Relatos do Cotidiano - Parte 2: Referências
4 A Dama dos Gritos
Notas iniciais
E o dia começou assim: aos gritos. Fazia quase um mês que estávamos naquele alojamento para os intercambiários, mas o tempo não passava lentamente e mal notávamos o decorrer dos dias e horas e minutos. O grito esganiçado e agudo ao longe me fez pular da cama. Os meus companheiros de quarto, o alemão Wolf e o francês Jean, nem se moveram da cama. Quando eu me levantei, ouvi o grito novamente e isso os fez pular da cama.
—O que aconteceu? – Perguntou Jean, que estava de pijama, diferente de Wolf, só com cueca, igual a mim. Eu coloquei um short e uma camiseta e abri a porta. Notei que algumas cabeças se colocavam para fora de seus quartos afim de olhar de onde vinha aquele grito. – A manhã começou calma, não é?
Jean foi o primeiro a sair do quarto. Seu pijama estava todo torto em seu corpo definido. Pela terceira vez, o grito ecoou pelo andar inteiro. Nós três corremos em direção do barulho. Eu achei que poderia ser Amber ou Surya, mas elas também estavam em pé na frente do quarto sem entender de onde vinha o grito. Um quarto a frente, uma porta estava aberta e duas meninas estavam para fora.
Ambas gritavam de pavor e, quando me aproximei, reparei que tinha uma enorme aranha no meio do quarto. Suas patas se articulavam na direção das meninas. Olhei para Amber, que já estava pronta com o tênis em seus pés, e pedi para ela pisar na aranha, pois todos estávamos sem calçados. Com medo, ela se aproximou e, com força, ela pisou sobre o aracnídeo que já estava para fora do quarto.
—Ótimo jeito de começarmos a sexta-feira. – Amber resmungou enquanto retirava os tênis para poder limpá-los. Aquele dia era levemente mais especial que os anteriores. Hoje, temos uma festa a fantasia, um meio de comemorar o término do primeiro mês do nosso intercâmbio. Teríamos as nossas aulas normais até as duas da tarde e seríamos liberados em seguida para nos prepararmos para a festa.
As manhãs, todos os dias, tínhamos aulas de inglês e só se alterava os assuntos dos debates, redações e afins. Durante as tardes, podíamos ter aula de educação física, artes, teatro ou informática e, alguns dias, tínhamos trabalhos ao ar livre e serviços comunitários para algum orfanato, ou íamos a teatros e afins. Nossa aula era colocada em frente do elevador de cada andar. Naquele dia, haveria um debate sobre cultura na música. Eu fiquei feliz, pois o Brasil estava tendo um ápice na música. Amber, do meu lado, ria sozinha.
—Vou falar o que na aula? A música está ótica, temos até aula de biologia em uma delas. – E começou a cantar um rap e tentou fazer twerk. – Minha anaconda não... – Mas Surya tapou sua boca antes.
—Acho que não precisamos de exemplos sobre o quão boa algumas músicas podem ser.
—Ah, tem uma que fala sobre a friendzone.
—Tem até música de como dar o fora em cara chato. – Jean entrou na conversa enquanto o saíamos do elevador. – Não acho que será tão terrível assim a aula. – No caminho até o refeitório, ouvimos as duas garotas reclamando com um homem sobre a aranha no quarto e de como Amber foi corajosa em matá-la. – Estão falando bem de você. – E deu um leve esbarrão na garota, porém, a diferença de massa entre os dois quase fez a garota ser arremessada sobre um grupo de garotas que saíam do lugar.
—Jean, ficou louco? – O garoto se desesperou em ajudá-la que quase a derrubou no chão, de novo. – Isso responde a minha pergunta.
—Mas é um desastre em forma de gente. – Wolf passou por nós e se juntou ao grupo mais em frente.
—Ele é bem sem educação. – Jean e ele, mesmo com um mês de convivência, não se davam bem e causavam intrigas todos os dias, teve até um dia em que quase saíram no soco, mas eu, Amber e Surya conseguimos segurá-los.
—E vocês precisam parar com isso antes que alguém se machuque. – Uma garota japonesa passou pela gente e ficou parada de frente com Jean. – A última briguinha de vocês quase fez eu e meus amigos cairmos em uma poça de lama.
—Eu queria saber de quem foi a ideia de brigar na chuva? – Surya resmungou perto de mim. Ela estava bem tímida, pacífica e quieta. – Gente, estou com fome e a aula é daqui a pouco. Precisamos ir.
—Isso, deixe o Jean resolver os impasses mundiais sozinho.
