Notas iniciais
Olá, gente maravilhosa! Como estão todos? Então, hoje é feriado na minha cidade e estou aproveitando para dar uma adiantada na fic, tentarei terminar de escrevê-la até o final de semana para que não haja atrasos na publicação dos capítulos (sou uma fofa, vai?). Bem... eu espero que vocês gostem e não esqueçam de deixar sua opinião, significa muito para mim. Desejo uma ótima leitura a todos!

— Tem certeza que não o chamou para nenhum lugar? – John perguntava a Lestrade incansavelmente.

— Eu já disse que não, John.

— Isso é muito estranho... – Anderson entrou na conversa – será que ele não está usando de novo?

— Eu moro com ele – John replicou irritado – se fosse isso eu saberia... até agora ele não teve nenhuma recaída, isso não faz sentido... faz?

A pergunta ficou no ar, ninguém ousou falar mais nada, sabiam que John Watson era protetor com Sherlock Holmes como quando socou um oficial por chama-lo de fraude. Sherlock Holmes já estava sumido há mais de doze horas, nenhum contato. Se estivessem no meio de um caso, considerariam aquele comportamento normal, mas não estavam e, parecia que alguém finalmente havia enganado o detetive.

Watson olhou a pequena lupa em suas mãos, a que Holmes costumava carregar consigo o tempo todo, alguma coisa estava muito errada. Sherlock podia ser um homem desorganizado, mas ele não a esqueceria em uma potencial cena de crime. Exceto que não havia crime nenhum como dizia a mensagem que John insistia em reler, procurando algum indício, alguma pista, mas era uma mensagem como qualquer outra.

Lestrade entrou em contato.

Encontre-me em St. Paul’s Cathedral, muito perigoso.

SH

Caminhou de volta a rua Baker, sentindo-se frustrado e temendo que o amigo tivesse se afundando em drogas novamente, embora não ousasse verbalizar sua preocupação. A senhora Hudson o esperava com Rosie no colo. John a pegou e a envolveu em um abraço, subindo com a filha para o apartamento. Deitou-se em sua cama com o bebê ao seu lado, a garotinha aninhou-se em seu colo e adormeceram.

O sono de John foi inquieto e repleto de pesadelos, em um momento ele estava de volta à guerra e seus amigos todos morriam um por um. Uma voz feminina ecoava por entre as trincheiras e quando ele percebeu quem era a assassina sentiu náuseas – Mary. John tentou alcança-la, mas ela se tornava cada vez mais e mais distante... o cenário de guerra se dissolveu e ele se viu em frente a St Paul’s Cathedral falando ao celular, Sherlock estava lá em cima, pronto para se matar mais uma vez, dessa vez tendo Londres inteira para assistir a seu espetáculo.

— Não faça isso, Sherlock! – ele gritava – eu te perdoo, sei que nada do que aconteceu foi sua culpa.

— Tarde demais, John – Sherlock respondeu.

E pulou.

John se viu de volta a Musgrave – a antiga residência dos Holmes – novamente no fundo do poço, a água subindo, seus pés presos em correntes grossas tendo como única companhia os ossos de uma criança. Sua respiração falhava, a água invadia aos poucos seus pulmões. Não havia mais Sherlock para salvá-lo, foi sua última constatação antes de despertar.

Acordou com a testa suada, Rosie continuava dormindo como um anjo. Ele andou de um lado para o outro pelo quarto, tentando pensar em algum jeito de localizar o amigo, mandou mais mensagens e tentou ligar, não obteve resposta. Irritado, socou a parede. Sua filha acordou com um choro, ele a abraçou e a ninou. Arrependido do ato subitamente violento, ele estava preocupado.

— Calma, Rosie – John disse, com a voz suave – vamos dar um jeito de encontra-lo.

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O local que Sherlock estava parecia um galpão abandonado, não havia sons de carros ou de qualquer tipo de transporte o que deveria significar que se tratava de um local isolado. Por não haver janelas, Sherlock não conseguia identificar mais ou menos onde estava, todo o cuidado para evitar suas deduções estava o deixando irritado. Estava preso a uma cadeira por algemas, pensou que aquele lugar não cheirava como Londres.

