Reloading!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordo sentindo o estômago roncar absurdamente. Um cheiro de feijão recém-cozido invade meu nariz e logo a boca enche de água.
_ Ora, ora...a dorminhoca acordou — disse Nick, raspando uma lata com uma colher.
_ Isso é feijão? — pergunto.
_ Tem aqui pra você — responde Coach — O Ellis achou várias latas na despensa.
Ele apaga o fogão de duas bocas e me entrega uma lata esfumaçando, enrolada em uma toalha velha.
_ Essa foi a melhor sala segura que já encontramos — fala Elis, também raspando uma lata.
Feijão. Nos últimos três dias tudo o que tivemos para dividir foram dois pacotes de biscoitos e uma garrafa de água. Nossa, feijão é um verdadeiro banquete! Saboreio a primeira colherada como se não fosse comer mais nada na vida. Depois de uma boa noite de sono — aquela sala tinha colchonetes macios e em boas condições — e desse manjar, acho que dá pra encarar mais um dia de caminhada.
_ Acho que até o final do tarde dá pra chegar na próxima sala. Tem uma área de evacuação perto — disse Nick, olhando um mapa.
_ Espero que não seja como a última... às vezes tenho a impressão que somos só nós e o outro grupo ainda vivos... — digo, ainda saboreando minha latinha.
_ Será que ainda vamos encontrá-los de novo? Ontem sonhei com a Zoey... — suspira Ellis, enquanto carrega a magnum.
_ O amor é lindo... — ironiza Nick.
_ O rapaz precisa curtir a vida, Nick, ou pelo menos o que restou dela... — fala Coach, afiando um facão.
_ Tá com inveja... — provoco.
_ Inveja? Tenho mais o que fazer. Sair vivo daqui, por exemplo...
Coach ri.
_ É ciúme. Daquele camarada, o Francis.
_ Era só o que faltava... — diz Nick, indignado.
Sorrio, enquanto raspo o que ainda resta do feijão.
_ Francis é adorável — falo, dando uma piscadela para Nick.
_ Bem, faça bom proveito quando encontrá-lo. Ele há de me agradecer por te manter a salvo.
Rimos, eu e Coach.
_ Acho que tá na hora de encarar a vida lá fora! — falo, espreguiçando-me — espero não ver nada de Tanks ou Witches hoje...
_ Sabem — começa Ellis — Lembrei de uma vez que eu e meu amigo Keith estávamos a beira de um lago e então vimos que do outro lado tinha alguém, sabem? Então o Keith tinha uma luneta e...uau... do outro lado tinha uma garota linda, tirando a roupa para nadar, e...
_ Agora não, Ellis... — repreende Nick.
_ Ok...
Pego uma AK-47 e verifico as pistolas. Depois pego a mochila de medicamentos e troco as pilhas da lanterna. Escolho uma bomba caseira. Coach ainda tem um pote com vômito de Boomer e Nick, o coquetel molotov. Ellis ficou com as latas de feijão, água e um punhado de biscoitos. Tem uma dose de adrenalina, também.
Nick abre a porta cuidadosamente, sempre olhando pela mira de sua sniper. Saio na sequência, com as pistolas prontas; Elis vem atrás, com sua magnum e uma M-16 às costas. Coach fica com a retaguarda com uma caçadeira.
É uma caminhada tensa, como foram todas as outras que fizemos. Andamos pelo menos meia hora, sem maiores problemas. Mas essa calmaria toda me deixa nervosa. Um som rouco de tosse, de repente, ecoa.
_ Smoker... — falou Nick, jogando os cabelos pra trás com as mãos.
_ Ali, naquele telhado! — apontou Coach para a figura que se esconde ao ser vista.
Nick aponta a sniper em busca da mira. É quando eles aparecem, sem aviso, do nada.
Puxo o gatilho de minhas duas pistolas e os zumbis vão caindo, um atrás do outro, mas há muitos mais. Coach dispara a caçadeira. Um tiro, dois tiros, três tiros... Nick deixa o Smoker pra lá, para poder se defender e Ellis descarrega a M-16. Um gargalhada insana se faz ouvir. Quatro, cinco, seis tiros... Miro no Jóquei, que se aproxima rápido. Uma Spitter cospe em cima da gente e somos obrigados a nos separar. Sete, oito, nove, dez tiros...
_ Reloading! — grita Coach.
A Spitter se aproxima de novo, mas leva um tiro certeiro do Ellis. Menos uma para se preocupar. Mas o Jóquei ainda nos ronda.
_ Reloading! — grito.
Então sinto algo me envolver e me puxar.
