Relatos do Cotidiano - Parte 3: Velhas Cicatrizes
9 Chamada para dançar
Umas semanas se passaram desde o momento em que a sala decidiu dar um pequeno intervalo na pequena briguinha infantil e voltar para um assunto bem mais importante (essa frase contém ironia, para os menos informados): atormentar o trabalho do meu pai, por consequência, a minha vida. Estávamos em maio e as conversas sobre coreografia da festa junina era um assunto que pipocavam pela escola, ainda mais com as professoras de artes pedindo trabalhos para o fundamental 2 para decorar o lugar. Como todo ano, o terceiro ano do ensino médio e o nono ano dividiriam entre si o correio elegante e a cadeia do amor, cada turma com uma função para arrecadar dinheiro à formatura.
—Nossa, que coreografia bosta que o Rodrigo nos ensinou. – Como era de costume, esses comentários desnecessários eram feitos perto de minha pessoa, que só ignorava com certo fracasso, pois eu sentia que uma veia ou outra ficavam mais em alto relevo em meu pescoço.
—Nossa, Rubia, eu gostei da dança. – Para não variar os costumes, alguém tentou defender o trabalho do meu pai, mas nada adiantava. – E ela me ignorou.
—Nem adianta mais dialogar com eles. Na verdade, nunca foi possível conversar com esse povo.
—Não sei porque você continua aqui. Para mim, você poderia simplesmente mudar de escola.
—Meu pai trabalha aqui e em mais outro lugar, além de que o material daqui é um dos melhores e a mensalidade não é tão cara. – Alguns fizeram uma cara de "Ué, eu entendi bem isso?", mas permaneceram em silêncio. – Eu queria mudar, mas eles querem que eu termine o ensino médio.
—Depois não vai resolver nada, você já terá terminado a escola.
—Mas ainda tem o curso pré-vestibular e eu já sei que precisarei de uns anos. Meu curso é bem concorrido.
—Deixa de ser dramático, João, você passará direto do terceiro.
—Deus te ouça. – Depois do nosso pequeno intervalo ao redor do bebedouro, retornamos para a quadro para mais umas passadas da dança. Eu, modéstia à parte, era um dos melhores dançarinos, consegui aprender facilmente a coreografia. Alguns já eram mais duros, como se dançar fosse um castigo pelo qual eles deveriam passar. Nesse momento, eu ficava um pouco feliz, pois não era excluído pela maioria das pessoas.
Eu notava que a maioria ia por interesse, porém, não era da minha natureza recusar um pedido de ajuda. Muitos meninos queriam estar em meu lugar pelo fato de ter três garotas que pediram para dançar comigo, enquanto uns garotos ficaram chupando o dedão da mão ou roendo as unhas dos dedinhos. Motivo por terem me escolhido? Não sei, apenas ficava feliz por não ser excluído mais um pouco.
E, como era de costume, não havia muitos que escolhiam dançar por livre e espontânea vontade. Se somávamos doze, creio ser muito. Durante os ensaios, eles ficavam no canto deles, rindo por motivos inúteis, que talvez sejam alguns que dançavam descoordenadamente ou se esforçavam para não parecerem uma estátua mecânica com juntas enferrujadas. A dança era a básica de sempre, uma música do sertanejo universitário, coreografias bem compassadas e tals.
Nada se complicava, o pessoal que se recusava a dançar recebia temas de trabalhos semanais para compensarem a nota e a falta de participação. Claro, uma meia dúzia de pessoas, cuja desculpa para não participarem da festa era a religião, brigavam um pouco. Concordo que não é certo obrigar ninguém a participar de um ato que não é de sua crença ou que não se sinta confortável. Porém, não teria rezas, nem nenhum rito religioso. Custava dançar uma dança nada religiosa e ouvir uma música que se escuta nas rádios?
Nós, principalmente eu, não esperávamos surpresas, mas ela veio na semana próxima.
—Vocês irão dançar com o segundo colegial.
—O quê?! – Um leve coro de vozes raivosas quase me fez ser arremessado para fora da sala. – Por quê?!
—Não sei porque todos estão nesse desespero. Apenas dez de vocês vão participar da dança e lá tem uns vinte. Eu juntarei as duas turmas e ficará uma dança bonita e com muitas pessoas.
