Renascer
1 I. Vida e Morte
Notas iniciais
Essa é a minha primeira vez postando uma história no Nyah; conheço esse site há alguns anos, mas só agora tive coragem de publicar uma das minhas fanfics nele.
Renascer é um projeto que deixei guardado por muito tempo, mas percebi que poderia ter um futuro se eu me esforçasse para levá-lo para frente.
Alguns acontecimentos da saga original vão se repetir, outros, não. Isso vai depender do decorrer da histórias. Mas como Renascer é uma releitura da saga através dos olhos de uma protagonista diferente, definitivamente não será uma cópia.
Espero que gostem desse pequeno primeiro capítulo.
Boa leitura! ♥
PENSAR SOBRE A MANEIRA COMO IRIA morrer nunca foi um hábito corriqueiro para mim. Na verdade, grande parte disso dava-se à minha dificuldade de aceitar que, um dia, inevitavelmente, eu deixaria de existir sobre a face da Terra e seria esquecida, como qualquer outra pessoa comum que já partira deste mundo. Mas não, eu não queria morrer.
Eu queria ser eterna.
Havia diferença, todavia, entre observar a realidade dos jornais e documentários sobre tragédias, morte e destruição, e vivê-los. Se você possuísse uma vida segura, isso soaria como algo até... fictício. Acreditaria que algo assim, como a morte, nunca realmente lhe atingiria.
Porém, acontece como dizem; a morte é a única certeza que nós, humanos frágeis e mortais, temos. E isso é uma droga.
Infelizmente, fui uma dessas pessoas que acreditavam ser imperecíveis porque nunca estiveram realmente próximas da morte, e descartavam a possibilidade de algum dia deixarem de existir porque essa ideia soava, simplesmente, absurda. E a decepção de descobrir que estive errada por tanto tempo, mesmo que soubesse o quão inevitável isso era, me atingiria como um rolo compressor, impiedosamente.
Desde a infância, exagerei na cautela em todos os meus passos e escolhas; sempre seguia o caminho correto e seguro, ao invés de me arriscar com o desconhecido. Isso trouxe-me certo tipo de remorso, com certeza, mas nada que impedisse-me de seguir em frente.
Orgulhosamente, eu, Lois Smith Barkov, cheguei aos 22 anos sem nenhum osso quebrado, expulsão escolar ou passagem pela polícia. Essas coisas, na visão de algumas pessoas, tornava-me o que descreveriam como chata. Porém, ao mesmo tempo, impediam-me de cometer erros pelos quais me arrependeria até a morte, então que fosse; eu poderia lidar com alguns apelidos inconvenientes.
Contudo, esse medo de ser esquecida foi exatamente o que me aprisionou. Estive tão preocupada em fazer tudo certo, acreditando que assim, de alguma forma, uma força maior agradaria-se comigo e me proporcionaria uma vida longa e feliz, que não aproveitei o tempo que me foi dado. E quando a morte me alcançou, provando-me o quão errônea e ingênua fui, não pude aceitar isso, de maneira nenhuma.
Tudo terminou e começou naquela madrugada chuvosa de sexta-feira. Eu estava dirigindo pela estrada escura e parcialmente nublada no subúrbio de Seattle, depois de sair da faculdade mais tarde do que deveria; meu apartamento ficava na parte oposta da cidade onde minha universidade estava localizada, então, todo santo dia, tive que enfrentar esse longo trajeto para conseguir um banho e algumas horas de sono. E, de repente, meu celular começou a tocar.
— Quem será a essa hora? — indaguei com irritação, nem um pouco disposta a procurar pelo aparelho eletrônico enfiado desleixadamente dentro da bolsa de ombro de couro preta que eu carregava para todo canto, toda vez que saía de casa.
Depois de alguns segundos sendo importunada pelo toque incessante do celular e realizando a busca sem realmente tirar os olhos da estrada, com apenas uma mão livre, consegui encontrá-lo. Na tela, a palavra “Mãe” brilhava, indicando o remetente da ligação, então soube que esse não era o tipo de chamada que eu poderia ignorar. Arrastei o dedo sobre o botão verde para atender a ligação e logo a voz de Rachel Smith soou para fora do aparelho celular.
— Lois?
Sua voz soou preocupada. Ela sabia que eu ainda não estava em casa, porque sempre mandei mensagens avisando-a quando chegasse no apartamento, após cada cansativo dia.
— Oi, mãe. Tudo bem? — cumprimentei-a com a voz mansa. Apesar de todo o estresse que o dia na faculdade me trouxera, não era justo descontar isso em outras pessoas, principalmente em minha mãe.
