A pedido de Helena, compareci ao funeral de Nala – não sem antes contestá-la, dizendo que seus objetivos ao me mandar até lá eram desrespeitosos, devido ao ambiente. “Se nos atermos a isso, não iremos progredir. Se não progredirmos, mortes como a de Nala serão comuns.”, foi o que Helena me disse, antes de me expulsar delicadamente de seus aposentos. Percebi, então, que meu julgamento quanto ao que era respeitoso ou não, estava nublado por minhas emoções, pelo carinho que eu nutria pela finada; pus-me a caminhar rumo à loja de Nala, ciente de que ela iria querer que fizéssemos o possível, independente das condições, para vingar sua morte e as injustiças cometidas nos últimos anos, além das que ainda estariam por vir.

A estreita rua estava razoavelmente cheia, em sua maior parte por pessoas curiosas que buscavam saber à quem era dedicada aquela coroa de flores. Abri meu caminho entre os corpos, quase perdendo minha capa devido a alguns pisões de desconhecidos.

Yuko estava parada ao pé do caixão, sua cabeça baixa e os ombros chacoalhando enquanto soluçava. Lola, seguindo as instruções, a encarava de longe, pois sabia ser muito arriscado se aproximar; se contentava, portanto, a lançar um olhar penoso sobre o caixão.

— Com licença, senhora. – Yuko se virou para mim, assustada. – Posso?

Assentindo de forma exagerada, como uma criança, Yuko beijou a testa de Nala e sussurrou preces ao seu corpo sem vida antes de se afastar em passos pesados. Assisti enquanto ela passava reto por Lola, que tomou essa ação como um sinal de que poderia se despedir de Nala.

— Nala Garcia Fernandez, que tua alma possa seguir o caminho plácido, que a voz da Deusa guie-te para o abraço redentor Dela, e lá tu encontres a paz e a força que lhe foram roubadas em terra. – Quando percebi minha voz começar a embargar, senti os braços de Lola ao meu redor.

— Se me permite... – Deu-me um sorriso acolhedor, ao que respondi ao abaixar meus olhos novamente para o cadáver. – Que sinta, enquanto enlaçada com tuas irmãs, que o amor que deixaste na terra permanece entre nós, e sua memória nunca haverá de se perder.

— Agora, podes descansar nos braços de tuas iguais. – Finalizei, respirando fundo antes de caminhar lentamente para longe da multidão.

Assisti enquanto algumas de nós passavam e deixavam suas preces. Outras, porém – as que não eram tão íntimas de Nala -, se mantinham escondidas na multidão, passando-se por somente mais alguns pares de curiosos olhos.

Lola havia voltado a sua posição anterior, e, quando conseguiu fixar os olhos nos meus, dirigiu-me uma piscadela, para logo em seguida dar-me as costas e seguir para a parte de trás da loja. Quando dei a volta por fora do cubículo, consegui avistar somente a barra de seu vestido enquanto ela sumia pela porta dos fundos, que levava à despensa do comércio.

— Aparentemente todos que realmente se aproximaram do caixão são parentes ou pessoas que eram próximas da Nala, e nenhum deles possui laços com a família real. – Lola murmurou, buscando entre as estantes para se certificar de que não havia ninguém mais nos ouvindo. – O rei também não se pronunciou quantos aos rumores sobre a morte dela.

— Você está surpresa? – Soltei um baixo riso de escárnio. – Se ele agir como uma morte insignificante, de uma pessoa que nenhum de seus homens conhecia, é nisso que o povo irá acreditar... Acreditarão que não passa de mais uma mulher histérica, louca, que se colocou uma corda ao redor do pescoço, foi porque merecia a morte.

— Infelizmente não podemos nos pronunciar, ou darão à cidade a certeza de que Gallahad e Nala estavam conectados a algo maior.

— Vocês sabiam que há rumores de que foi ela quem o matou? – Yuko comentou, mordendo casualmente uma maçã. Eu e Lola voltamos abruptamente o rosto para a porta, onde a mais nova se encontrava recostada.

Suspirei, indignada. – Não devia estar aqui, Yuko, é perigoso. Já passou da hora de você voltar e ajudar as garotas e a Helena.

Lola colocou a mão a minha frente, e caminhou em direção a Yuko.

— Se as pessoas acreditarem nisso... – Falou, a voz falhando, sem voltar o olhar para mim. – Haverá mais teorias sobre nós, sim, mas a realeza seguirá uma trilha perdida, finada.

— Isso nos ganhará tempo. – Murmurei, mordendo o lábio inferior. – Perfeito.

— Perfeito. – Nós três sorrimos, dispostas a fazer o possível para manter a mentira de pé.

