Relatos do Cotidiano - Parte 1
6 A Revelação
Notas iniciais
Estava pensando com qual roupa iria à casa de minha avó naquela noite. Eu encarava meu armário de baixo para cima em busca de uma roupa bonita. Ia de cubículo a cubículo de roupa, entre vestidos, blusinhas, shorts e minissaias. Por fim, escolhi um vestidinho azul bebê, bem leve e bem fresco, pois a noite estava quente e eu suava só de pensar. O tecido não amarrotava facilmente, portanto, me joguei na cama e fiquei mexendo no celular. Minha mãe, repentinamente, começou a gritar meu nome do quarto dela.
—Soraia! Venha aqui agora! – Fiquei sem reação. "Putz, o que eu fiz de errado agora?". Ela só gritava assim quando eu fazia algo errado.
Eu, como uma louca, saí do meu quarto e corri até a cozinha, lugar onde ela se encontrava. Minha casa não era tão luxuosa, mas vivíamos com muito conforto. Eu tinha um quarto um pouco maior. Ele era mobiliado com um armário, que ia do teto ao chão. Devido à minha altura, meu pai comprou uma escadinha de três degraus para eu alcançar as prateleiras mais altas. Nunca me esqueço do dia em que eu fui mandar fazê-lo. Meu pai tinha um projeto pronto, contudo, ele não contava comigo.
O armário pegava uma parede e metade da outra. Na parte inteira, eu dividi em três: a primeira era dividida em vinte e quatro cubículos, onde eu colocava as minhas roupas que podiam ser dobradas; da segunda tinhas apenas três gavetas e um lugar vazio para eu colocar vestidos e roupas que precisavam ir no cabide; já na terceira, eu a lotei de prateleiras para preenchê-las de livros. E assim eu fiz. Agora, a parte que pegava apenas metade da parede, eu usava para guardar as roupas de cama e os livros de escola, que não eram poucos, além da escrivaninha.
Ah, por que meu pai não gostou do meu armário? Saiu mais caro que o esperado – nem tanto afinal – e ele contava que eu usasse apenas uma parede, para que ele usasse o resto para encher com as tralhas dele, que eram ferramentas, fiação elétrica, já que ele gostava de mexer nisso. Assim, imagina eu dormindo, tranquilamente, e ele entra em meu quarto para procurar uma chave de fenda de cabo vermelho e bico desgastado. Sim, um dia ele me fez essa pergunta e ficou nervoso por não saber onde estava a tal ferramenta.
Depois do meu quarto, vinha um banheiro pequeno, que apenas eu usava. Os azulejos azulados, da mesma cor que meu vestido, reluziam porque minha mãe os lavou no dia anterior. Em seguida, vinha a sala. O sofá em L pegava parte de duas paredes. Ao centro, tinha uma mesinha com alguns controles de televisão, DVD e afins. Assim que cheguei à cozinha, eu vi uma mulher vestida com uma legging azul marinho e uma blusa amarelada, que era branca alguns anos atrás. Ela estava com os cabelos presos em vários grampos, tentativa de cacheá-los.
—Filha, o que eu disse sobre as pizzas no forno?
—Você disse para eu as tirar depois de meia hora, que seria o tempo certo para assá-las.
—E?
—E eu coloquei o meu celular para despertar. – E mostrei o contador para minha mãe. – E ainda não deu tempo.
—E esse cheiro de queimado? – Agora que eu reparara no cheiro. Fui em direção ao forno, mas o cheiro estava normal.
Assim que me aproximei de minha mãe, senti o cheiro mais forte ainda. Olhei para os cachos e vi uma fumacinha saindo de um. Eu me desesperei. Minha mãe não tinha tato para cuidar dos cabelos pessoalmente, diferente de mim, que fiz alguns cursos. Com certeza, ela havia deixado a chapinha um pouco a mais do que devia e resultou naquilo.
