Renegade
4 5 de dezembro de 1998, Irmãos de mães separadas
Notas iniciais
Parece que eu virei a noite deitada no chão exposta a chuva, com os olhos fechados, cantarolando com medo, e de barriga para cima. Como o tempo passou tão rápido? Eu acho que dormi sem querer. Não sei se dá pra dormir sem querer, mas tudo bem...
Comecei a sentir os pingos da chuva pararem de pingar no meu rosto mas eles continuaram pingando no resto do meu corpo, então fui abrindo meus olhos devagar. Vi apoiado no chão e olhando para mim, aquele homem com a roupa preta que o cobria inteiramente, que aparecia na fita. Arregalei os olhos e estava pronta para gritar, mas ele tampou minha boca com aquela mão toda ensangüentada e machucada, o que me deu certeza que era "ele".
– Ta tudo bem? – Ele perguntou.
Balancei a cabeça afirmando que não. Então, ele destampou minha boca.
– Preciso que você não grite.
– T-ta bom...
– Quem é você?
– Eu que pergunto. V-você é o autor da fita?
– Sim.
–... V-você deve ser Drake, certo?
Ele ficou um momento em silêncio. Depois começou a rir descontroladamente. Sujeito estranho.
– É quase isso – Disse ele, ainda rindo – Mas eu preciso saber quem você é.
– Como assim, quase?! Ou é ou não é.
– É quase. Mas quem é você?
– Me explica direito!
Ele parou para pensar e começou a rir de novo. Quem quer que seja, estava me deixando irritada.
Então segurei os braços dele enquanto tirava a máscara que cobria seu rosto. Finalmente tinha conseguido deixá-lo sem palavras, e ele ficou lá, olhando para mim com uma expressão que eu não sabia explicar. Ele estava imóvel, com os olhos fixados nos meus, e levemente assustado. Ele parecia estar envergonhado, um pouco vermelho. Seus cabelos eram castanhos um pouco escuros e ele estava usando uma faixa que cobria seu olho direito. Seu olho a mostra era castanho como seu cabelo, mas um pouco mais claro. Não... Era muito mais claro. Era quase bege. Ele continuou me encarando e então o encarei de volta, com a mesma expressão que ele. Depois de um tempo levantei e me apoiei em uma árvore. Franzi a testa, e disse:
– Eu não esperava isso.
– E-esperava o que? – Respondeu ele, desviando o olhar e levantando também.
– Você não é feio.
Ele riu. “Que droga, ele só sabe rir”, pensei.
– Nossa, obrigado, eu acho – Disse ele, tirando uma faca toda suja de sangue de dentro de suas roupas, e limpando com um lencinho de bolso, enquanto olhava para mim.
– É que eu achava que você era diferente. O autor de uma fita como aquela... Só poderia ser... Hã...
– Ah, entendi. Não precisa explicar.
–...
– Quem é você? Onde encontrou minha fita?
– Por que quer saber?
– Porque a fita era minha e você não deveria mexer – Sorriu – Agora me conte onde encontrou a fita. Ando perdendo muitas coisas ultimamente...
– Só se você me disser o porquê de ter feito um vídeo daqueles.
– Não, eu perguntei primeiro. Onde?
– Meu amigo encontrou a fita nas coisas do pai dele. E-ele nem sabia que estava lá, não culpe ele, por favor...
– Wow, legal, então você é quem eu procuro.
Fiquei com cara de dúvida enquanto o via sorrir e me encarar com um olhar assustador. Ele tinha largado o lenço no chão, enquanto raspava o dedo na lâmina de sua faca, que já brilhava de tão limpa. Então, ele disse:
– Sinto muito... – Então, ele levantou a faca e correu em minha direção, paralisei em medo e me encolhi esperando o pior que ia acontecer, ele já estava muito perto com a faca apontada para mim. Ele mal conseguia olhar... O que ele ia fazer? Ele ia me matar? Mas era como se ele estivesse arrependido do que iria fazer...
