Reload Lyoko
7 Capítulo 7
Bruno se aproxima de uma cadeira, e se senta depois de uma análise estrutural — leia-se, depois de checar se ela não quebraria com o peso dele. Felizmente, a cadeira parecia forte o suficiente pra aguentar alguém com o dobro do peso dele pelo dobro do tempo que ele tem de vida. Ele se senta, depois de bater a poeira da cadeira, e olha ao redor. Na frente dele: uma sequência de telas, com uma central e outras três ao redor presas à principal por braços articulados de metal grosso, um teclado com bem mais teclas que um teclado normal, conectores de diversos tipos ao lado da tela principal, uma armação circular de metal acima da tela segurando fios de várias espessuras e cores, além da tela em si…
OK, a sala parecia um pouco mais avançada que só o controle dos engenheiros na pista de testes. Talvez fosse o mainframe da antiga fábrica?
Atrás da tela, no chão, abaixo do centro da armação de metal, havia um círculo de metal com o que pareciam ser domos de vidro por dentro dele, arranjados de forma radial. Pareciam importantes, embora visualmente não passassem de pedaços de vidro sujos quaisquer feitos e postos em uma forma bonita. E no chão, debaixo de alguns paineis de metal ausentes, mais fios de inúmeras cores e tamanhos diferentes. E mais um alçapão, convenientemente sinalizado. Um papel amarelado e meio rasgado, escrito “não abra” em cinco caligrafias diferentes, em inglês, italiano, francês, japonês e alemão.
Bruno ri, abrindo o alçapão.
B: Quem quer que tenha escrito isso realmente não queria que isso foi aberto, mas fazer o que, eu to curioso… /Ele dá de ombros, e aponta a lanterna pro buraco, que parece ser outra escada./ Essa fábrica ta tão desativada que nem existe mais, então que perigo pode ter aqui dentro? Um reator nuclear? O inferno? /pensa, descendo a escada com o celular no bolso/ Embora isso tenha mesmo toda a cara de jogo de terror…
Então, Bruno pula pro chão, um pouco mais baixo que o chão da pista de testes. Uns 3 metros mais baixa. Depois de se recuperar da queda inesperada, Bruno liga a lanterna do celular de novo… E começa a se perguntar por que ele não obedeceu os avisos.
B: … Que porra é essa?
Bruno olha pra três torres na frente dele, torres de metal fundido por fora, e vidro por dentro. Um aro de metal ficava apoiado no chão dentro de cada torre, com outras lâmpadas envolvendo o aro por dentro. Acima das torres, outros tantos cabos que sumiam em direção ao teto. Pareciam cápsulas de clonagem de algum filme B de ficção científica dos anos 50. Ou de qualquer época, na verdade. Como se alguém tivesse decidido que era boa ideia juntar steampunk, cyberpunk e Frankenstein.
Bruno se aproxima das torres timidamente, torcendo pra que elas não fechassem com alguma coisa dele dentro. Os lados da entrada das torres diziam SCANNER 1, SCANNER 2 e SCANNER 3, em letras pequenas escritas na vertical. Por dentro das torres, atrás de onde ficam as numerações, haviam algo parecido com interfones de metal grosso, do mesmo metal que compõe o exterior dos scanners. Pra Bruno, era estranho que quem quer que estivesse controlando o experimento quisesse manter contato com a cobaia. Mas bom, pelo menos agora parecia que quem quer que estivesse por trás daquilo pelo menos se importava com quem quer que fosse a vítima, se sequer fosse uma vítima.
Bruno se prepara pra subir de novo, quando ele nota uma escotilha no meio da sala. Ao invés de um papel grudado escrito “não abra”, havia uma gravação no metal, dizendo “computador central”, com uma seta apontando pra baixo. A essa altura, ele já havia se esquecido de por que ele estava lá, ele só queria continuar explorando. Então, com muito esforço, Bruno abriu a escotilha de metal pesado, e desceu pela última escada.
Dessa vez, Bruno desceu sem maiores problemas até o chão de um salão completamente vazio, exceto por um botão num painel simples, na borda de um círculo desenhado no chão. Ele esboçou um sorriso; até onde ele sabia, o esquema de “não aperte o botão vermelho” só aparecia em filmes. Bruno sempre se achou acima dessa situação. “Digo, é óbvio que vai acontecer algo ruim, então por que você vai apertar?”, ele sempre pensava. Mas acontece que lá, na hora, é bem mais difícil resistir do que parece.
