Notas iniciais
Esse capítulo é livre para todas as idades.

—Corre! — A voz do capitão do time era estranhamente desengonçada e se perdia em meio aos gritos das torcidas que ecoavam pela quadra coberta. Nisso, quando eu me distraí, ouvi o apito do árbitro por causa do gol que tomamos. — Por que você não me arremessou a bolsa para mim?! Eu estava livre! — O garoto de quase quinze anos e com cabelos castanhos avermelhados gritava comigo.

—Se você prestasse atenção em tudo e não somente naquilo que interessa, você saberia que tinha dois te marcando e perderia a bola antes mesmo de tocar nela! — Eu perdi todo o controle que eu segurava para manter. Era a final da interclasses e aquilo me deixava louco. Nosso time, o do primeiro colegial, perdeu no futebol para o pessoal do curso pré-vestibular, o time da natação perdeu para o segundo colegial e o pessoal do xadrez, dama, ping-pong e pebolim perderam todos para o pessoal do nono ano. Sim, a nossa sala era extremamente péssima em esportes, menos um, que era o handebol. A diretora decidiu aquilo de última hora porque todos ainda brigavam por causa do que aconteceu no início da semana anterior. Talvez, seria um meio de acalmar os ânimos de todos. Nosso time era composto de dez jogadores, sete em campo e três reservas. No campo, havia três meninas e quatro meninos. As meninas eram bem melhores que nós, os meninos.

—Marcos, venha aqui! — Eu suava mais que uma garrafa de água gelada no sol quente. Quase ninguém do meu grupinho se encontrava ali, somente Deise, Zé Antônio e Milena, que davam apoio moral para a nossa sala. Como se fosse um complô, todas as demais salas torciam para o terceiro colegial, quem nós enfrentávamos naquela tarde. — Por que vocês estão brigando tanto?

—Eu até estou tentando jogar, mas os meninos estão com medo. As meninas avançam facilmente, pois o terceiro as subestimam. Estamos com dois gols atrás deles e só temos alguns segundos, nem um minuto completo.

—Eles sabem que você consegue fazer um gol rápido se o time te ajudar? Seu time sabe disso?

—Eles sabem, mas o capitão não ajuda. Ele acha que eu quero roubar a luz dele.

—Caramba, ele é o que? Uma lâmpada? — Deise havia trazido dois pompons e usava uma camiseta escrita "Handebol" e os nossos nomes. Foi customização dela, assim como os nossos uniformes. — Para dizer a verdade, ele tem mais cara de lamparina.

—Deise, isso não ajuda! — Milena se levantou e correu até o time. Com as duas mãos, puxou o capitão e mais um para perto do grupo. — Escutem bem: nós não ganhamos nenhuma modalidade e eu acho que devemos ganhar, pelo menos, aquela que temos prática.

—Quer vir jogar em nosso lugar então? — O capitão, de nome Pablo, tirou a braçadeira e entregou para Milena.

—Se o árbitro deixar, eu arraso no jogo! — E avançou para pegar a tira vermelha.

—Nem pensar! É contra as regras! — Pablo tirou a mão.

—Joga certo então! — E ela cochichou para ele. — Marcos consegue fazer dois gols nesses segundos que resta. Somente façam o que ele pede. Se ele os fizer, os créditos serão seus e dele. Vocês são um time. — Ele ficou encucado com o que ela disse. — E se vocês perderem, a culpa caíra em você, o capitão e "treinador". Sempre é assim. — Aquilo o acertou em cheio.

—Time, aqui comigo! — Pablo explicou rapidamente o que fariam. — Nós vamos sair com a bola, pois tomamos um gol.

Os meninos se posicionaram na defesa, as meninas sairiam com a bola e eu estava atrás delas. Quando o apito soou, elas arremessaram a bola para frente e eu corri para perto do gol, ninguém reparou em mim, pois Pablo e outro garoto foram pelo lado oposto. Uma das garotas, de nome Maria Clara, fintou a bola e jogou para mim. Nenhum do terceiro me viu perto do gol e, em menos de dez segundos, fizemos um gol, reduzindo a diferença apenas para um ponto. Apenas minha sala, com a torcida de dez pessoas, ecoaram um grito de alegria; os demais da quadra não entenderam o que aconteceu por causa da velocidade.

O time adversário tinha, agora, a posse da bola. Precisávamos pará-los. Eu olhei para o meu lado e vi um garoto miúdo jogando xadrez com o amigo dele, um garoto com óculos e bochechas com manchas vermelhas. Estavam ali, pois não tinha aula. Assim que olhei para o tabuleiro, vi que ele havia perdido a rainha. O outro comemorava com o tal feito, contudo, dentro de segundos, o pequeno garoto declarava xeque-mate e o amigo até retirou os óculos para tentar entender o que ocorreu nos últimos segundos.

