Notas iniciais
Boa leitura\

—Então Natsuo, que coisa é essa que você deseja contar para nós?- indagou um loiro de cabelos bagunçados, usava uma jaqueta de brim e uma calça jeans da cor azul, uma camiseta branca combinando com o tênis da mesma cor. Havia mais dois jovens no recinto além daqueles dois, até que o loiro é atingido por uma bolinha de papel.

—Hawks, você poderia deixar de ser tão afobado? O guri já disse que vai falar, tenha mais paciência. — Disse outro rapaz, que estava sentado no banco de uma bateria com os braços cruzados. Esse tinha cabelos azuis, mas tão escuros que poderia se confundir com o preto vestia uma camisa xadrez da cor cinza claro, calça cargo preta e um All-star branco, na face seus óculos escuros, seu nome era Tensei Iida.

—Ah tá bom, mas é necessária tanta enrolação?- retrucou o loiro trocando olhares com o rapaz da bateria e o com o que estava afinando o que parecia ser um violão de seis cordas.

— Vocês dois sabem que ele não tá escutando vocês né? Tipo, ele tá de fones de ouvido... — Disse um garoto de cabelos castanhos que estava com uma sacola cheia de alguns aperitivos e refrigerantes caminhando na direção da pia da garagem.

—Obrigado por virem aqui, trouxe as coisas que eu pedi Koichi?- indagou Natsuo tirando a sua atenção do violão, este estava com um conjunto preto de roupas, e calçava apenas um chinelo, afinal estavam todos na garagem de sua casa. Os seus três companheiros de banda se acomodaram no sofá de couro da cor de chocolate e prestavam atenção em cada movimento do mais velho.

—Eu tenho uma letra que eu vim pensando, faz três semanas que eu venho perdendo meu sono com essa coisa... A minha inspiração me doía bastante falando nisso... — Disse Natsuo ainda sentado na cadeira, seu rosto transmitia uma sensação triste e dolorosa, o que deixou seus amigos confusos, ele era sempre tão alegre e sorridente.

—Então, como é essa letra?- Perguntou Hawks.

O rapaz de cabelos brancos suspirou e começou a tocar o violão finalmente afinado, seus dedos dedilhavam as cordas do instrumento, fazendo um som calmo se espalhar por cada canto da garagem, sua voz rouca naquele tom profundo, trazia uma sensação de um abraço apertado de alguém que sofria silenciosamente, a palinha da música durou alguns segundos.

—Eu só tenho o refrão pronto, desculpe. — Disse o alvo, com um sorriso envergonhado em sua face, o que arrancou risos de seus companheiros que continuavam sentados no sofá.

—Eu curti, mas como vai ser a música em si? Nessa pegada mais acústica ou, sei lá algo mais intenso?- indagou Tensei com os braços cruzados olhando para um pôster que estava pendurado na parede próxima à bateria.

—Eu não sei, eu nem consegui escrever toda a letra ainda- Respondeu Natsuo dando de ombros enquanto deixava o violão no suporte e se sentando na cadeira novamente. Formou-se ali um breve silêncio que foi quebrado quando Koichi levantou a mão.

—E Se nós fizermos os dois?- perguntou, os outros três rapazes olharam para ele confusos — É, tipo, fazermos das duas maneiras? Algo como um rock bem intenso pra geral que escuta sacudir a cabeça, ficar presa na música, e na pegada acústica algo mais calmo comparado com a primeira forma!- explicou Koichi

—Pode crer, é uma boa mesmo, a gente poderia fazer na acústica só o violão e a voz do Natsuo, mas como ele vai escrever a letra precisamos que alguém possa compor a parte do violão, né Hawks? — Disse Tensei olhando para o loiro que sorriu de canto.

—Tá, eu já entendi aonde tu quer chegar, vou pegar o violão. – Disse Hawks, indo pegar o instrumento de seis cordas. – Mas assim, tem aquele pub que nos fez a proposta de um show lá, o que acham de fazermos a estreia desta música?– Perguntou o loiro.

—No Pub? É perfeito. – Disse Natsuo sorrindo, o níveo se levantou da cadeira e foi para a sua mesinha e começou a escrever num papel o resto da letra. –Então temos um prazo de dois meses para deixarmos ela pronta e no gatilho. –

E assim as preparações da nova música da banda Mad Wolves começaram todos se empenhavam ao máximo. Koichi e Tensei trabalhavam no rock, Natsuo e Hawks no acústico.

