Renascer

2 Olá, estranha


Notas iniciais
Me digam o que acharam, por favor. Aproveitem e espero que gostem

Harry construíra uma boa vida em Bibury, trabalhava em uma livraria próxima ao centro, fez algumas amizades, nada significante, mas o suficiente para ele ser convidado para aniversários e jantares. Ele recusava sempre que podia, sentia que não merecia estar no meio daquelas pessoas, não quando tinha abandonado seus amigos.

Ele morava em uma casa de pedra, tinha apenas um andar, onde ficava o seu quarto, o de hóspedes e o banheiro. Embora fosse simples era aconchegante, o tipo de lugar que poderia se chamar verdadeiramente de lar, mas ele não sentia isso. Os únicos lares que um dia conheceu foram a Toca e Hogwarts, mas esses eram lugares inalcançáveis para ele agora. As vezes Harry se perguntava se tinha feito a coisa certa em ir embora, mas sempre que pensava em voltar sentia como se fosse sufocar em toda a dor que por tanto tempo reprimiu.

Seu dia tinha começado muito cedo, ele arrumou o quarto e regou as plantas de seu pequeno jardim, agora ele estava terminando de preparar o café da manhã quando escutou a campainha tocando. Desligou o fogo que estava esquentando o leite, com receio de acabar por sujar o fogão caso demorasse e foi até a porta.

Fazia cinco anos que não a via ou falava com ela por qualquer meio, e vê-la parada a sua porta lhe trouxe sensações a muito esquecidas.

— Hermione.

Ele ficou estático a encarando. Ela continuava igual se lembrava, mas havia algo mais. Ela era uma mulher agora, suas feições de menina tinham-na abandonado. Seu olhar era sério e penetrante, ela não sorria, se vestia como uma trouxa. Embora ele pudesse afirmar que suas belas roupas chamariam atenção em um lugar como aquele.

— Não vai me convidar para entrar? – Ela perguntou e o viu abrir espaço para que ela passasse.

Ela entrou e olhou ao redor. O lugar em si não a surpreendia, Harry nunca tinha sido exibicionista, a casa parecia combinar com ele, ela percebeu que não havia fotos, nem nada que pudesse dar sentimento ao local.

— Bonita casa.

— Obrigado. – A presença dela ali parecia errada, e ele não sabia como deveria agir. – O que você está fazendo aqui?

Hermione o olhou durante alguns segundos antes de se dirigir até um dos sofás e se sentar. Ela parecia pensar e pesar as palavras. O silêncio era incômodo. Nos sete anos que passaram juntos ele nunca pensou que chegaria um dia em que ele não teria algo a dizer para a mulher a sua frente, mesmo quando eles brigavam ele sabia que logo se entenderiam. Eram amigos, tinham que se entender, para ele isso era a ordem natural das coisas.

Mas ali com ela sentada no sofá como se pertencesse ao lugar e ele em pé sem saber como agir a ordem natural parecia ter mudado. Eles não se falavam há cinco anos, desde a noite em que ele se despediu dos outros. Ele recebia notícias dela através de cartas que recebia de Molly, Gui e Neville, os que mais falavam com ele, mas parecia que ele e Hermione não se conheciam mais.

— Eu disse a eles que isso era um erro, esse nem mesmo é o meu setor. – Ela começou. – Falei que talvez fosse melhor mandar o Gui, mas não pude recusar depois do próprio Ministro ir a minha casa.

— Você está aqui para me convencer a voltar. – Ele deduziu.

Hermione sorriu e se ergueu do sofá caminhando na direção dele.

— Não, estou aqui para levá-lo de volta. – Ela parecia firme e segura da sua afirmação, como se não levá-lo fosse algo inaceitável.

Ele definitivamente não conhecia a Hermione parada a sua frente. Onde estava a menina meiga e gentil que tinha deixado na Toca? Aquela mulher não era sua Hermione.

— Volte para casa, Hermione. – Harry caminhou em direção a cozinha para terminar o café que foi interrompido com a chegada dela.

— Há coisas acontecendo no nosso mundo, movimentações perigosas que não estamos sabendo lidar. Precisamos de você.

