Não sei para vocês, mas eu estava ansioso para a festa junina. Parte de mim queria ficar em casa e me empanturrar de doces, mas meu pai trabalharia no dia, minha irmã também dançaria e minha mãe queria ver, além de que minha vontade por pastel estava grande. Bom, o dia estava bem, a roupa para a festa era aquela coisa totalmente inovadora de jeans, camisa xadrez e um bota, eu usei tênis porque não tinha uma e não gastaria dinheiro com algo que eu usaria uma vez e olha lá.

Enquanto eu conversava com o pessoal sobre os preparativos da dança, o pessoal do terceiro ano passava gritando e prendendo o pessoal na cadeia do amor, com a estrita regra de prender somente quem tem acima de dez anos (Vários pais reclamaram quando os filhos de nove anos foram presos no ano anterior), além do pessoal do nono ano jogando confetes sobre o pessoal que recebia correio elegante.

Eu, como uma boa pessoa que sabia aproveitar festas juninas e com muita fome, fui até a barraca do pastel com Larissa, Débora e Luca, pois o resto nem sinal de vida tinha dado. Demorou cerca de dez minutos até sermos atendido, pedi um de pizza, praticamente presento, queijo, orégano e uma rodela de tomate, os demais pediram de queijo.

—Pastel de chocolate? Deve ser um negócio doce!

—Minha irmã disse que é bom. – Comentei para eles no caminho até o lado do palco, pois era lá que ficamos toda a noite, sendo que já eram quase nove da noite e nada do nono ano dançar. A decoração do lugar tinha conceitos básicos, como bandeirinhas por todos os lados, tendas coloridas que eram as barracas de alimento, porém, tinha algumas inovações, como espantalhos, cartolas (que pareciam pipas de pano e longas rabiolas de fitilhos), além de muitos chapéus de palha e peneiras todas decoradas com flores de papel crepom.

—Por que o pessoal do nono ano ainda não dançou?

—Não é o pessoal do nono, é do oitavo. – Terminei de comer o pastel totalmente sujo de óleo. Ainda bem que era próximo ao banheiro a lateral do palco. O pessoal me esperou do lado de fora. – Meu pai desconfia de que estão enrolando para um pessoal chegar. E o pessoal do nono vai dançar com o terceiro.

—Ué, por quê?

—Meia dúzia de uma sala com mais sete de uma dá em uma dança com mais gente do que todo mundo separado.

—Por que, em um ano de quadrilha maluca, eles não dançam?

—Nossa, um rolo pior que o outro. Nem é bom comentar. – Quando menos esperávamos, anunciaram a dança do oitavo com o sexto e sétimo ano. Com um total de vinte pessoal no palco relativamente grande, a dança era inspirada em uma coreografia da região norte, Carimbó era o nome.

—Queria entender ainda o motivo de poucos participarem das danças. Não recebemos ponto em todas as matérias? – Confirmei. – Então, esse povo que não dança deve estar todo pendurado em nota.

—Não sei, pode ser que sim ou não.

—Ah, na nossa sala, todos que dançam não precisam da nota. Claro, eu preciso de um ponto em física, porque né, ô matéria chata.

A dança do pessoal terminou, a nossa seria em seguida. Como estávamos próximos ao palco, já nos posicionamos ali mesmo, esperando somente o aviso para nos arrumarmos. A nossa dança seria temática igual à outra, contudo, alguns reclamaram da complexidade da dança, pois eram todos preguiçosos em querer fazer passos mais complexos, e bonitos, aliás.

—Cadê o pessoal?

—Devem estar lá fora, e não vou chama-los. Sabem que a nossa dança poderia ser a qualquer momento. – Esperamos cerca de dez minutos e nada do pessoal aparecer, o pessoal do segundo ano, dito como os mais irresponsáveis, já estavam preparados. Todos nós conversávamos, afinal, seria uma traição terrível ao código imaginário da minha sala para convívio com outras salas. – Mas que inferno, esse povo vai aparecer ou está difícil?

