Remains Of The Past
1 Capítulo 1
O grande olho claro, de tom esverdeado, fitara o horizonte através da luneta por longos minutos. O outro se mantinha fechado, com a pálpebra comprimida: um belo e triste par de olhos verdes, de fato. Era uma mulher muito bela, impossível de não se notar, mas, ao mesmo tempo, havia em seu semblante uma tristeza disfarçada por imposições e ordens na maioria das vezes. Decidira viver sua vida e aproveitar a chance que o destino lhe dera, afinal não sabia por quanto tempo mais o seu coração pulsaria: e não era o uso de uma mera figura de linguagem, o fato de ela dizer, a si mesma, que ele poderia virar poeira a qualquer momento. Baixara a luneta e caminhara pelo discreto convés, adentrando a cabine com o seu nome na porta.
Ainda não conseguira saquear o suficiente para ter o próprio navio, tampouco uma tripulação, portanto partira em um barco pequeno à própria sorte. Depois de ler um pouco e, finalmente, encontrar o nome de Killian Jones em alguns de seus velhos papeis, parara para pensar na possível localização do pirata. As lembranças eram tantas e tão deturpadas! As lembranças claras eram tão poucas... Sentira que estavam sendo apagadas pouco a pouco, assim como sabia que já não era capaz de lembrar-se do essencial. Entretanto, o carinho que nutria por aquele homem era tão grande e tão puro, que talvez, um dia, arriscasse denominá-lo amor. O suspiro fora inevitável, bem como o cerrar dos olhos. Tinha certeza de que – principalmente, para não assustá-lo e para que ninguém se ferisse – precisaria ter um ótimo pretexto para visitar o Jolly Roger. Do contrário, terminaria na prancha.
Passara alguns meses reunindo uma pequena tripulação, a qual não contara com mais de quinze piratas, e garantindo que eles lhe seriam fieis até a morte em sua nova empreitada – sempre tivera como valor a troca de favores, o que era um sinal de que agora se sentiria endividada perante aqueles homens. O segundo principal passo fora esconder os belos cabelos negros, os seios fartos e providenciar uma barba falsa para assemelhar-se ao máximo com um velho lobo do mar. Chegar até o Jolly Roger não fora nem um pouco difícil, ainda mais contando com a experiência de seus novos aliados.
– Inimigo à vista, Capitã. – dissera William Sterling, um dos integrantes da tripulação, eufórico.
– Ótimo, Billy. Atacar! – um sorriso transformara o seu belo semblante por detrás dos cabelos desgrenhados e da roupa surrada.
Conseguira chegar até o navio do Capitão James Hook após muito observá-lo, à distância, aproveitando-se de um dos raríssimos momentos em que ele estava dormindo e em que seus oficiais estavam em um número pequeno para a guarda. Rendera uma parte da tripulação – sempre resguardada por seus fieis homens – e esperara-o, pacientemente, em sua própria cabine: o corpo estava disposto, confortavelmente, na cadeira do capitão; a cabeça, reclinada para trás. As mãos da mulher, as quais estavam encobertas por luvas (a fim de não denunciar a delicadeza das mãos femininas), dedilharam o timão do navio.
O verdadeiro comandante daquele navio, por outro lado, também não era de todo contente naqueles mares: de fato, odiava aquele novo mundo, embora tivesse tido que aprender com ele: tivera de aprender a viver nele e adaptar-se, pelo menos até encontrar o pó mágico das fadas produzido a partir dos diamantes escavados pelos anões. Discutira durante o dia inteiro com a tripulação e, quando finalmente conseguira adormecer, algo inquietara a mente de James: seu sono sempre fora embalado pela barulheira infernal da tripulação, mas, naquela noite em particular, os sons haviam desaparecido quase que por completo. O navio nunca estivera tão calmo e aquilo até seria agradável, se aqueles homens não fossem todos piratas. O homem abrira os olhos azuis, arqueando uma das sobrancelhas, e tentara ouvir qualquer coisa que fosse: nem mesmo o tic-tac, lembrança do maldito crocodilo o qual sempre o perseguira, estava soando nos arredores.
Levantara-se, então, alarmado, sem preocupar-se com as roupas que estava usando ou com o cabelo desgrenhado – ainda que, em se tratando do Capitão Hook em pessoa, aquilo seria sempre uma adição ao seu charme. Vestira seu sobretudo negro por sobre o peito nu, onde permaneciam à mostra algumas correntes de ouro puro. Abrira as portas duplas do quarto e dirigira-se à cabine de comando do navio, surpreendendo-se ao ver ali a pessoa que menos esperava: e não se dera conta de que era uma mulher, pois logo associara aquela figura à de seu antigo aliado, o Capitão Blackbeard.
– Você! – os olhos azuis foram arregalados, pelo choque, e o gancho, apontado diretamente na direção do “homem”.
– Eu mesmo. – a mulher abrira um sorriso comedido para Killian, olhando exatamente dentro dos olhos dele, sem se deixar intimidar pelo afiado gancho metálico que fora posto em sua direção; assim como tentara não se perder no mar azul que era o olhar do pirata, afinal, esperara por aquele encontro – ou reencontro? – durante muito tempo.
Tocara a espada, a qual estava presa na cintura, e girara a empunhadura dela por entre os dedos agilmente — não a apontara para Hook, mas mantivera-a em uma dança com sua ponta no chão; estava disposta a usá-la, mas apenas caso fosse necessário. Killian, especialista em reconhecer o perigo em qualquer lugar, não se aproximara tanto assim.
