Notas iniciais
Esse capítulo não é indicado para menores de 16 anos: há cenas de insulto, ameaças e insinuação sexual.

Fazia quase um mês e meio que estávamos naquela viagem e minhas suspeitas sobre Wolf e Jean secaram tanto que eu poderia dizer uma rosa morta tinha mais vida. Amber também desistira de descobrir alguma coisa sobre os dois, pois não tivemos mais tempo. Depois que se encerrou o primeiro mês de intercâmbio, as aulas tiveram uma metamorfose drástica, nem parecia o curso sossegado que tínhamos anteriormente. Os horários permaneceram os mesmos: aulas começavam às oito da manhã e seguiam até às três da tarde, momento em que nos reuníamos na biblioteca para estudar até às sete da noite, instante em que o jantar era servido e desistíamos de estudar para acalmarmos os nossos cérebros e sossegarmos nossos músculos tensos de tanto tempo sentados. Havia o almoço ao meio dia, com duração de uma hora, mas nem era tempo suficiente para comermos com calma.

O debate do primeiro mês se tornou intensas quatro aulas diárias de filosofia, literatura, sociologia, história, geografia, iniciação de antropologia, além de alguns dias em que "descansávamos" com matemática, física ou química, todas distribuídas nas vinte quatro aulas semanais. As aulas de biologia eram à tarde, três vezes por semanas; a educação física permaneceu a mesma, mas com um intenso treinamento para uma competição entre os alunos que ocorreria no início do quinto mês. Eu não participaria, pois meu intercâmbio encerraria antes de completar o quarto mês.

—Marcos! – O sotaque tímido de Surya era abafado pelo de Amber, que me chamavam de um canto do refeitório. O jantar estava comum, não tinha nada para dizer dele. O clima do lado de fora estava bem calmo, poucas nuvens e sem vento. – Achei que você iria se sentar sozinho, de novo.

—É que estou com muita dor de cabeça nessas últimas semanas, parece que um martelo brinca de pula-pula aqui em cima com toda a força que ele tem. – Apontei para o centro de minha cabeça, onde se formava um pequeno redemoinho que meu cabelo fazia. Surya estava calada, quieta, como sempre, diferente de Amber, que falava no celular sem parar pela vídeo-chamada com alguma amiga. Eu e Surya conversávamos um pouco, até nossa americana queria interromper a conversa.

—E o clima em seu quarto? Está um pé de guerra ou um clima pacífico quase romântico?

—Eles estão calmos, por incrível que pareça. Nem parecem os dois brigões das primeiras semanas.

—Vocês acham que eles estão...? – Surya fez um movimento com as mãos, como se fosse um beijo. Ela tinha vergonha de falar sobre esses assuntos, já que a tradição dela e da família ainda tratava assuntos como tabus. Amber sentia receio de falar abertamente sobre tal assunto, uma vez que o pai fazia parte de um partido bem conservador. – Mas não é errado?

—Se nada afetar em nossa vida, poderemos ficar sossegadas. – As duas fizeram uma cara de ponto de interrogação quando falei "afetar a nossa vida". – Eu tenho um amigo gay, sei o que ele passa com a família e pessoas que não o aceitam. Ele é gente boa, amigo de coração aberto, muito carente em certos instantes, eu o ajudo com tudo, até ele falou comigo de uns problemas com uma prima de uma amiga nossa e que ele quer ajudar, mas não sabe como, mesmo o problema não sendo dele. Mas, há gays que são medíocres, ardilosos e cruéis, assim como há héteros que são como meu amigo, assim como há héteros que são medíocres, ardilosos e cruéis; da mesma forma como há católicos, evangélicos e de outras religiões que são gente boa, de coração aberto, como há aqueles que são medíocres, ardilosos e cruéis. – Elas ainda aparentavam não entender o que eu queria dizer. – Se as atitudes deles como ser humano não ser prejudicial a ninguém, não existe motivos para os impedirmos de serem felizes da forma deles, sendo gays, lésbicas, héteros ou de qualquer outra orientação sexual, independente do time de futebol, do partido político ou da religião que exerça.