_ O Smoker me pegou... — grito.
Ele me arrasta e Nick faz a mira, mas o Jóquei pula nele e o cavalga.
_ Socorro! — berro, sentindo a língua do desgraçado me estrangular.
Coach acerta o Smoker e me liberta, enquanto Ellis consegue matar o Jóquei. Levo um tempo até me levantar, só pra ser atingida por um Charger. Os outros são jogados longe e ainda têm de se livrar de alguns zumbis remanescentes. O Charger me esmaga contra uma parede e depois de novo, e de novo e de novo... até que Coach estoura a cabeça dele e caio quase sem sentidos. Nick me socorre com medicamentos.
_ Ei, honey, ainda tenho esperança de repovoar a Terra — ele brinca, enquanto cuida de meus ferimentos.
_ Colombus, isso dói... — consigo dizer.
Ficamos parados pelo menos uns 15 minutos para recuperar o fôlego e recarregar as armas. Nossa jornada segue, um pouco mais lenta, mesmo assim num bom ritmo. Já era de tarde quando ouvimos o choro.
_ Ai, ai... só faltava essa... — digo.
_ Se fosse só ela... — Coach retruca.
Fico atenta e percebo outro ruídos.
_ Há um Hunter por perto.
_ E um Boomer... — Ellis completa.
Apontamos as armas para todos os lugares na esperança de matá-los antes que nos ataquem.
_ Acho que o Hunter tá...
O Boomer não deixa Nick completar a frase e o cobre de vômito. E os zumbis aparecem rápido! Na confusão, o Hunter agarra Ellis. Pego a AK-47 e o mato. Jogo a bomba caseira longe e parte dos zumbis vai atrás. Os outros continuam atacando Nick, enebriados pelo cheiro do vômito. Coach acerta uma coronhada no Boomer para afastá-lo e atira. O resultado não é dos melhores e mais zumbis são atraídos. Eu e Ellis começamos a atirar, eu com a AK-47 e ele com a M-16.
_ Reloading! — ele grita.
Desnorteado, Nick corre em qualquer direção, tentando se livrar dos zumbis e o pior acontece: ele esbarra na Witch. Nick ainda tenta fugir, atirando na mulher, que dá um grito apavorante. Coach também dispara várias vezes. Mas a Witch salta em cima de Nick e por várias vezes enfia suas garras no peito dele até ser morta pelo Coach.
_ Nick! — grito.
Ele está no chão, sem respirar.
_ Nick, por favor! — imploro.
_ Essa não, Nick... — murmura Ellis.
_ Ellis, cuida dele — fala Coach,
_ O que vai fazer? — pergunto.
_ No mapa... lembro que tinha um posto de saúde aqui perto.
_ Vou com você! — digo. Pego o molotov que Nick carregava e me levanto.
Sigo Coach até uma esquina e vejo que ele estava certo: um posto de saúde! Corremos até lá. Uso a lanterna para procurar um desfibrilador. Tem de ter um aqui, tem de ter...
_ Ali! — fala Coach apontado para o alto de um armário.
Subo numa cadeira e o pego, mas o armário vem junto. O barulho se espalha pelo posto abandonado.
_ Vamos embora daqui, rápido! — diz Coach.
Saímos correndo e logo depois uma multidão de zumbis aparece.
_ Coach! — grito.
Ele pega o vômito de Boomer que tinha e joga. Os zumbis param de nos perseguir e seguem pro local onde o pote estourou. Quando se juntam lá, jogo o molotov.
_ Queimem no inferno! — grito.
Corremos de volta até onde estão Nick e Ellis. Aplico o desfibrilador.
_ Vamos Nick...por favor... Nick...
Ele puxa a respiração e começa a tossir. Coach, Ellis e eu começamos a festejar.
_ Honey... bastava um beijo... — Nick balbucia. Eu o abraço e beijo seu rosto.
_ Outro beijo me deixaria revigorado...
Rio e levanto e o ajudo a se erguer.
_ Vamos andando, Don Juan. Estamos quase lá.
É quase fim de tarde quando chegamos na cabeceira de uma ponte.
_ A próxima sala segura fica depois da ponte — digo.
Sentimos um leve tremor no chão e percebemos alguns carros que estavam na ponte sendo atirados longe.
_ Tank! — diz Coach.
_ E essa agora? — diz Ellis.
Vejo a criatura gigante se aproximando rápido e olho para meus companheiros. Pego munição e recarrego a AK-47.
_ Reloading! — grito.
_ Reloading! — eles repetem, como numa oração.
Então faço a mira e puxo o gatilho.
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