Remember me
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Era incrível como não conseguia vencer esse medo de voar, já era para estar acostumada com isso, porém hoje a ansiedade parecia estar maior, refletiu Regina olhando inquieta pela grande janela do helicóptero.
— Por favor, senhora, poderia apertar os cintos? — Pediu o copiloto.
― Sim, claro. — Soltou o ar enquanto afivelava o cinto.
Respirou fundo quando o helicóptero começou a manobrar e não evitou fechar os olhos e apertar o banco até os dedos ficarem brancos. Aquele movimento misturado com o som das hélices fazia seu estomago dar voltas de nervoso. Não sabia por que, mas desde quando havia saído de casa não podia deixar de sentir um aperto no peito. Talvez fosse saudade dos filhos e da esposa. Henry havia chorado desesperadamente fazendo de tudo para que ela não fosse e Lucille tão pequenina e dependente tinha dado também seu show. Sem contar Emma que havia ficado contrariada com sua viagem apesar de entender que era por motivos profissionais. Suspirou abrindo o notebook precisava parar de se preocupar.
Já estava há mais de quinze minutos lendo o mesmo parágrafo do texto da palestra, quando decidiu fechar o arquivo desistindo de estudar sua parte. O céu lá fora estava tenebroso fazendo seu nervoso aumentar. Ajeitou-se no banco para acomodar melhor o computador. Abriu uma pasta onde havia os vídeos da família, precisava ocupar a mente com algo mais e aquelas cenas com certeza a fariam relaxar.
Sorria vendo a gravação de suas últimas férias, ainda estava grávida de Lucille, um barrigão enorme, sorriu mais ainda ao ver a esposa cheia de cuidados. O primeiro vídeo já chegava ao fim quando o helicóptero entrou em uma zona de turbulência. Deixou cair o notebook e rapidamente de segurou no banco para não se machucar. Ouviu um grito vindo da pequena cabine e o copiloto nervoso pedia para que todos se acalmassem.
― O que houve? —Regina perguntou trêmula.
― Senhora sente-se e aperte os cintos. — Ordenou o copiloto.
Agora os trovoes retumbavam e os raios cortavam o céu. Aquilo tudo parecia um pesadelo, pensou Regina olhando a tempestade que desabava.
O piloto checava todos os controles ao mesmo tempo em que falava no rádio com a torre pedindo por ajuda. O helicóptero estava perdendo altitude.
Pelo movimento inquieto dos pilotos, Regina sabia que não eram simples turbulências, a tempestade ficava cada vez pior. O helicóptero já emitia sons estranhos para desespero dos outros passageiros que se agarravam ao banco.
― Atenção, senhores! Houve um problema técnico com o helicóptero e teremos que fazer um pouso forçado.
Regina fechou os olhos. Que Deus os ajudasse! Estavam sobrevoando o oceano, não haveria chance para eles.
― Por favor, fiquem na posição recomendada para pousos forçados. A qual lhes instrui antes da decolagem. Inclinem-se para frente e abaixem a cabeça.
Tentando se lembrar das instruções ficou na posição advertida. Podia ver o mar turbulento da vista panorâmica, as ondas negras engoliam umas às outras enquanto os trovões estalavam cada vez mais fortes. Rezava baixinho quando de repente um trovão mais intenso cruzou o céu fazendo o helicóptero balançar. “O raio atingiu a hélice” foi a última coisa que ouviu além dos gritos apavorados antes do helicóptero ser tragado pelas tenebrosas águas do atlântico.
Em Paris, Emma estava trabalhando em casa, ou melhor, tentando. Não podia se concentrar, todavia. Andava de um lado para o outro em seu escritório. Era assistida por David que já estava ficando nervoso com a movimentação da irmã.
― Assim vai abrir um buraco no tapete e Regina vai lhe espancar. O que passa contigo?
― Não sei, David. ― Passou as mãos pelos longos cabelos loiros.
― Estou há mais de meia hora tentando te falar do último contrato com a Extreme e você parece em outro mundo.
Emma se aproximou da janela que dava para o jardim e observou os filhos brincando com sua cunhada, Mary Margareth.
― Desde que Regina saiu sinto uma inquietação. Sei que parece egoísta de minha parte, mas não queria que ela voltasse a trabalhar e muito menos fizesse essa viagem.
― Brigaram?
― Não, de forma alguma. ― Respondeu o encarando ― Mas também não aceitei de bom grado.
― Sinto te dizer, mas daqui por diante terá que se acostumar. Agora que a morena retomou a carreira terá que fazer inúmeras viagens.
― Obrigado, maninho, é incrível como tem o poder de me fazer sentir melhor. ― Irônica.
― Por nada. ― Sorriu ― Sossegue, loira, daqui a pouco a cunhadinha já está de volta.
― Sim. ― Suspirou olhando a janela novamente, não querendo mais pensar naquele assunto que estava pondo-a ansiosa ― Mary será uma excelente mãe, leva bastante jeito com as crianças.
