Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
13 Todo fim é uma surpresa
Finalmente era a última semana de aula, não suportava mais aquela sala. Misteriosamente, alguém descobriu que eu era gay e espalhou para o colégio todo... Tipo, todo mesmo, até as crianças da tarde sabiam. O rádio corredor funciona até o último dia de aula e durante as provas, aparentemente. Devido a isso, todos me olhavam de uma forma mais rigorosa, como se esperassem um surto escandaloso em que eu afinaria a voz e jogaria um salto alto na cabeça de alguém. Amores meus, no mínimo seria uma frigideira na cabeça de vocês, é para machucar mesmo.
Deixando a violência que nunca praticarei de lado, contei para quem me interessava e quem convivia comigo, alguns aceitaram, outros toleravam. O pessoal do cursinho se aproximou mais do meu grupo, para ódio do resto da sala que tinha muito aversão a eles. Adolescentes agindo como crianças, conte-me uma novidade. Além disso, eu me perdia na contagem de quantas vezes eu fui falar com a diretora, coordenadora ou sabe sei lá quem que comandava aquela bagunça de escola sobre mim.
—A única opção aqui foi a minha em querer me amar mais e deixar de sofrer por uma dúvida que me mantinha asfixiado por não ter apoio. Agora, se está falando da minha orientação, conversa com God porque foi ele que me mandou assim.
De resto, o mundo girava e as provas corriam. Amém que meu pai não apareceu na escola para nada, estava de férias até agosto para começar ativamente na outra escola, onde eu começaria a estudar também. O pior era na sala de aula com aquele povo irritante me provocando do início ao fim. É assim que se inicia o bullying, eles arranjam pelo em ovo para te provocarem. Minhas notas, por incrível que pareça, estavam melhores do que antes. Eu também me esforcei mais para chegar a outra escolha com um histórico bonito.
—Nossa, um 10 em biologia. Preciso correndo contar ao meu pai que consegui um dez sem o privilégio de ser filho de professor. – Viktor, coitado, não tirava mais que cinco em nenhuma prova, eu o ajudaria se não fosse a implicância dele comigo por tirar notas mais altas.
Sobre minha mudança de escola, pouco sabiam, nenhum professor nem funcionários, outros também sairiam do colégio, não por influência minhas, mas pela convivência ácida que o ambiente proporcionara. O último dia aula rolava de forma lenta, como se o tempo prosperasse de forma errada conosco. Naquele dia, como forma de comemoração, iríamos fazer uma festa na casa de Larissa, cuja edícula vizinha, também do pai, terminara naquela semana e queria estrear com a gente.
—Como será a cara do pessoal quando souber que você mudará de escola?
—Não sei, talvez caguem para isso.
—É certeza que não se importarão, só procurarão outro alvo para importunarem. – O pessoal que ficaria parecia triste. Claro, ficariam de lado em minha vida, vulgo essa narrativa, entretanto, não achei que seria somente por minha causa. Nossa amizade não era tão antiga, recentemente completaríamos dois anos de amizade.
—O pior é aguentar aquele povo.
—Será que algum deles sairá nesse meio de semestre?
—Que seja a Rubia, em nome de Deus. Não suporto mais aquela pessoa. Ela e o ego não cabem no mesmo lugar.
—O que tem o meu ego?
—Falando no diabo. – Ela surgiu por trás da gente de uma forma tão furtiva, aparenta estar nos espionando. O semblante dela ao chama-la de "diabo", por causa do ditado popular, ficou enrijecido com um ar de raiva. – O que quer, cara pessoa?
—Isso mesmo, me chame de "cara" porque sou muito rica.
—Então por que não pega seu dinheiro e some, criatura? Não basta termos que te aturar na sala de aula, temos que olhar para essa sua cara de dor de barriga aqui também? – Larissa, claramente, estava sem paciência alguma naquele momento. E, claro, sem o filtro de pensamento, muito importante nos dias de hoje. Obviamente, não gostou nem um pouco do comentário.
—Ah, esses meros mortais sem cultura nenhuma para debater em alto estilo com minha pessoa?
—Quer cultura? Então terá cultura! – Larissa levantou e foi na direção dela. Simplesmente pausamos no ar esperando a cultura vir em forma de tapa. – Por obséquio, utilize os seus membros inferiores e retorne para seu aglomerado de amizades peçonhentas, para que não tenhamos momentos vagarosos e entediantes com a sua presença importuna conosco nesse período vespertino. – Rubia não sabia onde enfiar o rosto, ainda mais que queria rir. – Muito culto para você, meu bem? Vem aqui torrar as nossas paciências e quer paciência? Pega esse seu ego e vai para aquele ninho de najas que você chama de amigos. Só quero ver no instante em que precisar deles, vão todos virar as costas e, certamente, virá atrás da gente porque está desolada no meio do nada. Garota, se toca um pouco que você não é tudo isso. Pare de olhar no meio do seu umbigo que ele só tem sujeira e nada mais que isso.
