Renegados

5 Capítulo 4 - Alvorada


Notas iniciais
Olá! Obrigada pelos comentários e pelos views do capítulo anterior! Batman abençoe todos vocês ♥ Bom, como prometido, aqui está o capítulo da semana! Ele provavelmente sairá mais ou menos nesse horário. Antes de desejar uma boa leitura, vou deixar abaixo um guia de pronúncia dos nomes. Axell: É - xel Knight: Nait Carline: Quer - lai - nee Baryel: Bé - ri - el Talon: Tei - lon Bom, acho que esses são os mais "exóticos". Uma boa leitura para todos!

A tensão proeminente do escritório de Lucien era algo esperado, todavia não impedia que os demais moradores da construção ficassem apreensivos. Todos os reunidos tinham a consciência de que a missão desejada só poderia ser completa com a presença de Lucien, e para ele, Knight era uma prioridade. Sem a mulher, o desânimo se apossaria do homem e a retratação com os Baryel não aconteceria. Os ouvidos estavam atentos e inspeções silenciosas eram realizadas nas redondezas da porta de entrada do gabinete; ao menor sinal de confusão, os aliados de Lucien entrariam na sala.

Atrás da porta de madeira, um reencontro almejado apenas por um dos lados ocorria. Ao mirar Knight, Lucien sentiu uma nostalgia percorrer seu âmago. Ao vê-la, sentiu uma pressão nos olhos e permitiu que uma gélida lágrima caísse. Ele estava estupefato, não conseguia sorrir, falar ou sequer se mover. Os cabelos negros como a noite da mulher enchiam sua visão e o imobilizava. Sua única reação foi a lágrima que aos poucos alcançava seu queixo e pendia para o ar.

Knight, portadora de uma feição inexpressiva, não conseguiu manter seu padrão. Algo dentro dela ressoava um alarme, ressoava o que havia de mais profundo em seu interior. Aqueles cabelos castanhos traziam consigo mágoas distantes. O peitoral na qual ela já havia descarregado toda a sua carga emocional jazia bem a sua frente. Ela sabia que deveria ficar alegre por esse reencontro, mas existiam memórias amargas que a impediam, memórias que haviam deixando-a em uma solidão amarga. Por mais que uma parte de sua alma se alegrasse em vê-lo novamente, a outra parcela fazia com que seus punhos se fechassem. As unhas encravando na pele áspera de suas mãos e marcando sua pele um pouco mais com isso. Knight não sabia como reagir, não sabia se deveria gritar ou chorar ou agredi-lo, nem ao menos sabia se suas pernas conseguiriam se mover caso tentasse. Sem nada em mente, ela apenas permaneceu inerte e com a face estampando seu espanto e incredulidade.

Os dois se encaravam sem retirar os olhos um do outro nem por um segundo sequer. Era o espanto que os consumia ou a felicidade? Axell não conseguia identificar.

Em suma, ele não sabia muito sobre a história dos dois. O conhecimento que tinha era escasso a ponto de não poder identificar o que a expressão deles dizia naquele momento. Se eles haviam sido parceiros, amantes ou amigos, ele não tinha o conhecimento. A expressão de Lucien indicava que eram amantes, mas a de Knight... A dela era a expressão de uma inimiga. Ele estava em fogo cruzado, no centro entre dois vulcões que cobiçavam a atividade. Ele queria uma interação, queria saber a seriedade da situação, mas as bocas continuavam seladas. Temendo por eles, Axell ameaçou abrir a boca, mas ao ver um nuance negro passar diante de seus olhos, congelou.

Sem proferir qualquer palavra ou som descritivo, Knight virou o corpo em direção à saída e calmamente, caminhou. Axell esperava algo, esperava um ataque de raiva e palavras chulas. Espera que Knight Mindi liberasse sua raiva; contudo não foi o que aconteceu. Caminhando em direção à porta, ele não via Knight Mindi, a caçadora de recompensas. Naquele momento, ele observava Knight, a mulher sentida que carregava mágoas.

Em um súbito, Axell viu Lucien despertar de seus torpores e dar um passo na direção de Knight. Uma voz embargada emanou dos lábios dele.

— Knight, espere!

Ela deu uma brusca pausa em seus passos, parou a centímetros da saída. Seu corpo ainda estava virado contra Lucien, mas Axell sentiu que ela estava atenta a cada ato dele.

Lucien deu um suspiro pesado e ao notar que ela havia parado, proferiu ordens para Axell.

— Deixe-nos a sós, por favor.

Ele não havia se dignado a olhar diretamente para Axell. Seu corpo, alma e mente estavam fixos em Knight.

— Eu não tenho nada para falar com você — A voz dela saía quase imperceptivelmente trêmula e rouca. Seus punhos fecharam-se ainda mais e ela ameaçou dar mais um passo em direção a porta.

— Por favor... — A voz de Lucien vinha como uma súplica, com total falta de arrogância. Axell nunca tinha visto ele implorar por atenção desta maneira. A imposição que seus modos refletiam era digna de respeito e nunca o imaginara suplicando algo.

Knight parecia ter sentido a mesma coisa, pois cancelou sua caminhada e voltou à posição estática de antes. Com isso, pela primeira vez após o reencontro, Lucien olhou para Axell. Não era um olhar amigável, mas um olhar fatal e cuidadoso. Ao sentir o que aqueles olhos silenciosamente diziam, Axell acenou com a cabeça e caminhou para fora do cômodo. Knight nem ao menos olhou-o.

♞

Axell estava sentado em uma poltrona almofadada velha em um dos cômodos da construção. Quatro horas haviam se passado desde que ele saiu do gabinete de Lucien. A apreensão tomava-lhe conta e olhar para o relógio incansavelmente apenas agravava seu estado. Não saíra da poltrona desde aquela hora e o relógio pregado na parede a sua frente tornara-se seu único meio de entretenimento. Não conseguia parar de pensar sobre o que aqueles dois conversavam.

