Reminiscent Butterfly
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Estava ali, sobre a mesa. Uma capa surrada, de cor cinza, coberta pela poeira. Parecia estar esperando para ser lido.
Aquele era o livro de Ichihara Yuuko.
Ela dizia não ter passado. Eram páginas borradas, opressivas, de poucas palavras. Páginas de um passado negro e devidamente ignorado.
Podia adivinhar o futuro. Mas apenas o futuro alheio. Incapaz de prever seu próprio destino, pulara linhas, pulara páginas. Desejos a serem realizados, sonhos a serem construídos. E com prazer deixara aquelas páginas em branco. Um futuro branco, incerto.
A adição do preto ao branco forma o curioso cinza. Um único tom, imparcial, irrelevante. Cinza como a capa daquele livro, cinza como o mundo de Ichihara.
Cinza das cinzas de sua vida, completamente incendiada. O amargo tom de cinza que enclausurara em seu coração. Uma borboleta morta, velada pelos brilhos errantes das rosas negras que cobriam seu doce cemitério no quintal.
Ninguém pôde realizar o desejo daquela que realiza desejos. Nem ela própria. E essa dor foi enterrada junto consigo, aprisionada em seu olhar no momento em que ele se fechou para todo o sempre...
Mas nas últimas páginas estava o presente não terminado. Letras convictas, voluptuosas, escritas com seu próprio sangue. A promessa de voltar, dando vazão livre a seu desejo, razão à sua existência interrompida e cor à sua eternidade.
O céu se desfez em pingos de resignação. Grossos pingos descorados, tentando encobrir o brilho que se levantava do jardim da morte. Uma chuva intensa, fria, preta e branca. O branco de seu silêncio, sua inocência e sua simplicidade. O preto de sua revolta, sua insanidade e seu egocentrismo. Entre o branco e o preto, suas asas se levantavam vibrantes, majestosas, exibindo a cor de sua mente instável, de sua alma inquieta e seu coração finalmente liberto.
Espalhando seu sangue pelo jardim, revestindo as rosas, erguia-se no meio das pétalas em queda, de olhos ainda fechados. Ela sorria, um sorriso sádico de uma odiosa satisfação, apreciando o novo nome que surgira em sua mente. O título que daria a si e à sua esplêndida volta.
A chuva aos poucos parava, cansada de lutar. Naquela batalha, a vencedora já estava determinada, e a encarava; fulminando-a com seu olhar. A imagem da derrota se estampava naquelas orbes excêntricas, novamente abertas. Olhos vermelhos chorando na chuva. Olhos que se elevaram e deixaram aquele jardim. Olhos que alçaram voo, exibindo sua beleza junto ao mais incrível par de asas. Asas que finalmente estavam livres.
Entre o vazio negro da noite, e o brilho branco da lua, voa a borboleta que dispersa vermelho. Guren*, uma pintura entre as sombras de um mundo sem cor. E que finalmente escaparia daquele cinza, para a imensidão azul.
O lindo azul do olhar de Watanuki.
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