—É isso! — Eu corri até Pablo, que entendeu a minha tática. — Precisamos atrair a bola até a gente para termos a posse dela.

—Marcos, não temos tempo.

—A gente precisa empatar.

—E se empatar, vai para os acréscimos. Ninguém está com forças para aguentar mãos quinze minutos de jogo.

—Então, precisaremos fazer dois gols.

—Está louco?!

—Eu nasci louco. — Quando todos se posicionaram e o adversário saiu com a bola, reparei que havia um padrão naquilo que faziam. Eles se movimentavam em forma de triângulo. Eu, Pablo e Maria Clara ficamos na defesa para impedir que bola, pelo menos, não chegasse ao goleiro. Os movimentos eram sincronizados e a harmonia era perfeita. — Maria Clara, quando eles se aproximarem e tentarem fazer o gol, não vá em cima do atacante, mas de quem estiver atrás dele. — Resmunguei para ela assim que pude.

Os segundos passavam e meu coração se apertava ainda mais. Eu via Deise balançado os pompons como se fosse uma dança louca. Ela gritava meu nome loucamente e deixava Zé Antônio e Milena possessos de raiva, pois o berro ia aos ouvidos deles. Como eu previ, o atacante fintou a bola para uma garota atrás dele; por sorte, Maria pulou sobre a bola e a interceptou. Corri como um louco, só que dois me marcava. Assim que pedi a bola para ela, uma garota quase dois palmos mais alta e mais larga que ela, se aproximava com passos largos e rápidos. Eu apontei para Pablo, que foi esquecido em um canto. Ela entendeu meu olhar e lançou a bola para ele e gritou o meu nome, o que fez todos pularem sobre mim e ignorarem o resto do time. Como eles conseguiram cair nesse truque da mudança de nomes?

Eu não consegui ver o que aconteceu, somente notei que três defendiam Pablo e ele pulou e marcou o gol, empatando o jogo! Nossa, meu coração saltava pela boca! Nem vou comentar sobre Deise, que pulava como uma pipoca em uma panela. Os papéis laminados do brinquedo dela reluziam naquele canto desanimado da quadra. Tínhamos chances de vencer.

Novamente, o time adversário iria sair com a bola e eu sabia que os movimentos seriam diferentes. A pequena reunião que tiveram me mostrou aquilo. No desespero, olhei para o relógio da mesa de marcação: restavam dezesseis segundos. Dezesseis segundos?! Não daria tempo.

—Vai dar tempo, sim! Você vai conseguir! — E Maria Clara sorriu para mim. Com meu coração palpitando em minha boca, retomamos o jogo. O primeiro atacante lançou a bola para um colega perto dele, mas eu interceptei ao correr pelo meio deles. Esperei um apito, mas não houve; prosseguiu o jogo e avançava quicando a bola no chão. Não tinha ninguém do meu time próximo de mim, eu teria que fazer o gol, o suor impedia que a bola parasse em minha mão, porém, quando iria jogar a bola para o gol, senti meu braço sendo puxado; então, ouvi o apito. Nisso, correram quatro segundos.

Aconteceu toda aquela discussão entre os jogadores e blábláblá. No fim, a posse de bola era minha. Tinha alguns do meu lado para receberem e meu coração pulava ainda mais e nem em ritmo de carnaval estava. Mais uma vez, o apito para retomar o jogo. Joguei a bola para Sérgio, outro jogador, e ele para Clara, e ela para Pablo, e para mim, e para Sérgio. A rotação foi rápida e por uns segundos, quase sete segundos. Na minha vez, fintei e joguei para nosso goleiro, que estava fora da área do gol; ele pegou a bola e atirou para o gol — um segundo — que foi defendido, entretanto, o goleiro jogou a bola para fora, em minha direção. Em um segundo, a bola em minhas mãos; em outro, ninguém me marcava, pois todos estavam presos em nosso goleiro, o Tonhão — apelido de Tony — no quarto segundo, lancei aquela esfera pesada em direção ao gol; no quarto e último segundo, a rede foi chacoalhada intensamente. Sem mais tempo, o apito foi soado fortemente.

—Vitória do primeiro ano! — E o anúncio do árbitro, que era professor exclusivo do terceiro colegial, causou um alvoroço em todos que viam a cena. O pessoal da escola e do primeiro ano comemoravam intensamente e pulavam sobre o time; Deise me abraçava fortemente e quase me descadeirou um pouco.

—Não é justo, o tempo já havia acabado. — O capitão do time adversário reclamava com o professor. Quando olhei novamente, eu via um objeto prateado acertando a cabeça dele. Era o pompom de Deise.

—Ops, escapou! — E Deise ria muito. O garoto veio enfurecido, mas foi segurado pelos colegas. — Awn, vai chorar? Chora não, amiguinho! — E nós rimos mais um pouco. Nós nos afastamos do tumulto, eu, Deise, Zé Antônio e Milena.