Havia poucas coisas que Rachel Smith e eu tínhamos em comum, mas ainda nos dávamos impressionantemente bem. Minha mãe era o estereótipo de alguém extrovertido e otimista; estava sempre com projetos novos e ideias revolucionárias, em qualquer área de sua vida, e adorava viajar ou passear, independentemente do lugar. Sempre com um sorriso no rosto e ótimos conselhos, Rachel era o tipo de pessoa fácil de gostar. Sua aparência, no entanto, não era tão diferente da minha — ou a minha da dela, no caso.
Os cabelos castanho-avermelhados eram a marca registrada da família Smith, e nós não fomos a exceção. No entanto, meus fios vieram ligeiramente mais claros do que os de Rachel, chegando a parecer ruivos. O tom de pele também era o mesmo; o branco ligeiramente bronzeado que recebemos como recordação dos anos em que vivemos na ensolarada Miami, antes de eu precisar me mudar para Seattle para frequentar a universidade. Minha mãe, todavia, tinha o rosto em um formato mais angular e oval do que o meu; seus olhos eram azuis cinzentos e ela tinha um sorriso pequeno. Ela era muito bonita.
Existia, porém, poucas características que herdei de meu pai, Ivan Barkov — e eu não sabia responder se isso era algo bom ou ruim. O homem corpulento, exageradamente alto, com cabelos castanhos rebeldes e sorriso largo deixou-me apenas uma única herança marcante: os olhos verdes com tom semelhante à esmeralda. As íris esverdeadas eram um dos únicos traços que sempre me orgulhei de ter, então, por isso, eu era grata à ele,
Meus pais divorciaram-se quando eu mal havia completado cinco anos e, por causa disso, Ivan mudou-se para Nova Iorque para trabalhar e recomeçar sua vida. Essa foi grande parte da justificativa que costumava usar toda vez que questionava-me a razão de eu não ser tão próxima de meu pai quanto era de minha mãe. Por causa da distância, ele raramente conseguia folga de seu emprego para me visitar e eu estava muito ocupada com a escola para viajar até Nova Iorque; com o tempo, isso só parou de importar — pelo menos, para mim — e acostumei-me com sua ausência.
Minha mãe era o suficiente. E só depois de muito tempo, percebi o quão cruel estava sendo com meu próprio pai ao simplesmente expulsá-lo de minha vida dessa maneira. Fui uma péssima filha.
— Lois, onde você está? — perguntou Rachel com a voz cheia de preocupação.
— Estou na estrada, mãe — informei, ainda em tom ameno, para não preocupá-la ou fazê-la acreditar que havia algo a temer por mim. Bem, eu acreditava que não havia. — Mas não se preocupe, já estou perto de casa. O professor de Ciências Políticas me segurou até um pouco mais tarde hoje, por causa de um trabalho que precisei apresentar sozinha.
A linha ficou muda por alguns instantes, minha mãe resmungou algo inaudível e eu soube que ela estava nervosa.
— Mãe, é sério, não tem perigo nenhum — argumentei, mesmo que ela ainda não tivesse dado-me uma resposta. — As ruas estão praticamente vazias e estou indo direto para casa.
— Como não vou me preocupar, Lois? É quase uma da manhã e você está na rua. Você tem visto os jornais? Essa cidade está um caos — ela exclamou, e sua voz estava um pouco embargada. — Você sabe que eu não gosto quando você sai sozinha à noite, ainda mais agora que estou longe.
Rachel era assim, exageradamente preocupada. Talvez o fardo de ter que me criar sozinha trouxe a ela esse senso de proteção extra em relação a mim. Esse hábito tornou-se meio exaustivo para mim depois que alcancei a idade adulta, mas nunca ousei reclamar porque, bem… mãe é mãe.
E agora que estávamos em estados diferentes, as coisas só tendiam a piorar.
— Não fique assistindo a essas coisas. Esses programas de televisão são muito sensacionalistas — eu disse, revirando os olhos. — Eu sei me virar.
— Eu sei, filha. É só… Tive um sonho com você na noite passada e isso me trouxe um mal pressentimento. Fico impotente por só conseguir falar contigo pela internet — ela confessou com a voz trêmula e ligeiramente mais aguda, e jurei tê-la ouvido fungar. Ela já estava chorando. — Se algo acontecer a você, eu não sei o que eu faria… eu…
Então, interrompi Rachel, antes que ela dissesse algo extremamente emocional que faria-me chorar também.
— Ei, mãe! Está tudo bem, sério. Também sinto muita falta da senhora, mas você sabe que não posso sair de Seattle. Essa é a oportunidade da minha vida — argumentei, tão suavemente quanto o tom que usaria para falar com uma criança. Soltei um longo suspiro e observei a escuridão que dominava as ruas que meu carro estava atravessando, as únicas luzes visíveis sendo as dos meus faróis. — Você quer me contar sobre esse sonho?
