Notas iniciais
Agora é o final real, hein. Muito obrigada pra quem leu até aqui. Deixem um review para uma escritora carente rsrs

Pela primeira vez em dias Sherlock Holmes finalmente dormia a sono solto.

O detetive consultor não se importava muito com suas necessidades fisiológicas como dormir ou comer, principalmente quando estava trabalhando em algum caso, mas com o companheiro em seu encalço, vez ou outra, acabava tendo de ceder ao chamado da natureza e se rendia aos encantos de Morfeu.

Era nesses momentos em que Sherlock estava completamente apagado que John podia finalmente agir por suas costas de modo a evitar que o parceiro deduzisse o que estava prestes a fazer. Quem conheceu John Watson e acompanhou sua trajetória desde o momento em que se mudou para a rua Baker até o momento em que assumiu um relacionamento com Holmes podia perceber nitidamente a mudança que havia ocorrido em seu ser.

Disfarçadamente o médico pegou o celular e enviou uma mensagem a todos os seus amigos, estavam planejando aquele evento já há semanas e John tinha certeza que Sherlock ainda não havia deduzido nada, graças a grande ajuda de Mycroft, o que era uma novidade, mas John já havia entendido que os Holmes nunca parariam de surpreendê-lo.

“Ele está dormindo, espero todos vocês.

J.W.”

John sempre foi um homem dono de um semblante cansado e marcado pela guerra, e após o falecimento de sua esposa – Mary – havia se tornado uma pessoa dura e sem perspectiva. Mesmo com a filha pequena para cuidar, parte de John havia morrido junto com Mary Morstan e as pessoas que conviviam com o médico temiam que ele nunca mais fosse voltar a ser a mesma pessoa. O que nunca chegaram a considerar é que a pessoa mais óbvia seria a única capaz de resgatá-lo de si mesmo e dos fantasmas de seu passado.

Todos que conviviam com Holmes e Watson sabiam que havia algo não verbalizado entre eles, desde a senhora Hudson até mesmo aos menos atentos como Anderson, mas ninguém nunca achou que o relacionamento um dia sairia do campo do platônico. E já havia se passado cinco anos desde então.

Enquanto Sherlock dormia profundamente, sequer podia imaginar a movimentação que ocorria na sala de estar do 221B. A verdade é que mesmo depois de cinco anos de vida nova, o detetive ainda não havia se acostumado com coisas cotidianas, como uma festa de aniversário.

— Quando vamos acordar o Sherly? – uma voz infantil impaciente perguntava a Greg Lestrade.

— Em breve, Rosie – o inspetor respondeu pacientemente e tomou a garotinha nos braços para evitar que, em sua agitação, ela viesse a estragar a surpresa.

O relacionamento entre John Watson e Sherlock Holmes havia consequentemente mudado as pessoas a sua volta, seus amigos – felizes por finalmente vê-los juntos – acabaram por se aproximar mais do casal e da pequena Rosamund. E acabou que se tornou comum que se encontrassem fora do laboratório ou de cenas de crime, finalmente, eles todos haviam se tornado o que se pode chamar de família.

Sendo assim, o cômodo em que a festa ocorreria – a sala de estar com papéis de parede gastos, uma bagunça incompreensível e algumas marcas de tiro – contava com a presença da senhora Hudson, Greg Lestrade, Molly Hooper, John Watson, Rosie e até mesmo Mycroft Holmes e seus pais, embora o irmão mais velho permanecesse com um semblante impassível diante daquela situação e não falasse muito.

— Quem diria que nos reuniríamos como uma família – Molly observou.

— É... as coisas mudaram – Lestrade complementou a conversa – ainda não acredito que esses bastardos esconderam isso de nós...

— Sherlock diria que você não é um bom detetive – Mycroft argumentou, divertido, arrancando uma careta do rosto de Greg que não entendia o porquê do parlamentar achar tanta graça em caçoar de si ultimamente.

— Eu sempre soube – a senhora Hudson entrou na conversa e sua voz assumiu um tom de sabedoria – esses dois nunca me enganaram.

Mycroft apenas observava a conversa enquanto seus olhos se reviravam em tédio.

— Ei, eu estou escutando tudo isso! – John gritou da cozinha enquanto terminava os últimos preparativos.

— Esse aí nunca enganou ninguém – a Senhora Hudson disse alto o suficiente para John ouvir – qualquer pessoa que precise ficar dizendo o tempo todo que não é gay é porque não quer sair do armário.

Todos gargalharam, inclusive John que estava um pouco a distância.

— Eu sempre soube que Sherlock e Mycroft eram gays – a senhora Holmes entrou na conversa, e pela primeira vez seu filho mais velho esboçou alguma reação, arregalou os olhos e corou levemente.

— Mãe! – Mycroft reclamou.

— Nos os aceitamos como são – o pai disse, deixando o filho ainda mais sem graça.

Mycroft olhou a sua volta e viu sorrisos travessos nos rostos de todas as pessoas a sua volta, apenas uma pessoa o encarava com seriedade e com uma sobrancelha arqueada numa expressão que alguém tão dedutivo como Mycroft Holmes era capaz de compreender instantaneamente. Lestrade desviou o olhar quando Rosie quebrou o silêncio mais uma vez.

— Papai! Quando vamos acordar o Sherly? – Rosamund perguntou mais uma vez, extremamente inquieta.

John olhou a sua volta e percebeu que tudo estava em ordem. Sabia que por mais que Sherlock tentasse parecer indiferente àquela situação gostava de receber atenção e de se sentir amado. Desde que começaram a namorar, após os acontecimentos envolvendo Norton, Sherlock aos poucos demonstrava mais seus sentimentos, ainda que do seu próprio modo.