—Marcos, podemos de perguntar uma coisinha? — Zé estava levemente sombrio, ainda mais com a sombra da enorme árvore que caía sobre ele. — O que é isso que sua mãe nos colocou? — É um grupo: estavam eles, além de Carlos, Soraia e Carla. Depois do incidente, elas entraram no nosso grupo, mas acho que era por minha causa. Olhei bem o nome do grupo: "Despedida do Marcos". — O que você não nos contou?

*

Então, já era noite e eu esperava os meus amigos em casa.

Deise ficou aos prantos quando contei que faria aquele intercâmbio de três a quatro meses. O pessoal estava em choque também, ainda mais que eu escondi por tanto tempo aquele segredo deles. Fazia uns seis meses que eu já sabia e eu viajaria no próximo domingo, quatro dias depois da despedida. Como eu não iria para a escola nem na quinta nem na sexta, meus pais decidiram que a festa de despedida deveria ser na quarta-feira, logo depois da final do handebol. O clima de comemoração aconteceria, mas não com toda a alegria que deveria acontecer. Meus pais, discretamente, perguntaram quem eu queria chamar para o meu aniversário de quinze anos, que seria logo depois do intercâmbio. Eu mencionei aquelas pessoas e acho que as chamariam para a despedida.

O cheiro dos salgados — coxinhas, esfirras de carne e frango com catupiry, baurus de presunto e queijo, empadas de palmito — flutuava pela minha casa. Eu queria que aquela noite fosse inesquecível, tanto para mim quanto para eles. Escutei o barulho da campainha e fui abrir para o pessoal, que chegou todo de uma vez.

—Cara, eu queria uma festa, mas não com esse clima. — Carlos me cumprimentou com um forte abraço. Ele, sem exclusão, era meu melhor amigo. Eu o ajudei com Soraia, que era um doce de pessoa que azedava facilmente. Desde o início do namoro, ela distanciou o namorado de Zé Antônio; acho que por ciúmes pelo contato enorme que os dois tinham. — Por que não me avisou sobre?

—Eu não sabia como falar. — O corpo dele era semelhante ao meu e seus cabelos negros e cacheados diferenciavam do meu liso. — Meu medo é mais como será nossa convivência depois da viagem.

—E você acha que mudará alguma coisa? — Milena me deu um forte abraço. — Nada mudará e que fique dito. — Seu sorriso era um mar de calmaria dentro de um caos; aquilo que impressionava muito. Todos entramos e ficamos na enorme sala redonda. Meus pais colocaram os salgados na mesa do centro.

—Filho, eu e seu pai estaremos no quarto. Se precisar de alguma cosia, é só chamar. — Eles seguiram pelo enorme corredor a esquerda para o quarto deles. — E, ah, tem sorvete no freezer e brigadeiro na geladeira.

—Tudo bem, mãe. — Com exceção de Deise, todos se acomodaram, pois já eram da casa. Ela estava tímida, ainda mais que Carla não foi por causa de um aniversário da sobrinha dela. — Deise, venha aqui com a gente. — Estiquei a mão, o que foi um alivio para ela. A confiança que ela colocou em mim era tanta que eu tenho medo de decepcioná-la, de abandoná-la, como eu estava fazendo com todos naquele lugar.

As mãos dela eram pequenas e macias, além do forte cheiro do creme de frutas vermelhas do seu creme. Seu olhar era de desejo, desespero e saudades e eu sentia isso, pois ela me olhava com tanto afinco, com tanto sentimento. Eu sabia o que ela sentia, pois eu sentia o mesmo. Soraia deu ideia de vermos um filme de terror, já que ainda nem eram oito da noite. Em seguida, conversaríamos enquanto comíamos o sorvete e o brigadeiro.

Eu não escolhi, pois curto qualquer estilo, mas escolheram um de espírito. Era uma espécie de casa assombrada por uns espíritos. Tinha umas palmas durante o filme e os famosos demônios tão sem criatividade. Eram todos esguios, humanoides, cinzas e com chifres, nenhum me dava medo. Deise se sentou do meu lado e ficamos de mãos dadas. Assim que o filme me entediou, fui até a cozinha, que ficava em frente da sala, para beber água.

Deise veio atrás, me pedindo um copo com água também.

—Gente, eu acho esse tipo de filme tão uó. Eu curto terror, mas tem momentos que o susto é forçado.

—Eu acho que isso dá a graça. Esse é bom, pelo menos, pois eu vi que eles ficavam presos em um prédio e tinha uma doença estranha, mas no final era coisa do além; na continuação, deu a entender que era um verme que causava tudo. O roteiro era mal feito. Tinha chances de ser bom, porém, cagaram em tudo.