Holmes ficou quieto evitando ao máximo ser quem ele era, aquela situação não estava propensa para si, ele sabia, normalmente ficaria tagarelando e tentando prever tudo o que seus agressores iriam fazer, mas naquele momento o silêncio era mais do que necessário, assim ele descobriria o que aqueles homens queriam. Depois do que pareceram ser horas, os dois adentraram novamente o galpão.

— Descansado, senhor Holmes? – o homem de olhos claros perguntou.

Sherlock percebeu que pelo andar do homem, pelo modo que falava e se mexia, deveria se tratar de alguém que tinha posses e poder, algo no detetive havia chamado sua atenção e, agora, estava encarcerado, enclausurado. Seu sotaque era britânico, mas pareceu falso aos ouvidos de Holmes.

— Não necessariamente – Sherlock respondeu – não tenho muito espaço para me esticar.

— Você pode sair daqui vivo ou dentro de um caixão, senhor Holmes, a escolha é toda sua.

— O que vocês querem? – Sherlock perguntou, irritado.

— Queremos a localização de Sherrinford.

— O quê? – ele se surpreendeu.

— Sherrinford, Sherlock – o homem de olhos azuis explicou de modo irônico – a prisão, você sabe... de gente louca, aberrações, como a sua irmãzinha e como você.

— Como você sabe disso? – o detetive perguntou arregalando os profundos olhos azuis.

— Nós sabemos de muitas coisas – respondeu o homem de olhos castanhos – tem alguém lá que nos interessa, sendo bem sincero.

— Não conseguirão nada de mim – Sherlock respondeu confiante, ele nunca entregaria aquela informação. Qualquer pessoa que estivesse presa naquele lugar era uma ameaça à sociedade.

— É o que veremos.

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— Nada? – John perguntou a Mycroft ao telefone.

— Nada, John – ele respondeu – é como se ele tivesse sumido do mapa. Como você pôde deixar isso acontecer?

— Eu? – John indagou surpreso – eu estava trabalhando, céus Mycroft!

— Eu averiguei tudo, Watson – ele explicou – as câmeras foram hackeadas, imagino que o celular do Lestrade também, não consigo um sinal do celular de Sherlock... estamos de mãos atadas, precisaremos contar com a inteligência dele para sair dessa.

— E que tal usar a sua inteligência, Mycroft Holmes? – John provocou – você não é o mais esperto? Faça alguma coisa.

Mycroft ficou um tempo sem responder, provavelmente sentido pelas palavras do médico, ele podia ser uma pessoa fria, mas não quando se tratava do irmão, embora se esforçasse ao máximo para esconder esse fato.

— Farei o que estiver ao meu alcance – ele respondeu com a voz trêmula.

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Rohypnol*, Sherlock pensou, constatando que tipo de droga havia em seu organismo. A famosa droga do estupro, boa noite cinderela. Isso explicava o porquê de seu palácio mental estar tão bagunçado, dentre os diversos efeitos colaterais daquele narcótico em específico, estava a confusão mental. Sabia que devia fazer tempo que o drogaram, afinal os efeitos já não estavam mais tão fortes em seu organismo, ele já até conseguia falar.

O detetive reconheceu os efeitos por já ter experimentado a droga em si mesmo uma vez quando investigava um caso de estupro e suspeitava de seu uso, lembrava-se de ter ficado imóvel por horas, mas parcialmente consciente do que acontecia a sua volta, uma situação desesperadora.

Seus sequestradores deviam ter usado uma dose cavalar após terem-no capturado, pois Sherlock não se lembrava de nada do trajeto até seu cárcere, sua memória estava toda embaralhada, confusa, não conseguia mexer direito seus membros, consequência da perda de controle muscular momentânea proporcionada pela droga, o sono quase o vencia, mas ele sabia que não podia dormir de novo – precisava fazer alguma coisa.