Então ele aperta o botão.
Bruno se assusta assim que ouve o estalo das máquinas trabalhando, e se prepara pra lutar, já que a sala não tem saídas fáceis, o que faz correr inviável. Uma outra torre imensa surge de dentro do círculo no meio da sala, uma torre preta e dourada, e fechada. Um obelisco high-tech, basicamente. Bruno a analisa cuidadosamente, pra garantir que nada vá sair da torre e o atacar. Afinal, o aviso de “não abra” tem que estar lá por algum motivo bom. Ou então aquilo foi uma brincadeira de algumas crianças quem nem sequer abriram o primeiro alçapão, e só acharam que seria divertido assustar o próximo que aparecesse.
Nada saiu. Bruno relaxa o corpo, e avança em direção ao obelisco de metal brilhante no meio de uma sala fria e empoeirada. O obelisco tem uma abertura pequena de metal, selada por dois pedaços de fita adesiva do tipo que se compra em qualquer papelaria meia-boca. Era até meio engraçado que alguém tenha se dado o trabalho de fazer isso. Ele olha ao redor, pensando. Ninguém ia se importar se ele tirasse a fita só pra dar uma olhada, ele já ia botar de novo… Era só uma olhadinha, que mal poderia fazer?
Então, ele descola a fita adesiva, e aperta o botão ao lado da abertura, que abre a tampa, revelando uma alavanca.
Uma alavanca num obelisco de metal brilhante pode ser um monte de coisa. Pode ser o servidor central de uma rede, pode ser a rede de energia da antiga fábrica, pode ser uma chave pra liberar todo o mal do mundo sobre a face da Terra… Mas com certeza, a voz por trás da visão dizendo “puxe a alavanca” era difícil de resistir. E Bruno não é muito de resistir a vontades. Então ele puxou, rezando pra não ouvir uma voz lá do fundo gritando “NÃO ESSA ALAVANCAAAAAAAA!”
Então, as luzes se acendem. Alguns bipes e chiados de motores rodando depois, o obelisco se estabiliza, e nada acontece por uns bons minutos. Bruno olha ao redor da sala: branca, circular, vazia, empoeirada, parecia exatamente um laboratório abandonado. Mas se eles não estavam experimentando com monstros, pra que aquele laboratório estava lá?
Bruno se aproxima do botão vermelho de novo, e olha fixamente pra ele. E olha pro obelisco. Depois pro botão de novo. Depois pro obelisco. E depois pro botão. O botão tinha um papel grudado, escrito “resfriamento do sistema”, com a mesma letra de uma das inscrições “não abra” do primeiro bilhete. Atrás do papel, lia-se “aperte o botão pra ligar/desligar o resfriamento do supercomputador; não deixe superaquecer”. Bruno então olhou pro obelisco mais uma vez. Era um supercomputador. O que explicava as telas no andar de cima.
Então, Bruno apertou o botão de novo, depois de tirar uma foto. O Ulrich nunca acreditaria no que ele acabou de achar.
Ou acreditaria?
Olhando ao redor, Bruno vê que a sala tem uma porta de segurança, com trava reforçada. Um painel do lado da porta, parecido com um controle de elevador, se destacava. Ele apertou os botões repetidamente, mas nada acontecia. Claro, seria fácil demais se simplesmente tivesse um elevador que levasse ele pra cima e pra baixo apertando um botão.
Então, ele subiu pela escada, de volta pra sala dos scanners, agora iluminada em um amarelo incandescente vindo de dentro deles. O verdadeiro tamanho deles agora ficava evidente; eles eram pelo menos do dobro da altura de uma pessoa qualquer. E agora pareciam funcionar. Mas pra que eles funcionavam? Pra isso, Bruno subiu até o começo da história: a sala do monitor.
A sala continuava escura, com pouca coisa além de uma iluminação esverdeada típica de lâmpadas fluorescentes antigas. Nem sinal de qualquer luz fora aquela. Ao analisar de novo a área de trabalho do laboratório, ele vê um caderno, ou pelo menos algo parecido com um, sobre o teclado. No momento, parecia mais um monte de papel empilhado. Ele o tira de cima do teclado, e aperta o maior botão do lado do monitor.