Esperávamos, somente, que Nala não ficasse decepcionada com a forma em que estávamos utilizando sua morte. Portanto, dei-lhe um último adeus e um pedido de desculpas em sussurro, antes de caminhar em passos lentos e pesados para longe da loja, das pessoas, e de minha falecida amiga.

XxXxX

Assim que todas havíamos retornado, algumas horas após o funeral, nos reunimos novamente à mesa redonda.

Eu, Lola e Yuko contamos sobre os rumores, e sobre nosso pequeno plano para despistar o rei: Lola havia ficado para trás na loja e, pouco depois da minha retirada, Janice apareceu com a faca que usei em Gallahad, e um bilhete de suicídio claramente forjado – mas sabíamos que ninguém se importaria o suficiente para buscar sua real origem, ainda mais se o rei realmente quisesse abafar o caso.

Após a breve reunião, Helena decidiu que seria melhor liberar as garotas que quisessem ir para casa, e, mesmo sob o olhar afiado e julgador de Regina, tive que ceder àquele descanso. Minha cabeça latejava e minha garganta implorava por alguns muitos goles de uísque, e eu já me imaginava jogada em meu sofá, apreciando a bebida com alguma música de fundo.

Fui a primeira a sair, me despedindo rapidamente e dispensando o convite de Yuko para nos reunirmos em algum bar. Levantei o capuz de minha capa, de forma que cobrisse todo meu rosto enquanto eu caminhava de cabeça baixa, cerrando os punhos por baixo do tecido para me manter sã até que estivesse de volta em meu apartamento.

A caminhada era um tanto quanto longa, considerando que a casa de Helena, onde sempre nos reuníamos, ficava em uma clareira na Floresta Leviana de Nalsea, afastada até mesmo do centro comercial. Considerei seriamente pegar um táxi assim que pisei na cidade, mas, quanto mais cansada estivesse ao chegar em casa, mais chances eu teria de simplesmente apagar na cama, ou mesmo no tapete da sala.

Meu apartamento era bonito, poderia até dizer que era caro, mas sequer se comparava às moradas da elite de Nalsea. A parede da sala se resumia a uma grande janela, de onde podia se ver os prédios executivos e residenciais, e mais além o brilho das placas de alguns bares que indicavam o início do centro comercial. Se forçasse a vista, poderia até mesmo me enganar dizendo que conseguia enxergar o borrão verde das árvores. Este apartamento e o Louis eram os únicos luxos que eu me permitia possuir.

Larguei os sapatos na entrada e me dirigi diretamente à cozinha, sem me preocupar em acender as luzes. O sol estava a se pôr, já pintando o céu de tons de roxo e rosa, anunciando a chegada da noite. Com o copo de uísque em mãos, sentei-me em meu sofá, puxando as pernas junto ao meu corpo, consolando-me; só então percebi que minhas mãos tremiam. Passei minutos as encarando, esperando que de alguma forma isso as acalmasse, mas o efeito foi o contrário: logo senti a tremedeira se espalhar pelo meu corpo.

Obriguei minhas pernas a trabalharem e caminhei em direção à janela, observando cautelosamente o fraco reflexo do meu rosto, que denunciava exageradamente minha exaustão. A imagem de Nala se fez ao meu lado no vidro, um sorriso triste pintando seus lábios, os olhos marejados como se contendo as lágrimas. Senti seu toque em meu ombro, e me virei bruscamente, assustada. Não havia ninguém. Porém, mesmo que com meus olhos fechados, tudo que conseguia ver era seu rosto pálido e o corpo sem vida em um caixão malfeito.

Quando estava prestes a pegar a garrafa da bebida e virá-la sem hesitar, ouvi batidas delicadas à porta. Queria ficar imobilizada e fingir não estar em casa, mas a pessoa que estava no corredor era insistente em suas batidas. Passei rapidamente as mãos pelos cabelos e guardei o álcool, buscando estar o mais apresentável possível.

Caminhei cautelosamente até a porta, porém. Através do olho mágico, avistei uma mulher de longos cabelos negros, o olhar intenso vidrado no pequeno vidro pelo qual eu a analisava; em sua capa carmesim havia duas letras bordadas: A.M. Atrás dela, dois homens altos e fortes, vestindo o uniforme da guarda real, permaneciam impassíveis. Rolei os olhos e gritei, voltando à minha sala:

— Não estou em casa!

As batidas voltaram a soar pelo apartamento. Ignorei.

— Em nome do rei e de sua futura rainha, ordeno-lhe que abra a porta, senhorita Mason. – Consegui sentir o convencimento na voz feminina.

Bufando, abri a porta.

— Como posso lhe ajudar, futura rainha? – Perguntei com escárnio, e abri um sorriso tão falso quanto aquele que recebi em troca.

— Permita-me entrar, sim? – Seu olhar debochava profundamente de mim.

