Notas iniciais
Primeira vez aqui. Cuidem de mim, por favor.

/Dormitório da Aelita, universidade de Paris

O celular de Aelita a acorda. Ela levanta, bocejando.

Aelita: /pensando/ Todo dia, esse mesmo sonho... /Ela pega suas coisas, e vai ao banheiro do dormitório, se preparar pro dia que vem. / E com a mesma voz me acordando... Eu deveria parar de passar a noite vendo série...

Então, o celular dela toca. É Jeremie, seu namorado, famoso na cidade por seus projetos mirabolantes. Ela atende, meio grogue.

Jeremie: Aelita? Tá dormindo?

A: Tava, 10 minutos atrás... Aconteceu alguma coisa?

J: Vai acontecer, se você não aparecer logo. /Ele diz, num tom preocupado e irritado ao mesmo tempo/ Temos um projeto pra entregar hoje, e estamos atrasados, esqueceu?

Os dois estão na faculdade de engenharia eletrônica já há algum tempo. A essa altura, problemas com prazos podem custar um semestre inteiro, isso quando o aluno nãoestáenvolvido em um projeto da universidade — como os dois. O problema é que só existem duas saídas nesse tipo de situação: ou o aluno se estressa cada vez mais, ou começa a ligar cada vez menos. Respectivamente, Jeremie e Aelita.

Então, algo se liga na cabeça da Aelita. Ela esqueceu que o prazo pra entrega do projeto era dali a uma hora. Então, ela corre de volta para o quarto, revirando cada canto em busca do pen drive com o projeto no qual os dois passaram a noite trabalhando. Ela o acha em cima do teclado, e o enfia na bolsa. Por muito pouco, ela não sai dos dormitórios de camisola.



/Lado de fora da área do instituto de tecnologia

Jeremie vê Aelita correndo em sua direção, segurando a bolsa. Perigoso correr assim na neve que geralmente cobre a cidade em janeiro. Especialmente de salto. Felizmente, eles eram largos, então ela não precisava se preocupar muito com manter o equilíbrio. Pelo menos não muito mais que o normal de uma pessoa correndo pela neve. Mas logo, a lei de Murphy se alia à lei do atrito, e Aelita cai, se apoiando num Jeremie desavisado.

A: Ah…! /Ela se levanta, se apoiando no pescoço dele/ Bom dia… /Os dois se beijam./ Dormiu bem?

J: Na medida do possível. Trouxe o projeto? /Ele olha pra garota tentando se manter em pé, a segurando pela mão pra ajudar no apoio./

A: Trouxe sim.

J: Tem certeza?

Aelita nunca foi a pessoa mais organizada do mundo, e ela mesma admitia isso. As chances de ela ter confundido os pen drives e, digamos, pegado o com as composições que ela fazia nas horas vagas eram bem reais.

A: Dessa vez, tenho… /Ela procura na bolsa, e pega um pen drive verde transparente, um que revela os circuitos dentro dele através do plástico que os protege. Ela entrega o drive a Jeremie./ Aqui.

Ele olha pro drive, e o enfia no bolso do casaco. Pelo menos por ora, tudo parecia seguro. Ele só saberia depois que ele visse o coordenador do projeto abrindo o pen drive e vendo que não tem músicas lotando ele — dessa vez, como a própria Aelita disse.

Então, os dois se dirigem à sala do professor que coordenava o projeto, um homem com uma cara que era melhor definida como uma caricatura de um homem francês. No caminho, Jeremie levanta um assunto mais delicado.

J: Você ficou sabendo? /Aelita olha pra ele, curiosa./ A fábrica foi demolida.

A: Eu sei, ne… /Ela olha com olhar saudosista./ Isso já faz uns bons meses, na verdade. Por que você ta falando disso agora?

Digamos que o namoro de Jeremie e Aelita começou como um namoro virtual. Cada um de um lado da tela: ele do lado de fora, e ela do lado de dentro. Literalmente. Foi no ginásio, quando numa escapada da escola, Jeremie a encontrou presa num supercomputador na tal fábrica. A partir desse dia, foi um ano pra tirar ela de dentro do computador, e mais sabe Deus quanto tempo pra se livrar do outro ser que estava lá dentro; um vírus multi-agente chamado XANA. E com esse tempo vieram memórias boas, ruins, divertidas, trágicas… Saber que o local que começou a história dos dois agora é uma pilha de entulho — se ainda for uma pilha de entulho, e ele não tiver ido pra reciclagem — é doloroso, por mais que alguns momentos que se passaram naquele lugar tenham sido tão dolorosos quanto.