A tela acende.
Bruno não conseguia acreditar, era a descoberta do século pra ele. Ou pelo menos parecia a do século passado. Um computador no subsolo de um jardim. O que será que aquilo controlava? Um silo nuclear? Armas biológicas desconhecidas da ciência? Sinais de trânsito? Todas as anteriores? E se aquele fosse um bunker da guerra fria pro caso de um apocalipse nuclear? Explicaria as portas de segurança. Bom, era mais fácil checar no computador do que ficar se perguntando a vida inteira.
Mas, naturalmente, seria fácil demais se o computador rodasse um Windows da vida.
Bruno olha pra tela do computador, confuso. A interface, embora limpa, era estranha. Era impossível achar qualquer coisa reconhecível como um programa ou… Como qualquer coisa útil, na verdade. Só umas caixas de texto com caracteres aparentemente aleatórios.
B: Custava funcionar como qualquer computador normal? /Frustrado, Bruno olha pro caderno./ Talvez tenha alguma coisa útil aqui.
Bruno pega o caderno, se esforçando pra ler a capa. Quem quer que tivesse escrito aquilo estava com muito sono. Ou não tinha o costume de escrever. Ou os dois. E o estado do caderno não ajudava, de qualquer modo.
B: Talvez fosse mais útil se eu sequer conseguisse ler a capa… Ahn… /Bruno se esforça pra ler/ “Manuel d’instructions... de l’ordinateur”. OK, é isso.
Ele lê as páginas de introdução. Uma série de páginas de puro texto explicando o funcionamento teórico da máquina, nada de interessante. Bruno folheia o caderno rapidamente, até achar algo interessante.
Como o acesso ao diário em vídeo.
B: Beeeeeem melhor. “Para acessar o meu diário, digite journalj no prompt de comando.” OK, prompt de comando… /Bruno olha pela tela, até achar a janela com um cursor piscando./ Aqui.
Bruno digita na caixa, e aperta enter. Uma janela abre, algo como um explorador de arquivos comum, com vários ícones de vídeos com as datas nos títulos. Bruno abre um deles.
B: OK, esse aqui primeiro.
J: Diário de Jeremie Belpois, aluno da 7a série do colégio Kadic. 9 de outubro.
Bruno olha pra tela, confuso. O garoto na tela parecia extremamente familiar…
B: Jeremie Belpois… O moleque que eu conheci mais cedo não se chamava Jeremie?
J: Já faz algumas semanas, eu estava procurando peças para meus pequenos robôs, mas não encontrei nada. De repente, me ocorre a ideia de checar a fábrica desativada nos arredores do colégio.
B: OK, espero que uma terceira pessoa não venha a aparecer procurando peças…
J: Eu achava que eu encontraria com certeza todo tipo de coisas velhas, peças mecânicas e circuitos elétricos que pudessem me servir. E não me decepcionei! Pelo contrário, eu achava que estava delirando quando vi que havia descoberto um tipo de complexo informático com um laboratório, scanners e um supercomputador que parecia saído direto de um filme de ficção científica. Até agora, eu não disse nada a ninguém. É o meu segredo.
Bruno olha pra tela, tentando entender o que se passava.
B: Ta, perai. Esse garoto se chama Jeremie. Ele é loiro. O que eu conheci mais cedo também se chamava Jeremie, e também era loiro. Os dois também usam óculos. /As coisas pareciam se encaixar na cabeça de Bruno, mas.../ … Por favor, ne Bruno, você ta na França. Quantos Jeremies loiros existem? E quem garante que ele ainda usa óculos?
Depois de encostar o pensamento num canto qualquer da cabeça, Bruno continua assistindo o diário.
J: Enquanto explorava a estrutura lógica do sistema operacional do supercomputador, eu me deparei com um programa estranho dentro dele. Uma espécie de inteligência artificial. A princípio eu achei que fosse um videogame, mas as suspeitas sumiram logo que eu fiz o teste de Turing nela.
Bruno avança o diário, assistindo atentamente.
