Relatos do Cotidiano - Parte 2: Referências
14 Pela segunda vez, ele beijou...
Depois de quase um mês que João Pedro deu um beijinho em Zé Antônio e essa criatura ficou dando chilique em meus ouvidos durante o tempo todo, finalmente ele "esqueceu" do que aconteceu. Na verdade, creio que JP foi conversar com ele, porque os dois ficaram amiguinhos da noite para o dia. Estranhei muito, não nego, mas fico feliz em vê-los alegres, ainda mais João pelos fatos que ele precisou passar. Na escola, variando o dia da semana, era um quarta-feira. O dia era bem mais movimentado da semana.
Alguns professores não ficavam na sala de aula, todos ficavam no pátio com os alunos. Claro, outros professores não gostavam de nenhum pouco disso, já que "professor é para ficar na sala dos professores". Esses mesmos já haviam brigado com muitos dos alunos que estavam na roda com os professores.

—É legal os professores ficarem aqui com a gente. Quebra esse estigma de que professor não pode ser amigo de aluno.
—Queria saber o que os faz vir aqui também?
—Amizade, somente isso. Ah, e falta de paciência com aqueles caretas que ficam na sala deles.
—Deise, eles são bem mais velhos que você.
—Isso não é desculpa para serem babacas. – Nisso, me levantei e comecei a imitar as pérolas que soltaram para meu grupo e para alguns alunos. – "Porque na minha época, namorados nem podia dar as mãos". – Isso foi quando Carlos estava deitado no colo de Soraia e ela fazendo cafuné nele. Todos estávamos ao lado e ninguém se incomodava. – "Ah, mas essa moda de virar gay uma hora acaba". – Zé Antônio e João Pedro quase tiveram uma sincope nervosa ao reescutarem isso. – "É horroroso uma garota falar palavrão, tem que ficar quieta e engolir sapo". Querem que eu continue ou posso parar?
—Entendemos o que você quer dizer, mas você pega muito no pé deles.
—"Carlos, não vai cortar quando essa barba? Está virando esquerdista?", tem essa também "Soraia, mulher tem que usar maquiagem. É isso que traz a feminilidade da mulher.". Ah, e por último "Mulheres não podem usar short. Vai atiçar os meninos e atrapalhar a aula.". Tem momentos que até minhas pontas duplas cansam disso.
—Está falando a garota que influenciou a amiga a colocar o namorado para fora da escola. – Olhei para trás e me deparei com o professor que disse a maior parte dessas frases. Ele era careca, barba feita todos os dias, calça social mais justa que que qualquer justiça do mundo, camisa social bege, realçando a idade avançada da pessoa – Ah gente, bege é uma cor bem feia! – Além de usar uns óculos bem fino que quase caia mil vezes por aula. – Você acha que nos caluniar vai mudar alguma coisa em sua vida?
—Se eu quisesse mudança, chamava uma transportadora. – O professor não gostou do que falei.
—Eu quero essa delinquente fora das minhas vistas.
—Tira os óculos que é mais fácil.
—João, fica quieto. Vai sobrar para você. – Escutei Zé Antônio pedindo ao amigo se silenciar.
—A Deise só estava dando a sua opinião.
—Mas ela me desrespeitou! – Gritou o professor com sua voz, cuja gravidade atraiu a atenção de todos presentes no enorme pátio. – Quero sua expulsão!
—Por quê?! Ela não falou nada demais. Além do mais, o senhor nos desrespeitou ainda mais com certos comentários seus.
—Mas eu sou a razão.
—Mas era o que me faltava. Um dinossauro do Cretáceo achar que é a razão do século XXI.
—Soraia, você também se controle. Nós cinco vamos tomar uma suspensão se isso continuar. – Carlos, ainda sentado no chão, encarava a namorada e dava uma bronca para a resposta dela.
—Pelo menos, ainda temos alguns namorados que controlam as suas amadas.
—Se esse velho babão falar mais uma vez que eu tenho que ser submissa, faço ele ajoelhar no milho. Quero ver se ele manda mais alguém ser submisso depois dessa.
—Soraia, por favor.
—Diretora, ainda bem que a você chegou. Esses baderneiros estão ridicularizando a minha imagem em praça pública.
—Ishi, enlouqueceu de vez. Está vendo praça onde não tem.