Manobrei o carro para virar-se para a esquerda, onde havia uma familiar ponte de concreto e asfalto sobre um pequeno riacho que tive que atravessar todas as vezes que saía de casa para ir às compras ou à faculdade. Geralmente, era um cenário de conforto para mim, porque essa ponte lembrava-me de que estava prestes a chegar em casa. Entretanto, naquela noite, viria a se tornar o oposto.
Minha mãe fungou mais uma vez no telefone, e então começou a falar:
— Não sei direito, esqueci de muita coisa. Mas parecia que você estava correndo por uma floresta e chorando. Eu tentei te chamar todas as vezes, mas você não me escutava. Parecia que estava fugindo de alguma coisa… eu realmente não me lembro — ela contou, e parecia frustrada consigo mesma por não se lembrar do sonho. — De qualquer forma, esse deve ter sido mais um sonho de barriga cheia, mas mesmo assim, eu queria checar você.
Eu não estava olhando para a tela do celular ou qualquer outro lugar que não fosse a estrada sobre a ponte onde estava dirigindo, porém o horror ao notar dois faróis surgindo do nada na névoa escura da madrugada e vindo com rapidez em minha direção foi o mesmo que provavelmente teria se estivesse distraída.
Não houve tempo para frear ou buzinar para alertar o caminhoneiro inerte da situação que trazia seu monstro de metal para cima de mim; tudo aconteceu em questão de segundos e só pude sentir e ouvir a colisão entre o caminhão e meu pequeno automóvel antes que tudo ficasse em silêncio mais uma vez.
Com exceção de uma coisa, na verdade. Rachel.
— Lois? Lois! O que aconteceu?! Lois, me responda, por favor!
A esse ponto, ela já estava gritando de desespero. Mas eu não quis responder. Não conseguiria.
Por alguma razão irônica ou cruel do destino, meu celular não fora esmagado pelo metal distorcido do meu próprio carro depois que o caminhão parou de tentar passar por cima de nós, ao contrário de tudo o que estava na parte frontal do veículo — e isso incluía a mim. Eu não queria abrir os olhos e ver como minhas pernas haviam sido esmagadas, ou como um pedaço enorme de vidro perfurou meu estômago e parte inferior do peito. E se a quantidade preocupante de sangue que começou a jorrar do corte significava alguma coisa, aquilo era grave.
Qual terrível pecado havia Rachel Smith cometido para ser condenada a escutar sua única filha engasgar com o próprio sangue e agonizar de dor, enquanto ela estava no outro lado do país, sem poder fazer nada para impedir seu final terrível? Essa era a única coisa que eu pensava enquanto ouvia sua voz através do telefone.
Não sei quanto tempo se passou durante os minutos em que esperei, não tão pacientemente, pela morte, até começar a ouvir o som das ambulâncias e viaturas da polícia aproximando-se do local do acidente. De repente, eu não era mais tão corajosa para lutar por minha vida; havia dores lacerantes por cada mínimo centímetro de meu corpo, e toda vez que tentava respirar, uma quantidade assustadora de sangue invadia meus pulmões, afogando-me. Não tentei pedir por soccorro, porque sabia que não havia mais nenhuma válvula de escape para aquela tortura senão a morte.
E foi assim que joguei fora, em minutos, o que gastei uma vida inteira tentando reunir. Esperança. Persistência. Vida.
Minha rendição teve resultado imediato quando, tão rapidamente quanto o caminhão me atingiu, a inconsciência puxou-me para longe do meu cárcere de morte pela primeira e última vez.
Logo, não havia mais o ruído ensurrecedor dos alarmes das ambulâncias ou as vozes dos paramédicos discutindo qual a maneira mais segura de tirar-me de dentro do carro desfigurado sem me matar durante o processo. Nem o choro de Rachel pelo celular. Naquele instante, não houve mais nada.
Finalmente, então, pude refletir sobre a magnitude do que me ocorrera. Em um momento, eu estava vivendo mais uma noite como qualquer outra e, em outro, estava implorando pelo findar de minha existência. Lembrei-me de tudo o que estava deixando para trás e todo o futuro que nunca alcançaria; vergonhosamente, reconheci que possuía mais arrependimentos do que conquistas para contar.
Pensando nisso, decidi que não havia mais escolhas a serem tomadas, e sofrer pelo que já fora perdido não surtiria nenhum efeito.
Naquela madrugada chuvosa de sexta-feira, presenciei minha vida e minha morte.
E finalmente aceitei: a história de Lois Barkov acabava ali.
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