrar naquela briga.
O salão vazio que algumas vezes fora usado para bailes estava quase caindo aos pedaços. Festas, já fazia algum tempo que Vardfall não ouvia essa palavra. Com o Rei Rogen, estavam sempre em guerra. Contra magos, contra outras criaturas, e ele ainda pretendia algo maior: Contra a Terra. Por sorte, falecera antes.
Nell escutou passos ecoarem pelo salão, e quando viu quem era, respirou, aliviada.
– Finalmente, pensei que não viria. – Murmurou para o rapaz que se aproximava. Misha. Os cabelos vermelhos como sangue, herdados de sua mãe, a primeira esposa de Rogen, flutuavam ao seu redor. Misha fora o único a recusar a coroa, embora fosse quem tinha verdadeiro direito a ela, por ser o primogênito. Normalmente, estava na maior parte do tempo com a irmã, mas Nell pediu que não a trouxesse. Crystal não sabia exatamente guardar segredos, além de ser um bocado impulsiva e não estar nem aí para nada. Para ela, tanto fazia quem governasse ou o que acontecesse.
Misha também era o único a apoiar Nell em sua pretensão. Escolhera a carreira de sacerdote, não era exatamente um guerreiro, mas sempre ajudava a irmã.
– Sinto muito, foi difícil livrar-me de Crystal. – Ele sorriu, aproximando-se – E então, o que é tão urgente?
Ela passou as mãos pelos cabelos, em um gesto preocupado.
– É o Lavon... Ele está cada vez mais perto. Mandou vários grupos de soldados para a Terra, quer capturar um mago... Também está a ponto de descobrir sobre o acampamento, onde estamos escondendo alguns sobreviventes. E o pior é que não faço ideia do que ele pretende. – Desabafou, sentando-se no chão de qualquer jeito, e apoiando a cabeça nas mãos.
Misha abaixou-se ao lado dela.
– Se quer saber o que ele pretende, acho que Cryst pode conseguir a informação. Até agora, não há como saber de que lado ele está... Devemos ser cautelosos.
Nell suspirou. Lavon sempre fora o mais indecifrável dos cinco, totalmente o oposto de Kensen, que era um livro aberto. Mudava de ideia rápido demais, além de fazer coisas que ninguém sabia ao certo o motivo ou significado. Suas razões, eram totalmente desconhecidas.
– E o meio-mago que mandou? Deu alguma notícia? – Perguntou Nell, fitando o irmão diretamente no rosto.
Misha respirou fundo, olhando para o nada, como se pudesse ver algo nas sombras que se formavam nas paredes.
– Não. Sei que não acredita muito nele, mas era nossa melhor chance de passar sem ser detectados... A magia dele foi escondida há muito tempo, nem ele sabe como usá-la. Apesar disso, conhece mais sobre magia que nós dois juntos. Então, apenas confie um pouco, Nell...
Mas ela não confiava. Não sabia como um mago sem-magia pudesse ajudar.
De qualquer modo, guardaria seu receio consigo, como sempre fazia.
_____
Em um minuto estava ali, no outro não.
Era muito para a cabeça do garotinho. Possuía apenas doze anos, para algo como aquilo. Ou talvez sua idade ajudasse, afinal, possuía uma mente aberta.
Harlan parou atrás do garoto, a serpente enrolada em seu pescoço. Fitava-o de maneira preocupada.
– Corin, está bem? A primeira viagem por teletransporte pode ser realmente difícil...
Corin olhou para ele por um segundo, com uma expressão de quem via-o ser torturado, e correu até próximo dali para vomitar até suas tripas. Quando voltou, Harlan teve certeza de ver seu rosto um pouco verde, mas podia ser a luz.
Estavam em um bairro afastado, embora o cheiro no ar ainda fosse de fumaça de automóveis. Corin pareceu estranhar isso, mas antes que pudesse dizer algo Harlan o interrompeu, pegando uma pequena rã azulada que cabia em sua palma e oferecendo ao garoto.
– Coma-a – Disse, apenas.
Corin fez uma careta para a rã que ainda se mexia.
– Quer que eu coma uma rã? – Questionou, confuso.
Harlan riu, até parar abruptamente.
– Sim, é isso mesmo. Está em outro país, não vê? Como acha que aprenderá a língua deles tão rápido? A rã serve para que você entenda qualquer língua ou linguagem conhecida, inclusive de plantas e animais. – Explicou seriamente. Caminhou até um banco ali perto e sentou-se, respirando aliviado. – Eu estou um pouco cansado da viagem, então quanto mais rápido terminarmos, melhor.
Corin pegou a rã e fitou-a com uma careta.
– Isso é meio cruel. Ela está viva...
