Reminder

1 Single Chapter — Memorial


Notas iniciais
Sofro com a história desses dois! ;---; Amo demais. ❤ A fic contém spoilers do mangá.

Reminder

By: Archie-sama

Single Chapter — Memorial

"Apenas esqueça tudo sobre a Liz. Apenas se habitue à morte dela. Isso é bem fácil, não é, Meliodas?

Algo tão fácil como isso…"

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Essa sempre foi a realidade em que vivemos, Elizabeth.

Um demônio jamais poderia segurar a mão de uma deusa, e uma deusa estava estritamente proibida de unir-se a um demônio. Estávamos fadados ao fracasso desde o princípio, mas não era como se não soubéssemos. Alguma coisa dentro de mim sempre me alertava sobre isso, e provavelmente não era diferente com você. Afinal, como poderia eu, o próprio pecado, ser tão pretensioso e achar que estaria tudo bem se tomasse para mim a luz em sua mais pura forma?

Mas você era simplesmente radiante demais, cativante demais, discípula da deusa. Suas asas eram as mais bonitas que eu já havia visto, e seus olhos tão brilhantes que poderiam iluminar qualquer um que os olhasse diretamente. Eu me peguei desejando ouvir a sua voz.E quando você falou perto de mim pela primeira vez… Foi como se enviasse uma corrente elétrica por todo meu corpo. Era uma voz melodiosa totalmente diferente de tudo que eu já havia escutado nas profundezas do inferno, e adentrou os meus ouvidos como se fosse um feitiço. De fato, eu fui enfeitiçado naquele momento.

Eu sabia que estava redondamente enganado quando pensei que poderia te ter. Nós éramos o extremo oposto um do outro, inimigos declarados. Luz e trevas. Ira e graça. Mas, ainda assim, tudo sempre me levava de volta até você. Não importava quantas vezes eu tentasse te tirar da minha cabeça, meus sentidos estavam todos preenchidos pela sua presença. Quando eu fechava os olhos, tudo que podia enxergar em meio à escuridão era o seu sorriso. O seu doce sorriso.

Quando permiti que suas palavras de paz chegassem até mim, eu estava ciente de ter ultrapassado uma linha que jamais deveria ter cogitado atravessar. Era ridícula a forma como o subordinado mais temido do Inferno havia deixado que emoções medíocres inundassem seu coração frio. Contudo, sempre tive certeza de que nunca poderia ter feito diferente. Eu estava irrevogavelmente apaixonado por você, Elizabeth. E não havia como me arrepender disso. Era impossível resistir a você.

"A maioria de nós não deseja essa batalha", você disse uma vez, parecendo convicta. "Nós podemos fazer diferente, Meliodas!" E havia determinação em seu olhar. Era a primeira vez que você chegava tão perto de mim. Eu fiquei estático diante da sua figura calorosa. Patético, como diria Zeldris.

Mas ele também não tinha o direito de me julgar, pois se tornava igual na presença de sua amada — algo que eu nunca havia entendido. Terminei soltando as asas do anjo que estava prestes a matar, e você o curou bem na minha frente, sem nenhum receio de que eu pudesse retaliar. Você nunca pensou que eu poderia te matar também? Eu sabia que não. Porque logo em seguida você me deu as costas, totalmente desprotegida, e avançou em direção ao norte, voando até seus companheiros que lutavam contra outros demônios.

Eu te deixei escapar sem conseguir falar uma palavra.E, mesmo assim, a única coisa que se repetia em minha mente era você dizendo o meu nome.

Eu nunca me senti tão estranho.

Como o filho mais velho e temido do Rei Demônio, eu com certeza era conhecido entre os filhos dos Céus. Ainda assim, ouvir você chamando o meu nome sem nenhum ódio foi uma experiência que me causou sensações inéditas.

Nas vezes que se seguiram, você continuou vindo até mim, despejando seus milhares de argumentos sobre quão desnecessária era aquela batalha e sobre como poderíamos acabar com ela sem continuar derramando o sangue de nossos companheiros. Para ser sincero, eu ainda era alguém incapaz de me importar com isso. Eu não dava a mínima para quem iria viver ou morrer, eu era o líder dos Dez Mandamentos e as ordens consistiam em massacrar o inimigo sem nenhuma piedade, sem me preocupar com o que acontecia à minha volta. O Rei Demônio queria a vitória sobre o Clã da Deusa.