—Eu já vi esse. Os dois primeiros, por ser em primeira pessoa, até iam; mas depois que mudaram para terceira pessoa, ficou bem cagado, fora as músicas de "momentos de falsa esperança" que eles colocaram. Acabou para mim assim que eu ouvi. — Eu deixei de escutar o que ela falava quando reparei em todo o seu ser. Deise era muito inteligente e divertida, sem noção em muitos momentos, corajosa e forte; era linda, carinhosa, destemida e divertida. Uma amizade que eu gostaria de ter em minha vida, porém, somente amizade?

Ela se aproximou de mim para devolver o copo e entregou de forma desajeitada. Eu estava encostado na pia e ela sorria envergonhadamente.

—Má, eu queria te dizer uma coisa, mas não sei se é o momento. — Ela se virou para ir embora, certamente queria expor o que queria dizer. Fiz que ia pegar a mão dela, mas recuei. Sabia que era errado segurá-la a força, por isso nem me aproximei muito.

Ela notou meu movimento e, ao virar, se aproximou e me deu um beijo. Seus lábios tinham gosto de chocolate, resultado do gloss que usava. Quando minha ficha caiu, ela se distanciou, com cara de choro; ela, com medo, correu para fora da sala e eu a segui. Ninguém nos viu nem ouviu. No jardim da frente, existia um banco de madeira pouco usado e ela estava lá, com o rosto molhado e os olhos chorosos.

—Dê, o que foi?

—Por favor, me perdoe. Não sei o que eu fiz, não era para ter acontecido, nem era para eu ter vindo.

—Mas eu gostei que você veio. — Ela me olhou com um olhar espantado.

—Eu sei que somos amigos há pouco tempo, mas eu sempre gostei de você. Eu vestia aquela máscara de forte para você se atrair por mim. Sempre tive vergonha e sempre... — Ela voltou a chorar. Eu não sabia o que fazer, me aproximei para abraça-la.

—Para mim, você é forte por se mostrar desse jeito, livre de máscaras e estereótipos.

—Mas você é lindo, incrível, maravilhoso, bom de papo e eu... Eu sou fútil, passo o dia nas redes sócias, tenho amigas fúteis...

—Deise, por favor, me escuta: todos somos fúteis, todos usamos máscaras, todos temos defeitos, ninguém é perfeito. — Eu em aproximei dela e segurei a sua mão. Vagarosamente, aproximávamos nossos rostos e, finalmente, nos beijamos. Foi longo e maravilhoso, eu senti uma explosão que eu não sabia explicar. O que era? Ficamos ali por um longo tempo, até eu notar que o filme estava para terminar. Não fui eu, foi ela quem se afastou.

—Por favor, não conte ao pessoal. Eles ainda pensam que eu sou uma interesseira. — Ela estava amuada e encolhida em um canto. — Eu não quero apenas ficar com você, não quero ser apenas uma para uma lista.

—Deise, mas e o intercâmbio?

—Eu espero todo o tempo que for necessário. Se esperei nove meses para nascer e minha mãe dar à luz essa pessoa maravincrível, esperei seis meses para andar, quase dois anos para falar e dez anos para conhecer a internet, o que são quatro meses para esperar uma pessoa por quem eu estou apaixonada? — Nós nos abraçamos. Ouvi Carlos nos chamando, depois o grito de Soraia para ele.

—Pelo amor de Deus, não estrague o momento. — Rimos lá fora de que nosso segredo não era tão secreto assim. — A Deise está caidinha por ele desde que os dois entraram na escola.

—Isso faz quase oito anos.

—Acho que ela esperou demais, não foi?

—Zé, se não quiser apanhar da Soraia, eu ficaria quieto. — Notei que Deise ficou levemente envergonhada.

—Eu terei que comprar uma vela desse jeito. Milena está de rolo com o Rubens, tem Soraia e Carlos; agora Deise e Marcos. — Zé Antônio reclamava com a voz dele. Eu sabia que aquilo continha muita ironia. — Na verdade, acho melhor comprar um castiçal para tanta vela que eu terei que segurar.

—Nunca vi criatura tão dramática quanto essa pessoa. — Deise me puxou pelo braço quando gritou para os demais. — Agora, será que podemos nos deliciar com o sorvete?

Todos foram se servir do pote que eu trouxe da cozinha. Aquilo era bom, era incrível. Estava feliz por Deise, por mim, estava satisfeito com todos. Esses meus amigos, sim, são especiais; somos loucos e somos terríveis, somos sem noção e somos tudo e mais um pouco. Não há palavras sobre eles. Esse intercâmbio me trouxe isso, me uniu ainda mais com eles. Saudades eu sei que sentirei e que farei novas amizades lá em Londres. Contudo, nada superará as maluquices que vivemos juntos.