—Ah, entendi! – Finalmente, podemos assim dizer. Depois do jantar, seguimos para a recepção do alojamento para ver o que tinha de notícias no mundo. – Uau, parece que a onda de atentados tem sido intensa. – Aquilo nos gelou a espinha. Muitos dos atentados ocorreram na Europa, principalmente no Reino Unido.

—Nem acredito que meus pais me deixaram vir para cá. – Resmunguei para Amber, que afirmou uma atitude semelhante do pai. Nós nos assustamos ao ouvirmos gritos vindos do elevador. Por causa da nossa conversa sobre atentados terroristas, o susto foi um pouco maior. Wolf gritava com Jean, que estava branco de aflição, medo e vergonha, pois não entendia nada o que o alemão dizia, porque gritava tudo em alemão. Do nosso lado, Amber puxou uma colega de turma dela, também alemã, e pediu para ela traduzir o que o garoto dizia.

—Resumindo tudo o que ele falou: "Se fizer isso de novo, eu quebrarei a sua cara!". – Ficamos em choque, ainda mais eu que teria que defender Jean de Wolf, mas sabia que seria impossível, visto que o alemão era quase uma cabeça mais alto que eu.

—Tem certeza que foi isso? – Vimos o lugar inteiro se distanciando de Wolf e indo até Jean para perguntar o que aconteceu. Eu fui atrás do intercambiário francês enquanto Surya e Amber impediam que alguém nos seguisse. Os passos de Jean eram maiores, mas lentos, diferentes dos meus, bem mais curtos e ligeiros. Ele desacelerou e encarou para trás, tive tempo e condições de me esconder atrás de um enorme outdoor de propaganda da escola.

Perto da sala de jogos, não tinha muitas pessoas, mas ele não adentrou o lugar, seguiu direto para a biblioteca, que ficava cerca de 200 metros do alojamento. Diferente de onde dormíamos, o lugar era colorido com um azul celeste e desenhos de animais que nunca existiriam em Londres. A porta era de vidro e o lugar estava aberto, mas por pouco tempo, fecharia às oito e meia da noite. Jean entrou o lugar e seguiu para um canto em que nunca fomos, pois tínhamos permissão de ir apenas à área com os livros. Eu o segui, tentando não fazer barulho para não assustá-lo. Ouvi um barulho de micro-ondas ao longe, porém, ignorei; a minha corrida terminou ao ver o garoto sentado em um canto escuro e silencioso, dei três batidas na mesa de madeira em que ele estava apoiado e falei quem eu era.

Não aconteceu xingamentos, muito menos ordens para eu ir embora, simplesmente sentei ao seu lado e fiquei escutando o choro dele. Ele não esboçava muito barulho, mas a quantidade de coriza que ele sugava para dentro começou a embrulhar o meu estômago. Em nossa frente, era o banheiro; adentrei e trouxe um rolo de papel higiênico para ele assoar o nariz, não porque aquilo me incomodava, mas porque poderia desencadear um resfriado, ou uma gripe, ou mesmo uma sinusite forte, coisa que ele tinha.

—Merci.

—You're welcome. – Respondi em inglês, pois não sabia falar em francês "De nada". Ele assoou o nariz por vários minutos e nada de ele vir conversar sobre o que aconteceu.

—Por que eu sou tão estúpido?

—Olha, você é lindo, inteligente, incrível, gente boa e bom de papo, mas às vezes você reclama de mais. Estúpido não é um adjetivo que eu diria a você. – O sorriso de alegre dele se fechou. – Não foi um apoio moral muito bom, eu sei, mas sempre há negatividades em nossas características. Se quiser, posso ouvir o que aconteceu. – Ele respirou um milhão de vezes até começar a falar.

—Bom, não sei como vou dizer isso... Eu e Wolf... – E nada de falar.