Agora eu tinha certeza que rolaria briga, contudo, um inspetor apareceu, convenientemente depois da fala de Larissa e antes de Rubia responder com o soco que preparava em suas mãos. Certamente, Larissa não sentiu medo algum em colocar a linda cútis em jogo para sair de lá com a marca dos ossos da mão da garota. Ela, portanto, se virou e tornou a sentar conosco, deixando a menina nutrindo aquilo que acabara de ouvir. Ao sair, permaneceu firme, como se nada tivesse ocorrido.
—Pergunta, ela sofre algum tipo de problema em casa? O pai a violenta? A mãe morreu e a madrasta é um carrasco?
—Ishi, a vida dela tem mais mordomias que nós todos juntos. O pai e a mãe são sossegados até certo ponto, mas são iguais a ela. E não precisa sentir remorso do que falou, ela precisava ouvir umas verdades. – Um garoto, Júlio, do cursinho que comentou com a gente. Ele e a turma do extensivo jogavam ping-pong na mesa próxima de onde a nossa rodinha ficava. Por fim, o sinal soou.
—Vamos? É a última prova. Depois, férias! – O eco dessa frase era o que nos inspirava a sairmos dali e irmos à sala de aula. Alguns chamavam Larissa para repetir o que falara a Rubia para todos os amigos dela, visto que tinha aparecido sozinha no pátio de baixo.
—E eu tenho cara de papagaio para repetir o que eu falei antes?
—Então está com medo porque estamos em maior número?
—Não, estou sendo consciente porque o professor já está na sala de aula e com o pacote em mãos. Se eu fosse vocês, agiria da mesma forma, pois estamos terminando o semestre e os queridinhos estão pendurados em nota, e olha que temos mais dois bimestres pela frente. Contudo, se querem continuar pagando esse King Kong no meio de todos, continuem a agir como uns seres sem juízo como vocês têm agido. – Eu senti a ferida sendo aberta, ela foi sincera até demais, fiquei com muita vergonha alheia deles.
—Peguei pesado, né? – Larissa viu a gente confirmando com a cabeça.
—Com a Rubia, também achei, mas sei lá. Ela tem falado cada coisa para a gente que não sei se vale ou não a tirada.
—A mais pura verdade é que somos mais humanos que eles, pensamos antes de falar para não magoar ninguém. Eles não, querem ferir com as palavras. – Depois do que falei, pensei muito, em pé, o que chamou atenção de todo mundo. – Até me arrependi do que eu queria fazer. – E contei de um vídeo que eu vi, de um garoto gritando: "Nunca gostei de ninguém de dessa sala, que todos se...". Precisei parar porque o professor apareceu na porta, pedindo que arrumássemos as carteiras para a prova. A última, de química. Nunca estudei tanto ácido, base, sal e óxido como estudei daquela vez, basicamente gabaritaria a prova.
O professor, muito do bondoso, para não dizer preguiçoso, fez seis questões de múltipla escolha e quatro discursivas, colocando um espaço, uma espécie de retângulo vazio, para colocar as respostas, além de um informe que, se a resposta não estivesse transcrita ali, ele zeraria a questão. Facilitou a vida dele da hora da correção, ainda mais que tínhamos duas aulas seguidas e a última, por bondade divina, iríamos embora, pois o professor saiu e não tinham um professor substituto, vulgo, meu pai (Aliás, eu me perdi nas aulas de educação física de tanto que ele ia substituir alguém e não tinha horário fixo).
Conforme terminávamos as provas, ele já pegava, em ordem de chegada, e as corrigia rapidamente, dando a nota. Como esperado, eu e meu grupo gabaritamos e os demais ficaram naquele intervalo de cinco a oito, nem amais, nem amenos. Muitos, não mencionarei quem, falaram que colamos, mesmo com o professor sentado na carteira ao nosso lado e vendo se não colaríamos mesmo, pois já fomos acusados disso.
No final da quinta e última aula, faltando dez minutos, o professor decidiu, gentilmente, liberar os alunos pouco a pouco, dependendo de quem fez silêncio nas aulas. Meu grupo, aquele considerado o mais falante quando o professor não passava matéria, ficou em silêncio, ou lendo seus livros, ou lixando suas unhas, ou cortando as pontas duplas do cabelo, ou desenhando em seus cadernos, ou dormindo, também. Portanto, fomos os primeiros a sair. Somente o pai de Larissa e o meu nos buscariam, pois faríamos carona para a edícula. Antes de eu sair, a minha vergonha foi junto com meu material e virei para a sala.