—Natsuo, você tinha comentado antes, que a sua inspiração é um pouco dolorosa, pode me contar o que está acontecendo com você? Nós somos irmãos de vida, não somos? Tem que contar pra nós as suas dificuldades mano.

—... É o meu irmão... – Respondeu Natsuo, que olhava para o chão cabisbaixo, estava entristecido, Hawks chamou os outros dois rapazes e os três carregaram a força Natsuo para o sofá. Pegando logo a sacola de salgados e bebidas que Koichi tinha trazido mais cedo.

—Conta tudo. Por favor. – Pediu Tensei.

—Bem…

Natsuo:

Bom, eu nunca cheguei a comentar com os rapazes esse assunto, eles sabiam que eu tinha um irmão, mas era apenas isso. Mais cedo ou mais tarde eles iriam descobrir, e parece que o grande dia chegou... Bom, eu, Natsuo Todoroki, tenho um irmão mais velho, nós nascemos bem próximos um do outro, temos uma diferença de oito meses apenas, eu tenho uma irmã mais nova também, na minha família era assim, tinha o meu pai, que era um homem trabalhador e bem rígido consigo mesmo e com a sua própria família, minha mãe, uma mulher doce e gentil com todos e durona quando necessário, meu irmão e eu, dois encrenqueiros que quando não estavam brigando um com o outro estavam aprontando juntos, e a minha irmã mais nova que sempre foi estudiosa e inteligente. Eu me lembro de quando era 1992, dois moleques que faltavam à escola e iam à loja de CDs furtar discos, nós devíamos ter por volta dos 10 anos, foi bem engraçado, o cara da loja quase nos pegou, não tenho orgulho de ter roubado a loja, quando nossos pais descobriram, nós dois apanhamos como condenados e pegamos um castigo de duas semanas, mas foi engraçado, a forma que Touya, meu irmão no caso, e eu, tentávamos enganar nossos pais, foi muito idiota, tomamos a vida como certa, nós aprendemos que tinha um fim. Eu sempre fui muito medroso e inseguro, mas o Touya, ele era o meu herói, sempre foi corajoso e firme em suas decisões, eu sempre tive vergonha de dizer isso, mas a verdade é que eu sempre quis ser como ele, corajoso e convicto.

Lembro-me também de quando era 2002, foi quando ele começou a se drogar, usar cocaína era febre naquele tempo, eu também lembro que ele tinha um tênis muito bonito, aquele idiota já aprontava grandes confusões, teve uma vez que nós fomos para as vias de fato, foi no dia que eu peguei ele vendendo drogas, discutimos feio naquele dia, mas pelo menos eu fiz ele me prometer que não iria vender aquelas merdas nunca mais, não queria que ele continuasse usando é claro, mas se eu dissesse pra ele parar de usar e vender ele com certeza ignoraria o meu pedido. Mas eu não o culpo por ter começado a se chapar, viver naquela casa já não estava muito legal, era uma merda na verdade. Nosso pai tinha perdido o emprego e havia começado a beber bastante e a nossa mãe foi embora, levando a minha irmã mais nova Fuyumi. Meu irmão e eu ficamos com o nosso velho, a mamãe queria que eu fosse junto com elas, mas eu sabia que se deixassem aqueles dois sozinhos iam acabar se matando, eu fiquei com eles, mas visitava frequentemente minha mãe e Fuyumi. Tempo é algo que eles sempre dizem você nunca entende isso até que ele escapa Touya por mais que encrenqueiro fosse, ele continuava firme e forte, me ajudava bastante naquela casa, mesmo viciado, ele transmitia um sorriso iluminado, era como um sol que surgia em um dia chuvoso, olhando para trás hoje, eu agradeço, eu queria ser como ele.

