Remember me
5 Capitulo 5
Notas iniciais
Eva se encostou ao balcão da loja, sonhadora, olhando sem prestar atenção o pequeno movimento nas ruas. Suspirou sorrindo. Havia sonhado com “ela” novamente. Aquela mulher sensual e ardente que povoava seus sonhos há algum tempo. No entanto, hoje a havia visto com mais clareza, ela ainda tinha o rosto embaçado, mas o físico se destacou e a voz parecia mais real, os toques dela pareciam mais reais... Oh, ela deveria estar alucinando, só de pensar “nela” sentia seu coração descompassado. Não era possível que estivesse se apaixonando por uma mulher que nem sequer existia além de seus sonhos.
Foi tirada de seus devaneios pela extravagante loira que entrava na loja cheia de sacolas.
— Já posso até imaginar o motivo dessa cara de besta. Sonhou com sua amante imaginária, não foi?
― Ora, não comece, Tinker.
Tinker era sua melhor amiga e sócia da loja de artesanato, também era casada com Killian, o médico que havia cuidado dela depois do acidente que lhe tirara a memória. Na verdade, tinham salvado sua vida, pois ambos a haviam encontrado desmaiada na margem da ilha. Até hoje não sabiam como ela tinha aparecido no local e o fato de não conseguir se lembrar de absolutamente nada dos acontecimentos anteriores ao acidente contribuía para o mistério. Não tinha sequela alguma além da perda de memória, apesar de ter permanecido alguns meses em coma.
― Conseguiu enxergar o rosto dessa vez?
― Não, mas cheguei perto. Sempre quando se torna mais nítido, eu acordo. Não sei mais o que faço.
― Pois eu sei. Precisa arrumar um namorado ou namorada.
― Tinker...-ergueu uma sobrancelha, como advertência-
― Esses sonhos devem ser excesso de carência, desde que chegou não saiu com ninguém.
Como explicar a amiga que desde a primeira vez que a mulher misteriosa povoou seus sonhos, nenhuma outra pessoa conseguira atrair seu interesse?
― Vejo como Robin te olha, até mesmo a Dra. Bauer baba por você. Deveria dar uma chance a eles.
― Não quero me envolver com alguém.
― Ainda aquela bobagem de se manter distante?
Aquele não era o ponto principal embora fosse um dos motivos.
― Não é bobagem! Não sei quem sou. Como posso me envolver assim?
― Não sabe quem foi. Isso pertence ao passado. O que importa é quem você é!
A morena suspirou sabendo que não adiantaria discutir com a amiga.
― E essas sacolas?
― Ah...então –disse a loira empolgada- Trouxe algumas amostras de tecido para você ver.
― Nossa, são lindos!
Estava encantada com as amostras. Conseguiriam fazer vestidos que ficariam lindos pela diversidade de cores.
― Sim, pensei em alguns vestidos, batas e até mesmo cangas com esses aqui.
― Tem razão. Venderão como água, ainda mais agora com a alta temporada chegando. Daqui a pouco está cheio de turistas por ai.
― Turistas... adoro essa ideia! Quem sabe você não encontra um bem gostosão?
― Ai só você mesmo – revirou os olhos- Deixa o Kill te pegar falando isso para você ver.
― Chata- disse fazendo manha- Eu falava para você.
― Acho que já chega de falar de mim! Vamos trabalhar, criatura.
A manhã passou sem maiores acontecimentos como era de se esperar, o comercio local ainda estava frio, contudo se preparava para receber os turistas que chegariam para a temporada de pesca.
Já era hora do almoço quando Tinker após atender um casal de clientes, fechou a loja e se dirigiu para os fundos onde Eva terminava de retocar a pintura nos vasos que haviam sido encomendados. Ficou observando a amiga trabalhar. De fato era muito hábil, trabalhava com qualquer tipo de material, criando peças belíssimas. Vendo assim, Tinker não evitava se perguntar como era a vida da amiga antes do acidente.
― Já está me pondo nervosa me olhando desse jeito. Somos amigas, mas apenas isso – comentou a morena em tom de brincadeira-
― Muito engraçada! Senhorita workaholic...horário de almoço, lembra? Sabe o que é isso?
― Estou indo.
― Quer almoçar conosco?
― Obrigada, mas não quero ficar de vela.
― Podemos convidar Robin ou Kristin.
― Ou podemos parar de falar nesse assunto. -rosnou- Mas que droga, Tinker!