—Mãe, eu sinto muito em lhe dizer isso, mas creio que você queimou o seu cabelo. – Seu olhar de raiva se transformou em desespero. Ela foi até o banheiro e analisou os cachos. Eu pressentia que ela iria chorar. Hoje era aniversário da mãe dela (da minha prima foi ontem e iríamos comemorar apenas hoje, apesar de ela não querer falar com ninguém) e ela queria impressionar todos. – Mãe, sente-se aqui. – E puxei uma cadeira para perto dela.
Ela sentou como se fosse cair no chão. Eu tirei todos os grampos que estavam mal postos e comecei a alisar o cabelo dela. Por causa dos cabelos brancos que saltavam de seu couro cabeludo, ela já os pintava, ou fazia algumas luzes para enlourar. Depois, enquanto o cabelo descansava, fui ao meu quarto e peguei meu babyliss para fazer os cachos, que não saíram perfeitos, entretanto, eles durariam uma parte da noite.
Assim que ela se levantou e se viu no espelhou, quase chorou, só que de emoção.
—Filha, ficou maravilhoso. – E eu sorri como retribuição. Ela mostrou o vestido que iria usar. Eu quase chorei quando o vi. Era um vestido florido, bem desbotado. Ele não era longo, nem curto, parava na metade da canela.
—Mãe, precisamos conversar sobre o seu estilo.
—Eu queria ir com alguma roupa que nunca usei e esse foi o que escolhi.
Eu abri o guarda-roupa dela e tirei um salto alto vermelho, bem cor de sangue. Depois, tirei um vestido sem mangas. Era preto e liso, sem detalhe nenhum. Caçando mais roupas lá dentro, eu retirei uma blusa de frio, bem fina, que era rendada nas mangas e bem aberta.
— Por sorte, temos mais uma hora para estarmos na casa da vovó.
Eu peguei a caixa de costuras dela. Lá dentro havia linhas pretas, perfeitas para a blusa e o vestido, e uma tesoura. Meu celular despertou e minha mãe foi desligar as pizzas.
Eu, com as pontas da tesoura, comecei a descosturar as mangas da blusa. Minha mãe surtava atrás de mim, mas não me impedia. Depois de tudo certo, descosturei o leve bordado do vestido e comecei a dar pontos falsos nas rendas das mangas. Com certeza, aquele vestido duraria aquela noite e, se minha mãe gostasse, eu mandaria para uma costureira profissional.
Assim que minha mãe colocou o vestido, já pronto, ela sorria ainda mais. Também fiquei bem sorridente. Minha mãe me abraçava e me beijava, me agradecendo por ter salvado a noite dela. Como eu estava sem maquiagem, fui fazer a minha e a dela e, dentro de meia hora, estávamos prontas. Em frente de casa, meu pai buzinava, comunicando a sua chegada.
Ele desceu para nos ajudar com as pizzas e ficou deslumbrado com a minha mãe.
—Se você queria causar inveja a alguém, pode ter certeza de que conseguiu.
E, juntos, fomos à casa de minha avó. Foram apenas dez minutos de carro. O trânsito ajudou bastante. Quando cheguei, escutei a voz da minha prima e dos meus tios. Minha avó gritava com meu avô na cozinha, pois ele ainda não fora tomar banho e tinha escutado o nosso carro.
Assim que eu abri a porta para minha mãe passar, eu ouvi um deslumbre de todos que estavam lá dentro. Além dos meus tios, avós e prima, havia dois casais que eram amigos de infância do meu avô e, por consequência, da minha avó. Se não me engano, eram os únicos do grupo de casais da época deles.
—Minha irmã, que lindona que você está! – Esse era meu tio, um homem um pouco barrigudo e com poucos cabelos. Ele era um advogado de pequenas causas. Eu olhava o olhar esguio de minha tia, que olhava para o teto.
Minha prima saía do banheiro e eu fui abraçá-la. Fazia alguns meses que não nos víamos. Conversávamos sobre nossa vida enquanto íamos até a cozinha para eu cumprimentar meus avós e seus amigos. Minha prima, Miranda, estava diferente. Um pouco mais magra, talvez, e muito quieta. Talvez fosse TPM, ou era semana de prova em seu colégio. O lugar era bem rígido e ela se cobrava ainda mais.