O problema veio bem depois, meu pai e meu irmão brigavam muito, era complicado, eu já estava ficando cansado de tanta violência, eu já estava ficando cansado de ficar em silêncio, eu de fato era um covarde. Mesmo separando aqueles dois, não conseguia impedir que trocassem alguns socos antes, eu quando tentava separar levava golpes dos dois lados. Em 10 de setembro de 2013, ocorreu A Grande Merda. Eu estava voltando do mercadinho que eu trabalhava, quando cheguei à frente de nossa casa, vi a porta de entrada arrombada, ela estava caída no chão e quebrada. Estava muito confuso, o que diabos tinha acontecido ali, a casa estava uma bagunça, haviam invadido ela enquanto eu estive fora, não tinha nenhum sinal de meu irmão e meu pai, eu vasculhava aquela bagunça, mas fui atacado, meu irmão, com a separação de nossos pais, afundou mais ainda nas drogas, e já não me dava mais ouvidos como antes, ele devia estar muito chapado, devia não, ele realmente estava. Eu fui atingido muitas vezes por um taco de baseball, mesmo comigo gritando a pedido que ele parasse, ele não me escutava, estava bem fora de si, lembro que eu acabei apagando.

Acabei acordando no hospital, com Fuyumi ao meu lado chorando, e abraçando meu braço, meus pais estavam lá também, mesmo que a relação de ambos estivesse péssima, eles estavam ali, juntos choravam e me abraçavam, mas eu não entendia nada, a única coisa que se passava pela minha cabeça era a pergunta: Onde está o Touya?

Perguntei aos meus pais onde ele estava, mas, não me contaram na época, apenas diziam que era pra mim me recuperar em paz primeiro, mas como eu poderia ficar em paz? Meu querido irmão não estava ali, eu não tinha notícias dele, estava preocupado, mas acabei me recuperando bem, eu estava ansioso demais pelo dia de minha alta hospitalar. Nesse dia eu pressionei muito Fuyumi, ela era a única que eu conseguiria convencer a me contar algo. Afinal, eu não fiquei dois meses de recuperação para não receber notícia alguma, Fuyumi me contou tudo o que aconteceu, Touya tinha sido preso, por homicídio, eu entrei em choque, não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Fuyumi me explicou que, no dia 10 de setembro, teve a invasão, eram bandidos que estavam atrás do Touya, ele estava devendo uma nota pra eles, então eles invadiram a nossa casa pra duas coisas, ou matar ele, ou roubar algo de valor que quitasse a tal dívida, no processo Touya conseguiu botar um deles pra correr, pois já estava alterado, logo depois foi quando eu cheguei, ele me atacou, ela contou que as autoridades acreditam que por estar sob efeito de drogas, Touya acabou me confundindo com algum dos marginais e acabou me espancando, mas eu não entendia, onde estava esse tal homicídio. Segundo Fuyumi, eu havia morrido, as autoridades me encontraram muito ferido e me levaram correndo para o Hospital, e meus batimentos tinham parado no caminho e durante as cirurgias, eu estava fraco, os médicos faziam de tudo e eu não reagia tanto, acabei ficando em coma. Quando o julgamento aconteceu, eu não havia acordado ainda, e ele foi sentenciado a dezessete anos de cadeia. Eu me senti mal, pois no julgamento ele disse que me odiava e que eu era uma pedra no caminho dele, sempre atrapalhando e que se tivesse oportunidade faria tudo de novo, mas é tudo mentira, ele pode ter enganado a todos, mas a mim ele não engana, eu o conheço melhor que todo mundo.

-Acabou que se passaram oito anos desde o julgamento, nunca consegui visitar ele, mas sempre mandava cartas para ele, nunca recebi uma resposta de volta, mas algo bom aconteceu, essa semana ele foi solto, bom comportamento. — Contou Natsuo, os seus amigos estavam em silêncio e se entreolhavam.

—Mas e aí? Não tem mais nada pra contar, já acabou? Cê tá triste por que acredita que ele poderá fazer algo contra você?- perguntou Koichi com os braços cruzados.

-Ah bem, tem só o detalhe que ele não quer se aproximar de mim, e creio eu, que nossos pais não deixariam ele se aproximar, eles se culpam pelo ocorrido, têm medo que ele faça algo de mal para mim, mas eu em particular. Não. Eu tô triste mesmo é porque eu sinto falta daquele imbecil, ele é o meu irmão, o nosso incidente foi baseado em eu estar no lugar certo e na hora errada. Eu não era o verdadeiro alvo do Touya, mas enfim é isso – Respondeu o níveo, os três rapazes suspiravam e o abraçaram, demonstrando apoio.