– Como vai, Capitão? – havia treinado a voz, durante meses, para que ela se modificasse um pouco. No entanto, tudo o que conseguira fora aproximar o seu timbre do de um homem com voz bastante fina, mas cujas palavras poderiam convencer.
– Ou devo dizer... Ex-Capitão? – o sorriso se expandira um pouco mais, involuntariamente, enquanto ela também arqueava uma das sobrancelhas, porém de forma a expressar ousadia.
– O que faz aqui, velho? – ignorara aquele ex e continuara a atacá-lo com palavras.
O gancho, sempre em punho, fora apontado para o homem. James não iria baixá-lo, não com Blackbeard em seu navio e com sua tripulação sob poder, além de ter a ousadia de o estar a ameaçar. Ele não iria, nem poderia, ignorar aquilo: não seria o papagaio pessoal de seu antigo capitão nunca mais. Apesar de nunca ter perdido membro algum, a mulher também era capaz de reconhecer o perigo e sentira o corpo tremer internamente com a menção que ele fizera de atacá-la.
– Sugiro que saia do meu navio o quanto antes.
Jones dera alguns passos em direção àquele “velho lobo do mar”. Estranhara. Deveria sentir nele o cheiro amargo de rum e o cheiro adstringente das penas e fezes das gaivotas; ainda assim, tudo o que conseguira aspirar fora o cheiro de Teach. Não o cheiro masculino do Teach original, era como se o velho Blackbeard estivesse cuidando melhor da própria higiene. Muito melhor, pensara o Capitão, sentindo aquele aroma de sais marinhos, areia molhada e maresia.
O fato de a mulher ser a mais insegura das irmãs Teach a fizera perceber de antemão que Hook começara a desconfiar de alguma coisa: e tentara pensar acerca do que, mas não encontrara nada que tivesse deixado a desejar. Por outro lado, algumas outras coisas eram falhas no disfarce da bela mulher: por exemplo, o perfume à base de algas que permanecia entranhado em cada centímetro de seu corpo; não era forte, muito pelo contrário, era bastante suave, gostoso, inebriante. Não se podia dizer se era feminino ou masculino, era apenas agradável e convidativo; além disso, como ela mesma criara aquela essência, como era um perfume artesanal, apenas ela possuía aquele aroma — apesar de lembrar bastante o pai na aparência.
– Estou aqui para tomar o seu navio, fico feliz que o tenha deixado em bom estado para mim. – fechara o sorriso e intensificara o olhar, fulminando-o com o olhar.
– Baixe isso, me respeite e admita sua derrota, Hook. Ou vai andar na prancha. –
– Jamais! – continuara com o gancho de prata apontado para o rosto do homem e, naquele momento, aproximara-se tanto que os deixara próximos o suficiente para um duelo mortal.
– Jamais abandonarei meu navio ou minha tripulação, por qualquer preço que seja, Blackbeard. – falara em tom ríspido e corajoso. – Por mais que eu o rejeite, aprendi isso muito bem. Se realmente quiser meu navio, terá que me pegar primeiro. Ou me matar. –
Hesitara em responder-lhe à altura, principalmente ao ouvir que aquele homem jamais abandonaria o navio, por qualquer preço que fosse. Cerrara os olhos e lembrara-se de uma frase ainda muito viva em sua mente e que dizia que tudo, absolutamente tudo, só poderia vir mediante um determinado preço. Esboçara uma risada, a qual não tinha som, nem exibira os seus dentes: era falsa. Sentira a aproximação de Killian e estremecera, internamente, mais uma vez, respirando fundo para conseguir se concentrar e colocar os ensinamentos de seu pai em prática; desviara os olhos dele para o gancho, mas logo tornara a fitá-lo, erguendo um pouco mais a espada e, agora, segurando a lâmina dela com a mão esquerda.
– Você é quem sabe. Pelo menos, aprendeu algo que não seja beber rum o dia inteiro. – erguera um pouco o tom de voz, como se estivessem duelando por timbres. Se continuassem assim, a dama obviamente perderia em pouco tempo. Além do mais, aquilo estava irritando James ainda mais – era, segundo ele, a pior e mais detestável voz de todos os tempos.
– Beber rum o dia inteiro é sempre bom, Black. – piscara um dos olhos para a oponente, ainda sem saber que se tratava de uma mulher. O tom era, agora, de desafio.
– Só se for para a sua saúde! – gostava de rum, mas não era uma fã assídua da bebida, não como sua irmã, por exemplo. Ela, em retribuição, piscara um dos olhos para ele e apontara a espada para o seu peito/rosto, iniciando um ataque – não o fizera com toda a sua força porque Hook não estava com uma espada e, teoricamente, isso era uma desvantagem.
O pirata defendera o golpe da mulher utilizando-se de sua melhor e mais inusitada arma, o gancho de prata, forçando-o para cima a fim de livrar-se daquela espada. Empurrara a oponente e a atacara sem qualquer traço de dó ou piedade. A mulher ficara um tanto quanto assustada e sentira o coração acelerar, caminhando para trás, mas defendendo-se tão bem ou ainda melhor do que seu pai o faria.
– Aprenda a lutar direito, Hook. – fora a vez de a pirata avançar e empurrá-lo para trás com os seus movimentos, atacando-o cada vez mais de forma defensiva e pesada. De fato, não parecia uma mulher lutando, mas nenhuma das duas irmãs Teach parecia muito delicada e/ou inofensiva; principalmente, com uma espada nas mãos. Em poucos minutos, o Capitão Hook estava no chão com a ponta da espada daquela mulher na ponta de seu queixo.
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