Relicário Infernal

4 Eu não vou a lugar nenhum


Notas iniciais

Seus olhos correram para o holofote de onde o garoto moreno estava. Ele não estava mais lá. Nicole sentiu desespero. Tanto desespero que estava em choque e não percebeu quando uma mão puxou seu braço.

Era o garoto moreno, ele pegou Felipe com tanta facilidade que era como se salvasse garotos feridos por demônios todos os dias. Um táxi estava parado na rua de frente para a calçada. O garoto moreno colocou Felipe dentro do táxi e pôs Nicole depois.

Ela estava tão estática que não sabia o que fazer. Apenas acenou um obrigada para o garoto que sorriu para ela. E ela viu que ele tinha um canino quebrado. Nicole, já visível narrou o endereço para o motorista e prometeu uma boa gorjeta se ele ignorasse os sinais de trânsito e fosse expresso.

E assim foi. Chegaram em poucos minutos ao Insituto. Felipe era pesado, Nicole se perguntou como o garoto poderia ter pego ele com tanta facilidade. Mas isso não importava agora, ela precisava salvar Felipe. Apoio os braços do amigos nos ombro e meio andando meio se empurrando entrou no Instituto.

Justine que já havia chegado e estava esperando pelos dois na entrada correu da direção de Felipe e Nicole, e a ajudou a carregá-lo para a enfermaria. A expressão em seu rosto era equilibrada como se já tivesse visto isso milhares de vezes, o que é bem provável que tenha visto.

–Fique calma. Vou chamar Eleonor. Faça iratze nele. E chame Maria para trazer toalhas e tudo que vamos precisar para manter a temperatura.

Nicole estava tão chocada que apenas concordou e fez uma iratze com a estela no braço de Felipe, e mais ums, e mais duas. Correu pelo corredor gritando por Maria que apareceu morta de preocupação e de camisola.

–Maria preciso de toalhas... Felipe.... por favor. -as palavras saiam cortadas da boca de Nicole. Não era momento para fraqueza, ela tinha que estar controlada para poder ajuda-lo.

Maria mais que depressa voltou pelo corredor com as mãos cheias de toalhas brancas e as duas foram apressadas para a enfermaria onde estava Felipe.

Seus lábios estavam roxos, estava muito pálido, soava e tremia. Maria com os olhos cheios de água molhava a toalha em água morna e passava pela cabeça de Felipe. Nicole fazia o mesmo com instruções de Maria.

Estavam ganhando tempo para Justine encontrar a feiticeira Eleonor. Mordidas, ferimentos, cortes ou qualquer outra coisa vinda de demônios eram fatais. Tinham que ser tratadas o mais rápido possível.

Nicole desenhava iratze no braço de Felipe. Já tinha desenhado tantas. Suas lágrimas eram quentes e pingavam onde ela desenhava. Perder Felipe.. não, ela não podia. Ele iria ficar bem. Era inimaginável uma vida sem ele ao lado dela, a fazendo rir, a fazendo sentir que tem uma família e alguém para contar.

Nicole não sabia quanto tempo estavam ali desde que Justine havia saído. Era como se o tempo estivesse parado naquele instante para ela, e só descongelou quando Justine atravessou a porta com uma mulher alta e magra. Sua pele era rosa claro; sua marca demoníaca. Seus cabelos curtos de cor branco nuvem. Seus olhos eram cinzas. Completamente cinzas, íris, pupila.

–Afastem-se, por favor. -sua voz era rígida.

Maria se afastou fazendo orações, sua orações de boa cristã. Nicole se encolheu na cadeira ao lado da cama. Não estava frio, mas ela o sentia. O medo, o medo era frio.

A mulher começou a dizer palavras em uma língua muito antiga e desconhecida para Nicole, e dos seus dedos fumaça cinza evaporava e rodeava o corpo de Felipe, imóvel e respirando com dificuldade.

–Preciso que saiam do quarto. Agora. -ela dizia de olhos fechados.

–Eu não vou deixa-lo. -Nicole disse em tom feroz.

–Não se preocupe bonitinha, não vou machucar seu namorado. -A feiticeira, Eleonor, disse mesmo de olhos fechados.

–Vem Nicole, você precisa de uma iratze também. Eu cuido disso. -o olhar de Justine era sério, Nicole não acreditou em como ela estava tão tranquila naquela situação.

Relutante, Nicole deixou a cadeira com um chute rude. Mas a feitiçeira nem demonstrou outro comportamento além de repetir as mesmas palavras.

Maria disse que precisava fazer um chá. E Justine pediu que a seguisse para a biblioteca do Instituto; depois da sala de treinamentos era o maior comodo do Instituto. Com todos os livros que se pode querer ler.
Justine pediu que Nicole se sentasse. As lágrimas no rosto de Nicole secaram e ela fitava Justine como se a tivesse acusando de ter abandonado Felipe daquela maneira.

–Não precisa ter raiva Nicole. Não é o que você está pensando. -Justine estava recostada na mesa de frente para Nicole.

–Você não faz a menor ideia do que eu estou pensando. -e era verdade.

–Tem razão. Não sei. Mas você está preocupada, acha que eu nunca passei por isso?

–Você deixou ele sozinho com ela. Como sabemos que podemos confiar nela? -Sua voz tinha tom ignorante, mas isso não importava agora

–Não sabemos. Mas temos opção melhor? -Nicole ficou em silêncio, e Justine continuou- Eleonor já prestou serviços para Tânia, e alguns para a Clave. Ela não perderia o juizo em fazer qualquer coisa com um caçador das sombras.