De repente, ouvi o barulho de alguém correndo de longe. E chegavam cada vez mais perto, os passos correndo e os galhos das árvores sendo empurrados podiam ser ouvidos naquele momento. Eu queria gritar, mas não conseguia... Fechei os olhos e me encolhi mais ainda.
Ouvi uma voz lá perto, “Pare!”, ou algo parecido. O cara da faca parou com sua faca no alto, ele ia me esfaquear naquele momento mesmo, se aquela voz não tivesse gritado, pedindo para parar. Ele olhou para a direção de onde tinha vindo aquela voz, com os olhos arregalados. Parecia que ele reconhecia a voz. De lá, veio uma pessoa muito familiar, com os cabelos em frente do rosto. Ela veio correndo e com impulso, empurrou o garoto para uma árvore próxima de lá, deixando sua faca cair. O que vi foi inacreditável, o garoto da faca tinha ficado preso em um galho da árvore, isto é, o galho tinha atravessado o corpo dele. Mas ele não tinha sequer ficado inconsciente, só estava rindo incontrolavelmente de novo. Dele, saía muito sangue...
“Que garoto retardado, nem morrer ele sabe direito”, pensei. “Só fica rindo o tempo todo.”.
Olhei para a pessoa que havia empurrado ele, ela tinha me salvado e dado um ataque de risos para o suposto assassino ao mesmo tempo... Ela estava encolhida no chão, parece que tinha empurrado o menino tão forte que tinha caído também.
– Você está bem? – Perguntei, cutucando a menina no chão.
– Não olhe para mim – Ela respondeu, se encolhendo mais ainda. – Faz aquele futricado parar de rir?
“Futricado”, pensei. “Apelido estranho...”
– Por que não? – Insisti, e virei o rosto dela. Ela era... A mesma garota do parque. Mesmo com os olhos fechados e as mechas cobrindo seu rosto, eu a reconhecia.
Me assustei e levantei, dando alguns passos para trás.
– O que foi? – Ela disse, franzindo a testa, levantando também. Ela tirou o cabelo do rosto e me encarou. Parecia que ela já havia me reconhecido bem antes. Bom, já descrevi como ela era há uns dois dias. Mas seu rosto, não... Ela usava a mesma faixa que o garoto, cobrindo o olho direito também. Seu olho a mostra era quase bege também, porém um pouco mais escuro. Ela tinha vários arranhados, algumas cicatrizes e cortes sangrando pelo seu rosto... Aquela garota era muito parecida com o garoto do qual ela fez ficar pendurado em um galho. Eles seriam irmãos?
– V-você tem algum parentesco com ele? – Perguntei, apontando para o garoto da faca enfiado no galho, ainda rindo igual a um idiota.
– Nem ancestral comum nós temos – Suspirou – Ele é muito futricado pra ser algum parente meu...
“Percebi”, pensei.
– Quem são vocês? Pelo menos me digam os seus nomes...
– Não temos nome, — Respondeu a garota, pegando a faca do chão e guardando – Mas você pode chamar o futricado de Futricado, é assim que eu o chamo.
“Só pode ser brincadeira”, pensei.
– E você? Como eu te chamo?
– Chame ela de Pulga – Disse o Futricado (sim, de alguma forma eu vou ter que me acostumar com essa joça de apelido, já que ele não tem nome...) , rindo mais ainda. Parei e pensei, os apelidos tinham um pouco a ver com eles. Ambos pareciam ser mais velhos que eu, apesar de que a Pulga era mais ou menos da minha altura, o que era ser baixo para a idade dela. Ela devia ter uns 20 anos, e eu uns 13, se não me engano. E o Futricado era chamado de Futricado... Por que era futricado, dã.
– Idiota! – Disse Pulga, tirando ele do galho e atirando-o no chão, chutando as costas dele, enquanto ele ria.
Olhei para eles e sorri. Algo muito familiar tinha neles que fez eu me sentir feliz... Eles realmente pareciam irmãos.
De repente, ouvi duas vozes me chamando ao longe. “Misaki, Misaki!”, “Onde está você, Misaki?!”. Eram Minatsuki e Yue! Então respondi, chamando o nome deles. Eles devem estar me procurando...
Notas finais
Deixe a autora feliz u_u
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