Remember Me
20 Capítulo 19 - You and me
Notas iniciais
A vida às vezes é engraçada. Me lembro ainda quando eu era um moleque alto e magricela, que brincava na rua e fugia das broncas da minha mãe. Que não gostava de ir pra escola e passava de ano sempre raspando, as notas sempre na média. Que virou um adolescente de rosto oleoso e hormônios gritando o tempo todo, que entrou para o Ensino Médio temendo os valentões do time de futebol. Que um tempo depois se tornou um valentão do time de futebol. Que conheceu uma garota tímida e esquisita que conquistou meu pobre coração. Que lutou pelo amor dela. Que fez as típicas juras de amor da adolescência, mesmo sem ter certeza de um futuro como aquele. Que caiu diversas vezes e errou muito também. Que arrumou algumas brigas bobas na escola. Que se formou, com bastante custo, ao lado da garota tímida e esquisita que virara sua namorada. Que recebeu uma carta de admissão na Boston University com bolsa para Engenharia, mesmo não acreditando ser possível. Que comemorou junto com a garota tímida e esquisita (e linda) a admissão dela no curso de Arquitetura na mesma Universidade. Que deixou a casa dos pais, finalmente, e foi ser independente, morando em uma república, ajudando a pagar as contas e tendo um emprego. Que, por falta de cuidados, acabou apressando as coisas e se tornando pai. Que teve medo do que estava por vir. Que teve que se tornar um homem de uma hora para outra. Que vibrou contente quando soube que era um menino. Que acompanhou, paciente, as loucuras e mudanças de humor da garota tímida e esquisita e linda, agora uma mulher também. Que surtou no meio de uma aula porque recebeu a ligação de que seu filho estava nascendo. Que correu como um louco para o hospital com a garota tímida e esquisita e linda. Que chorou como um menininho quando viu pela primeira vez o seu menininho. Que foi morar com sua própria e mais nova família. Que venceu cada dia com bravura, apesar das dificuldades de se criar uma criança. Que se formou na faculdade em um dos primeiros lugares, como para mostrar que ele podia, sim, conquistar tudo. Que arrumou um bom emprego e pode dar uma vida melhor à família. Que, dois anos depois, deu boas vindas a chegada de mais uma pessoinha para fazê-lo se orgulhar do que havia se tornado. Que agora tinha uma princesinha em sua vida. Que passou por cada aniversário, surpresa, comemoração, sorriso, choro, doença, manha, brincadeira. E que, sem sombra nenhuma de dúvida, passaria por tudo isso de novo.
Sim, a vida é engraçada. Será que, se soubéssemos, lá no início, que rumo nossa vida tomaria, teria sido da mesma forma? Talvez sim, talvez não. Será uma pergunta nunca respondida.
Não me arrependo de nada que passei para chegar onde estou. Eu gosto do jeito que foi. Foi único.
Me sinto sortudo. Eu tenho boas conquistas. E o resumo que tiro disso tudo, é que, se você, Baby Bear, prestar atenção, cada conquista acima foi depois de um pouco de pessimismo, de não acreditar em mim mesmo. Mas você, a Bella, a Rach, vocês me mostraram que eu posso, sim, alcançar o céu não só com a ponta dos dedos, mas com a palma da mão.
Com amor,
Déda.
— Nate?
Levantei a cabeça em um rompante da carta que eu acabara de ler, não tão a tempo de escondê-la, e vi o Déda parado no batente da porta do meu quarto. Ele tinha os braços cruzados e uma sobrancelha arqueada, encarando o pedaço de papel em minhas mãos agora trêmulas. Na verdade meu corpo todo estava tremendo, igual naquelas situações em que você é pego no flagra e não tem pra onde fugir.
— Oi, Déda.
— O que está fazendo?
Olhei de um lado para outro e rapidamente pus a carta embaixo dos livros na escrivaninha.
— N-nada.
— Nada? E o que era esse papel que você escondeu?
— Que papel? Não tem nenhum papel. Você viu algum papel? Eu não vi...
— Nate! — ele me interrompeu, se aproximando perigosamente de onde eu estava — Me mostre o papel.
— Mas Déda...
— Me dê o papel, filho.
Bufei e puxei o papel novamente, quase hesitante, e o entreguei. Seus olhos percorreram toda a extensão da carta e depois me encararam.
— Eu a-achei.
— Então isso explica você estar vendo a filmagem do seu primeiro aniversário há algumas noites.
Franzi o cenho e depois arregalei meus olhos.
— Espera... Você estava lá o tempo todo? Você sabia...?
— Eu desconfiava que você tinha achado quando o vi com a filmagem, mas resolvi ficar na minha para ter certeza. E agora eu tenho.