—Obrigado por me escutarem, eu me sinto muito melhor... Mas não é hora de abraços, vamos trabalhar na música, o tempo é o nosso maior rival! – falou se levantando com um sorriso encorajador no rosto.

—VAMOS!- disseram os três juntos.

Dois Meses Depois:

—Mais uma vez, obrigado a todos por estarem aqui assistindo o nosso show, como tem outra banda pra se apresentar logo depois de nós, vamos cantar a última música. Essa música é especial, vocês aí que estão em casa. A música já está disponível nas plataformas digitais junto com a versão acústica. Touya, essa é pra você, eu te amo irmão. — Disse Natsuo.

Tensei começou a tocar a bateria, acompanhando Hawks que estava na guitarra guiando a música, até que Natsuo começa a cantar.

Remember when, when it was 1992

Two little kids stealing records, skipping school

We must have been like only ten

Taking life for granted, 'till we learn it had an end

Remember when, and time is something they say

You never appreciate till you age

And to this day you never knew

I wanted to be just like you

If I only knew then what I know now

Then what I know now

If I only knew then what I know now

Then what I know now

Remember when, when it was 2002

You started slinging coke and had the dopes pair of shoes

But, you, this house just ain't a home

Since our father hit the bottle and our mother hit the road

And time is something they say

You never understand until it slips away

And looking back I think you knew

I wanted to be just like you

If I only knew then what I know now

Then what I know now

If I only knew then what I know now

Then what I know now

And now I'm tired of the violence, I'm so tired of the sirens

And it's better me, better me than you

Now I'm tired of the violence, I'm so tired of the sirens

And it's better me, better me than you

Slipping and we're falling

Slipping and we're falling through ice

Slipping and we're falling

Don't know where we're going with our lives

If I only knew then what I know now

Then what I know now

If I only knew then what I know now

Then what I know now

And now I'm tired of the violence, I'm so tired of the sirens

And it's better me, better me than you

Now I'm tired of the violence, I'm so tired of the sirens

And it's better me, better me than you

Remember when, slipping and we're falling

Slipping and we're falling through ice

Slipping and we're falling

Don't know where we're going with our lives

Slipping and we're falling

Slipping and we're falling through ice

A Música se encerra e a banda recebe uma chuva de aplausos, os quatro se enfileiram lado a lado e se curvam para a plateia enquanto as cortinas baixavam. Assim que as cortinas baixaram a banda saiu do palco e foram para o seu camarim, estavam elétricos, entusiasmados.

—Detonamos, ninguém para lobos malucos– Disse Koichi sorridente entrando no camarim por último, os quatro rapazes riram e se sentaram no sofá pra ficar descansando para irem embora logo. Alguém bate na porta e abre, era Fuyumi, ela entrou no camarim e abraçou os rapazes, principalmente Natsuo, o seu irmão, logo a mesma se senta ao lado de Hawks e deita a cabeça no ombro do namorado. Estava rolando uma resenha pós-show ali no camarim, até que batem na porta novamente, Koichi que tinha se levantado para pegar algum petisco e vai até ela e abre, era um segurança, o baixista sai do camarim, mas não demora pra voltar.

—Natsuo, tem um cara que quer falar contigo, ele disse que se emocionou muito com a última música. Qual seu nome mesmo amigo?- perguntou o baixista. Natsuo foi até a porta e viu um rapaz cabisbaixo, parecia ter a mesma altura que o mesmo, tinha um cabelo escuro da cor preta, este que por sua vez não olhava para o rosto do vocalista.

—Me chamam de Dabi... – Respondeu com a voz rouca, Koichi fez um sinal de paz e Natsuo foi para o lado de fora do camarim fechando a porta. Quando o vocalista fez isto, o indivíduo finalmente olha para o seu rosto, e com um semblante receoso e envergonhado acena com a mão. Natsuo travou e seus olhos marejaram no mesmo momento, não escutava mais nada além das palavras que saiam da boca do rapaz.

—Oi gelinho – Disse o moreno arrancando um sorriso gentil do vocalista, que correu até o moço e o abraçou chorando.

—Touya, que saudades irmão.

Notas finais
Link: https://youtu.be/TMYeTwuXBWQ

Ah ééé
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