Renegados [interativa]
3 [Dois] O Coelho Alegre
Notas iniciais
Eu ia fazer esse capítulo maior, para já introduzir alguns personagens, mas acabei mudando de ideia... Então, não vão aparecer muitos personagens de ficha, por que eu queria deixar algumas coisas claras.
Antes que eu dê algum spoiler, é melhor ir ler '-'
No centro da principal cidade de Vardfall, Yowen, estava localizado um luxuoso castelo, que pertencia a família real há gerações. Estava muito bem protegido desde a morte do Rei Rogen I, O Libertador — ou O Opressor, para magos e seus descendentes -, que a maioria tinha a certeza de não ter sido natural. O Rei estava em seus cinquenta anos quando morreu, e no dia anterior, estivera caçando com três dos cinco filhos. Seu fim foi durante o sono, e seu corpo gelado foi encontrado em sua cama. Embora as desconfianças fossem muitas, ninguém queria investigar a morte do soberano, por ele não ser tão querido assim. Alguns, inclusive, mostravam-se aliviados por isso.
Em um dos quartos da ampla fortaleza de pedra, fria e sinistra com seus candelabros e sombras bruxuleantes, um homem estava amarrado em uma cadeira de madeira. Tinha o rosto ferido pelas pancadas que recebera, e por pouco não perdera a consciência. Em sua frente, caminhando de um lado ao outro, estava Kense, o segundo filho do Rei, e um dos herdeiros. Era alto, com um corpo musculoso coberto por cicatrizes, e espessos cabelos negros que caiam de forma aleatória em seus ombros. Sua expressão era de raiva, seus olhos castanhos quase como o fogo. Era, de longe, o filho mais parecido com o pai, e alguns ousavam dizer que chegava a ser pior. Como os outros quatro filhos, achava ter direito a coroa, mas seria alguém difícil de contradizer.
Afastou o punho esquerdo, pronto a esbofetear novamente o prisioneiro, quando foi interrompido pelo som da pesada porta de madeira rangendo.
– Interrompi algo? — Disse o rapaz, já adentrando a sala, sendo recebido por uma carranca do maior. Era Lavon, o caçula dos cinco filhos. Possuía finos cabelos negros e olhos que pareciam assumir uma coloração violeta, dependendo da luz. Seu corpo era esguio, bastante diferente do irmão mais velho, e o rosto, fino. Ostentava um sorriso de deboche no rosto. — Sinto muito, Ken, não sabia que estava se divertindo.
O maior grunhiu, aparentemente nem um pouco satisfeito pela intromissão.
– O que você quer? — Bufou, impaciente.
Lavon caminhou calmamente pela sala, parecendo analisar cada objeto ali presente — que não eram muitos, além dos de tortura habituais — e seus olhos pararam no homem preso na cadeira, que olhava assustado para ambos.
– E ele, o que fez a você? Semana passada trouxe aqui um homem que não quis lhe ceder a esposa... — O mais novo disse, ironicamente.
Kensen respirou fundo, talvez como um modo de controlar-se. Não acontecera bem daquela maneira... Ele apenas não sabia que a mulher era casada, e não pôde suportar quando o homem veio reclamar para ele que a esposa carregava um bastardo no ventre. A verdade era que ele sequer se lembrava, e achou uma grande falta de respeito dizer algo como aquilo a um futuro Rei. Devia sentir-se honrado, se a esposa estava mesmo carregando alguém com sangue real. Podia nem mesmo ser dele.Sacudiu a cabeça, os cabelos caindo-lhe sobre a face.
– Não acha que vou lhe dizer, acha? Dessa vez, não é um assunto particular. — Kensen respondeu sem muita animação, brincando com alguns objetos em uma mesinha ali perto. Tantos modos de torturar, mas ele sempre preferia usar os punhos. Era como uma terapia.
– Ora, então é ai que você deve mesmo dizer — Lavon pronunciou veementemente, ficando de frente para o prisioneiro — A verdade é que eu já sei sobre o que se trata, apenas queria ver com meus próprios olhos... Esse homem diz que é um mago, ou são apenas boatos?
Lavon parecia prestes a rir. O ser patético que estava em sua frente não poderia ser um mago. É certo que ele nunca vira um mago de verdade, já que já haviam sido extintos antes de ele nascer, mas magos não se deixariam prender por simples cordas... Ou talvez fosse isso que ele queria que pensasse, que não era um mago.
– Ele disse algo? — Lavon perguntou, depois de algum silêncio.
Kensen pareceu pensativo por um tempo, mas talvez não estivesse realmente pensando. Ele não era do tipo intelectual, e desde que a "paz" voltou a Vardfall, o segundo filho andava cada vez mais entediado.
– Ele não tem língua — Disse, por fim, fazendo Lavon se surpreender um pouco com a seriedade que o irmão usara. Ken, notando que ele não parecia acreditar, caminhou até o homem e abriu-lhe a boca de forma nem um pouco cuidadosa, exibindo o que sobrara de sua língua cortada.
Lavon fitou-o, incrédulo.
– E por que estava batendo nele, se não podia te dizer nada?
Kensen deu de ombros.