Com uma reverência exagerada, estiquei o braço em direção à sala. Assim que a moça adentrou o recinto, empurrei com força a porta para que esta se fechasse, mas seu caminho foi interrompido pelo pé de um dos guardas. Arqueei uma sobrancelha para a futura rainha.

Suspirando, ela se dirigiu ao seu homem. – Esperem por mim do lado de fora.

O guarda hesitou, mas sob o olhar certo de sua rainha, recuou, permitindo que eu fechasse a porta.

Cruzei meus braços e recostei-me na parede, encarando minha “convidada”, que olhava para todos os lados do apartamento, sem tirar o sorriso do rosto. Enfim parou no centro da sala, se voltando para mim.

— Não mudou nada. – Constatou, com um riso nasalado, e abaixou a cabeça, como que para se recompor. – Nem a casa, nem você. Você está linda, Clarice.

— O que você quer, Mendes?

— Pois bem. – Allison se sentou delicadamente no sofá, e deu dois tapinhas no assento ao seu lado, para depois cruzar ambas as mãos sobre o colo. – Sente-se.

Contrariei minha vontade e me dirigi lentamente até o sofá, ciente de que, se eu desejasse que ela se fosse logo, deveria ouvi-la. Após sentar-me, Allison virou o tronco para ficar de frente para mim; de perto eu conseguia ver as lágrimas contidas em seus olhos.

Respirei fundo, procurando não me abalar.

— Não faça isso. – Ela declarou. Mantive-me em silêncio. – Clary, estou te pedindo: não faça isso.

— Não me chame de Clary. – Ouvir meu apelido saindo de sua garganta fez com que meu sangue fervesse de raiva e tristeza ao mesmo tempo, e tive que cerrar meus punhos para manter o controle.

Allison engoliu em seco, contraindo os lábios.

— E você não é ninguém para pedir que eu deixe de fazer algo. – Continuei.

— Como ousa dizer isso? – Pude notar a mágoa em sua voz. – Clary, eu ainda sou a mesma pessoa, eu ainda sou a mulher que te ama, a mulher que você ama... Isso não é o suficiente para você?

Soltei uma gargalhada, descrente do que acabara de ouvir.

— Você acha mesmo que eu poderia te amar, Allison? – Levantei grosseiramente, parando em pé à sua frente. Allison tentou segurar minha mão, a qual eu puxei sem hesitar; seu toque queimava.

— Eu sei que eu ainda significo algo pra você, Clarice. Eu sei disso, e você sabe disso. Então, por favor, se algum dia você me amou, não siga em frente com esse plano maldito. – As lágrimas agora corriam livres por suas bochechas.

— Você significa, sim, algo para mim. – Seus olhos brilharam em esperança. – Você significa tudo que eu mais desprezo nesse mundo, Allison. Eu amei quem você era, mas agora... Você não passa de uma peça no jogo de seu rei, uma traidora de nosso clã. Eu jamais poderia amar você estando ciente do que você fez com as pessoas que eu amo, com as minhas irmãs.

Em um piscar de olhos, a expressão de Allison se tornou séria, e as lágrimas cessaram como se simplesmente se tivesse fechado a torneira que as libertava.

— Eu jamais poderei amar-te novamente. Você é uma víbora, uma inimiga. – Finalizei.

— Se é assim... – Com um suspiro, o sorriso voltou ao seu rosto. – Acabe com seu plano maldito, ou você e suas... irmãs, — A palavra saiu com nojo de sua garganta. – Certamente serão mortas, e eu farei questão de dançar minha valsa de casamento em cima de seu sangue esparramado pelo salão.

— Não ouse nos ameaçar, Mendes.

— Me chame de Vossa Alteza, a partir de agora. – Allison se aproximou lentamente de meu ouvido. – Você diz que eu não sou nada, mas eu mando em você, Clarice. Eu sou sua rainha.

Quando dei por mim, minhas mãos estavam em volta de seu pescoço, e seu corpo estava preso contra a parede. Com os dentes cerrados, colei nossas testas, olhando fundo em seus olhos.

— Nunca mais ouse pisar neste apartamento e ameaçar a mim e minhas irmãs, ouviu bem, Vossa Alteza? – Afastei-a da parede e voltei a bater sua cabeça contra o cimento com força. – Ou eu juro pela Deusa, eu te mato. Afinal, o rei poderia facilmente achar outra esposa estúpida como você.

Soltei seu pescoço e Allison caiu no chão, a respiração cortada enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Saia da minha casa.

Dei-lhe as costas e peguei um cigarro na mesa de centro, acendi-o e voltei a encarar os prédios pela parede de vidro, tragando de forma lenta e despreocupada, e não me dei ao trabalho de me virar até ouvir a porta bater, indicando que Allison havia deixado o apartamento.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.