Mas isso também não era o que me mantinha lutando. Eu era simplesmente egoísta, Elizabeth. Só desejava algo que me fizesse sentir… vivo. Porque eu não conseguia sentir nada, nenhuma emoção que valesse a pena. Não até você aparecer.

Foi por isso que, quando você ousou se aproximar novamente, eu não quis perder a oportunidade.

"Meliodas, por favor, me escute!", embora sempre houvesse uma expressão firme em seu rosto, eu podia identificar facilmente o quê de súplica em sua voz. Era intrigante que uma deusa pudesse pedir "por favor" a um demônio sem parecer ofendida com isso. Você jamais tentou me dar ordens, não é mesmo? E isso, por algum motivo, me deixou extremamente satisfeito. Talvez por eu ter sentido que nós éramos iguais, apesar de indubitavelmente diferentes. Naquele momento, tudo que eu desejava era alcançar você.

E eu me lembro bem da minha resposta:

"Eu posso te ouvir em um lugar longe daqui."

O seu rosto se iluminou ainda mais naquele instante, se é que era possível, e não parecia haver qualquer resquício de incredulidade, como se você nunca tivesse duvidado de mim desde o começo. Eu não sabia o que você havia visto em mim, honestamente. Mas sempre fui grato por você ter me enxergado.Foi por causa disso que eu me tornei alguém melhor. Foi por estar com você que finalmente pude entender o meu irmão mais novo. A alegria de ter alguém precioso para mim, e o sentimento de querer proteger essa pessoa… Eu fui preenchido por essas emoções.

Nós voamos para longe do local de combate. O campo em que paramos parecia bem mais tranquilo se comparado à carnificina do outro lado. Milhares de vidas sendo sacrificadas em prol de uma luta injustificada. Você parou bem à minha frente, seu corpo a centímetros de distância do meu. Eu certamente poderia te matar naquele momento, e me perguntei se você não achava o mesmo. A resposta era imutável. Você estava diante do líder dos Dez Mandamentos, o demônio mais irascível e impiedoso do Inferno, mas não recuou em nenhum momento.

Você continuou falando, olhando nos meus olhos, e eu só conseguia escutar calado, porque estava perdido em pensamentos ao observar seu rosto angelical. Por que você confiou em mim? Você era ingênua, não era, Elizabeth?

Mas talvez não fosse tanto assim. Porque, você tinha razão, em nenhum momento eu cogitei te machucar.

"Meliodas, você está me ouvindo?", você indagou, confusa e um tanto preocupada, e foi naquele momento que não pude mais me conter.

Eu ergui minha mão até a sua bochecha, tocando-a lentamente. Queria saber como era senti-la, e o que causaria em mim. Era quente… E queimou algo no meu interior também; uma chama desconhecida se acendeu. Eu ainda me lembro de como você arregalou os olhos, incrédula. Mas, diferente de todas as reações que imaginei que você poderia ter após isso, eu fui surpreendido. Seu rosto se avermelhou do que eu julguei ser vergonha, e sua respiração calma de repente se tornou agitada.

"Está machucado?", e essa também foi a última pergunta que eu te imaginei proferindo. Você pegou a minha mão e a observou cuidadosamente, fazendo com que a energia demoníaca recuasse e você pudesse realmente examiná-la. Não havia nada mais que alguns arranhões, e seu suspiro de alívio foi engraçado até para um demônio como eu. Porque eu era seu maior inimigo, aquele que você deveria desejar morto, mas você estava lá, despreocupadamente ficando aliviada por mim.

Eu acho que aquela foi a primeira vez que sorri. E foi por sua causa.

Desde então, nós conspiramos um com o outro para dar um fim àquela luta inútil e incansável entre nossos clãs. Porém, dois de meus companheiros, que também faziam parte dos Dez Mandamentos, descobriram a minha traição antes que pudéssemos de fato colocar nosso plano em prática. Encurralado, eu não pude fazer nada a não ser matar os dois e fugir com você. Nós havíamos falhado. A guerra que eclodiu após a minha traição foi ainda pior e mais sangrenta do que a anterior, denominada Guerra Santa. O Clã da Deusa se juntou às outras raças e formou a Stigma, a aliança para erradicar o Clã dos Demônios.