No fundo do salão, eles caminhavam com passos lentos, todos bem alegrinhos, aliás. Entretanto, assim que os chamaram mais uma vez, além de uma bronca ao vivo pela demora, a carranca foi enorme e o bico deles fazia curva na esquina.

—Eles não estão errados? – Uma menina do segundo ano resmungou para mim, que concordei sem balançar muito a cabeça. – Ué, então tirem essa cara feia do rosto. – Falou para uma das meninas que se aproximava. Rubia apareceu na festa para nos prestigiar, seguindo as palavras dela.

Esperamos mais dois minutos até arrumarem o som e colocarem a música. Com o nervosismo exalando pelos meus poros, visto que eu fiquei diante de toda a plateia, e não escondido no fundo como eu queria, a dança correu de forma rápida, tanto que quando acabou, nos olhamos um para o outro e ficamos: "Mas já?".

Depois da dança, ficamos do lado do palco, pois seria a dança do terceiro com o nono, precisariam esperar mais um pouco, pois precisariam fechar a cadeia do amor e entregar todos os correios elegantes. O namorado de Débora pegou pastel para a gente enquanto dançávamos, só entregamos o dinheiro antes para ele. Para sanar nossas dúvidas, pegamos um pastel amais, de chocolate. Assim, não era tão doce quanto esperávamos, e era bom, parecia creme de avelã no meio.

Do nada, um monte de confete caiu em cima da gente. Eu me afastei um pouco de Larissa e de Débora, pois eu tinha certeza de que o correio elegante era para alguma das duas. Porém, um garoto do nono ano se virou para mim e entregou dois coraçõezinhos vermelhos. Depois, todos se viraram e foram embora.

—Nossa, Jão, recebeu dois!

—Dois falsos, você quer dizer!

—Nossa, que pessimismo! Por que você fala que é falso?

—Mores, quem mandaria isso para mim? Quem gastaria dinheiro com isso apenas porque gosta de mim? – Nisso, uma menina do nono ano estava perto da gente e ouviu a conversa toda. Ela pegou o celular de forma tão desesperada que o aparelho caiu no chão e escorregou até o pé de Larissa, cuja atitude foi pegar para devolver. Só não contávamos com ela olhando a tela, bem trincada, e vendo uma conversa com Rubia.

"Vocês vão mesmo zoar com o filho do Rodrigo?"

"Claro, ele vai acreditar em tudo"

"Não quero problema para a minha sala, ouviu?"

"Pode deixar, ele nem vai imaginar."

—Lindinha, venha cá. – A menina do nono parecia uma estátua, nem se movia direito. – Eu quero um print dessa conversa.

—Po-po-por quê?

—Por nada, eu só quero usar isso e esfregar na cara daquela garota!

—Larissa, pode se acalmar, deixa disso, é normal.

—Normal vai ser a cara daquela criatura assim que eu arrancar os cabelos dela no tapa.

—Sem violência, Lá, vai sobrar para você!

—Agora, o print dessa conversa. – As duas fizeram a troca de imagens, além de algumas edições para não identificarem quem era a menina do nono. – Por fim, vou resolver isso com aquela morfética e fazê-la engolir a própria língua.

—Você sabe o que significa "Morfética"?

—Não faço ideia, achei uma palavra boa para xingar.

—Ai, São Pedro, dai-me forças! – Corremos o lugar inteiro atrás do pessoal, nenhum sinal deles, rumores de umas crianças irmãs do pessoal do terceiro era de que todos já foram embora, logo após o término da nossa dança. – Viu? Corremos como uns inconsequentes por nada!

—Por nada? Olha para aquilo. – O último correio elegante era entregue para a professora de filosofia e o olhar dela não era um do mais amigáveis, tinha muitas lágrimas no olhar, além de muita raiva em sua fala para outra professora. – Estou sentindo que muita merda foi feita nesse correio elegante. Profe, o que aconteceu? – Ela deixou cair o coração de papel e vimos a seguinte mensagem: "Professora de lixo, merece ser demitida, pode morrer!". – Ora, ora, será que essa letra não é igual ao seu correio. – Pegamos os dois papéis e comparamos as letras, não eram idênticas, mas muito semelhantes. – Profe, vai falar com a direção, eles tomarão as devidas providências. – A professora saiu de perto da gente, ainda chorando, com passos tortos e atordoados, e seguiu até a mesa em que a direção e a coordenação estavam. Ao escutarem a história, ficaram abismados. Levamos o papel para elas.