Realmente, seus carcereiros haviam sido inteligentes, nem mesmo seu corpo acostumado aos narcóticos poderia vencer os efeitos do rohypnol. Tentou manter o foco, não sabia quanto tempo havia se passado, sabia que a droga sairia de seu organismo completamente em aproximadamente setenta e duas horas, também sabia que não seria detectada em exames normais. Sentiu-se colérico.

Seu pensamento foi interrompido pela chegada do homem mais alto, o de olhos castanhos, que trazia um estojo preto em suas mãos. Não era necessário ser um grande detetive para deduzir o que estava prestes a acontecer. Sherlock não precisou olhar duas vezes para constatar que seria torturado. Ainda estava um tanto quanto grogue e sem muitas reações, mas já era capaz de sentir dor, apesar de seu cérebro não deixar que reagisse no tempo correto. Pela primeira vez em muito tempo, Sherlock sentiu medo.

Seu medo não era da tortura, da dor, ou de tudo o que iria acontecer em seguida, o maior medo do detetive era de ter sido subjugado. Não havia jogo mental a ser jogado, não havia quebra cabeça a ser montado, sua mente sequer era capaz de somar os acontecimentos e, mais tarde, sabia que a droga não lhe deixaria lembrar direito de tudo o que estava acontecendo, isso se o deixassem viver. Ele também não tinha medo de morrer. Sentiu seus olhos serem vendados, realmente, muito inteligente.

— E então, senhor Holmes – ouviu a voz de seu torturador – qual é a localização de Sherrinford?

— Quem você quer tirar de lá? – Holmes perguntou, ácido como sempre, embora não se sentisse confiante assim.

— Creio que esse é assunto meu – o homem respondeu – imagino que você ainda não esteja raciocinando completamente bem, talvez não entenda o que vai acontecer aqui, mas vou te dar um spoiler: essas algemas que você está usando estão eletrificadas. Espero não ter que recorrer a meu estojo aqui. Não gosto de sujeira. Qual é a localização de Sherrinford?

— Fica nos Estados Unidos – Sherlock respondeu, ainda irônico – no subsolo da Casa Branca, a maior provocação já feita pelo governo britânico. Pode me soltar agora?

Sentiu o choque percorrer seu corpo, tentou conter o grito, mas não conseguiu. Eletrochoque era um tipo de tortura que não deixava muitos vestígios pelo corpo, e ainda assim, era muito, mas muito doloroso.

— Vejo que você está muito engraçadinho – o homem disse, Sherlock tentou imaginar sua expressão, mas se lembrou que nunca havia visto seu rosto – Qual é a localização de Sherrinford?

Mais um choque perpassou seu corpo, Sherlock sentia a dor e o cheiro de carne queimada. Gritou. Lágrimas escorreram pelo canto de seus olhos vendados. Era desesperador não ver nada, principalmente para alguém como ele que tinha o dom de ver além das coisas, ainda assim, não cedeu.

— Você está torturando o Holmes errado – ele disse, exasperado.

— Sequestrar Mycroft Holmes está fora de cogitação, não queremos chamar atenção desnecessária... mas você, Sherlock... você se mete em muita confusão, então, acho que estamos no caminho certo – o homem respondeu, sua voz calma como se estivesse perguntando as horas – sabemos que esteve lá, Sherly. Seja um bom menino e me diga, qual é a localização de Sherrinford?

Mais um choque, mais gritos e mais dor. Havia apenas escuridão diante da vista de Sherlock, queria mover seus braços, mas seus músculos ainda estavam fracos por conta dos efeitos do rophypnol. Choramingou baixo, respirou fundo, desejou morrer. Sabia que uma hora iria falar, todos falam. Prometeu a si mesmo que o seu torturador teria muito trabalho para arrancar a informação de si. Permitiu-se desmaiar.

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John Watson tentava reunir todas as informações como Sherlock sempre fazia, mas ele não tinha o gênio do amigo, o que tornava tudo muito difícil. Além do que, não havia pistas, exceto a certeza de que ele esteve na catedral. Era horrível se sentir incapaz de juntar as peças do que quer que estivesse acontecendo, o médico tinha plena certeza de que se a situação fosse inversa Sherlock já estaria a caminho de seu resgate.