Nós dois éramos contra o derramamento de sangue, assim como todos aqueles que conseguimos trazer para o nosso lado. Só o que queríamos era paz e equilíbrio entre as raças, essa era a única razão de lutarmos. E fizemos de tudo para parar a guerra. Contudo, pelo crime explícito de nossas ações, não tardou para que fôssemos punidos.

Nós não paramos a guerra, Elizabeth. Nem sequer vencemos a batalha.

O meu pai, o Rei Demônio, e sua mãe, a Suprema Deidade, nos tinham em suas mãos. E nossas opiniões nunca valeram de nada, éramos apenas dois filhos da rebeldia. Para eles, a traição era somente um jogo. Nós cansamos nossos pais, e eles nos descartaram como se fôssemos mais insignificantes que poeira cósmica.

E, quando a Guerra Santa já tinha acabado, eu acordei ao lado do seu corpo sem vida.

* * *

"Nunca será fácil assim!

Algo como esquecer, me acostumar a te perder… Ingênuo. Cada vez que esse encontro e despedida se repetem, meu amor por você só aumenta."

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Eu vaguei por décadas como um fantasma.

Depois de abraçar o seu corpo desfalecido e chorar a sua morte como nunca imaginei que fosse chorar algum dia, eu precisei seguir em frente. Ao menos naquele momento. Eu não possuía quaisquer lembranças do que havia acontecido, a não ser que estivemos diante dos deuses, meu pai e sua mãe, durante a Guerra Santa. Mas, apesar de não lembrar, isso não tornava a sua perda menos dolorosa. Doía, doía muito estar sem você. E eu nem ao menos sabia o porquê de precisar sofrer tanto. Qual havia sido o meu pecado? Eu não fazia ideia.

Enterrei seu corpo bem longe dos destroços da guerra, em um lugar tranquilo e florido exatamente como eu sabia que você gostava. O memorial de pedra que ergui em seu nome era pequeno e rústico, nada extraordinário, mas foi o que me trouxe o mínimo de alento depois de você ter partido. E, depois disso, eu estava pronto para partir também.

Entretanto, havia algo de muito errado comigo. Por mais que eu desejasse a morte e tentasse de todas as formas abandonar esse mundo, meu espírito sempre retornava para seu lugar de origem, e eu acordava naquele mesmo local de novo e de novo, cada vez mais vazio. Eu nem sequer envelhecia mais. Era quase como um lembrete do meu pai, como se ele dissesse "vê, Meliodas? Você jamais possuiu qualquer direito de escolha. A sua vida sempre pertenceu a mim… Exatamente como a sua morte."

Foi quando eu desisti de tudo e comecei a vagar por aí. Eu retornava ao seu memorial somente no Obon, aquela data que os humanos haviam estabelecido em memória de seus entes queridos e de seus antepassados mortos na Guerra Santa. Era quando anoitecia e eu podia ver todas aquelas lanternas flutuarem no céu que as lágrimas faziam o caminho de volta até meus olhos. E, mais uma vez, eu lembrava do seu sorriso.

Estar longe de você era o meu martírio.

Até que, um dia, você apareceu bem na minha frente. Era uma mulher diferente, mas exatamente igual a você. Eu fiquei confuso. Nós realmente estávamos nos encontrando de novo, Elizabeth? Inicialmente, eu acreditei que meus olhos estavam me pregando uma peça. Talvez a saudade, que era tanta, tivesse feito com que eu alucinasse, que fantasiasse com uma versão de você que eu não conhecia. Porém, quando percebi que aquilo não era uma mera invenção da minha mente, tudo que pude fazer foi abraçá-la apertado, com o coração repleto de uma felicidade que eu não merecia.

Aquela mulher não possuía asas. Você, que supostamente estava morta desde aquele dia, certamente as tinha. Mas, por incrível que pudesse parecer, eu sentia que ela não era somente uma pessoa exatamente igual a você. Toda a minha intuição e o meu instinto me diziam que havia algo a mais. Claro, além de ela possuir o seu nome e a sua voz. Mesmo que ela fosse de uma tribo selvagem e não do Clã da Deusa, todas as coisas conduziam o meu pensamento a acreditar que ela era você.