—Ele está certo. – Resmunguei para Larissa e Luca. – Ninguém aqui presta atenção na aula e ficam nesse coro raivoso ao receber uma notícia desse nível.
—Ah, eu não queria dançar com o segundo.
—Por favor, Lari, não seja mais uma.
—Garoto, deixa de ser bobo. Eu só não queria dançar com o segundo ano, pois tem uma menina que não me agrada lá.
—Ah, normal, tem uns que eu acho que não vão com a minha cara, mas é só paranoia minha.
—Dizem que as paranoias são as mais verdadeiras amigas. Elas nos fazem refletir sobre um futuro que nosso subconsciente acredita que irá acontecer.
—Então eu estou totalmente perdido, sou muito paranoico. – Luca disse para a nós. Rumo à quadra, vejo uns seres entregando o trabalho ao meu pai. Larissa e Débora ficaram para trás pois queriam conversar com Rodrigo. – Seu pai corrige mesmo esses trabalhos?
—Sério, Luca? Você também?
—É só uma pergunta. Não precisa ficar irritado. – Não era a minha intenção, mas a minha voz saiu um pouco mais grave e mais nervosa.
—Desculpa, mas ele está tão preocupado, esforça tanto para fazer uma dança bonita e esse povo mal-agradecido fica tentado pisar em cima dele.
—Não será a primeira vez que isso acontece, nem a última.
—Mas você nem sabe. Na outra escola é tão querido, os alunos gostam tanto dele. Nem sei porque aqui é diferente.
—Ah, é tudo um bando de povo mimado que não sabe ouvir um não, essa é a realidade.
—Larissa, amada, não precisa extravasar tanto assim. – Ela não prestou atenção no que falamos e seguiu pisando duro no chão em direção à quadra. – Mas o que aconteceu?
—A Rubia brigou com ela. – Débora vinha com o celular dela e da amiga em mãos, mas escondidos entre as blusas de moletom para meu pai não ver. Ele tinha certo detector natural para celular. Era engraçado com os outros, na verdade. – Não digo que foi uma briga, mas ela foi bem babaca com a Larissa.
—E o que aconteceu?
—Ela tentou meio que defender o seu pai, mas é claro que a baronesa lá tem sempre a razão, a incontestável razão.
—Ah, sabemos como é. – Na quadra, Rubia fofocava com todas ao redor, enquanto Larissa espumava perto da gente.
—O que essazinha tem? Quem ela pensa que é?
—O último copo de água do planeta, só pode.
—Ah, morro de sede, mas não bebo dessa água. Vai que tem dengue?
—Eu creio que a dengue é bem melhor.
—Vamos ensaiar de novo? – Meu pai nos chamou. Colocando a música de novo, começamos a dançar. Errávamos aqui e ali, mas nada tão perceptível assim. Claro, quem queria nos zoar tinha olhos para tudo. No final da aula, estávamos mortos porque nossas pernas doíam e braços tremiam de tanto esforço, nem parece que a dança era simples no início. Todos foram subindo para a sala de aula, nos deixando para trás. – Filho, você está bem?
—Só com o corpo um pouco dolorido... – Ele notou a falha em minha voz. Eu não era de chorar, mas senti meus olhos ficarem lotados de lágrimas e uma vontade imensa. – É esse povo que me irrita, não aguento mais.
—João, fique calmo. É só ignorar.
—Falar é fácil...
—Se você ficar calmo, tudo ficará bem. Não te prometo nada, mas eu sei que as coisas mudarão um pouco.
Dançar era tão bom, tão libertador, mas parecia que aquela dança era sobre o fim do mundo. Eu estava feliz, mas parecia que o mundo ao redor não queria isso, queria me apertar tanto que me faria explodir de tanta raiva. Tinha dias que eu podia odiar ficar dentro de casa, mas permanecer na escola era tão pior que quase eu me sentia sem lar, sem canto nenhum para fugir.
—Pedro! Venha logo! – Larissa, Luca e o pessoal me chamavam. Eu via pequenos sorrisos em seus lábios quando me aproximei. – Demorou, hein?
—Meu pai quis conversar comigo.
—Era algo sobre a dança?
—Não, perguntou se estávamos bem.
—Ah, agradeça por ter perguntado.
Eu sentia amizade neles, mas será que era verdadeira? Ou seria mais um baile de ilusões?
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