—Meus queridos colegas de turma, eu sei que foi um semestre difícil, vocês me fizeram quase ficar louco. Mas, conheci gente nova, muito boas e amigáveis. Agora, acabando com os rumores sobre a minha pessoa. Sim, sou gay para os ridículos aí do fundo que ficam só na fofoca, sou um CDF sim, minhas notas estão aí. Agora, para aqueles que me odeiam, como vou sair e não os verei mais nessa escola, quero todos vão a merda! Ah, e boas férias para quem merece, beijos! – O professor ficou com a cara no chão, nem reagia direito, só tenho certeza que gostaria de rir. A coordenadora também, pois ela ouviu meu discurso, e não sei como os funcionários da tesouraria não espalharam que eu sairia. O pessoal, porém, riam e estavam radiantes com o que eu fiz. – Acho que o recado foi dado.
—E se ligarem para seu pai?
—Por que ligariam para mim? – Meu pai surgiu do nada com uns papéis em mãos. Eu notei ser o papel da minha transferência.
—Vou me mudar de escola, então?
—Vai sim, você está, basicamente, fora daqui. Só falta o histórico que eu buscarei assim que estiver pronto. E por que a escola me ligaria?
—Ah, talvez eu falei um pouco amais do que devia, sabe. Teve um pessoal que falou o que queria, mas escutaram o que não queria, então, fui justo. – Ele não esboçou reação, assim como sempre fez. O pai de Larissa já nos esperava do lado de fora, nos arrumamos nos carros e partimos para a edícula.
—E como foi o último dia de aula?
—Foi melhor do que imaginávamos.
Já estávamos na edícula, Isaías e Débora cuidavam da churrasqueira enquanto o pessoal ficava na piscina. Ele disse não curtir piscina, mesmo desfilando de sunga e camiseta para cima e para baixo. Débora, coitada, estava menstruada e não queria arriscar a ir para a piscina, entretanto, fez questão de colocar seu biquíni e ir na ducha momento sim e outro também.
—E se ela usar OB?
—Ah, sei lá, ela diz que não gosta.
Enquanto uns ficavam em um canto mais sossegados, como eu por exemplo, um pessoal jogava vôlei aquático. Larissa e seu pai colocaram uma rede. Depois de um dia quase todo tomando sol, na piscina, comendo e bebendo, sem álcool é claro, além de termos que buscar sorvete umas três vezes, porque tinha acabado, sentamos no chão, vendo o sol se pôr no horizonte que dava o fundo da casa, ainda mais que tinha um sobrado acima da edícula. Tudo estava calmo, a vida dava dessas de vez em quando, somente para podermos ficar mais alegres e aguentarmos os desafios da vida.
Conversávamos sobre tudo, de como não perderíamos contato e afins. Isaías mudaria de cidade devido ao trabalho do pai, era militar. Luca continuaria na escola, entretanto, conversava com os pais para sair de lá, precisava de novos ares, estudava ali desde quando entrou na vida escolar, com quatro anos. Larissa, Débora e Rafael também terminariam somente esse ano, pois ano que vem decidiram que ali o ambiente era contrário ao que esperavam, a toxidade do ar era fatal. De resto, era somente esses que mais afirmavam presença contínua em minha vida.
—Quem sabe a gente não se encontra de novo.
—Temos as férias todas para isso. Só avisem com antecedência, convencer o meu pai a me dar dinheiro é um processo longo.
—E quando você vai?
—Acho que daqui duas semanas.
—Meu pai disse que liberaria aqui para mim mais duas vezes antes de colocar para alugar aos fins de semana. Posso ver com ele se dá para fazer uma noite da pizza ou uma fogueira aqui em cima.
—Mas está muito quente para uma fogueira, estamos no inverno, mas aqui é seco demais, fora que frio não existe.
—Vamos aproveitar um dia em que a temperatura caia um pouco. – Concordamos. Por um instante, somente um leve instante, ficamos em silencio, encarando o pôr do sol, colorindo o céu já com estrelas e lua alto na imensidão alaranjada. – Aqui não é tão pacífico?
—Depois de um semestre desses, qualquer silêncio é uma dádiva.
—Vamos parar com essa viagem de filosofar que não estou a fim. – O silêncio voltou, mas já disse adeus. – Ah, quem peidou? 'Tá' podre, meu?
No final, a risada sempre foi nosso remédio.
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