Sendo assim, não demorou muito para que ela me permitisse conhecê-la, o que não foi uma surpresa. Você, contrariando tudo em que seu Clã se apoiava e acreditava, sempre foi receptiva a mim, Elizabeth. Eles podiam jurar que eu havia te seduzido e enfeitiçado quando, na verdade, você foi a única a chegar até mim primeiro. E, no dia em que eu te toquei mais intimamente, foi você que implorou que eu não parasse, sem medo algum de que eu pudesse te corromper. Não estava sendo diferente com a garota selvagem. Nós estávamos sempre juntos e compartilhávamos todo tipo de experiência.

Um dia, o olho direito daquela garota sofreu uma transformação, e o poder dela despertou. Juntamente com o símbolo do Clã da Deusa, a magia de cura manifestou-se por si só. Estava confirmado. Você havia renascido, Elizabeth. Por mais estranho e incrível que fosse, eu não pude conter a felicidade que imediatamente se apoderou de mim ao constatar isso. Eu tive que contar tudo para ela, para você. Tudo sobre sua vida passada. Algumas de suas memórias retornaram em fragmentos, e logo o símbolo do olho esquerdo despertou também.

"Meliodas…!!", você exclamou, de olhos bem abertos."Eu… lembrei de tudo!"

E, como era de se esperar, meus olhos encheram-se de lágrimas, as quais eu me recusei a derrubar. Preferia demonstrar minha felicidade com um sorriso. Então, segurei seus ombros firmemente e disse:

"Isso é ótimo, Elizabeth!"

Mas não era. Não chegava nem perto de ser.

"Me escute…!", você pediu, agora com suas sobrancelhas totalmente franzidas. "...Nós fomos amaldiçoados."

Amaldiçoados. Talvez essa tenha sido a palavra mais forte que você já proferiu, não é, Elizabeth? Diferente de um demônio sujo como eu, que sabia estar condenado aos portões do Hades pela eternidade. Eu estava acostumado a esse tipo de linguajar... Realmente estava. Mas doeu tanto ouvir. Doeu de um jeito que eu não sabia verbalizar, ainda mais quando, no instante seguinte, você voltou a falar coisas que deixaram minha cabeça girando.

"Eu quero que me prometa algo. Que não importa o que aconteça… Por exemplo, mesmo se eu morrer de novo… Prometa que um dia você irá quebrar essa maldição", você me pediu com uma seriedade com a qual eu não estava acostumado. Eu ainda não havia entendido a história muito bem, mas foi por ver seu rosto, habitualmente alegre e amável, tão estóico, que eu balancei a cabeça em concordância enquanto segurava suas mãos entre as minhas. Fiquei trêmulo só de pensar no que estava por vir.

"Tudo bem, eu entendi… Mesmo se… você morrer… eu manterei minha promessa com você", foi o que eu disse, com o coração batendo rápido e a respiração ficando presa na garganta. E foi aí que você começou a revelar o que havia acontecido conosco no meio da Guerra Santa.

Vida eterna e... reencarnação perpétua.Essas foram as maldições que nossos pais, os deuses de ambos os nossos clãs, lançaram sobre nós.

Eu realmente nunca mais iria envelhecer e, mesmo se viesse a morrer, eu seria revivido. Você iria continuar vivendo curtos períodos de vida como humana, e em todas as vezes iria esquecer as lembranças de suas vidas passadas. Se, por acaso, você recobrasse as memórias, não importava o que poderia acontecer, nem as formas que eu tentaria te proteger… Depois de três dias, você certamente morreria. E não era só isso. Toda vez que renascesse, você inevitavelmente iria me conhecer e se apaixonar por mim... E aí, tão inevitavelmente quanto, perderia sua vida bem diante dos meus olhos.

Eu fiquei em choque pela segunda vez na minha existência. Não podia ser verdade.Eu iria… te perder novamente? A realidade era assim tão cruel?

Sim, eu estava sendo tolo.

