Remissão
1 PRÓLOGO
Notas iniciais
Queria poder dizer que não gostava do que fazia. Queria poder dizer que só estava ali pelo dinheiro. Queria poder dizer que tremia toda vez que Louis abria a porta do carro para mim. Mas, céus, eu jamais poderia negar o prazer que me invadia somente de imaginar o que aconteceria depois que caminhasse pela entrada, e então fosse convidada para dentro da casa.
— Quem é o cliente da vez, senhorita Mason? – Meu motorista indagou, encarando-me curioso pelo retrovisor.
Sorri, com falsa inocência.
— Se eu dissesse, teria que te matar. – Dei uma piscadela. – Confidencialidade, Louis, é o que eles mais prezam.
— Cuidado com as ameaças, Clarice, elas podem voltar três vezes mais fortes. – Louis soltou uma risada descontraída, não demorando a estacionar próximo ao meio fio. Virou-se eufórico para mim, que retocava o batom, despreocupada. – Cuide-se, senhorita Mason. E boa sorte. Ligue-me quando terminar.
— Com certeza. – Com um leve aperto de conforto em seu ombro, e um beijo em sua bochecha, lhe assegurei mais uma vez de que tudo ficaria bem. – Eu sei me virar, tenho até spray de pimenta na bolsa!
Nós dois rimos, e Louis desceu do carro para abrir minha porta, enquanto murmurava:
— Como se você fosse usá-lo para se defender...
Fingi não escutar, e aceitei quando estendeu sua mão para me ajudar a descer. O carro não era necessariamente alto, mas eu admirava seu cavalheirismo.
O baque do salto contra a calçada ecoava pela rua vazia, e meu sangue fervia a cada passo que eu dava, aproximando-me cada vez mais da porta; ainda faltavam-me alguns metros quando a mesma se abriu, revelando um homem alto, com um terno vinho impecável. Seus cabelos grisalhos na cabeça que carregava um rosto relativamente jovem, denunciavam que trabalhava em um cargo importante e estressante. Ah, claro, a casa enorme também denunciou.
— Boa noite, senhor Gallahad. – Sorri, confiante, e estendi minha mão em sua direção. – Clarice Mason.
Gallahad me retribuiu o sorriso, saindo então de sua pose contraída, tirando as mãos dos bolsos.
— Pulemos as cordialidades, Clarice. – Declarou, mesmo assim segurando minha mão, até puxá-la delicadamente em direção aos seus lábios. – Mas é um prazer, com certeza.
— Com certeza. – Assenti, permitindo que o homem envoltasse seu braço por minha cintura e me encaminhasse para dentro da casa.
O hall era enorme, o que diminuiu minha surpresa ao chegar à cozinha e constatar seu tamanho. Sobre um balcão, que se encontrava no centro do recinto, duas taças já estavam dispostas.
— Vinho? – Meu cliente perguntou, já com a garrafa em mãos, o rótulo voltado em minha direção. – Tinto, acertei?
— Ah, não, não tomo vinho. – Neguei levemente com a cabeça, com um sorriso amarelo no rosto.
Sua cara de espanto não me foi surpreendente.
— Como assim uma mulher como você não toma vinho? – Gallahad encarou-me perplexo por alguns momentos, mas não se demorou a guardar a garrafa, enquanto ainda resmungava: — Você é o vinho em pessoa, é sensual e romântica, quente e acolhedora.
— Talvez. – Elevei um pouco a voz, ciente de que ele pensava que eu não havia o ouvido. – Mas penso que é uma bebida solitária. Pode se encaixar em sua descrição por ser algo de uma noite só, para preencher um coração vazio e esquentar um homem solitário. – Sentei-me em uma banqueta que estava próxima à bancada. – Uísque, por favor.
Gallahad riu, apontando-me o dedo. – Ah, Clarice... Devo esperar mais surpresas de você esta noite?
— Você ainda não viu nada... – Dirigi-lhe uma piscadela e mordi meu lábio vermelho, torcendo internamente para que o batom não manchasse meus dentes. Varri a cozinha com o olhar, buscando algo que me tirasse do assunto. – Bonita geladeira. Parece você.
— Se te conhecesse em um bar qualquer, não tenho certeza de como resistiria a sua forma tão impecável de flertar. – Pude constatar seu riso pelos ombros que balançavam enquanto bebia o uísque recém servido.
— Que bom que não me conheceu em um bar qualquer, ou eu ficaria sem pagamento. – Arqueei as sobrancelhas, descontraída, enquanto também tomava um gole de minha bebida.
Quando dei por mim, Gallahad estava parado a minha frente, e sua mão segurava firmemente meu queixo.
— Tão linda... – Lentamente aproximou seu rosto do meu, em direção aos meus lábios, logo se desviando para minha orelha. – As coisas que eu quero fazer com você, fazem meu lugar no inferno valer à pena. – Soltei um suspiro, não me permitindo perder as rédeas da situação.
— Estou aqui, Gallahad. E sou toda sua. – Seu aperto em meu queixo ficou mais leve, e aproveitei para me levantar e deslizar para longe de sua tentativa de me agarrar.
Sorri, maliciosa, e parei no início do corredor, chamando-o com meu dedo. Não esperei que me seguisse para continuar meu caminho, ansiosa para o que me aguardava.
Luzes apagadas, a respiração masculina pesada, o quarto já estava quente. Empurrei meu cliente na cama, e fiquei por cima, trilhando com meus lábios o caminho de sua clavícula, para o pescoço e então orelha.
— Sabe, é uma pena... – Retirei de minha cinta-liga o objeto metálico, passando-o lentamente pelo abdômen malhado de Gallahad. – Você parecia ser bom de cama.
Antes que ele pudesse entender, cravei a faca em seu peito, girando-a ao som de seu engasgo de surpresa. Beijei-lhe o rosto e me levantei, caçando meu celular dentro da bolsa, pronta para ligar para meu motorista.
— Louis? – Ri ao ouvir seu resmungo. – Estou pronta. Venha me buscar, sim?
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