– Fiquei com raiva de sua inutilidade. — Caminhou até a porta, virando-se pouco antes de passar por ela — Vou mandar prendê-lo... Acho que não tem mais utilidade.
Saiu da sala, deixando Lavon sozinho com o homem sem-língua.
– Se alguém cortou sua língua, é por que tem algo importante a dizer. — Murmurou mais para si mesmo, pensando seriamente nos boatos que ouvira sobre magos terem voltado, ou estarem prestes a voltar. Lavon não temia isso, na verdade, estava muito curioso. Nunca antes vira um mago, e possuía a mesma vontade de conhecê-los que uma criança tem de ver um dragão vivo.
Suspirou, sando da sala e fechando a porta atrás de si.
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Susan levantou-se da cama um minuto antes do relógio digital despertar. Caminhou como um zumbi até o banheiro do apartamento pequeno, até acordar completamente e lembrar que tinha muito a fazer. Instantaneamente, se pôs a arrumar-se de forma rápida, e vez ou outra olhava para uma das muitas listas que tinha por todo o lugar.
Chegando a cozinha, viu o irmão mais novo, Will, sentado na mesa comendo o cereal. Viviam juntos desde que seus pais morreram num acidente de carro, e mesmo o irmão tendo vinte e dois anos, nunca morou sozinho, por causa de um problema que tinha. Síndrome de Asperger. Susan vivia para o irmão, e todos os seus esforços eram postos em ajudá-lo a aprender a socializar e lidar melhor com o transtorno.
Rapidamente — como sempre — preparou o café, que tomou em alguns goles que desceram queimando pela sua garganta. Às vezes, não se sentia realmente acordada sem antes ingerir uma boa dose de cafeína.
Olhou para o irmão, que, ainda na mesa, escupia em um pedaço de madeira um perfeito coelho. Era uma obsessão que tinha, escupir minunciosamente peças em madeira, mas Sue não podia reclamar. As peças vendidas davam boa parte do sustento dos dois, já que o salário que ganhava como assistente administrativa em uma editora de revistas não era o que se chamaria de bom.
Por um momento, lembrou-se de outro ser que precisava de sua atenção, e foi apressada até uma pequena varanda cercada onde ficava o coelho que encontrara, Alegre — nome sugerido pelo irmão -. Por algum motivo, o olhar do coelho estava mais estático que o de costume, o que causou-lhe um arrepio involuntário. Estendeu uma das mãos para acariciá-lo, e quando o tocou, afastou a mão rapidamente, como se estivesse tomado um choque. Sentia sua cabeça girar, com imagens confusas passando por ela. Era como se tivesse um flashback, embora não pudesse compreender a confusão de imagens que passavam. Levantou-se, massageando as têmporas, e quando olhou à procura do Alegre, não o viu. Talvez tivesse se enfiado em algum lugar, então simplesmente encheu suas vasilhas com água e ração e saiu de lá. Tentava concentrar-se no que teria que fazer àquele dia, mas a confusão em sua mente não deixava-a lembrar sequer o próprio nome.
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Um enorme cão da raça rottweiler perseguia um homem pelas ruas escuras de Londres. A diferença era que sua pelagem era completamente negra, diferente dos cães dessa raça. Seus dentes estavam todos à mostra, embora parecesse controlar o passo para não alcançar o homem. O homem corria e gritava por ajuda — embora fosse tarde, e ninguém fosse ajudá-lo -, estava vestido com roupas formais e seus sapatos sociais não ajudavam em nada em sua corrida, fazendo-o tropeçar várias vezes. Ele parecia realmente apavorado, enquanto corria, o rosto vermelho e o suor fazendo seu ralo cabelo castanho grudar em seu rosto.
O cão pareceu cansar de brincar com a presa, e aumentou de uma vez o passo, fazendo com que o homem virasse e entrasse em um beco. Agora, sem saída, o homem virou-se para o cão, as mãos sobre o rosto em uma tentativa nula de proteger-se. O rottweiler pulou, derrubando-o de costas no chão, e pareceu saborear por um segundo o medo do homem. Escolhera este especificamente, pois ele possuía grande fobia de cães. A coleira do cachorro, onde havia uma espécie de obsidiana presa na parte da frente, brilhou por um segundo.
E o cão abocanhou o pescoço humano, matando-o.
Aos poucos, a forma canina pareceu mudar, dando lugar a um homem grande, o corpo perfeitamente definido, embora não fosse muito musculoso. Cabelos louros ondulados desciam por suas costas, e seus olhos azuis como gelo possuíam um brilho predatório. Levantou-se, completamente nu, o rosto e parte do corpo coberto pelo sangue do humano em sua frente. Alongou-se por um momento, emitindo um suspiro prazeroso por sentir seu corpo novamente. Em sua mão, nas pontas dos dedos, afiadas garras negras projetavam-se, e era também possível notar seus caninos afiados.
Não era um vampiro.