— Chá? — Estava tão atento ao relógio que não reparou Carline se aproximar. Ela oferecia uma caneca quente de chá e precisando se acalmar, Axell a aceitou.

Ela se ajeitou ao lado dele no assento. Carline havia os recebido na entrada e a apreensão dela por Knight era tão grande quanto a dele.

— Como foi lá dentro? — Como ele poderia responder a isso? O que havia acontecido entre os dois era indecifrável.

— Melhor do que eu esperava.

Ela olhou-o confusa, almejando uma maior explicação. Axell corou ao tomar um gole da bebida quente.

— Honestamente, não faço ideia do que aconteceu. Eles apenas se encararam e Lucien pediu para que eu saísse.

— Fico feliz ao ouvir isso. Fiquei com medo de ela reagir de forma agressiva e Lucien desistir de tudo por conta disso — No fundo, ele temia o mesmo. Todos que resolveram ajudar Lucien tinham o mesmo temor.

— Mas mudando de assunto, Talon mandou lembranças.

Axell deu seu primeiro sorriso em horas.

— Como ele está?

— Está sendo difícil, mas ele quer o mesmo que nós, não desistirá.

Axell pretendia conversar com Carline sobre Talon, mas a porta do gabinete de Lucien finalmente se abriu. Os dois se levantaram de súbito da poltrona, entreolharam-se rapidamente e observaram atentos.

Knight, notou Axell, estava intacta; nenhum sinal de que haviam brigado. Seus olhos estavam ligeiramente vermelhos, porém a raiva de antes havia sumido. Entretanto, ao mirar Lucien caminhando na retaguarda da mulher, Axell percebeu que as quatro horas passadas foram de uma carga emocional pesada. O rosto límpido do homem estava preenchido por marcas de unhas e seu lábio inferior estava cortado. Ele não expressava qualquer sinal de dor, fato surpreendente levando em consideração a quantidade de cortes que seu rosto continha.

Em um momento de compreensão, Axell percebeu o motivo de apenas Lucien estar com novas feridas. Ele havia deixado que ela o agredisse, havia permitido que a raiva dela recaísse inteira sobre ele. Ele não reagiu, apenas concedeu a agressão.

Carline também percebera tal feito, pois seus lábios apertaram-se fortemente. Segurando-se para não partir em direção a Lucien, os dois observaram a mulher subir as escadas para o segundo andar. Ele havia conseguido convence-la? Axell enchia-se de alívio.

Lucien, ao vê-los parados observando, caminhou na direção dos parceiros. O rosto manchado por feridas os encarava com a mesma suavidade de sempre.

— Como pôde deixar ela fazer isso com você!? — Carline esbravejou.

Sério e impassível, Lucien respondeu.

— Isso é assunto meu — Dando um pausa para notar a expressão frustrada dela, ele continuou — Knight irá nos ajudar.

O alívio percorreu todo o contorno da existência de Axell e um suspiro profundo saiu de sua boca.

— Mas existe uma condição — Os dois se entreolharam e retornaram o olhar para Lucien.

— Ela quer você, Axell.

Havia desprezo na voz de Lucien. Um tom de desprezo misturado com piedade. Axell tossiu.

— Como?

— Não me pergunte o porquê. Depois de muita conversa, ela decidiu ajudar contanto que você fosse o aprendiz dela.

— Aprendiz? Desde quando ganhei esse rótulo?

— Não leve isso tanto a sério, ela quer fazer um jogo com você. No fundo, sei que ela ficou porque o que temos a interessa, mas o orgulho e o ressentimento que ela carrega não a deixam dizer isso. Portanto, essa foi a desculpa dela. Por favor, meu amigo, você só precisa entrar no jogo dela — Após tantas semanas tratando-o como líder, Axell havia esquecido que acima de tudo, eram amigos. Caso prestasse atenção, conseguia sentir a mágoa perdurar nos olhos de Lucien. Não poderia negar isso para ele, não para o amigo que o ofereceu abrigo e objetivo de vida.

Axell deu de ombros.

— Tudo bem, eu faço isso. Serei o brinquedo dela.

— Obrigado — Com um sorriso, Lucien agradeceu.

O líder se despediu dos dois e caminhou para seu gabinete novamente. Axell e Carline o observaram andar com confiança, contudo eles sabiam que a arrogância estava presente somente em seu exterior.

♞

No espelho que havia dentro do banheiro de seu escritório, Lucien observava seu reflexo. As feridas há pouco haviam sido lavadas e os inchaços começavam a aparecer. Fixo na imagem que o espelho refletia, o semblante de Lucien estava sério. A visão recebida não o agradava. Não eram apenas as feridas que o incomodavam, mas o rosto em si. O vislumbre de sua face o enojava.

Com as mãos tremendo perante o peso na consciência, ele socou sua imagem. O espelho quebrou-se e a mão que o destruíra foi preenchida por um vermelho vívido. Os nós dos dedos do homem rapidamente foram sujos pelo sangue.

— É tudo minha culpa.

Com um enorme pesar, Lucien mirou seu reflexo novamente. Com o espelho quebrado, apenas fragmentos de sua face eram refletidas; e nos recortes de vidro, sangue escorria.

Notas finais
Olá, obrigada por chegar até aqui!! O que estão achando do desenrolar da história até agora? Gostaria de saber! Além disso, deixo um pedido para vocês. Eu não tenho beta Reader e avalio os capítulos sozinha, então caso encontrem algum erro de concordância ou gramatical, por favor apontem-no! Um grande abraço!