Onze anos de banda... E ainda parecia um sonho quando eu podia subir no palco e cantar rodeado pelos meus melhores amigos... Onze anos de banda e ainda sentia escorrer em meu rosto os pingos de chuva gelada que nos molharam em nossa primeira apresentação como se tivesse acabado de cair sobre mim... Como se apenas o ato de subir ao palco pudesse me fazer voltar o tempo... A sensação nunca tinha mudado pra mim...

O mais inacreditável de estar em uma banda por mais de uma década era ainda sentir o arrepio diante da plateia... Era ainda me sentir com vinte anos e não conseguir conter as lágrimas toda vez que a multidão que ia nos assistir cantava me acompanhando como uma única voz... Como se todas aquelas vozes juntas saíssem de dentro de mim... Cantando emocionada uma letra em que eu passei uma noite inteira, talvez uma semana ou um mês inteiro escrevendo... Uma das músicas que o the GazettE passou muito tempo trabalhando junto...

Quando eu tinha decidido ser músico, nem mesmo ser vocalista estava nos meus planos... Foi uma decisão que eu não me lembro de ter tomado, foi uma briga que eu não me lembro de comprado, e no final foi um sonho que eu não me lembro direito de ter começado a sonhar... Mas do qual eu também não me lembro de ter me arrependido... Em onze anos de banda, o the GazettE era a única escolha da qual eu nunca tinha me arrependido... Talvez se eu tivesse feito algum plano, as coisas não teriam dado tão certo...

Minha banda era tudo para mim e eu me sentia completo quando era o Ruki do the GazettE, quando podia soltar minha voz e sentir que ela tinha o poder de realizar os meus sonhos e de meus quatro amigos de uma só vez... Sentia que minha voz podia chegar aos quatro cantos do mundo e vibrar cada uma das almas que me ouvia...

Eu olhava para aqueles onze anos de banda com mais orgulho do que um artista olharia para sua obra-prima! Porque aquela banda tinha em si todos os sentimentos que eu idealizei quando quis ser músico! Porque eu tinha realizado os desejos mais profundos da minha alma com aquela banda! Porque era impossível me sentir mais feliz do que quando eu estava sobre o palco! E principalmente porque não era uma obra só minha! Era uma obra que nós cinco tínhamos realizados juntos com muito trabalho duro e muitas, muitas noites sem dormir!

Enquanto me preparava para entrar no palco mais uma vez, naquela data tão especial, diante de nosso público tão dedicado que merecia que déssemos nosso melhor principalmente naquele dia, eu encarava nosso passado como um menino e imaginava quão grandioso poderia ser nosso futuro!

No espelho do camarim, eu já era o Ruki diante dos meus olhos e às vezes eu ainda me sentia estranho ao encarar por tanto tempo aquela pessoa que não me parecia estranha... Era estranho ser tão conhecido, ter fãs em países dos quais eu mal sabia pronunciar os nomes e ter mais seguidores no twitter que eu não conhecia do que os que conhecia (muitos mais)...

— Ruki-san está pronto? – ouvi alguém entreabrir a porta e sorri instantaneamente ao olhar Carolina bem ali, olhando para mim divertida.

— Por fora, pode dizer que sim... – eu respondi, fazendo um aceno para que ela se aproximasse. – O Ruki mesmo só aparece quando eu subo no palco e olho para a plateia... Aquele é o ambiente dele, não o meu! Nenhuma das coisas que eu faço durante uma apresentação sairia naturalmente fora do palco...

Ela deu risada e eu a puxei para o meu colo. Suas mãos deslizaram nas minhas lentamente e eu fiquei em silêncio, apenas curtindo aquele momento. Nós dois nunca precisávamos dizer nada para que os momentos fossem perfeitos... Ela tinha tornado tudo perfeito quando nós nos conhecemos e desde então...

— Como está se sentindo hoje? – sua voz soou encantadoramente emocionada.

— Velho – eu brinquei, fazendo-a bufar. – E me sinto cada vez mais quando me chamam de senpai... Não consigo acreditar que já posso ser chamado assim... Não me vejo como um senpai...

— É muita responsabilidade mesmo... – ela disse reflexiva e eu assenti, concordando.

— Responsabilidade demais... É difícil saber se você está preparado pra se tornar um senpai... Mesmo com mais de dez anos de banda... Será que eu sou mesmo um? Gostaria de saber como identificar isso... Gostaria que tivessem me dito como você descobre que se tornou um senpai... Antes das pessoas começarem a te surpreender te chamando assim de repente... – ela deu risada.

— Você com certeza aprendeu muito, não apenas sobre música e fama, mas sobre você mesmo e sobre seus colegas de banda... Acho que o que acabou tornando vocês cinco senpais foi o fato de que vocês descobriram como trabalham bem juntos e estão ficando cada vez melhores...

— Evoluir sempre... – eu respondi ao que ela tinha dito, como um complemento ou uma síntese. – Mas Ryuishi-senpai parece tão mais senpai do que eu... – Carolina gargalhou.

— É porque ele é seu senpai! Nunca deixará de olhá-lo assim! No entanto, você será o senpai das novas gerações! Novos vocalistas se inspirarão em Ruki-san, cantarão músicas do Ruki-san e o chamarão de Ruki-senpai! – ela terminou, orgulhosa. Meus olhos se focaram momentaneamente no meu reflexo estranho diante de mim... Eu ainda não estava convencido...

— Acabou de me fazer me sentir ainda mais velho com essa história de “novas gerações”, “novos vocalistas”, Carolina... – eu tornei a brincar, franzindo o rosto desconfortável.

— Você vai se sentir melhor em cima do palco – ela deu de ombros e eu a achei ainda mais adorável. Como alguém poderia me conhecer tão bem se eu nunca tinha lhe dito nada? – Vai se sentir rejuvenescido!

Nisso ela tinha toda a razão... Nada tinha um poder tão magnífico de me trazer vitalidade do que subir no palco! Bom... Talvez, quando eu estava com Carolina conseguisse superar, mas era mais um feito dela do que meu... Era hora de esquecer os anos que tinham passado, olhar para o futuro e ser apenas eu!

— Então, acho que é hora do show!

Notas finais
mereço reviews? amanhã tem o capítulo 4...