/Minutos mais tarde

/Jardim da ilha Seguin

Jeremie e Aelita chegam na ilha, no meio do Sena. Logo que chegam, eles procuram um banco no qual sentar.

J: Não íamos ao laboratório?

A: Eu precisava de uma desculpa pra ficar contigo à sós... Se eu dissesse que viria ao parque contigo, provavelmente aquele novato ia querer vir com a gente.

Aelita olha os arredores, com o olhar um pouco saudosista. Era uma sensação estranha estar lá depois de tanto tempo… Mais estranho ainda quando a única coisa que sobrou daqueles tempos foi a fachada da fábrica.

J: Parece que faz uma eternidade… /Ele olha ao redor, pra cidade, pra ponte que leva à antiga fachada da fábrica, e pra fachada em questão./ Lembra de quando nos conhecemos?

A: Lembro que você me acordou… /sorri/ Não que eu estivesse com sono depois de 10 anos dormindo.

J: E agora, quase 10 anos depois, parece que nada nunca aconteceu--

Aelita o interrompe.

A: Não acho que dá pra apagar o que aconteceu assim.

J: É verdade. /Ele traça com os olhos o caminho que eles costumavam fazer até a sala do computador a partir da fachada da fábrica, e olha pra onde deveria estar o elevador./ Mas agora, ta tudo enterrado debaixo dessas flores. Meio irônico, até.

Aelita não vivia sozinha dentro do supercomputador, infelizmente. O mundo virtual era habitado, e de certo modo controlado, por uma entidade chamada XANA, originalmente criada pra proteger a rede, mas que se rebelou e passou a ameaçar o mundo e Aelita. Quando Jeremie encontrou Aelita, essa entidade despertou junto, e passou a ameaçar o mundo, em uma guerra secreta que durou dois anos.

A: Eu ainda não acredito no que o meu pai foi capaz de fazer…

J: A parte boa ou a parte ruim?

Aelita olha pra Jeremie com olhar ultrajado. Jeremie não era bem a pessoa com o melhor senso de conveniência no mundo. Ou pelo menos na França. Mas ele estava certo, o pai dela havia criado tantas coisas boas, como Lyoko, quanto ruins, como XANA, e ela sabia. E a melhor delas era ela, não importa a quem perguntasse.

A: … As duas coisas. Ele poderia ter ajudado tanta gente com o que ele criou… Tantas guerras poderiam ter sido evitadas, tantos desastres.

J: Mas quanta gente ele não salvou antes de XANA perder o controle?

A: Ele não pode se salvar…!

Os olhos de Aelita começam a lacrimejar. Fazia tempo que ela não lembrava daquele dia… O dia no qual o pai dela se sacrificou pra acabar com o que ele mesmo criou.

Jeremie a abraça, tentando consolar a garota.

J: Às vezes eu me pergunto se ele não sobreviveu àquilo como ele sobreviveu a todas as outras coisas…

A: Por favor, não vamos falar disso…

Os dois ficam em silêncio, olhando ao redor, pro cenário coberto de neve e pros flocos que começavam a cair levemente.

J: E você, como você acha que é o novato?

Aelita olha fixamente pra um floco de neve que caiu no braço dela.

A: Hmmmm… Acho que ele é japonês.

J: Japonês? /Ele parece incrédulo, por algum motivo que nem ele entende./ Eu aposto que ele é americano. Um daqueles cowboys que andam por aí de chapéu e com uma bandeira nas costas. /ri/ Mas falando sério agora, ou de lá, ou da África.

A: África… /ela sorri, olhar meio sonhador/ Seria interessante, se ele fosse um negro de 2m de altura, forte… /Ela olha pra Jeremie, enciumado, com um olhar travesso, e ri./ É brincadeira, seu bobo. Mas eu concordo, ele deve ser africano. É o mais provável.

Os dois passam o tempo abraçados, assistindo os flocos de neve caírem, até o tempo de irem embora, poucos minutos mais tarde.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, Bruno tenta descobrir o que se passa com seu novo colega de quarto.

B: /entra/ Ulrich? Por que você saiu correndo--

Ulrich interrompe.

U: O nome dela é Yumi.

B: Eles me contaram. Disseram que se eu quisesse saber o que aconteceu, era pra eu te perguntar.

Ulrich parece impaciente e irritado, como sempre.

U: Eu acabei de te conhecer, por que eu te contaria?

B: Eles também disseram isso. /senta na cama de Odd/ Você não precisa dizer, eu entendo, eu acabei de chegar, mal conheço vocês… Mas de vez em quando, a gente precisa liberar a pressão, saca? /Ulrich olha pra Bruno, confuso./ O que, não entendeu o que eu disse? Desculpa, meu francês ainda não é grande coisa.

U: Você tinha alguém de quem você gostasse no Brasil?

Agora é Bruno quem está confuso.

B: Bom, claro que tinha. Meus pais, meus amigos…

U: Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.

B: Se eu tinha uma namorada ou alguém que gostasse de mim desse jeito? Não, não. Nunca fui lá o galã de novela das 8. /A expressão de confusão de Ulrich volta/ … O que foi?

U: Nada. /se joga na cama/ Sabe, eu sempre gostei dela… Desde quando nos conhecemos.

B: Como vocês se conheceram?

Ulrich não podia contar exatamente como ele conheceu a Yumi. Ele não podia dizer que “uma bola de energia perseguiu os dois”. Ou que os dois se jogaram dentro de um mundo virtual no subsolo de uma fábrica. Felizmente, não foi só isso que aconteceu.

U: Nós costumávamos lutar juntos, na escola… Nos conhecemos no primeiro dia dela, e decidimos praticar.

Bruno olha pra algum canto, pensativo, e ri.

B: Aí vocês caíram um em cima do outro, seus olhos se encontraram…

U: Como você sabe?

B: /surpreso/ Eu não sabia, só joguei um verde…

Ulrich olha confuso mais uma vez. O novato usa expressões estranhas demais. Como assim “jogar um verde”? Como se joga uma cor?

U: Como assim “jogou um verde”?

Bruno pensa. Talvez ele devesse diminuir a dose de expressões. Talvez não, era divertido ver a cara de confusão dele. Ele ainda vai se decidir.

B: … É uma expressão idiomática de onde eu venho. É comum jogar frutas verdes que caíram das árvores nas mesmas árvores pra tentar pegar uma fruta madura. No caso, é você supor uma coisa na esperança de que ela seja verdade.

U: Então você morava num bosque?

Ulrich ri, provocando. Bruno não parece ter visto a mesma graça.

B: Numa cidade com árvores. Muitas. Ao contrário daqui, até onde eu vi…

U: Foi mal, vou dar um tempo nas piadas.