—Ficaram? – E fiz o mesmo movimento de beijo que Surya fez. Ele afirmou e se assustou com o fato de eu já saber. – Eu já desconfiava desde a festa, quando você sumiu do lado de Surya e apareceu com a boca suja de batom e Wolf com a boca também suja de batom. – Expliquei a briga e porque Wolf estava com batom, também disse sobre a calça de um dos dois estar do avesso quando chegaram à festa, o que entregou os dois de alguma forma.

—Ficou tão explicito assim?

—Depois disso, as aulas mudaram e ficamos atropelados de matéria. Se eu que durmo com vocês não reparou, quem dirá aqueles que nem olham para vocês. Além do mais, vocês brigavam muito em público, mas briga de ofensa e de quase morte, uns ficavam morrendo de medo; deve ter ajudado a esconder o que faziam escondidos, se é que fizeram alguma.

—Mas eu devia ter ficado quieto quando falei em namoro. – Eu engasguei com a saliva ao ouvir essa. – Eu devia lavar minha boca com sabão depois dessa.

—Ficar e dar uns beijos é normal, mas namorar? Primeiro, namoro para dois intercambiários é meio arriscado, já que estarão se despedindo daqui alguns meses; segundo, vocês são tão antagônicos em algumas atitudes que eu me assusto você ter pensado nisso; terceiro, eu mudaria de quarto só para não ficar de vela; quarto, que sabão você usaria para lavar a boca?

—Marcos, por favor, me ajuda! Você viu na encrenca em que me meti! – Ele pareceu que ia chorar, mas engoliu o choro. – Eu nunca devia ter tido que era amor...

—E eu posso fazer o quê? Se eu conversar com Wolf, ele me socará na cara. Você tem a altura dele, mas ele é bem mais alto que eu.

—Eu sei, tanto que quando vocês ficam próximos, uns alemães dão risada da diferença.

—Não mandei eles serem altos. – Ficamos ali por algum tempo, até o chamado de Amber nos tirar da conversa. O meu celular apontava quase oito e meia e a bibliotecária fecharia o recinto em minutos. Corremos para fora e trombamos com Surya e Amber. – O que aconteceu?

—Tentamos conversar com Wolf, mas ele se trancou no quarto e não abre.

—E você quer que derrubemos a porta para depois apanharmos do alemão que está treinando boxe há um mês e meio?

—Deixa de ser dramático, Marcos, ele pode estar fazendo sabe sei lá o quê. – Com pressa, fomos até o alojamento. O pessoal fazia reunião em frente da nossa porta, todos chamando Wolf.

—E depois nós, os brasileiros, que cuidamos da vida dos outros. – Isso foi um outro aluno que disse para mim e para outros brasileiros, só não falarei a nacionalidade para não criar um problema mundial. Jean ficou no centro do círculo que eu, Amber e Surya fazíamos e, juntos, afugentamos os curiosos para seus respectivos quartos e andares. – Eu vou entrar e vocês esperam aqui. Verei como está a situação do nosso mal-humorado colega de turma. – Encaixei minha chave na fechadura e a virei. Ao entrar, fui recebido com um travesseiro na cara.

—Ainda bem que não usou o abajur do criado-mudo.

—Vai embora!

—O quarto é meu, bonitão. Eu durmo aqui há quase dois meses, ou só reparou agora? – Ele se levantou da cama e me encarou com um olhar de raiva. A altura dele me amedrontou, mas mantive o queixo erguido enquanto ele me encarava com a cabeça abaixada.

—Saia daqui ou te socarei a cara!

—E ser expulso do alojamento e do intercâmbio? Eu acho que não. – Peguei seu punho e o fiz sentar em sua cama. Como não sabia qual seria a reação dele, me sentei em minha cama. – Agora, como estou nesse papel de psicólogo, conte-me o que aconteceu entre vocês dois?

—Ele não te contou?

—Partes da história, mas quero saber do seu lado da história.