― Estamos confiantes com o tratamento. O médico disse que ela tem muitas chances de engravidar até o fim do ano.
― Quem bom, Dave. ― Sorriu maliciosa ― Não vejo a hora de te fazer pagar por cada piadinha que soltou quando Henry nasceu e eu era uma mãe inexperiente.
― Quanto rancor nesse coraçãozinho. ― Zombou, fazendo a irmã gargalhar.
Emma, mais relaxada, foi até o minibar preparar uma bebida para ambos. O telefone do escritório tocou desviando sua atenção do que estava fazendo e por segundos sentiu um arrepio inexplicável.
― Deixa, eu atendo. ― Falou David.
Swan olhava curiosa e ao mesmo tempo preocupada o irmão responder a chamada com uma expressão tão séria. David apenas falava monossílabos, mas sua atenção redobrou sobre o irmão quando o ouviu pronunciar o nome de Regina. Ele finalmente largou o telefone sobre a mesa. Estava pálido, o semblante de choque era quase visível.
― Regina? Que houve com ela? ― Perguntou ao irmão, já afobada.
― Emma, escuta. Eu... ― suspirou procurando palavras.
― Não enrola, David, me diz. ― Sacudiu levemente o irmão pelos ombros ― O que acontece com a minha mulher?
― Olha, senta aqui. Vou pegar uma bebida e...
― Não quero saber de droga de bebida! ― Alterada ― Fale de uma vez!
David tomou ar e olhou para a irmã que tinha o semblante carregado.
― O helicóptero que Regina estava sofreu um acidente.
― O que mais? Em que hospital ela está? ― Disse nervosa.
― Emm...eu sinto muito. ― Engoliu em seco ― O acidente foi muito grave...
― Não... ― sussurrou.
David viu a irmã se deixar cair no sofá como se tivessem lhe drenado a vida.
― Quero ver minha mulher!
Disse levantando de repente e pegando as chaves do carro, entretanto sendo impedida de sair pelo irmão.
― As equipes de busca ainda não os encontraram, mas não dão esperanças de que os encontrem... com vida. ― a encarando com os olhos marejados.
― Não é verdade. ― Contestou, desesperada ― Ela está bem! Eu sei que está.
― Irmã, me ouve. Não conseguiram encontrá-la.
― Ela não pode me deixar! Não pode.
Cada vez mais o desespero tomava conta de seu corpo. Emma já não via nada a sua frente, apenas imagens embaçadas. As palavras do irmão ecoavam em sua mente. Pegou a primeira coisa que viu pela frente e tacou com toda sua força contra a parede fazendo um estrondo, para logo depois de voltar e derrubar sem controle tudo o que via enquanto falava coisas incoerentes.
David tentava contê-la, mas sem sucesso, até que com muito esforço conseguiu segurá-la.
― É minha culpa!
Seu soluço foi alto, deixou que seu corpo escorregasse até o chão se sentindo incapaz de se manter em pé por mais um segundo. Seu coração doía imensamente e se sentia perdida. Como iria viver sem ela? Como iria respirar sem ela? Como poderia não ver mais seu sorriso?
― Eu não devia tê-la deixado ir! Deveria tê-la segurado aqui comigo.
― Não fale assim ― ele sentou ao seu lado passando a mão em suas costas numa tentativa frustrada de consolá-la ― Foi uma fatalidade...você não poderia ter feito nada para impedir isso, Emma.
― Não, eu podia ― respirou profundamente ― Podia ter impedido, proibido que ela fosse...podia ter feito qualquer coisa, inferno! Até mesmo amarrá-la na cama, mas não fiz nada... a deixei ir, eu deixei minha mulher ir.
Emma murmurava com seus olhos presos em algum ponto na parede a sua frente, seus ombros pendiam para frente como se carregassem sobre os mesmo uma tonelada. As lagrimas caiam sem controle, sua respiração era acelerada e fazia seu peito subir e descer em uma incrível rapidez, seus punhos cerrados com tanta força já havia causado um tom vermelho forte em sua mão. Deus, pensou David, era desesperador ver sua irmã assim.
― Como vou viver sem ela? Eu não consigo, David, não consigo... não quero viver sem ela ― soluçou alto ― Não quero.
― Escuta, minha irmã. ― segurou-lhe o rosto, fazendo-a encarar seus olhos, controlou sua emoção e seu próprio choro como havia feito desde que havia recebido a notícia. Engoliu em seco e respirou fundo, precisava ficar firme para Emma agora... depois choraria por Regina, depois sofreria, mas agora ele sabia que iria ter que aguentar tudo por sua irmã que o necessitaria mais que nunca ― Precisa ser firme...seus filhos necessitam de você.
― Ah, Deus ― gemeu, desesperada ― Meus filhos... como vou contar para eles? Como vou poder explicar que Regina não vai mais voltar?
― Queria poder responder a sua pergunta. ―Suspirou olhando para baixo― Mas eu não sei, Emma. Agora mais do que nunca eles vão precisar de você, apenas quero que saiba que não está sozinha... estou e sempre estarei ao seu lado, irmã.