Ele se virou para encará-la, seus olhos não possuíam mais o brilho que ela se lembrava.

— Eu não posso ajudar. – Ele falou. – Tenho certeza que no Quartel General dos Aurores há bruxos muito mais qualificados para resolver o que quer que esteja acontecendo. Eu nem mesmo terminei a escola, lembra?

— Você derrotou o maior bruxo…

— Pare! – Ele demandou, segurava a jarra de leite com tanta força que ela temia que o vidro se partisse em suas mãos. – Você não vai me dizer isso. Você não vai usar isso. É desleal demais.

— Desleal? – Hermione parecia ofendida. – Desleal é abandonar sua família quando eles mais precisavam.

— Família? Eu não tenho família, Hermione. Mataram minha família, mataram qualquer um que eu pudesse considerar como tal.

— Eu era sua família. – Hermione gritou. Ela virou de costas e ele viu as mãos dela fechadas ao lado do corpo, ela se virou novamente. – Você era minha família e me abandonou. Os Weasley eram nossa família e você foi embora. Não mandou uma carta por mais de um ano, Molly achava que você poderia estar morto, as pessoas perguntavam por você, e nós não sabíamos o que responder.

— Você nunca vai entender. – Harry falou triste.

— Não, não vou. Porque eu nunca abandonaria você, eu nunca abandonei. Mesmo quando eu estava com medo e tudo parecia que ia desabar, mesmo quando ele foi embora, quando fui torturada, eu nunca abandonei você.

Cada palavra pesava no coração de Harry, porque ele sabia que era verdade. Deixar Hermione e ir embora foi um dos seus grandes arrependimentos e naquele momento ele soube que faria o que quer que ela pedisse, pois era Hermione ali, e ele lhe devia mais do que sua insignificante vida

— Você me deve, Harry Potter. – Ela falou com amargura. – Então nós vamos voltar para Londres, você vai nos ajudar e depois você pode voltar para esse lugar e viver o resto da sua vida.

Ela não esperou que ele respondesse, voltou para sala e pegou a pequena bolsa que tinha trazido e se dirigiu para mais dentro da casa. Ele ouviu ela subir as escadas e abrir e fechar portas até encontrar a que dava para o quarto de hóspedes, ouviu o baque seco da porta se fechando e ela pôde ouvir o som do vidro se quebrando no térreo.

Hermione tinha dado o prazo de dois dias para ele arrumar tudo para eles viajarem. Ele aproveitou esse tempo para se despedir dos amigos mais próximos e se desculpar com Flora por ter que viajar por tempo indeterminado, deu a desculpa de que tinha surgido problemas com a sua família e ele teria que se ausentar.

Ele e Hermione pareciam ter entrado em um acordo de não se falar, eles mal se viam, na verdade. Ele via várias corujas chegarem até a casa e se perguntava o que poderia estar acontecendo no mundo mágico para ela ser tão procurada. A curiosidade venceu no fim, eles tinham saído para jantar em um restaurante próximo, insistência de Harry.

— Como está sua vida? – Ele perguntou.

— Molly não tem lhe mandado relatórios? – Ela respondeu com desdém, tentando fugir da resposta.

Ele sempre se perguntou se Molly fazia isso a pedido de Hermione ou não, torcia para que sim, mas no fundo sabia que a mulher apenas queria lhe manter por dentro do máximo de assuntos possíveis, talvez querendo que ele ficasse com saudade suficiente para voltar.

— Já faz alguns meses desde a última carta. – Ele falou. – Ainda está no Departamento de Controle das Criaturas Mágicas?

— Não. – Ela demorou um tempo para completar, mas, por fim, disse. – Agora estou no Departamento de Execução das Leis da Magia.

Harry parou o garfo a caminho da boca e a encarou perplexo.

— Você está no DELM? – Ele parecia incrédulo. – Depois de quatro anos? O que você fez, conseguiu a paz com os gigantes?

— Quase. Criei um setor para trabalhar com os Centauros, fui muito bem. – Ela parecia orgulhosa. – Também consegui que se aprovasse algumas leis para melhorias na vida dos Elfos.