Era sempre assim, Sherlock Holmes havia salvado sua pele mais vezes do que podia contar, ele era um amigo leal, apesar de não estar muito acostumado com o conceito de amizade. Lembrou-se do desespero quando esteve embaixo de uma pira em chamas e do alívio que foi ver o rosto de Sherlock que não hesitou em nenhum momento em retirá-lo de lá. John tinha uma coleção de memórias em que Sherlock o salvara, o detetive matou Magnussen por ele assim como ele próprio havia matado aquele taxista – Jeff Hope – no primeiro caso que resolveram juntos.

Ouviu a campainha e levantou-se em um salto, pensando que poderia ser o amigo perdido, mas era apenas Lestrade, convidou-o para entrar, ansioso em saber se a Scotland Yard tinha alguma pista sobre o desaparecimento do detetive. Não havia nada.

— Eu vim ver como você está, na verdade – Greg disse.

— Claro – havia uma nota de desapontamento na voz de John – estou preocupado, Greg.

John suspirou e deixou-se cair no sofá. Rosie estava em seu quarto dormindo no berço, portanto, não se preocupou, caso ela acordasse, ele escutaria qualquer barulho pela babá eletrônica.

— Posso? – Lestrade perguntou apontando para uma garrafa de whisky que se encontrava em cima da mesa de centro na sala.

— É uma ótima ideia – John concordou deprimido e Lestrade encheu dois copos.

— O que quer que esteja acontecendo, John, ele vai sair dessa – Greg anunciou – Holmes é a única pessoa que conheço que voltou dos mortos.

— Eu não sei, Greg. Acho que peguei muito pesado com ele nos últimos meses... estávamos brigando direto, a convivência não é mais a mesma...

Greg levantou uma sobrancelha, John era o oposto de Holmes, que não costumava falar sobre sua vida pessoal.

— Vocês sempre brigaram, John... não se culpe... sabe como o Sherlock é, abusou muito das drogas nos últimos tempos.

— Por minha culpa – John afirmou – é só que... eu não pedi desculpas a ele por tê-lo repelido... sei que ele fez de tudo por mim e pela Mary. Eu não devia tê-lo culpado pela morte dela, Greg, ela escolheu o salvar.

— Você vê, mas não observa, ele diria isso, não? – Greg disse, seguido de uma risadinha – sério que você não percebeu ainda?

— Não percebi o quê, Greg?

Os dois se encaram por um momento, Lestrade achou que não era a hora de despejar tudo sobre o colega.

— Nada... preciso ir e você tem uma criança para cuidar.

— Rosie está dormindo, fica mais – ele pediu – o apartamento fica muito vazio sem o Sherlock por aqui.

— Realmente, esse lugar não é nada sem ele.

Notas finais
*O Rohypnol (Flunitrazepam) é um tranquilizante dez vezes mais forte que o Diazepan. É um dos medicamentos que tem a reputação de "droga do estupro", por conta de deixar a vítima incapaz de reagir. Pessoas que já experienciaram o uso dessa droga a descrevem como "paralisante", os efeitos começam de 20 a 30 minutos depois de ingerí-la e têm seu ápice aproximadamente duas horas depois, podendo persistir entre 8 e 12 horas, o narcótico leva 72 horas para sair completamente do organismo. Uma pessoa pode ficar tão incapacitada a ponto de desfalecer, caem no chão de olhos abertos, capazes de observar o que acontece a sua volta, mas sem conseguir se mover. Relata-se que posteriormente a memória é debilitada e não conseguem se lembrar direito do que aconteceu, ou até mesmo sofrem um apagão total da memória. A pessoa experimenta perda de controle muscular, sonolência e amnésia. Caraca, hein, galera? Quem será que está em Sherrinford e quem sequestrou Sherlock Holmes? Essas e outras perguntas serão respondidas (ou não) no próximo capítulo de Renascer. **Voz de narrador de Sessão da Tarde**