—Impasses mundiais? Forçou a piada nessa hora, hein? – Eu peguei uma bandeja e fui me servindo de café, panqueca e ovos mexidos. O vento gelado do lado de fora nos fez colocar roupas mais quentes e agasalhos mais grossos. – Nem quero ver como você ficará na aula hoje.
—Cuidado, bebê, pois algo em você me faz sentir como uma mulher perigosa.
A aula quase foi sossegada, se não fosse por Amber fazendo comparações com músicas, além de ficar cantando do meu lado.
—Oh meu bebê, fique calmo, nada de choro no clube. – E essa foi uma das primeiras. – E se estamos falando de corpo, você tem um perfeito. – O nível variava muito.
—Como ela não te irrita? – Jean estava do outro lado dela e ficava com as mãos nas orelhas para diminuir o som de Amber. A voz dela é ótima, o que eu agradeço muito, pois tinha uma dupla que achava que estava em um programa de canto e cantaram por todas as quatro horas que usamos para debater sobre o assunto.
*
—É melhor você trabalhar! – Amber apareceu em frente da porta do nosso quarto com um vestido branco sujo cinza e rasgado em muitos lugares, o que mostrava partes de seu corpo de pele clara quase rosada. Ela se maquiou como um zumbi, mas para o estilo sexy.
—Por favor, pare de cantar trechos de músicas!
—Oh, eu sei o que fez no verão passado, então, diga-me onde esteve! – E saiu cantarolando pelo corredor. Com muito esforço, eu ouvia a voz miada da Surya, pedindo à amiga fazer silêncio. Jean estava só com calça social e uma gravata, o que seria uma fantasia de gogo boy. Contudo, estava tudo indo bem até Wolf sair com banheiro com uma calça social e de gravata. Ambos eram fortes e tinham músculos definidos e saltados, prontos para socarem um ao outro. Ele também estava de gogo boy. Eu, por coincidência, tinha uma roupa de dormir que parecia com um uniforme camuflado. Com a noite fria, serviria muito bem. Eu encarava os dois, que se enfureciam e o sangue subia para a cabeça.
—Eu acho que vocês precisam tomar um ar, quem sabe um nos Andes e outro no Himalaia. – Eu me aproximei da porta. – Por favor, não se matem. – E saí do quarto. Em direção do quarto das meninas, escutei um grito, mais alto e agudo do que aquele de manhã. Junto das duas, corremos para o quarto da mesma garota. Ela estava com um lado do cabelo mais curto que o outro, além de um cheiro forte de queimado que vinha do banheiro. Amber, sem pedir permissão, entrou e foi ver o que aconteceu. Ela saiu com um babyliss e um pote de produto.
—Minha querida, aqui está escrito que não é para aquecer os cabelos quando está se usando esse creme. – Amber, com uma tesoura, começou a arrumar o cabelo da garota, que ora chorava ora gritava ao se ver no espelho. – Acho que isso deve melhorar um pouco.
A garota era alta e tinha cabelos pretos como a noite. Sua pele era quase alaranjada, o que se destacava ainda mais com o vestido laranja que usava. Ela não ficou extremamente feliz, mas o toque que Amber deu em seus cabelos pareceu que retirou uma culpa maior de seus ombros. Ela, gritando ainda mais alto, deu um abraço forte em Amber, que saiu zonza do lugar.
—Ela gritou bem em meu ouvido. – A fila do elevador estava quilométrica, além de termos zumbis, vampiros e noivas cadáveres pelo lugar todo. – Se eu soubesse que zumbi seria uma fantasia bem comum, eu teria vindo de princesa.
Surya estava de aeromoça. Suas roupas eram compridas e não deixavam nada de seu corpo amostra. Eu desviei o olhar para não ficar encarando, pois achava desrespeitoso. A festa seria em um salão atrás do prédio. De lá, vinha uma música alta e muitas luzes no teto de vidro.
—Do que Wolf e Jean vão vir? – Amber pulava sobre as pedras que serviam de caminho pelo gramado desde a entrada do enorme prédio cinza até o salão aos fundos. Nós paramos logo na entrada para esperarmos os dois.
—Se eles seguiram o meu conselho, os dois virão de gogo boy; se não, virá um de assassino e outro de defunto.
—Que horror! – Evelyn parou atrás de nós três vestida de pirata assustada. – Por que essa mudança radical na fantasia? – E contei todo o processo de tentar fazer os dois serem amigos, até a briga na chuva, as indiretas nos debates, as intrigas no quarto e o meu medo de ser socado nas vezes que eu os separei. – Nossa, eu preciso falar com eles. Você acha que será necessário os mudar de quarto? – Eu pensei por uns minutos: sem os dois, eu não teria ninguém para conversar, nem nenhuma briga para separar, era incrível, porém, minhas noites seriam muito monótonas.
