Notas iniciais
Desculpa a demora, mas só deu para postar hoje.

Ema

Logo após Jane partir ao fim do dia, sinto-me muito cansada. Esses últimos dois dias foram cansativos emocionalmente, e acabo caindo no sono. Não sei quanto tempo se passou do momento em que dormi e o momento em que escuto seus gritos.

— EMA, ONDE VOCÊ ESTÁ? – Ele grita ao entrar na casa.

— Ernesto? – Falo mais para mim mesma, logo depois ele invade o pequeno quarto. – Ora, será possível que você não perde essa mania? – Digo olhando-o ainda assustada.

— O que você tinha na cabeça quando decidiu sumir assim? Você tem noção do que suas ações podem acarretar? Sim, porque você aparentemente não pensou no que causaria as pessoas que se importam com você. – Ernesto desanda a falar enquanto olha para minha figura estática na cama. – A vontade que eu tenho... Se eu pudesse... Você... – Ele para sem conseguir continuar.

— Senti sua falta. – É tudo o que consigo dizer.

E só então ele parece notar-me de fato. Olha bem dentro dos meus olhos, e sinto-me desnuda. Ele então olha ao redor, observando bem o pequeno quarto com apenas uma cama, um guarda roupas velho e uma janela que dá para uma parte da cachoeira. Seus olhos voltam a fitar-me, mas ele não diz uma palavra. Ficamos nos olhando, um esperando que o outro fale, e percebo que preciso começar a ceder.

— Eu não sabia mais o que fazer, quis fugir de tudo. – Digo envergonhada, olhando para ele.

— Como sempre! – Ele diz, e não posso culpa-lo por dizer a verdade.

— Então Jane lhe deu meu recado? – Pergunto-lhe.

— Chama de recado ela me dizer sua localização? – Pergunta irônico, e sinto a amargura em sua voz.

— Você poderia ser menos rude, não acha? – Falo começando a estressar-me.

— E você poderia ser menos covardona. – Diz, também exaltando-se.

— Grosseirão! – Digo começando a levantar-me, mas acabo ficando tonta e perco o equilíbrio. Ernesto que estava mais próximo do que eu imaginei acaba por segurar-me antes que eu caia de fato. Coloca-me mais uma vez na cama.

— Baronesinha, você comeu hoje? – Ele pergunta, a última refeição completa que comi foi dois dias atrás, esses dias apenas comi uns biscoitos que Elisa e Jane me trouxeram, mas nesse momento tudo o que consigo pensar realmente é que ele me chamou de baronesinha.

— Bem, tenho comido uns pequenos pedaços dos biscoitos que Jane me trouxe.

— Ora! Agora está tentando morrer de fome? – Ele diz e vai em direção à porta do quarto.

— aonde você vai? – Pergunto. Ele não diz nada, mas volta logo em seguida com alguma coisa.

— Anda, coma isto, eu peguei no cortiço antes de vir. – Ele diz me entregando uma pequena travessa com caldo.

Não discuto, apenas aproveito essa gentileza aproveitarei ao máximo o tempo em que ele estará aqui. Logo após ter terminado de comer, sinto-me extremamente cansada, mas não quero dormir pois não quero perder um só minuto ao seu lado, mas ele parece perceber o meu cansaço.

— Descanse baronesinha, quando você acordar eu estarei aqui. – Isso me tranquiliza um pouco, mas não é o suficiente.

— Você pode deitar-se comigo? Por favor. – Peço olhando para baixo esperando que ele me rejeite, mas como sempre ele me surpreende ao levantar-me como se eu não pesasse nada e coloca-me no canto da cama, para logo em seguida deitar-se também. Não sei o que fazer a principio, então permaneço deitada, imóvel. Percebendo o meu constrangimento ele aproxima-se de mim e mexe em meus cabelos.

— Descanse baronesinha, só descanse.

E é o que faço, acreditando que ao acordar ele estará aqui e isso não terá sido apenas a minha mente conjurando sua imagem.

Acordo com o som da cachoeira ao longe, sinto sua respiração em minha nuca e seus braços ao meu redor. Não foi um sonho. Uma felicidade que nunca senti antes me invade, ao menos eu acreditava nunca ter sentido. Devagar para não acordá-lo, viro-me de frente para Ernesto e meu coração se agita ao vê-lo tão próximo, tão calmo em seu sono. Acho que ele também não conseguiu dormir esses dias.

Ao olhá-lo dormindo ao meu lado, lembranças invadem minha mente, o dia em que nos conhecemos, o primeiro beijo roubado e retribuído, as infinitas implicâncias que temos um com o outro. Não consigo evitar sorrir ao lembrar-me de tudo. Passo meus dedos em seu rosto da forma mais delicada que consigo, ao redor de seus olhos cor de terra, sobre sua sobrancelha, pouso a palma da mão sobre sua bochecha enquanto faço carinho involuntariamente com o polegar.