― Ela pode estar viva. ― Sua voz saiu carregada de esperanças que também era vista em seus olhos. David mordeu os lábios. Jamais em sua vida havia passado ou passaria por um momento pior que o que estava passado agora...
― Serei sincero, Emm. Realmente há uma possibilidade... porém é uma em um milhão.
Sentiu seu coração se apertar ao ver todas as esperanças de Swan se apagarem de seus olhos e o desespero voltar a ser presente.
― Ela está viva, David ―mirou ao irmão― Eu sei que está...eu sinto que está. Ela prometeu que voltaria. ―Sorriu em meio às lágrimas― Ela disse que ia voltar para mim.
― Emma, por favor...
― Vou achá-la... vou procurar por Regina ―seu tom era firme e decidido― Eu vou trazer minha mulher de volta para casa, David, vou traze-la de volta para o lugar que ela pertence e nunca mais vou deixar que ela vá embora de novo.
“... Cinco tripulantes de um helicóptero particular pertencente às empresas Swan Mills morreram nesta última quinta-feira quando atravessavam o atlântico, informaram os serviços de resgate.
O veículo, que decolou de Paris com destino a Cornwall, caiu no mar na manhã de quinta por motivos desconhecidos.
Um alerta de socorro foi feito, informaram as fontes, entretanto não conseguiram contato eficiente.
Foram encontrados três corpos, dentre eles o piloto. No entanto, as equipes de salvamento marítimo encerraram as buscas dando como mortos as duas vítimas não encontradas, já que os destroços da aeronave acabaram por afundar, apesar dos esforços das equipes de resgate que tentavam impedir que submergisse. Em meio aos desaparecidos está Regina Swan Mills, esposa da empresária Emma Swan Mills... ”
David desligou a televisão virando-se para observar a irmã que contemplava a tela com o olhar perdido. Fazia quase uma semana desde a tragédia, Emma havia ido para o local do acidente assim que foi capaz, enquanto seus filhos foram para a casa de campo junto com seus pais para que assim não ficassem sabendo de nada, até que todas as buscas serem terminadas. No entanto, os dias se passaram a torturando, levando dela cada pedacinho de esperança até que o inevitável aconteceu e deram por acabadas as buscas. Emma se recusava a voltar para casa sem Regina. Foi muito difícil convencê-la a voltar, lembrou David, e agora em casa se encontrava naquele estado. Tão abatida e cansada, mal se alimentava. Cabelos loiros desgrenhados e a palidez tomavam conta da face juntamente com as olheiras escuras resultado de noites insones.
Ouviram a voz de Henry e o chorinho fino de Lucille, delatando que já haviam chegado da casa dos avós. Não demorou muito e o menino entrou feito um foguete no escritório.
― Mãe, cadê a mamãe? Por que ela ainda não voltou? Tô com saudade.
― Filho temos que conversar.
David saiu do ambiente para deixá-los mais à vontade. Swan sentou em uma poltrona e o pequeno se acomodou em seu colo. Encarava o menino enquanto pedia forças para conseguir explicar ao filho que sua mãe não voltaria...nunca mais.
― Lembra quando Lenny, o nosso gatinho, foi morar com o papai do céu?
― Ele ficou domindo e não acordou mais.
― Então, agora a mamãe foi morar também com o papai do céu, filho.
― Por que? Ela não ama mais a gente? ― Lagrimando.
― Ama, bebê. Ama muito, mas o Papai do céu chamou e ela teve que ir.
― Então, podemos ir à casa dele? Quelo ver minha mamãe.
― Papai do céu não tem casa, filho.
― Tem sim! A igleja é a casa dele. Ela está lá.
― Não, pequeno. Mamãe está no céu.
― Igual a bisá?
― Sim ― o encarando ― Igual a bisá.
― Ela não vai mais voltar? ― Começando a chorar.
― Não. ―Com a voz embargada― Mamãe não voltará.
― Você tá mentindo! Ela plometeu...disse que ia voltar pla nos. ― chorando.
― Filho... ― tentando abraçá-lo.
― Nãooo ― se debatendo nos braços da mãe ― Quelo minha mamãe!
― Ela se foi.
― Vai buscar, mãe. ― Soluçando ― Tlaz de volta.
― Não posso. Ela virou um anjinho agora, pequeno. ― Engolindo o choro.
― Não, ela não quer ser um anjinho! Fala plo papai do céu que ela quer ser minha mamãe. Fala, por favor ― chorando.
Abraçou carinhosamente o filho, sentindo o pequeno corpinho tremer em seus braços pelos soluços. Afagava os cabelos do menino tentando confortá-lo em seu colo como fazia quando o filho ainda era um bebê. Sentia as lágrimas rolarem por sua face. Aquilo era difícil demais. A vida sem ela era difícil. Não sabia como conseguiria seguir sem Regina, mas tinha que continuar, seus pequenos precisavam, dependiam dela. Seus filhos agora eram sua única razão de viver e viveria por eles, apenas por eles.
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