Relatos do Cotidiano - Parte 1
8 A Ameaça
Notas iniciais
Essa é a segunda vez que eu venho falar com vocês... A primeira não foi fácil e acho que essa será mais difícil ainda... Meu nome é Miranda, para aqueles que não acompanharam a minha tragédia.
Eu não conseguia mais sair de casa; me sentia nua, acabada, destruída, sempre imunda. Eu comecei a me vestir de qualquer jeito, e não porque eu queria, mas precisava cobrir todos os ferimentos que foram causados em mim.
Toda vez que eu ia lavar a minha cabeça, sentia as falhas, sentia meus cabelos caindo pouco a pouco; meus punhos não pararam de latejar, era uma dor tão intensa que mal conseguia escrever. Trabalhar? Não tinha como. Eu demorava em anotar os horários e esquecia outros. Muitas vezes, eu notava isso, pois a agenda ficava vazia, entretanto, havia vezes que eu necessitava encaixar muitas clientes em horários pequenos.
Quase fui demitida... Na verdade, eu queria me demitir, mas minha chefa não permitiu. Disse que diminuiria minha carga horária. Eu não sabia porque ela fazia isso e acho que nem ela. Em casa, era tudo pior. Minha mãe com aquela rixa com a minha tia, meu pai que não ficava em casa e, quando ficava, eram relatórios e documentos pela casa toda.
Eu tinha duas amigas para contar: Soraia, minha prima, ou Juliana. Ambas precisavam saber disso e, conhecendo-as muito bem, fariam nevar no verão se decidissem trabalhar juntas.
Além disso tudo, dormir era outra missão quase impossível. Gastava parte do meu salário em calmantes. A cena voltava à minha mente toda hora, todo o momento. Durante a noite, eu acordava gritando. Parecia que, com isso, meu corpo voltava a sentir todas as dores que eu vivi naquela noite.
Parei de ir a festas também. Não tive muitas também e agradeci muito, porque não queria encontrar ninguém.
Fora isso, havia uma coisa que me acalmava: comida. Nunca gastei tanto, também, em comida. No meu último aniversário, ganhei do meu pai um frigobar e eu coloquei em meu quarto. Eu comprava bastante coisa e colocava nele, ainda mais agora, quando eu ficava ainda mais cheia de desejo...
—Não... – Eu estava com um pote de sorvete ao meu lado quando me deu vontade de ir ao banheiro para vomitar. Quase foi em minha cama. Sorte que consegui segurar. – Que estranho, mas por que...
Enquanto eu comia, esquecia de tudo a minha volta, até esqueci daquele momento. No entanto, eu me esqueci de ir ao médico. Fazia quase duas semanas do fato. Onde eu estava com a minha cabeça?! Será que não peguei doença alguma?!
Esse desespero me pegou. Eu me arrumei bem rápido, peguei minha carteira e óculos e corri para o postinho de saúde mais próximo de casa. Sorte minha que lá estava vazio. Mais sorte ainda que um antigo amigo de meu irmão estava lá. Seu nome era Rogério. Ele era mais velho, tinha um corpo levemente forte. Seus cabelos pretos e lisos combinavam com a pele negra clara.
—Miranda, o que está fazendo aqui?
—Por favor, preciso falar com você a sós. – Ele, mais que depressa, me colocou em uma salinha. Eu precisava falar com alguém. Ele seria o primeiro com que eu falaria. – Rogério, isso é sério...
Não sei o motivo, mas comecei a chorar. Ele tentou me acudir, até chamou uma enfermeira, mas eu não deixei que entrasse. Queria que o mínimo de pessoas soubesse disso.
—Mi, o que aconteceu? – Ele estava com as mãos perto de mim, tentando me acudir.
—Eu fui... – Não consegui terminar de falar, apenas vomitei no chão da sala dele. Acho que ele conseguiu captar o que tentei dizer. Da porta, Rogério chamou uma faxineira e ela limpou a sala.