—Acho que não. Uma hora, eles vão se aguentar. – Eu a encarei e ela me respondeu com um sorriso. Entramos na festa e logo nos servimos com as comidas que estavam expostas logo na entrada. O pessoal reclamava da falta de bebidas alcoólicas no lugar, mas é claro que o pessoal não ofereceria aquilo, já que os estudantes eram todos menores de idade. Assim que encarei a entrada, notei que Wolf e Jean entravam e as gravatas deles estavam amarrotadas, além das calças também estarem. – Só me falta esses dois terem brigado. – Nisso, percebi que Amber encarava a nossa amiga gritante que desfilava com o seu vestido laranja e com sua pele quase laranja.
—Ela veio fantasiada do quê? De cenoura? – Ela se voltou para a mesa e começou a devorar as comidas. – E você? Veio do quê? Soldado?
—Na verdade, isso é um antigo pijama meu.
—Nossa, nem dá para notar. – As luzes passavam pelo nosso rosto e coloriam a roupa branca dela. De repente, outro grito ecoou pelo lugar. Eu e Amber corremos até a origem do som e deparamos com a nossa amiga cenoura caída no chão. – Época de colheita?
—Amber, fique quieta! – E fui ajudar a mulher.
—Obrigada, de novo! – Reparei que o salto dela havia quebrado e que tinha um pequeno arranhão em seu joelho. Não saía sangue, mas Evelyn a levou para fazer um curativo.
—Se ela tivesse que pagar por toda a vez que a salvamos de alguma coisa, ela ficará em dívida com a gente.
As músicas continuavam altas e a gente começou a dançar em nosso cantinho perto da mesa de comida. Depois de uns minutos, eles começaram a servir macarrão. Os molhos estavam separados, tinha molho branco e molho à bolonhesa. Nós dois enchemos, desculpa o termo, o bucho de tanto que comemos. Amber nem mais cantava as músicas loucamente enquanto esperávamos os doces serem servidos. Quase duas horas depois, comecei a bocejar e meus olhos se fechavam muito.
—Você quer ir para o quarto? – Nem pude responder antes de ouvirmos mais uma vez um grito estridente e alto. – Mas de novo? – Como a curiosidade nos consumia, fomos até o centro de um círculo. A garota, a mesma de vestido laranja, estava chorando e gritando com uma menina, que seria uma amiga dela.
—Não acredito que você fez isso! – E deu um tapa forte e certeiro na bochecha da amiga, o que a fez cair para trás. A cenourinha correu para fora do lugar com as mãos cobrindo o rosto manchado de maquiagem.
—O que aconteceu aqui? – A mulher no chão tinha os lábios um pouco sujos de um batom rosa, quase vermelho. Tinha cabelos loiros e estatura baixa.
—Parece que ela beijou o menino que a de laranja queria ficar. – Era um garoto moreno e de cabelos lisos. Ele tinha um sotaque parecido com o de Surya, mas era um pouco mais suave em certas palavras do inglês.
—Aff, brigando por homem. – Amber segurava um copo com água muito fortemente. – Ninguém era comprometido. Se uma furou o olho da outra, procure uma nova amiga. Estamos em um intercâmbio para isso. – Concordamos com ela. – E quem é o garoto?
—Ah, é um alto, cabelos pretos, bem porte alemão. – Não ajudou muito, porque tinha uns quinze alemães no lugar. Tirando as mulheres, os garotos eram parecidos, com exceção de uns três ou quatro loiros, restavam uns seis homens com essas características. Depois que tudo quase não se resolveu, voltamos para nosso canto. Meu sono não desapareceu, mas estava mais fraco.
Depois de uns minutos, eu vejo Wolf com os lábios sujos com a cor do batom da menina. – Acho que achamos o nosso beijoqueiro. – E apontei para ele para que Amber visse. Em seguida, Jean apareceu com a boca suja de batom daquela mesma cor, porém, bem mais fraco. – Ué, será que a garota beijou os dois? Ou a cor é bem famosa? – Surya apareceu e perguntamos aonde ela estava.
—Eu estava com um grupo de intercambiários da Índia. Jean estava conosco também.
—E ele ficou o tempo todo com vocês?
—Sim, até que saiu para ir ao banheiro há uns minutos.
Olhei para Amber até onde ela iria com aquelas perguntas. Novamente, reparei nos dois e eles trocavam olhares mais nervosos do que antes, além de que a cor do batom nos lábios deles estavam quase a mesma cor. A roupa amarrotada permanecia a mesma, porém, a calça de Jean estava do avesso. Amber reparou no mesmo detalhe e nos encaramos.
—Mas será?
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