– Finalmente — Ronronou o homem. Era um mago poderoso, que se auto-denominava Magnus. Pouco antes de ser transformado em cão e mandado para o mundo humano, escondeu na boca uma pequena pedra de vidro parecida com a obsidiana, que usava para canalizar sua magia. Possuía a habilidade de transformar as emoções em energia, sendo que a mais poderosa era o... Medo. Passara todos esses anos sugando o medo das pessoas, até ter o suficiente para libertar-se daquele corpo.
Agora, apenas faltava encontrar um modo de voltar a Vardfall. Finalmente, poderia vingar-se.
Tirou a coleira de cachorro que ainda estava em seu pescoço, pegando a pedra que havia nela. Olhou para o cadáver e para si mesmo, percebendo que precisaria de roupas. Estava concentrado pensando em um modo de sair dali sem chamar atenção, quando ouviu um sonoro crec. Olhou instintivamente para a direção, notando um homem que o olhava e para o cadáver, assustado. Para seu azar, pisara em algum objeto do beco que denunciara sua presença.
Balbuciava alguma coisa, quando Magnus levantou uma das mãos e moveu em direção a ele e... Nada aconteceu. Fez uma carranca, frustrado. A magia não era a mesma na Terra.
O homem virara-se e estava prestes a fugir dali, quando uma pedra do tamanho de um punho atingiu-o na nuca com tamanha força que o fez cair, inconsciente.
Magnus esfregava uma mão na outra. Velhos modos, teria que usá-los por algum tempo... Estava tão acostumado a magia, que esquecia-se de usar sua própria força. Caminhou até o homem no chão, tirando sua roupa e vestindo-a. Colocou as mãos nos bolsos do moletom, e foi em direção a rua, misturando-se.
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Corin acordou pouco antes do sol nascer, sentindo-se tonto. Seu corpo estava mole e dolorido, mas pudera, passara a noite no chão. Esfregou os olhos, olhando ao redor para seu quarto, que parecia exatamente o mesmo. Snow ainda estava no aquário, enrolada sobre si, parecendo quase dormir. E a única coisa que ele podia pensar era que tudo o que se lembrava de forma confusa não se passava de um sonho. Levantou-se, precisando de algum esforço para não desabar direto ao chão. Caminhou até o aquário, apoiando-se nele, e se pôs a fitar Snow como se sua visão desse-o certeza de que tudo fora um sono. Mas pensou cedo demais.
Quando desviou o olha, percebeu o porquê de ter dormido no chão. O estranho monge ruivo estava deitado, esparramado na cama de Corin, usando apenas as roupas de baixo. A boca estava meio aberta, e pela sua aparência a noite fora bem cheia. Corin foi até uma bacia de água que deixava a disposição, sentindo-se um pouco melhor com a frieza da água. Depois disso, sentindo-se um pouco menos tonto, pegou a bacia com ambas as mãos e despejou-a na cabeça do "monge", que acordou de uma vez, tossindo.
– Quem é você? — Corin perguntou em um tom duro, embora o pobre homem não o pôde responder. Levantou-se, com a mão sobre a boca, e vomitou o que pôde em um canto do quarto, o que irritou ainda mais o garoto.
– As bebidas da Terra são bem mais fortes... — Resmungou, limpando a boca com as costas da mão.
"Continua sendo um fracote" Corin ouviu a voz familiar dizer.
Pegou a túnica do monge e jogou nele.
– Vista-se.
O ruivo nem mesmo o olhou, apenas vestiu a túnica, com cara de poucos amigos. Sentia uma dor de cabeça imensa, e não estava com vontade de brigar com um pirralho que pensava mandar nele.
– Agora, responda. Quem é você, e o que está fazendo aqui? — Corin questionou com o mesmo tom autoritário, sem deixar de pensar que pessoas normais não invadiriam um quarto particular. Embora não o surpreendesse que ninguém tenha visto-o entrar ali.
O monge abriu a boca para responder, e a fechou, como se pensasse melhor. Repetiu o gesto umas três vezes, como se não tivesse voz. Ou simplesmente não soubesse como explicar.
"Ah, vamos, não consegue dizer a ele que somos magos de outra dimensão, e eu estou preso em um corpo animal? Ah, é, e fale da guerra que está prestes a acontecer entre magos e sem-magia..."
Todos, subitamente, se puseram a olhar para a serpente. Se ela pudesse fazer uma cara inocente, faria, mas havia apenas aquela inexpressividade comum na espécie.
– Imbecil! Você sabe que a verdade pode ter consequências psicológicas graves. Quer um humano com defeito, é isso? — Ralhou o ruivo com Snow.
Corin se pôs de pé.
– Estou aqui, lembra? Se isso é mesmo verdade ou não, não importa. Apenas me digam e eu decido se acredito ou não.
O monge abriu a boca com algum espanto, depois fechou-a e sorriu.
– Então será uma loonga história... A propósito, me chamo Harlan.
Notas finais
Eu ia apresentar mais personagens nesse capítulo, mas decidi acabar ele assim, para não ficar muito cansativo. O próximo talvez demore um pouco, por causa de minha mãe que fica me proibindo de entrar no computador. E eu sou tão boazinha '-'
Mas não vai passar do fim de semana, prometo.
Digam o que acharam do capítulo, e qualquer erro também, já que 'tô com preguiça de revisar...
Bye.
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