—Mi, quando isso aconteceu? – Agora, eu não conseguia responder uma vez que não parava de chorar. Tudo aquilo era um desastre total. – Enfermeira, traga água, por favor. – Uma mulher baixinha e com cabelos presos em um coque entrou com um copo e me entregou para beber. Demorei um pouco, mas acalmei. O peso que me prensava no chão tinha sumido por um tempo. – Miranda, o que aconteceu? – Nunca me esquecia que havia dois momentos em que ele me chamava pelo nome completo: ou quando estava irritado ou MUITO preocupado.
—Foi há duas semanas, mas eu não me lembrei de vir para cá.
—Calma. Eu teria que ficar bravo com você, mas... Você contou a alguém pelo menos?
—Não consegui... Lá em casa está tudo um desastre: meu pai está muito ocupado, minha mãe odeia a minha prima e meu primo é amigo daquele monstro, aquele garoto horrível.
—Você sabe quem foi?
—Ele é amigo do meu primo. Tem o cabelo raspado e tem... – quando olhei para a porta, notei que alguém estava parado na porta. Parecia que eu o conhecia. Nisso, uma enfermeira entrou e chamou Rogério. Ele saiu, me deixando sozinha. No instante em que me virei, senti uma mão em minha cabeça e puxando o meu cabelo.
—Que linda! Parece que alguém sentiu saudades! – Era ele, aquele monstro. Nisso, todo meu corpo petrificou. Eu não sabia mais como reagir. – O que você veio fazer aqui? – Ele sussurrava em me ouvido. Sua voz não era grave nem aguda, mas tinha uma ponta de ameaça.
—Eu vim fazer uns exames.
—Você tem plano de saúde. Acho que seria mais fácil você ir ao Hospital do Centro, não é? – Ele continuava a puxar o meu cabelo. As lembranças voltavam e com força total. Eu sentia que alguns cabelos saíam devido aos machucados.
—Por isso que eu vim aqui. Meu pai não saberá, nem ninguém. Apenas falei que fui estuprada, mas não por quem.
—E quem disse que você foi estuprada? Aquilo foi uma noite de núpcias magnífica.
—Por favor, saia dessa sala e vá para o inferno!
—Você acha que é quem? – O homem já colocava seu peso sobre mim. A porta se abriu atrás da gente e ele se distanciou.
—O que você está fazendo aqui?
—Vim cumprimentar minha antiga amiguinha. – Eu não melhorei a cara e percebi que Rogério notou meu desgosto.
—Agora, por favor, se retire daqui. Estamos no meio de um exame. – Ele saiu e eu fiquei em silêncio. Rogério, pela cara que fez, notou tudo o que aconteceu. Ele segurou meu braço e retirou a quantidade necessária de sangue para os exames. – O que ele veio fazer aqui?
—Nem quero comentar. – E cocei a minha cabeça, o que fez alguns cabelos caírem. Ao levantar, ele viu os ferimentos, além de que um pouco de sangue ficara preso em minhas unhas.
—O exame vai demorar um ou dois dias para ficar pronto.
—Quais as chances de eu ter pegado alguma doença?
—Posso dar entrada com os remédios para AIDS e para as demais doenças.
—Rogério, muito obrigado. Não sei o que eu faria.
—Miranda, eu sei que será difícil, mas por favor, conte para alguém. Eu ficarei do seu lado sempre. – Ele me abraçou e foi apertado. Eu me senti segura pela primeira vez depois daquilo.
Eu saí do lugar e me dirigi à minha casa, onde eu ficaria por um tempo. Eu precisava colocar a cabeça no lugar. Precisava saber quem era aquele garoto, contudo, deixaria aquilo para depois. A dor em meu corpo começou a piorar. Minha cabeça latejava muito. Eu passava minha mão em meus cabelos e mais fios caíam.
Com eles, vinha um pouco de sangue. Fui até meu frigobar e peguei uma barra de chocolate que eu havia comprado. Enquanto eu a comia, escutei meu celular vibrando. Era uma mensagem da minha mãe.
"Minha filha, neste sábado, será o aniversário de sua avó. Terá uma festa na casa dela. Comemoraremos o seu também."
Quase esqueci que amanhã é meu aniversário. 17 anos. E o que esperarei lá? Minha mãe olhando com um olhar de fúria para minha tia, a ausência de meu irmão por causa de outra festa e a minha prima... Isso, lá eu contaria tudo a Soraia.
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