Nossa história nunca poderia ser um conto de fadas, no fim das contas. Ela não tinha um final feliz. E eu descobri isso da pior forma possível, três dias depois de você recuperar a memória.

Você morreu bem na minha frente.

E eu fiquei perdido outra vez.

* * *

"Não posso fazer nada para controlar minha raiva. É… impossível para mim. Não quero mais ver essa cena. Eu não posso mudá-la.

Não quero que isso ocorra novamente…

Nunca mais!"

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Já se passaram três mil anos, Elizabeth.

O segundo memorial que ergui foi maior que o primeiro, e a essa altura eu já não tinha tantas lágrimas para chorar como no início. Só conseguia odiar meu pai por me fadar a um destino tão terrível. Raiva era só o que eu acumulava no coração, sendo o combustível que me fazia desejar nos livrar dessa maldição mais do que tudo. Eu fiz disso o propósito da minha existência. Continuei falhando, apesar disso.

Mas você nunca me culpou. Em todas as vidas que te conheci, Elizabeth, você continuou sendo a pessoa mais compreensiva do mundo. Mesmo quando recuperava suas memórias, nunca me dizia para desistir de tentar ou me julgava por estar sendo inútil e não conseguindo fazer nada. Pelo contrário, você sempre fazia questão de me confortar. E, mesmo que eu soubesse não ser merecedor, nunca consegui me afastar. Eu precisava do seu beijo e do seu abraço para recuperar as esperanças perdidas, para renovar as minhas forças que já estavam tão escassas. Para isso, eu me deixaria ser acalentado quantas vezes fossem necessárias. Porque eu não iria desistir.

Você sempre foi tão gentil...

"Não chore…", você disse, sorrindo para mim em mais um de seus últimos momentos. "Nós… nos encontraremos novamente, Meliodas."

Mas, mesmo que eu soubesse que nos veríamos novamente em breve, eu jamais conseguiria sorrir de volta. Não quando sua voz estava tão fraca e seus olhos perdendo o brilho costumeiro. Dessa vez foi Fraudrin, um membro dos Dez Mandamentos que me odiava pela minha traição, quem banhou seu corpo em sangue. Você estava morrendo diante dos meus olhos outra vez, e eu, novamente, não podia fazer nada a não ser lamentar.

E essa era… a centésima-sexta vez.

Naquele fim de tarde, eu observei o céu nublado por um momento, deixando que a garoa entrasse em contato com minha pele e levasse o restinho de sanidade que ainda me restava.

No minuto seguinte, Danafor foi reduzida a uma enorme cratera tomada apenas de escuridão. Eu, como o demônio que era, deixei que a ira me consumisse uma outra vez. Reduzi uma cidade inteira a pó. Não dava mais. Eu nunca iria me acostumar a te perder, Elizabeth. Também não podia controlar minha raiva. Eu já não suportava mais não te ter… Para mim, continuar a te perder de novo e de novo era como ser lançado num lugar pior do que o próprio Inferno.

Entretanto, tudo que pude fazer foi erguer um novo memorial. Você já possuía cento e seis desses, todos espalhados por aí, mas eu não me daria por satisfeito nem se houvesse mil. No Obon, eu visitava sempre o primeiro deles.

Aqui jaz Elizabeth, do Clã da Deusa.

Era tudo tão solitário sem você… Eu até mesmo passei a comprar lanternas flutuantes para lançar em sua memória. Certo dia, questionei a mim mesmo o motivo de ter erguido tantos memoriais, se todos eles eram para a mesma pessoa. E a resposta veio tão fácil quanto a pergunta:

Era um lembrete.

Um lembrete da minha promessa a você, meu amor. Porque não importava quantas vezes você tivesse que reencarnar, eu não iria esquecer. Eu cumpriria minha palavra nem que levasse mais três mil anos. Nós precisávamos desse descanso. E, apesar de tudo, sabia que continuaria te amando até o final. Com ou sem maldição. Porque desde o começo foi você. Meu coração podia ser duro naquela época, mas nunca foi mentiroso.

E, mesmo agora, ele não parava de bater enlouquecido por você, terceira princesa do reino de Liones.

Elizabeth, minha amada… Você também deveria guardar essas minhas palavras como um lembrete.

Eu te alcançaria nem que precisasse desmontar o infinito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!