Era verdade, pelo menos Nicole esperava que fosse.

–Ele vai ficar bem Nicole. Felipe é um adulto e principalmente um caçador das sombras. -sua voz continuava em um tom equilibrado, seu rosto não tinha nenhuma expressão que fosse legível para Nicole.

–Você não se importa mesmo. -Nicole disse tão baixo que pensou que Justine não fosse escutar.

–Você pensa que não me importo com vocês? -agora seu tom parecia quase ferido- Vocês não tem noção de como me importo. Você, graças ao Anjo, não passou pelo que eu passei Nicole...

Ela não completou a frase. Dizia palavras em uma outra língua. Talvez algo que a acalmasse.

Nicole não iria pedir desculpas por ter dito a verdade. Mas ficou incomodada com a resposta de Justine. Seu passado era tão misterioso. Era impossível ter acesso a ele.

–Hoje, acho que hoje foi uma armadilha. Doze demônios, talvez mais, nos atacaram. -Nicole disse fitando o chão.

Justine parou de dizer suas palavras em outro idioma e fitou seu olhar em Nicole, um sinal para que continuasse.

–Eu não tenho certeza, mas... os demônios sabiam exatamente onde estávamos, em quanto estávamos e a hora de aparecer. -ela fitou suas botas- Você acha que estavam nos procurando?

Justine analisou o que ela havia dito.

–Eu não sei. Pode ser que sim. Uma emboscada... mas como sabiam onde iriam?

–Só se... Você acha que estão nos vigiando?

–Creio que sim. Demônios imigrando para cá, perseguindo vocês. O que pelo Anjo, pode ser?

Parecia um quebra cabeça para Justine. E estava faltando muitas peças ainda.

–Você descobriu alguma coisa hoje? -Nicole perguntou.

–Nada de importante. Apenas que os números de demônios começou a crescer a quase um mês. Vieram em pequenos grupos, foram espertos. Para nós não percebemos. E agora pararam de tomar cuidados.

–Você acha que pode ser de propósito?

–Sim. Talvez pensem que estão fortes demais para nós. -ela fez uma pausa e olhou fixamente para Nicole, se preparando para o que iria dizer- O que esta para acontecer, eu não sei Nicole. Mas sei que é algo grande. Algo grande está para acontecer.

Nicole apenas assentiu com a cabeça. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Ela nem ouviu Eleonor; a feiticeira, entrando no quarto.

–Ele está se recuperando. Extrai o veneno do demônio. Vai dormir bastante. Talvez alguns dias. Mas logo estará saudável de novo.

Nicole podia sentir o medo se dissipar de seu corpo. Mas ela queria ve-lo acordado agora,mas teria que ser paciente e esperar.

–Obrigada Eleonor. -Justine disse.

–Desponha. Não se esqueça que estou sendo paga. -ela balançou um envelope que estava em suas mãos e sorriu- Qualquer coisa me chamem. Sabem onde me encontrar.

E então se retirou do quarto, seus curtos cabelos brancos balançavam mesmo sem vento.

–Nicole, vá para seu quarto. Pode ir descansar. Teve uma noite longa. Amanhã vai estar melhor.

–Mas, Lipe. Eu preciso ficar do seu lado.

–Não, você precisa descansar. Preciso de sua ajuda amanhã.

Nicole concordou com a cabeça, era verdade ela sabia. Com Felipe ferido restavam apenas as duas para caçar os demônios. E ainda precisava pensar no garoto moreno que a ajudou com o holofote, e pôs Felipe no carro. Ele salvou a vida de Felipe mesmo sem saber. E ela nem agradeceu direito, nem sabia seu nome.

–Justine, hoje quando estávamos em combate. Uma garoto me ajudou a virar os holofotes -ela se lembrou da imagem- E ele sabia onde estavam os demônios. E também nós viu. Mesmo com as runas. Ele salvou Felipe.

Justine franziu as sobrancelhas, também devia ser uma surpresa para ela.

–Não pode ser um mundano. Você viu alguma marca de demônio nele?

–Não. Era comum, como um mundano.

–E runas, viu runas?

–Foi muito rápido, eu não prestei muita atenção. Mas acho que seus braços eram lisos.

Ela não se lembrava bem do garoto. Apenas os braços que carregaram Felipe. E uma pulseira. Nem do rosto ela se lembrava direito.

–Vou me informar sobre isso. Se ele ajudou. Precisamos de todo o reforço.

Nicole assentiu com a cabeça e saiu do quarto. Enquanto caminhava pelo corredor largo e longo do Instituto. Ela parou em frente a porta da enfermaria.

É óbvio que ela não iria deixa-lo. E se ele acordasse de madrugada? Alguém tinha que estar ali.

Nicole olhou para a porta da biblioteca no final do longo corredor, Justine ainda não havia saído. Então ela entrou na enfermaria.

Felipe estava com um semblante melhor, seus lábios já tinham cor. Ainda estava pálido, mas não suava mais. Ela puxou a cadeira que havia chutado para perto da cama e se sentou.

Sua mão estava morna, ela segurou com o calor da sua, e beijou delicadamente a mão de Felipe. Uma lágrima rolou por seu rosto e molhou a mão dele.

–Está tudo bem agora Lipe, eu não vou a lugar algum.

Notas finais
Comentem, por favor :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.