— Nossa. – Harry estava feliz pelas conquistas dela e principalmente estava feliz por eles estarem se falando sem todo aquele peso inicial. – Você conseguiu levar o F.A.L.E adiante.

Ele parecia genuinamente orgulhoso dela e naquele momento Hermione conseguiu ver um pequeno vislumbre do Harry que ela conheceu um dia.

— O que está acontecendo lá, Herms? – Harry perguntou sério.

Por um instante ela sentiu seu coração perder um compasso. Fazia muito tempo que ninguém a chamava assim, Harry era o único a chamá-la dessa forma, as outras pessoas a chamavam de Mione somente, e ouvir aquilo lhe trouxe uma sensação nostálgica que ela tratou de colocar no fundo de sua mente, não era hora para sentir saudade de um tempo que nunca poderia ser recuperado.

— Ataques. No mundo trouxa e bruxo, eles surgem de repente e saem antes que aurores consigam chegar perto. Há mortes se espalhando e muitas delas são… eles não estão sendo tradicionais. Parece que o velho Avada Kedavra não é mais o suficiente.

— E o que você espera que eu faça? – Harry ainda não entendia o seu papel naquilo. – Se você não consegue ajudar, como eu poderei? Eu não sou mais o eleito, sou apenas eu.

— Ser apenas você é o suficiente. – Ela disse com confiança.

— Você fala exatamente como eles. – Harry tinha voltado a ser aquela pessoa que se tornou depois da morte de Ron, qualquer brilho tinha desaparecido dos seus olhos, era como se só restasse a sombra e o peso de seu nome. – Ser eu nunca foi o suficiente. Tom estava certo, eu apenas me escondi e deixei que as pessoas morressem por mim, tive sorte na maior parte das vezes e nas outras eu tinha você. Você é a razão de eu estar vivo. Sem você, Hermione, eu teria morrido com onze anos, sendo garoto bobo e estúpido.

Hermione começou a rir o deixando confuso.

— Por Merlim, o que aconteceu com você? Esse lugar o deixou ainda mais idiota do que era aos dezessete? – Ela olhou em volta como se buscasse a resposta. – Você nos treinou, lembra? Com quinze anos, você nos treinou. Por que você tinha visto o pior, você sobreviveu ao pior. Você conhece magia das trevas, Harry, lembra quando você me disse que magia sempre deixa um rastro? Nós precisamos que você siga esse rastro.

— Então eu vou ser como um GPS de bruxos das trevas?

Hermione sorriu ao reconhecer do que ele estava falando. Mesmo ainda visitando os pais ela não passava mais tanto tempo no mundo trouxa, tinha agora certa dificuldade em reconhecer suas tecnologias. Ela assentiu com a cabeça e Harry resolveu esquecer aquela questão naquele momento.

— Me conte algo, Hermione. – Ele pediu.

— O que? – Ela tentava esquecer a amargura que sentia e aproveitar aquele momento com ele.

— Qualquer coisa. Tudo. Eu não sei.

— Eu tenho uma filha.

Hermione o encarou, mas as feições de Harry se tornaram duras e inexpressivas, ele a encarava, mas não demonstrava nada, nem mesmo surpresa pela revelação. Ela estava em dúvida se dizia aquilo logo ou se esperava até eles chegarem em Londres, mas quando ele perguntou ela percebeu que não poderia esperar mais tempo.

Harry não sabia o que sentir. Uma coisa era saber que Hermione estava progredindo no trabalho, algo que ele sabia que aconteceria, a mulher era brilhante em qualquer coisa que se propunha, claro que ela seria brilhante no trabalho também. Mas um filho? Aquilo era muito grande. Significava que ela tinha seguido em frente, a vida dela tinha continuado, ela deveria ter um marido e toda uma vida, enquanto a vida dele tinha estagnado naquele lugar. Harry não se sentia melhor do que estava cinco anos atrás. Ele encarava Hermione e aquela dor profunda que o atormentava uma vez ou outra o atingiu, ele sentia como se um gigante estivesse amassando seu coração.

— Uma filha? – Foi apenas o que ele conseguiu dizer.