Reminiscence
1 Unspoken secret.
Notas iniciais
Os sentimentos de Mitsuki com relação ao pedido, à ordem de sua irmã mais velha eram confusos, mistos. Alguns meses depois de Izumi ter retornado ao comando da família Nase, logo após a derrota do que restava da discórdia deixada por Miroku mesmo após a sua morte, os problemas com ayakashis passaram a aumentar ao redor do mundo – como se toda aquela batalha que quase custou a vida de muitos houvesse sido apenas o prelúdio do que ainda estava por vir. Um posto importante na América agora requisitava um representante da família deles – uma das mais importantes a se atuar no “ramo” –, e a mais velha dos três irmãos encontrava-se irredutível em sua decisão.
— Hiroomi irá.
Ela e o irmão mais velho haviam sido chamados no escritório de Izumi – para uma conversa particular, ao que lhe parecia. A líder nos Nase alegou que a América ainda não estava em um quadro preocupante, o que permitiria Hiroomi a crescer sem muitas pressões ou cobranças; depois do pequeno período no qual ele assumira a posição de autoridade ikaishi naquela região do Japão, todos puderam ver claramente que lhe faltava algo importante. Algo que ele precisava adquirir antes de poder dizer que tinha poder o suficiente para proteger aquilo que lhe havia sido incumbido.
Izumi também comentou algo sobre “se tornar mais individualista” e “ikaishis trabalham sozinhos”, mas o cérebro de Mitsuki falhou em captar algumas informações que talvez fossem cruciais porque—
Hiroomi está indo embora.
Seus olhos viajaram até o irmão, que parecia prestar atenção aos menores detalhes daquilo que lhe estava sendo passado. Ela sabia que ele se sentia responsável, fraco pelas falhas que tinha cometido no período em que Izumi esteve ausente. Porém, tudo fora apenas fruto de uma aquisição abrupta de um poder muito grande; Hiroomi não estivera preparado para aquela responsabilidade e Mitsuki sabia disso, mas seu irmão jamais lhe daria ouvidos – não naquele tópico, ao menos.
Ele vai deixar você. Você finalmente vai ter paz—
Não havia espaço para discussões. A Nase mais velha não estava dando a ele opções ou rotas alternativas. De repente o ambiente do cômodo lhe pareceu mais pesado, agora todos em silêncio – e mesmo que Hiroomi não tivesse para onde fugir, ele parecia ponderar algo. Considerar algo. No entanto, após um breve momento, sem um suspiro sequer, o jovem ergueu os olhos com uma expressão séria no rosto, e Mitsuki jurou que o arrepio descendo pela sua espinha era uma mera ilusão.
— Entendido, minha irmã.
Com uma reverência breve, o irmão do meio disse mais algumas palavras à mais velha que a jovem ikaishi não compreendeu. Girando nos próprios calcanhares, Hiroomi começou a caminhar até a porta, sem nunca dirigir um olhar sequer na direção de Mitsuki. A feição dele estava dura, amarga, como se estivesse lutando para manter demônios desconhecidos dentro de uma gaiola imaginária – a resolução firme em seu rosto. E ainda assim, ela não pôde compreendê-lo, não teve a dimensão da decisão que havia sido tomada em tão poucos segundos. Izumi limpou a garganta, chamando a atenção da mais jovem.
— Irmã Izumi?
— Mitsuki, — a mais alta começou, checando alguns papéis em sua mesa antes de voltar os olhos à outra garota. — Eu suponho que as memórias de Kuriyama Mirai ainda continuem perdidas?
— Sim, irmã.
Com um grunhido baixo de frustração, Izumi franziu o cenho e largou a papelada na mesa, cruzando as pernas e descansando a cabeça no punho direito.
— Fique de olho nela. E em Kanbara Akihito também. Com todos esses incidentes desencadeados pela energia eliminada após a morte de Fujima Miroku, eu não me surpreenderia se o kyoukai no kanata fosse envolvido novamente, — e finalmente se levantou, caminhando com passos tranquilos até a janela, — Tem a minha permissão para agir, caso necessário.
Mitsuki sabia o que aquilo significava, e compreendia a preocupação de sua irmã com relação àqueles dois desajustados. Mas sua mente estava em outro lugar.
A razão dizia que Mitsuki deveria estar dando pulos de alegria, porque ela estaria finalmente livre de um dos pervertidos, e sabia-se lá por quanto tempo – talvez, com alguma sorte, para o resto da vida. Mas seu coração estava confuso por razões desconhecidas a ela. E antes que pudesse controlar a língua, já havia perguntado.
— E Hiroomi?
Izumi franziu o cenho, cruzando os braços.
— O vôo dele está marcado para amanhã de manhã. Sugiro que comunique o restante dos seus... Amigos?
A mais nova bufou.
— Por quanto tempo ele vai ficar lá?
— Indeterminado.
Mitsuki apertou os dedos em punhos, torcendo os lábios. É natural que ela se sinta incomodada, certo? Não existe nada de especial por trás daquele sentimento. Qualquer um se sentiria minimamente abalado se, de repente, alguém cuja presença é extremamente constante em sua vida fosse mandado para um país diferente. Um lugar distante.
É. Nada de diferente aí. Afinal, ela também se sentiu deprimida quando Izumi sumiu, há pouco menos de um ano atrás. São parte de sua família, afinal de contas. Mesmo que a Nase mais velha insista em dizer que—
— Ikaishis trabalham sozinhos, Mitsuki.
A garota endireitou a postura.
— Sei disso.
Os olhos ametistas de sua irmã se prendem aos seus, penetrantes. É como se ela lhe analisasse, numa espécie de sessão espírita ou psicológica onde a pessoa em controle estuda os centímetros mais profundos da sua alma—
— Achei que fosse ficar feliz, — e desvia o olhar, sorrindo de leve, como se estivesse zombando dela. — Hiroomi está sempre atrás de você, tentando te afundar naquele pequeno complexo dele.
“Complexo”, sim; “pequeno”, não. Mitsuki morde a língua.
— Eu estou.
— Verdade?
O tom dela é quase inquisitivo, mas fica óbvio que Izumi está apenas cutucando uma ferida inexistente, tentando cavar por respostas de perguntas que jamais foram feitas – nem por Mitsuki à ela mesma, numa discussão privada com sua própria consciência.
Ela imita a irmã, cruzando os braços.
— É claro que sim, — e bufa de novo. Uma, duas vezes. Três. — Ele já está grandinho demais para se permitir pensar daquele jeito.
— Hm.
Algo é deixado no ar ali. Algo importante. E então Mitsuki entende que Izumi está lhe escondendo algo, mas antes que possa perguntar, alguém bate à porta. É um dos secretários de sua irmã, com informações de mais alguns ayakashis particularmente preocupantes que foram encontrados por Ninomiya Shizuku – ela teria derrotado dois deles, mas por estarem em maior número e terem força considerável, a professora bateu em retirada. Mitsuki escuta o secretário falar algo sobre um “ninho” antes de pedir licença à sua irmã e sair do escritório.
Passos apressados dirigem-na até seu quarto, e ela controla o ímpeto de trancar a porta ao invés de simplesmente fechá-la atrás de si. Deitando-se na cama, ela alcança o celular na mesa de cabeceira e começa a escrever uma mensagem para Akihito, seguindo o conselho da irmã – a mente ainda perdida em algum lugar enquanto ela digita palavras vazias no aparelho eletrônico.
Amanhã, huh?
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