J: Finalmente abriram a área pra visitação pública. Abriram um parque no lugar. E eu tava pensando, talvez pudéssemos ir lá, na hora do almoço… Ou depois da aula, aí teríamos mais tempo pra aproveitar lá. O que acha?

A: Eu não sei… /Aelita tinha memórias especialmente dolorosas da fábrica. Memórias que ela mal havia superado./ Eu não sei se eu to pronta pra ver que nada da nossa história lá existe mais…

J: /Põe uma mão no ombro dela/ Mas nós estamos aqui. Tem sim algo da nossa história que sobreviveu: a gente. /Ele a beija devagar, e a puxa pra sala do professor/ Vamos, estamos atrasados.



/Sala do coordenador do projeto

Aelita entra na sala um pouco apática, por causa da conversa de segundos antes. O professor pede que os dois se sentem, ao que eles obedecem.

Professor: Então, trouxeram o projeto, como o combinado?

J: Sim, trouxemos. /Jeremie entrega o pen drive pro professor./ Passamos noites fazendo isso, então ainda ta meio bruto, mas vamos dar um jeito nisso até a apresentação final.

Professor: É assim mesmo. /Ele diz, complacentemente./ Vejam pelo lado bom, vocês são alunos. A reitoria e a imprensa vão pegar leve com vocês, se alguma coisa der errado, afinal, vocês são alunos. Vocês não deveriam fazer tudo perfeito, não é obrigação de vocês. Agora, pra mim que sou professor…

A: Calma, professor. Tudo vai dar certo. Esse projeto vai ser o sucesso dessa universidade, você vai ver.

Professor: Aelita, sempre confiante… Só espero que não tenham só músicas nesse pen drive, como da última vez. /Ele diz, rindo./ De qualquer modo, eu não chamei vocês aqui pra isso. Tem algo que eu preciso falar com vocês do projeto.

Se Jeremie e Aelita fossem gatos, eles teriam levantado as orelhas como se tivessem aberto uma lata de atum perto deles.

J: Algum problema?

Professor: Não é um problema, mas é algo que eu deveria ter mencionado antes. /Ele apoia os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos das mãos em frente ao seu rosto./ Sabem, esse projeto é uma colaboração internacional da universidade.

A: /o interrompendo/ Quer dizer que vamos ter que viajar?

Professor: Não. Não vocês, pelo menos. Acontece que… /É difícil saber se a pausa foi propositalmente dramática ou não./ Vem um aluno de uma universidade no exterior pra trabalhar no projeto com vocês. Ele tem projetos geniais, e eu acho que juntos, vocês podem criar algo além dos limites do que a universidade oferece.

Ótimo, conhecer alguém novo de vez em quando faz bem. Pelo menos quando não se é averso a contato humano, como o Jeremie.

J: Quando ele vem?

Professor: Ele chega hoje, mas eu vou apresentar ele a vocês amanhã. Ele precisa se instalar na universidade primeiro, vocês sabem como é.

J: Tudo bem… /Ele e Aelita se levantam pra sair./ Mais algo?

Professor: Não, amanhã eu passo o resto do que eu devo passar. Vocês tem aula agora, não tem?

A: Temos sim.

Professor: Então vão. Boa aula.



/Corredor do instituto de tecnologia, em frente a uma vending machine

A: Como você acha que ele é?

Jeremie estava meio avoado, mas a pergunta de Aelita, que se abaixava para pegar um petisco na máquina, o trouxe de volta à Terra.

J: Eu não faço a menor ideia. O professor nem falou de onde ele vem. Nem mesmo o nome dele. Será que faz parte do projeto, que a gente não saiba?

Aelita dá de ombros, se levantando.

A: Talvez ele só ache melhor falar isso tudo na hora de apresentar ele pra gente. Afinal, que diferença faz a gente saber disso agora?

J: É verdade. Bem, vamos pra aula, temos coisas a fazer. Acho que tem prova hoje, ne?

De novo, Aelita dá de ombros.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentem, s'il vous plaît.