—Você também não vai mostrar o seu?

—Já falei, não precisam se preocupar com isso. – Nisso, a coordenadora se aproximou de mim e pediu os dois cartõezinhos, eu os mostrei. – Gente, o meu caso é apenas zoação, o da professora é bem pior. – Ela, não sei por qual motivo, pegou somente aquele com a letra semelhante ao da professora, talvez uma forma de revelar que a mesma pessoa fez isso com mais de uma pessoa, alunos e professores.

—Pode ser a letra de alguém do nono ano, eles mesmos podem ter escrito isso, assim explica a mesma caligrafia. – Meu olhar estava longe, nem prestava atenção. – Pedro!

—Oi?

—O que você vai fazer com esse outro? – Perto de onde estávamos, colocaram uma fogueira de verdade para decorar ainda mais o local. As chamas bailavam e brilhavam em nosso olhar perante a noite nada estrelada, lotada de nuvens escuras cobrindo toda a imensidão escura. Eu me aproximei e joguei o papel lá dentro, vendo-o queimar, restando apenas cinzas. – Acho que isso responde a minha pergunta.

Quando voltávamos para dentro, Larissa e Débora viram a caixinha de sapato que o pessoal decorara para carregar o dinheiro, canetas e corações. As duas sorriram.

— Tive uma ideia. – Ambas pegaram cada uma um papel e começaram a escrever sem parar. Nisso, tiraram fotos e postaram nos stories de suas redes sociais; em seguida, me pediram para sorrir e me fizeram segurar os dois papeis, fazendo o mesmo com a foto. – Se aquela criatura vai fazer me amigo de trouxa, eu vou passar a perna nela e parecer que você ganhou mais dois, só que de verdade.

—Larissa, já falei para não se preocupar com isso.

—Mas é claro que eu vou. Amigo é para essas coisas. – Nisso, passou uma menina do terceiro, muito amiga de Larissa. – Miga, você pode ficar assim, João, dessa forma. – Da forma como ficamos, de costas, parecia que estávamos nos beijando. Larissa colocou as minhas mãos na cintura dela e as dela, em meus ombros. – Dé, agora sorria! – E mais uma foto foi para o ar.

—Larissa! Está louca? Você postou isso aonde? – Eu vi a foto, todo estupefato, parecia mesmo que ela estava me beijando, mesmo que estivéssemos muito longe de onde as duas estavam.

—A intenção é fazer parecer que você é mais do que eles imaginam, ainda mais pegando a mais linda do terceiro.

—Você sabe que sou lésbica? – A amiga falou. – Aliás, eu não me importaria em beijá-lo para parecer mais verdadeiro.

—Sim, mas eles não sabem. – E mostrou a foto. – Só quero ver e ouvir as conversinhas segunda-feira.

—Nem ouse faltar, escutou lindinha, você vai me ajudar a sair dessa enrascada que você mesmo me colocou.

—Pode deixar, as aulas serão muito boas daqui em diante.

Toda aquela situação parecia muito divertida, contudo, abriu muitos parênteses em minha mente sobre mim mesmo que fiquei duvidoso, ainda mais do que já havia. Por que eu não gostara daquilo? Tinha sido engraçado. Eu era maduro o suficiente para acreditar que tudo aquilo não era paranoia minha? Eu fui responsável apenas de queimar aquele mero papel que nem significava nada?

—Pedro, venha! O terceiro já vai dançar! – E o som da quadrilha começou, intercalada com várias canções.

—Vai passar mal!

—Muleke Brasileiro!

—Pedro, só se divirta, fará bem para você! – Os meus pensamentos ficavam me atormentando, e eu queria apenas esquecer daquilo tudo e me divertir mesmo.