Observei ele caminhar até minha cama e se sentar ainda encarando a carta em suas mãos. Um sorriso se abriu em seu rosto e ele parecia nostálgico com as lembranças que as palavras escritas por ele mesmo com certeza traziam. Se eu, apenas lendo, imaginava cada momento, ele que havia vivido tudo aquilo era tudo mais real.
— Déda? — arrisquei chamar.
— Eu não esperava que você fosse ler isso tão cedo. Na verdade, eu mal achava que você fosse ler um dia.
— Mas se foi escrito pra mim, por que achava que eu não leria?
Ele deu de ombros.
— Era como um diário. Mesmo que não fosse escrito todos os dias como diz o conceito de "diário", mas era como um diário. Eu coloquei em cada uma delas coisas que eu queria dizer à você naquele momento, mas você ainda não entendia e eu não queria guardar pra mim todos aqueles sentimentos. Sua mãe não leu nenhuma delas, ela sabia das cartas, mas eu não a deixava lê-las. Era uma coisa nossa, sabe? Entre você e eu.
Sorri e me levantei, sentando perto dele no colchão e encarando minhas próprias mãos. Senti meu rosto esquentar.
— Estou feliz em ter encontrado, sabe? Digo, se é algo entre nós, bom, o propósito foi alcançado, não?
Ele soltou uma risada abafada e me olhou brevemente.
— Você tem razão. Eu só... — ele parou um pouco — Tinha certo receio de sua reação. Talvez você não gostasse, sei lá. E quando te vi aqui com essa carta — ele sinalizou o papel em suas mãos — Fiquei nervoso. Você podia estar pensando qualquer coisa naquele momento.
Eu parei tentando entender Déda naquele instante. O que ele poderia temer? Eu, tipo, adorei saber como foi o passado, os sentimentos de meu pai por mim (e minha irmã também, é claro), os seus primeiros medos antes de eu nascer e até como ele superava isso a cada dia. Não tinha o que temer, eu me sentia muito, mas muito sortudo mesmo.
— Sabe, pai? — ele me encarou — Eu nunca que deixaria de chamar você de "Déda", nem com, tipo, trinta anos. — sorri amplamente e depois voltei a ficar sério — Ok, talvez não com trinta anos, mas você me entendeu.
Ele riu alto e bagunçou meu cabelo, como de costume.
— Você gostou da canção? — perguntou de repente.
Pensei por alguns segundos e então lembrei.
— Sim. Quando você e a mamãe entraram na casa da vovó aquele dia eu pensei que teria que explicar naquele exato momento.
— Eu estava muito animado e empolgado, mas eu ouvi você tocar. Ouvi e um sentimento bom aqueceu meu coração. Mas como eu disse antes, era uma coisa nossa, então eu estava esperando a hora certa.
— E ela chegou. — completei.
— Exatamente.
Ficamos mais alguns segundos em silêncio, perdidos em próprios pensamentos, então eu soltei:
— Obrigado, Déda. Por tudo. Por ser meu pai e por fazer ser dessa forma incrível.
— Hey, garoto, você sabe falar bonito como a sua mãe.
— Ou talvez como você.
Ele concordou balançando a cabeça e dando seu característico sorriso torto.
— Pequeno Baby Bear.
— Não, Déda. Por favor, eu aceito tudo, menos que você me chame assim agora. Seria um mico.
— Cala a boca, moleque.
Ouvimos passos subindo as escadas correndo e logo minha irmã esbaforida irrompia em meu quarto e parava no meio dele com as mãos nos joelhos e tentando controlar a respiração. Ela nos encarou por fim.
— Hey, pessoal. Desculpa entrar assim, mas eu precisava de um tempo da mamãe.
— O que houve com sua mãe? — Déda quis saber, começando a se preocupar.
— Ela tá bem, Déda. Mas parece que o bebê tá fazendo ela ficar louca. Ela tá gritando por qualquer coisa e veio o caminho todo da casa da vovó Shelby irritada com o rádio do carro que nunca tocava uma música que ela gostava e com outros carros na rua. Eu fiquei com medo, Déda.
— Ela tá mudando bastante de humor, crianças. Temos que ser cuidadosos daqui pra frente.
Um estrondo. Como uma porta batendo. Depois barulho de coisas caindo. E então um grito raivoso.
— Finn! Desça aqui agora!
Déda fechou os olhos suspirando e se levantou indo até a porta, mas antes de sair ele se virou e nos encarou:
— Qualquer coisa que aconteça lá embaixo, eu amo vocês.
Ele desceu quase que correndo. Bella me olhou confusa.
— O que ele quis dizer com isso?
— Talvez que não importa o que a mamãe faça com ele agora, não devemos nunca esquecê-lo.

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