—Deise, fica quieta criatura! – Carla apareceu atrás de mim e me puxou para um pouco longe. – Ele vai te fazer levar uma suspensão, talvez uma expulsão.
—Ah, certeza que alguém vai levar a sério uma troca de farpas. Isso acontece todos os dias e ninguém saiu ferido.
—Deise, pare de atacar o professor.
—Mas e o respeito? Ele nunca me respeita, e eu tenho que respeitá-lo? – O professor estourou e começou a xingar todos que estavam ao lado dele. Contudo, ninguém entendia nada do que ele falava porque ele dizia xingamento bem antigos e bem cultos. – Pronto, daqui a pouco invoca um encapetado aqui e vai nos culpar. Fala a nossa língua, professor!
Ele me encarou com muita raiva, a qual não se dissipava por nada. Apontando o dedo para mim, dizia palavras que eu nunca ouvi na vida e nem o significado sabia. Pelo olhar de alguns professores, não tinham uma denotação positiva.
—Diretora, essa garota insolente não merece aparecer mais em minhas aulas! Eu a quero longe da minha sala! Eu a quero o mais distante possível de minha pessoa!
—Deise, para a minha sala, por favor. – A diretora me salvou daquele mundaréu de ira que o professor proferia para cima de mim. – Por favor, o que aconteceu? Não entendi nada do que ele bravejava.
—Estávamos falando de como alguns professores são muito amigos dos alunos. Em seguida, eu imitei os professores que não ficavam conosco, visto que somos sabe sei lá o que para eles. No fim, ele apareceu atrás de mim e todo o caos começou. Certo, eu o incitei um pouco, mas ele sempre me deixou irritada.

—Ainda é falta de respeito. Isso não se faz. Você levará uma advertência, mas não quero que isso se repita. Você precisa mostrar respeito com ele.
—E é respeito ele mandar você lavar a louça quando o questiona? – A diretora não disse nada, apenas anotou o que eu disse.
—Se me disser o dia, posso conversar com ele. – Ela se levantou e foi chamar mais uns da minha sala. Contudo, quando chegou lá fora, o caos reinava terrivelmente. – O que aconteceu?
—O professor perdeu a paciência e foi até o RH. Ele pediu demissão.
—O quê?! – A reação dela era igual a minha. – Deise, olhe o que você fez!
—Eu tenho culpa de quê? Ele que se demitiu, não eu que o demiti.
—Depois a gente resolve isso. – Ela pegou o microfone do inspetor. – Quero todos em suas respectivas salas de aula! – Os professores começaram a se dispersar e seguimos a enorme manada de alunos, cujo andar era semelhante de uma boiada indo ao abate. Como o professor se demitiu, apesar de todos os pedidos da diretora, não tivemos a última aula, e nem as demais salas, já que houve remanejamento dos professores e todos saíram antes do último horário. Eu fiquei longe de Carla nesse tempo porque precisava resolver os problemas com a diretora. No final, levei a advertência, além de ter que ajudar em um serviço comunitário que a escola fazia. Não sei o motivo, mas todos se dispuseram a me ajudar.

—Gente, o Lúcio chegou do intercâmbio! – Carla correu e me deu um enorme abraço. – A casa dele é aqui em frente da escola. – Corremos para fora quando vimos ele chegando em casa e a polícia em seguida. O garoto não entendia nada, ainda mais que os pais não estavam em casa. – Mas ele pode ser preso? Não é menor de idade?
—O Lúcio é maior de idade. – Disse um inspetor que via a cena toda. – Ele repetiu uns vários anos. Acho que ele tem quase vinte anos.
—Ele tinha laudo?
—Não tinha nada, era preguiçoso mesmo.
—Se preguiçoso conseguiu hackear nosso celular, imagine se não fosse. – Concordei com Carla. A cara de assustado dele era incrivelmente triste e eu estava feliz por a justiça ser feita da forma correta. – Acho que eles marcarão o julgamento para os próximos dias. Deise, você vai comigo?
—Claro que eu vou. Quero ver aquela criatura sendo presa por tudo o que fez conosco. Espera, se ele tem mais de 18 e tentou me beijar...
—Foi assédio em menor e, por consequência, pedofilia.
—Gente, me amarrota que estou passada.