— Pode acordá-lo se quiser, Rosie – John autorizou – mas não diga nada sobre a festa.

Rosie fez um sinal de afirmativo com a cabeça e já seguiu com sua missão. Todos deram risada ao ver a menininha extremamente empolgada correndo desajeitadamente em direção ao quarto de John e Sherlock.

— Sherly! Sherly! – ela disse, cutucando o detetive impacientemente, a pequenina gostava muito de festas – vamos acordar, papai!

Sherlock se revirou um pouco na cama antes de abrir propriamente os olhos, ainda não estava devidamente descansado, mas nunca dormia muito de qualquer forma, ele simplesmente não resistia a pequena Rosie quando ela usava aquela palavra em especial. Abriu os olhos lentamente e encontrou uma cabeça loura sorridente o encarando.

— Vamos! — ela disse, já pegando em sua mão o obrigando a se levantar.

Rosie estava extremamente inquieta, como Sherlock logo percebeu, por algum motivo ela tinha pressa para que saíssem logo daquele quarto. Não precisou muito para que Sherlock deduzisse o que realmente estava acontecendo, havia uma movimentação incomum na casa, a pequena estava vestida como que para uma festa e sua impaciência era nítida, fora que normalmente quem o acordava era John.

Sherlock suspirou repreendendo-se por ter ficado tão absorto no último caso que foi incapaz de deduzir o que estava acontecendo a sua volta, assim que pensou sobre o assunto refletiu sobre o fato de que tal caso em especial tinha sido um pedido do próprio Mycroft.

— Fizeram uma festa, não é? – ele perguntou, Sherlock nunca mudava seu tom de voz ao conversar com Rosie o que fazia com que ela se sentisse muito adulta e importante.

— Eu sabia que você ia descobrir! – ela gargalhou – os adultos nunca me ouvem!

— Fique tranquila, Rosie – ele disse – você é esperta demais para eles. Fingirei surpresa, embora eles devam saber que é bem difícil me enganar.

A pequena deu mais uma risadinha em concordância e o guiou até o local em que a festa acontecia.

— Feliz aniversário, Sherlock! – ele ouviu aquele coro assim que adentrou ao aposento.

— Comemorar aniversários é algo totalmente desnecessário – afirmou, mas um sorriso tímido se formava no canto de seus lábios e o seu coração se aquecia ao ver aquelas pessoas tão amadas reunidas naquele local para celebrar a sua vida.

John se aproximou timidamente e selou seus lábios na frente de todos, que apesar de já estarem acostumados aos dois como um casal nunca deixavam de se impressionar com o fato de que aquilo realmente estava acontecendo.

— Não seja chato, Sherlock – ele pediu – já é o sexto ano que comemoramos seu aniversário, acho que está na hora de se acostumar.

Sherlock manteve o sorriso em seu rosto e não discutiu mais, aquilo era mais do que jamais podia ter sonhado em sua existência e, embora os últimos anos tivessem tido momentos extremamente difíceis, também foram maravilhosos ao lado do homem que amava e da pequenina a quem hoje tinha o orgulho de chamar de filha.

— Estou orgulhosa de vocês – a senhora Hudson disse ao ver toda aquela movimentação no apartamento.

John apenas sorriu e Sherlock a ignorou, embora gostasse de todas aquelas pessoas não sabia muito bem como agir naquele tipo de situação, era bem mais fácil quando eram apenas ele, John e Rosie.

Ainda assim, não podia deixar de se sentir grato por estar vivo.

Todas as pessoas mais importantes para si estavam naquele local, o que era fundamental para constatar que mesmo ele, que não merecia todo aquele amor, havia sido capaz de renascer por conta do que sentia por John. Finalmente Sherlock estava satisfeito e feliz com a vida que levava, amava tanto John Watson que considerava até mesmo casar-se com ele algum dia, mas esses eram planos futuros dos quais o médico sequer estava ciente.

A festinha correu tranquila e após todos terem ido embora, Sherlock se jogou na poltrona de couro preto cansado. Ser uma pessoa normal, ter uma família e amigos e, principalmente, ter de socializar, pode ser tão cansativo quanto perseguir bandidos, ele constatou. Esperou John voltar, pois havia levado Rosie para a cama e enquanto isso encarava o teto com a cabeça vazia de pensamentos, mas em paz.

Acabou levando um susto quando ouviu em seu celular um toque que não ouvira nos últimos quatro anos, mas que costumava ser corriqueiro em seus aniversários do passado. Olhou para o aparelho e abriu a mensagem apreensivo com o que a Mulher ainda tinha para lhe dizer.

“Vejo que você finalmente se encontrou. Sempre soube que havia algo entre vocês, espero que seja feliz e que cuide bem de sua família.

Ps.: agradeça ao doutor Watson por se livrar de Norton por mim.”

Sherlock sorriu ao ver a mensagem, não imaginou que algum dia Adler iria contatá-lo novamente, mas deduziu que ela estava bem e a salvo, o que trouxe algum tipo de alívio para o seu coração. Já ia ignorar a mensagem como de costume, mas olhou em volta do apartamento 221 B e decidiu que aquele era o momento de encerrar aquele assunto de uma vez por todas. Na nova vida que escolhera não havia espaço para pendências.

“Foi um prazer. Sobre minha família, ninguém ousará encostar um dedo neles, eles estão sob a minha proteção.

S. H.”

Notas finais
Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!