—Soraia, o que você fez com a sua mãe? – Minha prima falou de tal forma que eu me espantei. – Ela está maravilhosa. – Mesmo com o calor, ela usava uma calça de legging preta e um moletom de mangas compridas.
—Obrigada. Coloquei em prática aquelas aulas de maquiagem e de cabeleireira que eu fiz ano passado. O vestido foi pensado de última hora.
—Ainda bem que você está certa em seguir moda. Você manda muito bem com isso.
—Pena que nem todos gostam. – E eu vi o olhar dela indo de encontro com o da mãe, que exalava chamas de raiva pelas íris castanhas enquanto mexia nos cabelos loiros acastanhados.
—Minha mãe está bem temperamental desde o dia em que você deu aquela resposta para ela.
—Se ela não quisesse cuidar da minha vida, eu até seria mais respeitosa.
Minha avó nos chamou e seguimos da sala para a cozinha. A sala era pequena, pois era pouco usada, diferente da cozinha, que tinha uma mesa de quase vinte lugares, retangular, que pegava apenas uma parte dela. Meu irmão Jonas não veio, pois tinha uma festa. Eu iria por causa de Carlos, mas estava sem paciência para essas festas aonde o pessoal só vai para beber.
Meu pai começou a distribuir as pizzas para o pessoal enquanto meu tio, que comprou várias tortas, as cortava em pedaços e distribuía em pratos pela mesa toda. Meu avô serviu vinho a ele, à minha avó e aos amigos. Minha mãe fez para ela, para mim e minha prima algumas caipirinhas. Meu pai e tio ficaram na cerveja e minha tia na água com gás.
Minha prima recusou, pois disse que não podia beber. Meu tio não compreendeu e não perguntou.
Comemos muito, como se não fosse ter o amanhã. Depois de um tempo, eu e minha prima fomos para o quarto de hóspedes, no fundo da casa, pois lá iríamos conversar sobre qualquer coisa sem sermos interrompidas e nem ficaríamos ouvindo as conversas dos adultos.
Falamos de tudo, desde meu namoro até a saúde dela. Ela estava abatida, estava com fortes olheiras, mesmo com a maquiagem ajudando a esconder. Ela estava muito magra, mas ela reclamava de muita dor na barriga, como se tivesse um peso enorme. De repente, ela correu para fora do quarto e eu a segui. Lá fora, também tinha um banheiro, onde ela parou e vomitou no vaso sanitário. Eu ouvia tudo isso do lado de fora. Eu sei que comemos muito, mas não era motivo para isso. Só...
Eu era muito lerda, era óbvio aquilo.
Assim que ela saiu do banheiro, voltamos para o quarto. Eu a deitei na cama e comecei a falar daquele enjoo e daquele vômito enquanto fazia cafuné em seus cabelos. Ela disse que não era nada, que tivera uma virose nos últimos dias. Seus olhos se encheram de água após isso.
—Se teve uma virose, por que comeu tanto?
E ela começou a chorar. Eu, sem reação, apenas a abracei.
—Sô, eu estou grávida.
Eu sabia, aquele enjoo era muito específico, porém, havia outro detalhe crucial, que me apertou o coração. – Mi, mas, e o namorado? Você tem?
Eu, durante as passadas de mão, sentia algumas feridas e, ao analisar, eu vi mais hematomas pelo couro cabeludo e pelos braços, agora que ela tirara a blusa.
—Soraia, por favor, me ajuda! – E ela chorava ainda mais. Meu desespero aumentava ainda mais. Por que ela queria ajuda? Meu Deus, que horror! Por que eu pensei nisso?
—Miranda, você foi estuprada? – Aquilo saiu de uma forma mais inesperada do que eu queria. Esperava ouvir uma resposta negativa, mas não, ela confirmou e choramos ainda mais. Eu iria ajudá-la, até onde as minhas forças permitissem.
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