—Ele veio me pedir em namoro e isso me deixou puto da vida, não é porque nos beijamos uma vez que eu sou "gay" e que quero namorar com ele. – Veio com aspas a palavra, pois eu não entendi o que ele falou, acabou saindo em alemão a palavra.

—Bom, não precisa se definir, apenas sinta e ame. – Ele me encarou, novamente, com aquele olhar de ira dele, que faria qualquer criança chorar. Amber também falava que o pai dela fazia uma expressão semelhante. – Ameaçá-lo em público não foi muito gentil da sua parte.

—Mas ele me perseguiu do quarto até lá embaixo, fiquei com raiva, explodi na hora. Você também ficaria assim se a pessoa ficasse no seu pé.

—Eu já vi casos assim. Quase houve morte e a pessoa não saiu bem da história. – E apontei para Wolf na tentativa de fazer uma semelhança entre a história de antes e de agora. – Você seria o vilão da história.

—Mas eu me cansei de ser generoso, carinhoso com ele, pedi tanto para ele parar, que poderia encher a banheira. – E apontou para nosso banheiro. – Aí vem ele, joga um fio elétrico e explode tudo.

—Nossa, que analogia incrível. – Eu me levantei e segui até a porta. – Mas acho que deveria conversar com ele, em paz, sem brigas e sem hormônios debaixo da pele. – Abri a porta e a luz revelou um garoto loiro e com os olhos vermelhos de choro. Ele entrou no quarto com passos lentos, quase parados. – Vocês podem conversar com calma, pois ficaremos aqui na porta fazendo a segurança.

Eu dei um empurrãozinho para Jean entrar e saí rapidamente. Tranquei a porta para maior segurança deles – ninguém sem a chave conseguiria entrar. Ficamos ali por um tempo, Amber colocou música em seu celular e ficamos conversando de tudo, nem voltamos a falar dos atentados. Eram quase dez da noite quando Evelyn e mais um homem apareceram no corredor.

—Garotos, nos falaram que Wolf quase bateu em Jean. É verdade?

—Foi só um mal-entendido, mas já resolvemos. Eles devem estar em algum canto do campus, na maior paz e conversando como amigos. – Eles não acreditaram em Amber, que quase levou um tabefe de Surya por mentir. Os dois adultos se viraram e, quase virando o corredor, ouvimos um barulho do abajur se quebrando. Os dois se viraram, mas Amber aumenta o som até o máximo. – Ah, me perdoem! Apertei o botão errado. – Eles foram embora e eu, às pressas, abri a porta. Por fim, me deparo com os dois sem camiseta e encarando o abajur quebrado no chão.

—Falem que isso foi um acidente... – Eles confirmaram envergonhados, pois eu os peguei no flagra. Entrei no quarto e saí rapidamente. – Eu vou dormir no quarto das meninas essa noite. Primeiro, fiquem longe da minha cama; segundo, proteção pelo amor de Deus; terceiro, não façam barulho.

No corredor, Amber e Surya me encararam com susto ao me verem com o travesseiro e um saco de dormir em mãos. Eu tinha levado meu carregador, pois meu celular estava quase descarregado.

—É, vou precisar dormir no quarto de vocês hoje à noite. Tem problema?

—Acho que nenhum. – Nós seguimos até o quarto delas, onde arrumei a minha "cama", que não passava de um saco de dormir confortavelmente macio. Acho que foi sorte eu tê-lo ganhado em um sorteio ali mesmo, no colégio, em uma aula qualquer.

—Vocês acham que eles ficarão bem? – Eu ri de Surya, pois ela não sabia o que eu tinha visto, muito menos Amber. Contudo, ela desconfiava do que se passava, porque eu não teria saído calmo do quarto se eles estivessem brigando. Por fim, o toque de recolher foi soado e já estávamos na cama. Nós nos despedimos e já pude ouvir Surya e Amber dormindo – Que sono rápido, né?

Eu tinha o número de Jean no celular e mandei a seguinte mensagem: "Bom, não será a boca que você lavará com sabão, afinal."

Notas finais
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