J: A inteligência artificial — que, por sinal, não gosta de ser chamada de inteligência artificial, portanto vou começar a chamá-la de Maya — parece não se lembrar de nada que aconteceu antes do momento no qual a conexão foi estabelecida. As memórias dela se resumem a um momento de inexistência, seguido de um momento de consciência. Aparentemente, também, Maya habita um ambiente virtual semelhante à Terra, chamado Lyoko, um ambiente dotado de vida — vida hostil a ela, por algum motivo.
Bruno abre mais um arquivo.
J: 13 de outubro. Fui atacado pelos meus robôs, enquanto usava o meu computador pessoal como interface pro sistema do supercomputador da fábrica. Logo antes, um símbolo estranho apareceu na minha tela. Me pergunto o que ele significa. Gritei por socorro, e Ulrich Stern, /Ulrich aparece atrás de Jeremie na tela/ da minha turma, veio me socorrer. Então, fui forçado a revelar o meu segredo ao Ulrich.
Bruno pausa o vídeo, e olha para a tela fixamente. OK, é fácil existirem dois ou mais Jeremies loiros de óculos na França. Mas quantos Jeremies loiros de óculos e que conhecem um Ulrich moreno existem?
B: Porra, como assim o maluco não conta esse tipo de coisa pra mim? /Bruno revira os olhos./ Mas tá, não é como se ele fosse contar isso pra alguém que ele acabou de conhecer… Mas que dá uma história pra contar no boteco, dá. Se ele contasse isso praquela Yumi, então…
J: Ulrich me prometeu trazer uma cobaia pra testar os scanners, e o programa de virtualização que eu havia encontrado enquanto procurava por um meio de materializar Maya. Ele trouxe… Um vira-lata, que logo descobri pertencer a Odd Della Robbia, um estudante novo no colégio. Me pergunto se a escolha da cobaia foi proposital...
B: Ainda dá tempo de sair e comprar pipoca…?
J: No momento em que pusemos a cobaia--
Uma voz estridente interrompe Jeremie.
O: Dá pra parar de chamar o Kiwi de “cobaia”?!
J: /pigarro/ No momento em que o processo de virtualização estava pra começar, fomos interrompidos por Odd, acompanhado por Elizabeth Delmas, que invadiram a sala dos scanners no meio do processo. Odd entrou no scanner e Kiwi pulou para fora, deixando Odd sozinho dentro do scanner, e o virtualizando no lugar.
Bruno para de prestar atenção, e pensa. Eram informações demais pra organizar na cabeça dele. Os scanners levam a um mundo virtual; existe uma inteligência virtual dentro dele, ou pelo menos existia; essa inteligência artificial era uma garota, ou pelo menos tinha a forma de uma. Só a improbabilidade de os scanners funcionarem e o fato de ele não saber como operá-los o impedia de ir e tentar ver tudo com os próprios olhos. Então, ele decide continuar ouvindo, enquanto procura por algum programa que diga se os scanners ainda funcionam, e outro que faça eles funcionarem.
J: A virtualização foi um sucesso. Odd foi virtualizado em Lyoko… Vestido como um gato roxo.
Visualizar Odd numa roupa de gato roxo fez Bruno rir.
J: Ele confirmou o que Maya já havia me mostrado, e aumentou minhas esperanças de um dia me encontrar pessoalmente com ela. Mas, durante o passeio dele, ele foi atacado pelos mesmos animais que atacaram Maya anteriormente, e fui forçado a mandar Ulrich como reforço. Ulrich, ao contrário de Odd, foi virtualizado em uma roupa “normal”, baseada na de um samurai. Não entendi por que a diferença nas roupas, mas no momento, acredito que as roupas se baseiam em desejos subconscientes do viajante.
O: Eu já disse que não queria ser um gato roxo!
J: … Há quem conteste a hipótese. Ainda durante o teste, eu e Elizabeth — Sissi — fomos atacados por fios que saíram do chão. O mesmo símbolo de mais cedo apareceu na tela antes disso. Foi horrível. A cada momento que passava, eu via o quão perigoso esse mundo poderia ser. Mas eu não posso deixar Maya presa nesse mundo, sozinha. Então podemos aguentar por mais um dia ou dois.
B: Eu to começando a achar que ele gosta dessa garota… E eu achando que japoneses que eram estranhos por quererem casar com videogames. Eu definitivamente vou zoar ele por isso da próxima vez que a gente se ver. Próximo.
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