— O que você fez comigo, carcamano? – Falo em um sussurro.

Sinto uma vontade súbita de ir até a cachoeira, levanto-me tentando não acordá-lo. Ainda está escuro, mas sei que em pouco tempo irá amanhecer. Quando chego lá, percebo quão bonito é aquele lugar. Percebo que há um tempo eu nem repararia nisso, aliás, eu nem estaria aqui. Penso no quanto mudei após conhecer Ernesto, em como ele vê esse mundo de uma forma tão bela e está sempre sorrindo. Aquele sorriso que deixa em mim a mesma sensação de quando a luz do sol nos toca logo após uma noite fria.

Como pude ser tão tola? Como pude sequer pensar em abrir mão dele? Ele que desde o dia em que nos conhecemos sempre esteve ao meu lado, mesmo quando eu não merecia. Ele que nesse momento está há apenas alguns metros de distancia. Não sei como pude perder-me em tantas versões minhas depois do caos em que a vida se fez. E Ernesto foi derrubando camada por camada destas versões irreais das quais eu fui feita. Sim, eu fui feita. Jamais me disseram a quão complicada a vida poderia ser, quão intensa ela era, e o quão apaixonante o amor podia ser.

— Ema. – Escuto sua voz ainda roca do sono, e viro-me para ver um Ernesto um tanto preocupado. – Acordei e não lhe vi, achei que tinha partido mais uma vez.

— Eu não conseguiria. – Digo com um leve sorriso nos lábios por perceber que ele não está mais com raiva, pelo menos não nesse momento.

Ele vem em minha direção e senta-se ao meu lado olhando para cachoeira. Percebo que o céu começa a clarear no horizonte ao longe, não demorará muito para o sol surgir, e sorrio lembrando que não muito tempo atrás havia comparado o sorriso de Ernesto ao sol.

— Do que você está sorrindo? – Ele pergunta olhando para mim, mas ainda estou olhando para o céu.

— Estou apenas pensando. – Respondo. – Sabe que eu sempre gostei de observar o amanhecer e o por do sol? Quando não conseguia dormir eu sentava-me em minha janela e ficava olhando o céu até o sol surgir e aquecer-me. A cor laranja que toma o céu ao por do sol sempre me impressionou. Quando eu era uma criança, eu acreditava que de alguma forma era possível alcançar aquele céu, eu deitava na grama e ficava tentando tocá-lo. – Digo, e só então o olho.

Tem algo em seus olhos que nunca vi antes, uma espécie de admiração que aquece meu peito e faz meu coração acelerar. Não percebi como ele estava focado em mim enquanto eu falava, mas ele não desvia os olhos de mim, nem diz nada, e esse silêncio é tão acolhedor, tão mágico que gostaria de congelar esse momento para sempre, de ter seus olhos nos meus de uma forma tão profunda e tão sutil ao mesmo tempo.

— Não sabia dessa sua afeição com o céu – Ele diz quebrando o silencio

— Tem muita coisa sobre mim que você não sabe carcamano. – Digo sorrindo para ele. – Inclusive, percebi algumas coisas esses dias, a verdade eu já sabia, mas eu não aceitava.

— Ah é? O que você percebeu? – Ele me pergunta.

— Percebi que, em meio ao caos que minha vida virou você ainda conseguiu me enxergar, conseguiu ver que eu ainda estava aqui. E mesmo não gostando do meu jeito, você nunca tentou me mudar, claro, sempre me impulsionou a crescer, mas nunca tentou me mudar. – Digo – E toda vez que você me olha da forma que você está fazendo agora, meu coração acelera, e eu não consigo pensar direito. Você exerce um poder sobre mim que vai além de qualquer coisa que eu conheço, e eu detesto isso, eu detesto que você tem tanto controle sobre mim, mas ao mesmo tempo eu... Eu não consigo mais viver sem isso, sem você, Ernesto.

Não tenho tempo de falar mais nada, Ernesto toma meus lábios nos seus e não consigo pensar em mais nada, apenas nas sensações que seus beijos me causam. Seus braços seguram-me como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, minhas mãos estão em sua nuca e me deixo sentir todas as coisas que eu vinha me negando, e acolho todos os seus sentimentos que repeli tão duramente. Nesse momento, tudo o que importa somos nós, e não abrirei mão de nem mais um segundo ao seu lado.

Notas finais
O próximo cap provavelmente será o último, vou postar ainda essa semana.