A morena se levantou chateada, pegou sua bolsa e saiu em silencio, com o olhar confuso da amiga nas costas. Quando chegou à rua já tinha consciência que tinha exagerado, mas Tinker a estava irritando com aquela conversa. Será que a amiga não entendia que ela não queria se envolver com alguém? Como ela podia fazer tal coisa se nem ao menos sabia de seu passado? Sentia-se insegura e toda vez que aproximava de alguém era como se seu cérebro desse um alerta impedindo-a de seguir com aquilo.
Entretanto, deixou sua irritação e seus devaneios serem levados pela brisa gostosa que lhe tocava o rosto e acariciava seus cabelos negros. Começou a caminhar pelas ruelas do vilarejo até encontrar seu restaurante preferido a beira mar. De onde estava tinha a vista perfeita da extensão da praia, a água tão azul e brilhante que mais parecia feita de safiras, gaivotas voavam contra o céu azul. Podia ver também alguns barcos ancorando no porto, trazendo turistas impressionados pela beleza local.
Sim, aquele era um lugar lindo, era uma sorte para qualquer um morar em um local como aquele, um privilégio de poucos. Deveria agradecer, mas não se sentia feliz. Sentia um imenso vazio em seu peito. A necessidade de ir para outro lugar, buscar algo...mas não sabia o quê!
...
Emma observava o mar através daquela pequena janela enquanto deixava seus pensamentos voarem tão altos quanto aquele avião. Havia passado dois dias desde aquela ligação e desde então Mary Margareth e David haviam cuidado de tudo. A morena tratou de escolher o lugar para irem e as acomodações, e claro também havia feito questão de arrumar a sua mala eliminando praticamente todas suas roupas pretas alegando estar mais que na hora de deixar o luto. David havia deixado tudo organizado na empresa ditando ordens expressas a pessoas de confiança, também tinha falado com August que era seu piloto para que arrumasse o jatinho de ambos.
Saint Peter Port era ali que estaria assim que o avião pousasse. Suspirou lembrando de como havia sido horrível se despedir de seus filhos, durante esses dois anos jamais tinha ficado sequer um dia longe deles. Fechou os olhos recostando sua cabeça no assento, todo esse tempo sem Regina... era apenas aquelas duas crianças que a fazia se sentir viva, era apenas por elas que seguia de pé, somente ao lado daqueles dois anjinhos ela era capaz de sorrir verdadeiramente. Sorriu tristemente ao se lembrar da carinha de seu Henry ao perguntar quem agora ia fazer seu chocolate especial, já que depois de um ano tentando finalmente Emma havia conseguido tal proeza que antes era uma faceta de Regina. Deixou seu olhar se perder naquela água azul-turquesa, sombreada de azul mais escuro. Era uma vista linda, entretanto se lembrou com amargura eram as mesmas águas que haviam levado sua Regina. David e Mary Margareth a observavam, preocupados, ela não havia falado quase nada durante a viagem e agora se mantinha perdida em pensamentos.
Minutos depois em meio a turistas entusiasmados, Emma, Mary Margareth e David deixavam o pequeno aeroporto próximo à orla. Os seixos da margem estavam brilhantes pelo sol da tarde, refletindo na costa oceânica moderadamente arborizada. As casas em estilo colonial francês com balcões cobertos por trepadeiras floridas davam um ar encantador. Percorrendo com um carro alugado pelas ruas estreitas, não demoraram muito a encontrar o pequeno hotel.
― Nossa, esse lugar é um paraíso! –disse Mary Margareth apreciando a vista de uma das sacadas do hotel.
― Já nos registrei – David tirou os óculos escuros e abraçou a esposa- Querem almoçar por aqui mesmo?
― Prefiro comer aqui no hotel. –opinou a morena-
― Bem, quanto a mim não se preocupem. – se manifestou Emma- Estou sem fome, acho que vou dar uma volta pela cidade.
― Também queria conhecer a cidade, mas estou acabada — sorrindo-
― Teremos muito tempo para isso. Agora é melhor que descanse, creio que esse desgaste todo não fará bem ao bebê.
― Sim, meu amor.
― Então se não se importam já vou.
― Certo, qualquer coisa é só ligar para o hotel. –recomendou à irmã-
― Ok, pai.
Um tempo depois, Emma já caminhava sem rumo pelas ruelas. Não tinha um lugar em mente para ir, apenas se deixava levar. Quando cansasse pararia em algum estabelecimento e comeria algo.
Seguindo o caminho dos frondosos e floridos flamboyants chegou a uma pracinha onde havia uma feirinha, algo bem típico das cidades francesas. Passeou entre as atraentes feirinhas encontrando além de artesanato alguns comes e bebes como pães, queijos, vinhos, crepes, chocolates.
Acabava de conseguir um crepe quando uma figura em especial do outro lado da feira lhe chamou atenção.
― Regina...
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