—Você vai usar isso contra ele?
—Não sei. Tenho medo de ele apontar Jonas e Zé Antônio. O caso dos dois também é a idade. Contudo, se for preciso, usarei. Tenho todas as mensagens salvas em prints no meu computador. Com essa moda de invadirem meu celular, tenho tudo salvo em mais de dois lugares.
Escutamos um enorme barulho vindo atrás da gente. Ao olhar, me deparou com João Pedro e Zé Antônio em um incrível beijo no meio do pátio. Muitos gritavam surpresos com a atitude, outros gritavam nojo e pediam para eles parar. Eles terminaram o beijo e eu vi João deslizando um anel para a mão de Antônio.
—Eu não acredito! – Eu gritei de emoção. Zé Antônio não entendeu ao ver o anel. Quando a ficha caiu, ele pulou de felicidade e os dois deram um forte abraço. Notei que uns garotos iriam para cima deles, portanto, puxei muitas pessoas para cima deles. – Meus fofuchos deram um beijo! – Gritei mais uma vez. – O pessoal foi se afastando e pude ver, bem reluzente, a aliança no dedo deles. Os dois estavam tão reluzentes, tão felizes, que eu nem notei a carranca de Soraia.
—Que emoção!
—Eu não posso dizer o mesmo. – Retrucou para mim.
—Soraia, o que foi? – Perguntou o Zé, que passava para ir ao bebedouro.
—Meu irmão está te esperando e você enfia uma faca nas costas dele e no nosso coração.
—Sô, seu irmão é bem mais velho que o Zé. Não acha que isso atrapalharia?
—Carlos, você conhece o meu irmão.
—Eu também, amiga, e fazer com que os dois fiquem presos sem poder dar uns beijos nem umas conversas não me parece certo. Seu irmão passou na universidade no meio do ano. Aqui na cidade? Sim, mas isso não impede de ficar com alguém.
—Até hoje, desde o dia em que se declarou para Zé Antônio, ele não ficou com ninguém. Diferente dele, que ficou com um e agora namora.
—Soraia, não seja egoísta. – Zé Antônio saiu, bem triste.
—Eu sei que seu irmão ama o Zezinho, mas não podemos deixá-los presos eternamente. Olhe para João Pedro. Você já o viu com aquele sorriso? – Ela negou. – Nem eu, é a primeira vez. E o que causou isso? O "Sim" do Antônio. Seu irmão irá entender, mas também não precisa saber de imediato. Com isso, vai fazendo a cabeça dele para procurar alguém enquanto o Zé Antônio fica feliz com o JP.
—Tudo bem, verei o que posso fazer.
—Isso, seja alegre e lute contra o seu mau humor.
—Nem avacalha que estou sem paciência. – Rimos todos da carranca dela. Na hora de ir embora, chamei todos para ir até a minha casa. Todos foram para suas casas almoçarem e apareceram em casa por volta das duas da tarde.
Lá, meu pai acabara de construir uma enorme piscina e o dia estava propicio para aquilo. Milena não foi à escola, mas ela e Rubens foram até minha casa, assim como Miranda e o namorado. Convidei Jonas também, Soraia quis me matar.
—Quem sabe não rola um trio? – Ela quase me bateu se não fosse por Milena e Carlos.
—Pare de falar asneiras!
—Ué, vai que os três não acreditam em monogamia. Dariam um trisal bem fofo.
—Isso só o tempo dirá! – Falou João Pedro, que se sentou do meu lado enquanto a brisa fresca soprava seu rosto. – Não vai entrar na piscina? – E me molhou com água bem gelada.
—Você me paga! – Todos pulavam na piscina. Eu comprei sorvete e tomamos muito depois que almoçamos. – Será que ainda veremos todos felizes nessa história? – Falei para Carla, que tirava muitas fotos de uma flor da minha mãe. Rubens, Carlos, Rogério e Soraia jogavam baralho perto da piscina. Milena e Miranda conversavam de um lado da piscina enquanto João Pedro, Zé Antônio e, por incrível que pareça, Jonas brincavam na piscina. – Bom, acho que hoje é o dia.
Para uma quarta-feira, cheirava sexta-feira; para quem teve brigas três horas atrás, a amizade reinava com todo o ardor.
Fale com o autor