“É só engolir inteira, não precisa mastigar. E não reclame para alguém que precisou passar anos alimentando-se de ratos e sapos... Alguns pássaros de vez em quando, se bem que o gosto não era ruim.” Manifestou-se Snow pela primeira vez em algum tempo.
– Não é uma rã de verdade, garoto. Não como as que você vê por aqui. – Murmurou Harlan, impaciente.
– Não me chame de garoto. Você já comeu uma rã?
Harlan passou a mão pelos cabelos ruivos que precisavam de um pente, parecendo recordar-se de algo.
– Bem, todos os magos precisam fazer isso... É uma espécie de iniciação. – Respondeu em um tom nostálgico.
Corin sentou-se, não se imaginando comendo aquela rã. Ao menos precisava ganhar tempo até pensar em algo.
– Você não é um mago... – Corin disse, embora houvesse dúvida em seu tom.
“Não, ele é uma aberração. Mestiços são proibidos, e para disfarçar isso, geralmente usa-se um feitiço que esconde uma das partes.” A voz sinistra da serpente soou em sua cabeça. Parecia conhecer a história de Harlan.
– Vocês se conhecem? – Corin perguntou, aproveitando da distração de ambos para “sem querer” deixar a rã escapar.
Harlan espreguiçou-se no banco, para só então responder.
– Foi há muito tempo... Eu era um garoto, e minha mãe era uma maga. Ela tinha uma habilidade peculiar de prever partes do futuro em seus sonhos, e por isso decidiu esconder meu lado mágico. Era um feitiço complicado e muito perigoso, eram poucos os magos que o realizavam... Além de que mestiços eram caçados assim que descobertos. – Harlan possuía um tom nostálgico, talvez um pouco rancoroso. Parecia não gostar da escolha que a mãe fizera. – Acontece que havia um grupo de magos que fazia qualquer feitiço, desde que bem pago. Black Hole... E ele fazia parte desse grupo. Além de ser minha chave.
Corin demorou algum tempo ingerindo a informação. Tinha muitas dúvidas sobre esse lugar tão misterioso que eles diziam existir, mas o que mais chamou a atenção foi a última parte.
– Chave? Como ele pode ser uma chave? – Perguntou. Estava tão imerso na história que mal percebia que o tempo passava, além da fome tremenda que sentia por ter vomitado todo o seu café da manhã e almoço.
Snow respondeu, e mesmo seu “tom mental” parecia impaciente.
“Se você quer manter algo trancado, é preciso uma chave. Nesse caso, a chave precisava ser algo vivo... E eu me ofereci.”
– Ele seria o único capaz de liberar minha magia, se não tivesse enlouquecido... – Harlan comentou, recebendo um silvo como resposta. Parecia guardar rancor por isso.
Corin olhou para Snow. Ou quem quer que fosse esse animal tão peculiar. Não, nem mesmo animal era.
– Para que pudesse liberar minha magia, ele precisaria se abrir, emocionalmente. Talvez tenha sido isso que minha mãe pediu... Que a chave nunca funcionasse de forma correta... E, agora, nunca mais usarei magia.
Enquanto Harlan falava de modo nostálgico, um enorme cachorro aproximou-se, correndo. Olhava diretamente para Snow.
“Eu senti sua magia. Finalmente, achei que demorariam mais, e eu teria que passar mais cem anos nessa forma...” Corin ouviu outra voz, diferente da de Snow, porém ainda assim em sua mente. O cachorro...?
Enquanto fitava de forma curiosa o cachorro, uma garota baixinha apareceu, ofegante.
– Nina... Nunca... Mais... Faça isso – Disse, a respiração entrecortada. Apenas Corin não entendeu o que ela dizia. Ela olhou para os rapazes, e em seguida para a serpente. Por sorte, Harlan havia trocado suas roupas estranhas. – Obrigada por encontrar minha cadela, eu acho.
Ela tentou puxar Nina dali, em vão. Parecia estar fincada no solo. Abaixou, pegando uma rã azulada que passava ali, intrigada por ela estar aparecendo em plena luz do dia. Rãs tem hábitos noturnos.
– Afinal... Quem são vocês? – Perguntou, levantando os olhos para os estranhos.
Notas finais
Samasha é uma personagem da ~madu haruno~. Qualquer coisa errada com sua personagem, avise-me.
E o resto da família real foi um pouco apresentada. O que acham? Vardfall tem alguma chance?
~revelações, revelações~
O que acharam da história entre Harlan e Snow/Black Cat?
E quanto a reportagem da TV? Tiram alguma conclusão disso? (dica: é importante >=D)
Comentem! Quero ver seus lindos reviews!
Ah, eu pareço bem humorada, mas é o que o café em excesso faz. Pior que alcool. Sei lá, nunca bebi.
Byye o/
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