Relatos de uma Suicida

3 Pensamentos de antes de dormir


Hoje tive terapia e pela primeira vez não sabia o que dizer. Tudo foi tranquilo essa semana. Eu trabalhei, fiz minhas artes, vendi bem, sai com a minha amiga no fim de semana, beijei uma ou duas bocas para esquecer do meu grande amor que está longe e não me quer mais. Em suma, tudo correu bem. Não significa que eu não tive dias ruins, mas eu estou sabendo lidar melhor com eles, aprendi a aceitar os dias ruins e apenas sentir as sensações que eles trazem, sem julgar ou empurrar a alegria pela minha garganta. Isso é libertador.

Sinto que terminei as fases do luto do meu relacionamento: negação, raiva, barganha e depressão: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Isso não significa que o sentimento morreu, eu ainda o amo, mas eu aceitei que as coisas aconteceram porque tinham que acontecer.

Os anos de 2020 e 2021 mudaram minha vida de muitas formas; eu perdi minha profissão, meu grande amor, meu estilo de vida, mas ganhei muitas coisas : oportunidade de ficar mais próxima da minha família, me reaproximar da arte, dos meus amigos, conhecer pessoas novas e muitas outras oportunidades únicas.

Eu ainda penso muito em me machucar, principalmente quando sinto culpa, mas estou conseguindo controlar esse desejo e seguir em frente aceitando esses pensamentos. Eu também me pego pensando no que teria acontecido se eu tivesse morrido naquele dia, nas oportunidades que eu teria perdido de ver o sorriso do meu sobrinho de dois meses, de conhecer pessoas incríveis, de ficar perto da minha família, de digerir e consertar muitas coisas que aconteceram no meu passado e que ainda estavam entaladas na minha garganta e atrapalhavam as coisas mais simples da minha vida, e eu só fui percebi que eram um empecilho na terapia.

Comecei a notar que meu desejo de suicídio estava mais atrelado ao sentimento de não pertencimento e uma origem, ressentimento de coisas que aconteceram comigo e que eu não sabia lidar do que pelo estresse que o exército e meu relacionamento amoroso causavam. E aprendi que na terapia, e na vida, primeiro a gente identifica o problema, depois aceita, então o encara de frente e por fim o dissolve. Parece simples, mas existem muitos problemas no subconsciente que nós demoramos muito a identificar e que funcionam como gatilhos no nosso dia a dia.

Quando me sinto mal, olho para o meu sobrinho de dois meses e é como se eu olhasse para uma página em branco. Ele tem sentimentos genuínos, quando ele se incomoda ele chora e quando ele está bem sorri, confesso que o invejo por isso. Claro que isso acontece porque ele não tem as marcas da vida, mas é uma enorme lição ver ele a forma como ele se permite sentir cada pequena coisa.

Eu estou aprendendo com essa página em branco como aceitar meus sentimentos. A vida é como uma montanha russa: ora estamos bem, ora mal e tudo bem. É mais fácil se permitir e num dia triste curtir a fossa do que empurrar o sentimento para dentro de si e colocar um sorriso falso no rosto. Por que simplesmente não se deixar fluir com a vida?